Já por diversas vezes me referi à riqueza da fauna que me
habituei a ver deambular pelas imensas planuras do Cuando Cubango. A flora era
escassa, o que se compreende; no meio daquele quase deserto matizado de chanas
alagadiças, pouca coisa medrava. Contudo, era um verdadeiro paraíso para os
animais de grande porte, a julgar pela quantidade e variedade que por ali havia.
Aquele bocado de savana, definido pela faixa que vai do Rio Cuando até à chanas
do Utembo, terreno maninho e semi-pantanoso que aprendi a conhecer por
corresponder à área de actuação da companhia, era habitado por manadas de
búfalos, de songues, de gungas, de guelengues e outras espécies onde se contavam
as elegantes palancas, os simpáticos antílopes de várias espécies, os rezingões
porcos do mato sempre de rabo no ar como se uma antena se tratasse e até
coelhos, para só falar de alguns.
Bastava percorrer alguns quilómetros que mais cedo ou tarde
os encontraríamos, especialmente nas imediações das chanas húmidas onde a erva
permanecia verde e fresca mesmo quando a ausência de chuva transformava tudo em
volta num imenso mar de palha seca. Assim, para compensar o magro orçamento que
não permitia refeições de bifes de carne de vaca, faziam-se incursões
periódicas à caça de carne fresca. Abatiam-se dois ou três animais que a
perícia do Ferreira reduzia a bifes, bastando acrescentar-lhes os temperos e
correspondente acompanhamento para o Morais compor o rancho, compensando assim
a insuficiência de verba. Mas isso era no Cuando Cubango onde a pasmaceira
reinante por falta do que fazer, tornava interessante palmilhar a imensa savana
à caça da melhor peça. A gunga, por
exemplo, espécie de antílope de grande porte, permitia fazer uns bifes que em
nada ficavam a dever à melhor vitela.
Mas, nas Mabubas, nunca poderia ser assim. Desde logo porque
a variedade não era tanta e o acidentado do terreno não motivava ninguém a
aventuras de caça, não conseguindo ser alternativa à vida regrada que a
animação social ia propiciando. Havendo muito por onde entreter o tempo a sedentarização
ganhou espaço, os dias de pasmo deram lugar a uma intensa vida social e a
aventura deixou de interessar. Mas, ainda assim, sabia-se que a mata que
bordejava a imensa albufeira da barragem albergava algumas famílias de pacaças,
bovídeo corpulento cuja carne se dizia não ser desagradável.
Ora, pacaça era bicho que ninguém da companhia alguma vez
tinha visto e isso espicaçou a curiosidade. Isso e provavelmente as recordações
das grandes aventuras em que se tornavam as idas à caça na grande savana de
onde viemos. A ajudar, tínhamos à carga um barco zebro, destinado ao
patrulhamento da barragem, com dimensão suficiente para transportar uma
equipa de caça e trazer na volta os bichos que se deixassem apanhar.
Assim sendo, certa noite, reuniu-se um pequeno grupo
decidido a aventurar-se na escuridão dos meandros da albufeira e que, tanto
quanto me lembro, integrava o Capitão, o Gabriel - que para além do seu mais
que demonstrado gosto por aquele tipo de aventuras era o responsável pela
manutenção do zebro – e ainda, porque era preciso alguém que conhecesse os
segredos daquela imensidão de água, o Sr. Tomé responsável pela barragem e o
seu ajudante, o Gasolina, negro corpulento que conhecia tudo por ali.
Carregaram uma bateria a que ligaram firmemente um projector
e lançaram-se à aventura fazendo o zebro deslizar devagar rasgando as águas
adormecidas da barragem. O Gabriel levava a G3 aperrada, o Gasolina segurava a
bateria garantindo alimentação permanente do farolim com o qual o Sr. Tomé ia
varrendo a mata circundante, esquadrinhando cada recanto com o foco luminoso do
improvisado projector. Não demorou muito até que a luz intensa, perfurando a
noite, descobrisse os olhos brilhantes de duas pacaças que encadeadas pela
intensidade da luz nem se moveram tornando-se em alvo fácil que dois tiros
certeiros deitaram ao chão.
O problema agora era carregar os animais corpulentos no
Zebro, coisa que não parecia ser fácil. Apontaram à margem e aceleram a fundo
para que a proa do barco galgasse a margem rampante na esperança de que ali se
imobilizasse. O zebro ganhou velocidade seguindo o túnel luminoso do farolim e
exactamente quando se aproximava da margem, embateu violentamente num tronco
submerso escondido na escuridão das águas, logo abaixo da superfície. O barco
estacou repentinamente travado pelo inesperado obstáculo. Abanou violentamente desequilibrando
os passageiros que, agarrando-se conforme puderam, evitaram cair à água.
Todos, excepto o Gasolina que, talvez entendendo que era
importante não largar a bateria, a agarrou firmemente ficando sem hipótese de
se segurar. Desequilibrou-se e caiu borda fora levando consigo a bateria cujo
peso o empurrou para o fundo da barragem. Momentaneamente, no meio da
escuridão, apenas deram pela falta do Negro sem que, no meio da confusão, alguém
soubesse exactamente onde caíra. Fizeram incidir o halo de Luz do projector
sobre a superfície das águas abruptamente tiradas da sua quietude, esperando
que a todo o instante emergisse. Mas, pelos vistos, não foi isso que aconteceu
embora o farolim continuasse aceso.
