sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Os MAIORES













Da esquerda para a direita: o Soba da N'Riquinha, o Sekulo Sarikissi, o Governador do Cuando-Cubango, Major Branco Ló, o cantineiro Marques - o nosso Chefe da Messe - e o Capitão Cabrita. Natal de 1971.












Da esquerda para a direita: Cabo Martins (FA), eu, Gonçalves, Ramires (só a cabeça), Sarikisse, Soba, Ajudante de Campo do Governador, Alferes Correia, Governador Major Branco Ló, 1º Sargento, Capitão Cabrita, Alferes Torres, Gameiro (só a cabeça), Viola, Mota, Pinto e P. da Costa.

Feridos

Estas fotografias, dizem respeito á Companhia de Comandos, que, em 1972, esteve estacionada na N'Riquinha, para uma missão de combate junto á Jamba. Por curiosidade, foram os tais que ficaram sem cerveja como castigo - imposto pelo cantineiro Marques - depois de ter apurado que aqueles meliantes, tinham comido uma cabrita que por ali circulava e que era uma mascote das muitas que passaram pela companhia (ler post MASCOTES).

O chefe do kimbo

Este era o lídimo representante da soberania de Portugal no kimbo da N'Riquinha: Sekulo Sarikissi





































quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Natal de 1971

Em 1971 o Natal foi passado assim, na N'Riquinha, Cuando-Cubango, Angola.
(click para ampliar)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Comandantes

O batalhão 3857, do qual fazia parte a 3441, tinha no topo da pirâmide de comando, como qualquer batalhão de caçadores, uma espécie de triunvirato. É verdade que não exercia os seus poderes como se diz que teria acontecido nos autênticos, nos da Roma antiga, já que o autoritarismo do comandante tornava isso numa impossibilidade, mas o facto é que eles eram três.
No topo, como comandante, um tenente-coronel. Logo abaixo, dois majores: um com o papel de subcomandante e responsável pelas questões administrativas e de logística, o outro com o pelouro da operacionalidade do batalhão.
O major de operações, o mais novo dos três, era um homem de porte atlético, exibindo um farto bigode, adorno muito em voga na época mas pouco apreciado pelas hierarquias militares. Quando aparecia na companhia, apenas o víamos à conversa com o Capitão e alguns oficiais, certamente cogitando e planeando estratégias para a próxima operação. Desaparecia de seguida levado pela pequena Dornier que o transportava por via aérea, aparelho que também utilizava para, lá do alto, seguir o desenrolar das operações mais importantes que, cá em baixo, decorriam contra o inimigo, levadas a cabo por tropas à beira do esgotamento.
O segundo comandante era um homem atarracado e volumoso, arrumado num físico pouco harmonioso e exibindo uma figura com tendência para o ridículo, sem desprimor pelo homem. Militar de carreira, oriundo da classe de sargentos, o Major Tamegão integrava o aparelho administrativo do exército. Era sem dúvida o elemento mais velho (em idade) de todo o batalhão. Quando aparecia na Neriquinha (o que não aconteceu mais do que um par de vezes) era porque o calendário das regras de controlo impunha uma inspecção à papelada. Coisas de secretaria e de contabilidade militares.
Nessas alturas (raras) saía do aconchego da sede de Batalhão no Cuito Cuanavale e por obrigação do cargo, visitava, à vez, cada uma das companhias.
A 3441 era a mais afastada. Confinada a uma pequena área delimitada por uma cerca de arame farpado plantada num local remoto no meio de coisa nenhuma, distava do Cuito Cuanavale, cerca de uma semana por picada. Tudo ingredientes que parecia não agradar ao major, não obstante possibilitar um pouco de aventura. Nessas alturas, retirava do estojo uma velha Kalachnikov que arranjara em comissões anteriores, provavelmente apreendida ao inimigo em alguma operação em que certamente não participara. Aproveitava a proximidade do mato para dar uso à relíquia e sem exagerar na aventura, arranjava um pretexto. No caso, juntou um grupo, afastou-se pouco mais de meia dúzia de quilómetros, o suficiente para se sentir no meio da savana de forma a criar um cenário de caça. Só que, tão perto do aquartelamento, não havia caça. Na verdade, não havia nada em que valesse a pena atirar. Animais selvagens afastam-se naturalmente do bulício humano. Excepto um bufo que, provavelmente por distracção, se empoleirou no ramo de uma árvore, ali perto. O Major não hesitou. Era a oportunidade de fazer o gosto ao dedo e desenferrujar a relíquia. O infeliz do bufo é que pagou as favas.
Tirando isso, sentava-se frente à messe, à sombra, numa espécie de cadeirão que por ali jazia e determinava de quando em vez, nos intervalos das sonecas que a idade e o calor iam impondo, que lhe fossem presentes um conjunto de papeis e fichas que os furriéis responsáveis pelas coisas do material dos combustíveis e dos víveres tinham de manter escriturados de acordo com as regras definidas pelas omnipresentes NEP’s (normas de execução permanente).
Encontrava sempre algo que considerava irregular. Sendo por natureza uma boa pessoa, daquelas de que se diz não fazerem mal a uma mosca, esforçava-se por parecer mau ou austero, numa vã tentativa de se aproximar da atitude do comandante, homem execrável que transpirava veneno por cada poro da sua pele suada de militar pequeno.
Diz o povo que homem pequeno, ou é velhaco ou dançarino. O comandante não era certamente dançarino e embora não pudesse ser apodado de velhaco, a verdade é que não era boa pessoa. Ficou conhecido pelo Ruizinho, diminutivo do seu nome próprio, espécie de caricatura não só da sua pequena estatura, mas também da sua mesquinhez.
Pouco ou nada respeitado desde o oficial ao soldado, era, contudo, um homem temido. Com ele presente nunca se sabia que tipo de norma estaríamos a infringir, sendo certo que era elevada a probabilidade de, no mínimo, levarmos com uma ameaça, uma admoestação (a tradicional piçada) ou algo pior (uma porrada). Dedo em riste, cara de poucos amigos e batendo na perna com a sua inseparável chibata, num tique irritante, passava o raspanete ou cuspia a ameaça, após o que nos presenteava com um altaneiro rodopiar, virando as costas em atitude de puro desprezo pelo animal fardado que acabava de mimosear com mais uma dose de bílis mal digerida, quiçá resultante de uma qualquer insuficiência hepática. Afastava-se verbalizando sapiências militares ilustradas por movimentos de chibata, adorno ou fetiche cuja utilidade nunca cheguei a compreender.