Foi então que o Sr. Tomé, como que inspirado na lenda de
Ariadne, trazendo para realidade a fantasia mitológica, seguiu o fio que
desaparecia nas escuras águas. Debruçou-se sobre a borda, esticou os braços, agarrou o seu ajudante pelo cabelo e puxou-o vigorosamente para a
superfície. O Gasolina emergiu, sorvendo sofregamente o ar e, nunca largando a
bateria, esperou que o ajudassem a subir para bordo, escorrendo água e arengando qualquer coisa à
laia de justificação.
Com muito custo e permanente adornar do barco, carregaram as duas pacaças de cujo destino pouco recordo. Sei apenas que uma foi direitinha para o refeitório enquanto a outra foi transformada em petisco. Creio que, nas Mabubas, toda a gente comeu um bocado do churrasco em que se transformou aquela massa enorme de carne fresca.
5 comentários:
Quem deve ter mais pormenores sobre esta caçada fluvial é o Gabriel. Tanto quanto me lembro foi ele quem comandou as operações.
Na verdade eu não fui nesta.
Fui em várias à noite, mas em caça de jacarés porque o Major Tamegão estava encrençado em peles de jacaré para fazer cintos e sapatos para toda a família.... E lá andei várias noites nessa incumbência e nem uma por amostra trouxe para mim.
Quanto a esta caçada (e, naturalmente, só pelo que fui ouvindo e não será muito como se entende...; do que tenho ouvido nos encontros anuais só tive conhecimento de metade da missa...) tiveram problemas com o embarco do animal (penso que era apenas uma pacaça de grande porte) e não conhecia a "caçada submarina" do "Gasolina".
Mas referente à pacaça retenho na minha memória outro episódio; que o rancho do dia seguinte foi um desastre.
Julgo que poucos terão conseguido tragar a carne da pacaça pelo sabor muito intenso e desagradável daquela carne que, bem tratada, tem que estar em vinha de alhos uns dois dias. O que se compreendeu com pessoal "mal" habituado às boas carnes do Kuando Kubango.
Contudo houve o cuidado de avisarem que não tinha havido um levantamento de rancho; só que a carne era pouco tragável.
Alguém confirma isto... ?
Mas é do que me lembro e do que guardo dessa caçada.
O texto continua cada vez mais refinado.
Boas imagens e boa sensibilidade imagética nas descrições.
Abraço
De facto a história da caçada nas Mabubas é essa, apenas me é permito corrigir pequenas imprecisões, o que, apesar de tudo, mesmo à distância de mais de 40 anos, revela uma memória fantástica do Cardoso: o Gasolina foi puxado pelos cabelos; 1 pacaça foi para o refeitório a outra foi comida no largo em frente da casa do capitão (creio que a esposa estaria por ali de férias); o capitão não esteve, de facto, na caçada; a 1ª pacaça caiu com 1 tiro limpo, a 2ª, levou 2.
Nem de propósito, fiz hoje um "tour" pela barragem pois estamos a fazer umas obras de desmatação na margem direita, onde vai ser construído um complexo turístico. A vista é magnífica e vou aqui colocar umas fotografias que vou lá tirar um dia destes.
Parabéns Cardoso, "escrivão mor" do KK.
Em boa verdade, parte desta história foi-me recordada pelo Gabriel; É mais fácil a quem esteve envolvido lembrar-se dos pormenores.
Não me lembro rigorosamente nada da consistência da carne. Não sei se era dura ou se sabia mal mas tanto quanto me recordo, pouco restou.
Fico à espera do comentário do Morais. Na qualidade de responsável pelo rancho pode ser que se lembre se houve ou não queixas.
Estou indeciso mas penso que vou alterar pequenos aspectos da história; decididamente é muito mais interessante saber que o Gasolina foi puxado pelos cabelos do que pela camisa.
Da carne de pacaça lembro que, na minha escala de valores, foi classificada em segundo lugar, em termos de qualidade, logo a seguir à de gunga.
Talvez o cozinheiro que preparou a segunda peça de caça para o rancho dos oficiais, não seja um dos que na N'riquinha se habituou o temperar os bifes de guelengue, esses sim intragáveis sem o tempero de vinho, alhos e muita, muita pimenta, como pudemos constatar nas primeiras semanas da comissão, enquanto o cabo Ribeiro não acertou com o mesmo.
Nessa altura do "campeonato" seria difícil que tal desastre tivesse mesmo acontecido, ou então ele ocorreu e o meu subconsciente apagou tão funestas recordações.
Abraço
Morais
As memórias não param.
Essa da churrascada à minha porta limpou-se por completo da minha memória. E um evento desses, porque inusitado, não se me varria assim sem mais nem menos.
Mas é bem provável que eu não estivesse, uma vez que tinha amigos em Luanda e aos fins-se-semana íamos até lá para um arroz de marisco ali por perto do Morro doa Veados, a caminho da Barra do Kuanza.
Ainda por lá se come disso, Gabriel?
Dessas comezainas do que me lembro era de andarmos a remexer na panela em busca de arroz e só encontrávamos marisco...
Então um complexo turístico na represa de águas da Barragem das Mabubas.
Já estou a ver jacarés a entrarem pela recepção a dentro...
Como dos últimos a abandonarem a região não ficaria mal se nos convidassem para a inauguração...
Abraço
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