Não obstante ter cabido em sorte à 3441 o pior, o mais remoto e inóspito local de toda área operacional do batalhão, não deixava de ser vantajoso o facto de estar o mais afastado possível do centro de comando, com a vantagem de as suas precárias instalações não convidarem muito a visitas do ilustríssimo oficial, poupando-nos aos seus desmandos. Compreende-se assim que tenha chegado a sentir pena do pessoal da CCS, (Companhia de Comando e Serviços) a qual, por integrar a estrutura de comando do batalhão, tinha o comandante sempre à perna, o que, de alguma forma, anulava a vantagem de ficar quase sempre melhor localizada e não ter actividade operacional.
Assim, o homem só aparecia quando maquinava qualquer coisa para nos lixar a vida. Normalmente uma qualquer operação militar planeada em noites de insónia na sequência de fidedignas informações sobre os movimentos do inimigo, sacadas pela sinistra PIDE a um qualquer indígena azarado que tivesse sido submetido aos seus eficazes interrogatórios secretos.
É assim que nos sai na rifa mais uma daquelas operações, visando a destruição do inimigo que, diga-se de passagem, nunca se mostrou muito interessado em pedir meças às unidades do batalhão. Admite-se que o Ruizinho, no alto do seu heroísmo, tenha decidido que, se eles não nos procuram vamos lá chateá-los.
Operação em grande, no mínimo com dois grupos de combate, comandada pelo próprio capitão, lá para os lados do Chiúme, quase já fora da área de actuação da companhia, zona inacessível por picada o que implicou o transporte por helicóptero, no caso, garantido por uma esquadrilha da força aérea Sul-africana.
Deveríamos percorrer uma vasta área de território selvagem onde apenas se dizia existirem alguns carreiros percorridos por população não enquadrada, pelo que, como era natural, equipei-me com o camuflado mais usado e que, por via disso, exibia as marcas das diversas andanças pela mata: um pequeno rasgão aqui, um remendo acolá, a falta de uma bainha, uma ponta a desfiar-se. Enfim, impróprio para os formalismos militares, mas adequado a uma operação que de formal não tinha nada.
O facto é que só possuía dois camuflados e era importante que, pelo menos um deles chegasse ao fim dos dois anos de comissão. O exército não fornecia fardamento aos oficiais e sargentos e não me apetecia investir dinheiro num terceiro camuflado. Fora obrigado a comprar os que tinha e custaram-me uma pipa de massa. Por esse facto, castigava sempre um dos dois, preservando o outro para as mariquices militares a exigirem maior cuidado no atavio.
Decorria toda a azáfama de preparação para o embarque nos helicópteros que fariam o transporte do efectivo para o local da acção. A capacidade limitada dos Alouette III obrigava a duas viagens para a colocação da força no terreno.
Nesse entretanto, o comandante deambulava de um lado para o outro, distribuindo ordens à direita e à esquerda até olhar para a minha equipa que aguardava, junto ao helicóptero, o momento de embarque. Sem nada que justificasse uma ordem ou instrução do competentíssimo militar, resolveu implicar com o meu camuflado.
- Ó nosso furriel! Dirigiu-se-me em tom ameaçador.
Que será que eu fiz? Questionei-me em silêncio, perfilando-me apressadamente.
- Isso são modos de um graduado se apresentar frente aos seus homens? Continuou sem que eu percebesse exactamente a que se referia.
Só faltava agora implicar comigo. Pensei ao mesmo tempo que procurava corrigir a postura na esperança de anular a grave falta que determinara tão enfática censura.
- Esse fardamento está uma vergonha! Exclamou furioso.
Braço em riste, apontando a ridícula chibata em direcção ao aquartelamento, ordenou:
- Vá imediatamente fardar-se.
Balbuciei um “sim meu comandante” e encetei um passo de corrida militar em direcção à camarata.
Retirei o outro camuflado cuidadosamente dobrado na mala arrumada debaixo da cama, vesti-o, voltei a colocar todo o equipamento de combate e corri de novo em direcção à pista onde uma esquadrilha de helicópteros me aguardava para a partida.
Pelo caminho pensava na estupidez da ordem.
Será que o animal não sabe o que é andar na mata? Interrogava-me.
Será que o inimigo se, por remota hipótese com ele nos cruzarmos, irá reparar num ou noutro remendo no camuflado?
Ainda por cima, o homem já não andava nas redondezas quando cheguei junto do meu grupo. Se não tivesse mudado de farda, não teria dado por isso. Pior ainda foi o facto de as calças não terem resistido às exigências da caminhada. As costuras do interior das pernas cederam totalmente ainda durante o primeiro dia de operação. Passei a andar como se vestisse uma saia comprida, com duas enormes rachas: uma à frente e outra atrás.
Que diria o comandante se à chegada me visse naquele estado?

sábado, 1 de agosto de 2009

Mascotes

Provavelmente é próprio do homem a mania de se rodear de mascotes. Umas vezes por superstição, outras, simplesmente porque sim e outras ainda, sabe-se lá porquê. E não falo apenas da simples tendência para adoptar animais domésticos, sejam eles cães, gatos, periquitos ou papagaios. Refiro-me às mascotes, àqueles que, para além de animais de estimação, têm um significado especial. Uma espécie de superstição. Que dão sorte.
O Matias, por exemplo, encontrou, algures no meio da mata, um pequeno macaco. Perdera-se da mãe (ou perdera a mãe). A verdade é que ganhou afeição ao pequeno símio e este parecia corresponder. Acompanhava-o para todo o lado, tendo facilmente criado o hábito de se encavalitar no seu ombro, mordiscando pedacitos de guloseimas que este lhe ia dando. O Matias, com os seus óculos de aros grossos pesando-lhe sobre o nariz, ignorava os comentários brejeiros da malta. Revoltava-se de quando em vez ou porque a paciência se esgotava ou porque entendia que a brejeirice ultrapassava os seus limites. Mais preocupante parecia ser o caso de um dos cabos da Força Aérea. Ou porque já afectado pelo cacimbo ou, mais provável, condicionado na sua razoabilidade pelos charros de liamba, adoptou uma galinha. A sua imaginação foi ao ponto de levar o galináceo a passear por entre as palhotas do kimbo, atada pelo pescoço com um cordel a que chamava de trela, como se passeasse um caniche pelas ruas da cidade. Encorajava o animal com suaves toques de uma improvisada vergasta incitando-o com voz meiga:
- Anda bicha, anda.
Após algumas voltas sobre a areia solta do Kimbo, metia-a debaixo do duche. Não que lhe quisesse dar banho. Simplesmente descobriu que a galinha, provavelmente porque confundia o duche com a chuva, aquietava-se naquele genético e característico empinar do corpo para facilitar o escorrer da água sobre as penas.
- Assim, ela não foge.
Concluía o cabo, sem conseguir convencer alguém sobre o seu temor pela fuga da galinha. Na verdade, o bicho nunca se afastou para além do perímetro do arame farpado, como acontecia com a criação da população que deambulava por entre as palhotas. Galinhas são animais domésticos e naturalmente, não se distanciam muito do local onde lhes é fornecido alimento
Mascote era também o camaleão que vivia junto ao pequeno jardim frente à messe. Pacífico e pachorrento, era mimado por todos, passeando frequentemente aos ombros de uns e de outros, numa pose de verdadeiro animal doméstico, mudando de cor em função do padrão do tecido onde se agarrava com firmeza. Após o passeio, depositavam-no sempre sobre as plantas do jardim, passando de ramo para ramo no seu passo hesitante de câmara lenta, alimentando-se de mosquitos e outros insectos. Aliás, qualquer animal que fosse considerado predador de mosquitos era sempre bem-vindo. Até as osgas que se alapavam na parede, por serem especialistas na caça ao mosquito, eram estimadas e não me lembro que alguém, alguma vez, se tivesse atrevido a molestá-las, não obstante a repugnância manifestada por alguns.
Detestados, apenas os percevejos que usurpavam as nossas camas, infernizavam o sono e provocavam erupções na pele seguidas de comichão que se agravava com o inevitável coçar.
Os ratos eram igualmente indesejados, pelo que, foi com alguma preocupação que alguém encontrou, algures pelo aquartelamento, uma ninhada. Eram ainda muito pequenos e indefesos, mas tinham de ser eliminados, já que uma praga de roedores era certamente coisa a evitar.
Assim, três ou quatro cacimbados ofereceram-se como voluntários para a tarefa, transformando o acto de extermínio dos bicharocos num passatempo. Um risco no chão passou a simbolizar uma fronteira. Largavam um ratito num dos lados e sentenciavam: - Se passares o risco, lixas-te.
O animal vagueava, perdido, sem se decidir por onde avançar, intimidado pelo bulício à sua volta. A aproximação do risco criava um suspense. Enquanto uns incitavam, outros gritavam em excitação pela iminência da passagem da fronteira.
- Ooooohhh…bolas!
Exclamavam em coro de desapontamento, quando, no último momento, o atarantado murganho inflectia a marcha e adiava o cruzar da linha fatal.
Quanto finalmente ultrapassava o risco, o rato era eliminado e imediatamente substituído por outro, sucedendo-se a cena até não restar nenhum.
Mas, ninhadas de ratos não se encontravam com frequência pelo que, outras vezes, uma ou outra barata menos lesta na fuga, foi utilizada na brincadeira até o jogo perder a graça e ser substituído por outro entretém para matar o tempo.
Porém, a mais mimada, era a cadelita Riquinha que trouxéramos do Rivungo. Sendo a mascote do meu pelotão, tornou-se rapidamente no centro das atenções. Atrevida e simpática, assenhorou-se das atenções, do espaço, da camarata, das messes e alargou paulatinamente o perímetro do seu território de brincadeira. Tomava banho amiúde, usufruindo dos nossos duches, não fosse ser acometida por alguma praga de pulgas a juntar à de percevejos existente.
Foi crescendo, lentamente, embora se visse de imediato ser um animal de fraca estatura.
Havia ainda dois cães, o Tigre e o Cúbia. Corpulentos, embora não em excesso, eram de raça indefinida, ou então, o meu fraco conhecimento da matéria não a permitiu identificar. Haviam sido herdados da companhia anterior que por sua vez também os herdara da que os antecedeu. Um, era acastanhado e o outro, de cor escura matizada. Não sei exactamente qual era o Tigre e qual o Cúbia. Andavam sempre juntos e quando se chamava um, vinham os dois. Quanto aos nomes, admito que o Tigre tenha sido escolhido porque, naquela altura, a maioria dos cães respondia pelo nome de Tigre ou Leão. O do outro, provavelmente em homenagem ao rio do mesmo nome, afluente do Cuando, cujas margens éramos obrigados a calcorrear com frequência, especialmente porque alinhava o caminho para o Rivungo.
Esta parceria canina, fazia-me sempre lembrar dois rios ligados à história da civilização antiga: o Tigre e o Eufrates, um pelo nome e obviamente o outro por ser nome de rio. Enfim, reminiscências de estudante habituado a decorar o que não podia ser assimilado pela compreensão.
Havia quem dissesse que eram cães treinados para a guerra, animais que seriam capazes de dar luta a qualquer turra que se atrevesse a invadir o recinto e por isso sentinelas eficazes. Mas isso não era verdade. Cresceram habituados às fardas militares, mostrando-se indiferentes a quem a usasse e manifestavam, de quando em vez, alguma animosidade para com o aspecto seminu que definia o trajar da população. Contudo, nunca houve notícia de que tivessem alguma vez atacado ou mordido alguém, sendo mais pacíficos do que o seu aspecto aparentava.
A Riquinha, no natural atrevimento de canídeos novos, infernizava a o dia a dia do Tigre e do Cúbia. Estes, a princípio, ignoravam-na, não dando importância às suas brincadeiras atrevidas, designadamente quando, em atitude provocatória, mordiscava a orelha de um ou puxava a pata do outro. Não demorou muito para que passassem a ser vistos juntos com maior frequência.
Ou porque a cadela era oferecida ou porque os cães não olham a idades, pareceu-nos que a brincadeira passou a ter outro interesse. Digamos que lhe acrescentaram sensualidade ou lascívia canina. Mas não. Creio que os cães reagem a tais impulsos por instinto, não se podendo colocar maldade no que a natureza comanda. Fosse como fosse, passado algum tempo, tornou-se notório o aumento de volume do ventre do animal. A Riquinha estava prenha.
- Não pode ser! Exclamavam uns.
- A cadela é muito nova! Acrescentavam outros.
Mas era um facto. A cadela estava mesmo prenha e bem cedo deu sinais de ainda não estar fisicamente preparada para a tarefa. Tropeçava frequentemente como se não pudesse com o peso, perdeu o apetite e parecia lamentar-se num silêncio de culpa.
- Prenha coisa nenhuma, isso só pode ser doença. Sentenciou alguém.
Acabou por morrer antes de dar à luz, sem que se tivesse descoberto, afinal, qual tinha sido o responsável. Se o Tigre, se o Cúbia.
Os dois canzarrões não mostraram preocupação, lamento ou dor pelo desfecho.
Continuaram na sua ocupação ociosa: esticados debaixo de uma qualquer sombra, indiferentes ao desaparecimento da malograda mascote.

sábado, 4 de julho de 2009

Neriquinha. Nova etapa


Não me lembro de pormenores da viagem de regresso à Neriquinha. Provavelmente correu sem incidentes.
Percorremos assim o mesmo trajecto feito três meses antes, mas agora em sentido inverso, passando de novo pelo Demba, Mugamba e Lihaona, seguindo-se o inevitável pontão de cimento das pontes do Cúbia e finalmente o itinerário sinuoso que conduzia à pista de terra avermelhada, companheira inseparável da cerca de arame farpado que limitava a fortificação desprovida de muros ou ameias.
Os cerca de 120 quilómetros que separavam a Neriquinha do Rivungo deverão ter levado as costumeiras sete ou oito horas a percorrer, já que apenas uma ou outra vez se conseguiu, em condições excepcionais, bater o recorde de seis horas. E isso foi em dia bom, sem furos, atascansos, avarias das berliets e muita ousadia na condução.
Cansado, moído da viagem, coberto de pó escuro riscado pela escorrência do suor, apeei-me da berliet, carreguei a trouxa atravessei a parada bordejada pela simbologia que recordava as companhias anteriores e dirigi-me ao barracão comprido que, plantado em frente, incluía a camarata dos furriéis, a respectiva messe e bar, a dos oficiais (que na tropa não havia misturas) e ainda o armazém de medicamentos, no topo que rematava a espécie de L que o edifício formava.
A construção, feita de tijolo e pintada de um branco já escurecido pelo tempo, era encimada por um telhado de folhas de zinco em terceira ou quarta mão, com todo o ar de já não serem novas quando ali foram pregadas. Nunca cheguei a perceber esta mania de utilizar zinco na cobertura dos edifícios, numa terra em que o sol imperava inclemente durante todo o ano, elevando as temperaturas acima dos quarenta graus. As chapas de zinco sobreaquecidas transformavam o interior das instalações num forno e de pouco ou nada valia o arejamento que separava a cobertura do topo da parede, nem as arejadas janelas de rede mosquiteira em lugar de vidraça.
No seu interior, sobre o comprido, uma dúzia de camas, arrumadas em duas filas contra as paredes, deixava um estreito corredor ao centro. Escolhi uma das vazias, larguei o saco, desfiz-me da farda, com cuidado para não espalhar o pó, agarrei no sabonete que arrumara algures entre as tralhas e dirigi-me aos balneários.
Havia duche, um autêntico luxo. Mesmo frio, era melhor que no Rivungo. Pelo menos não tinha que percorrer a distância que separava o aquartelamento do Rio, ao fundo das instalações da Marinha.
Enfiei-me debaixo do frouxo, porém abundante jorro de água, sentindo a fresquidão saborosa que, escorrendo pelo corpo, decapava a primeira camada de sarro resultante do suor peganhento amassado com terra e se transformava numa pequena torrente escura que desaparecia apressadamente pelo ralo a um canto.
Passei sabonete, várias vezes, à medida que ia inspeccionando o espaço. Os duches, instalados em quatro pequenas divisões tinham, arrumadas na frente, a pouco mais de meio metro, quatro sanitas de louça, em forma de funil, implantadas sobre uma plataforma de cimento, formando um recanto comunitário de higiene. Quem tomava duche podia desfrutar do espectáculo de quem ali estivesse acocorado em esgares de esforço. Inversamente esse perdia, por vezes, a necessária concentração para vencer a prisão de ventre, perante a forma mais ou menos artística com que cada um se esfregava debaixo do duche.
Explicaram-me depois que os duches só funcionavam há pouco tempo. Na Neriquinha havia um depósito metálico, encavalitado sobre uma estrutura, também ela metálica, alimentado por água sugada de um furo que ali fora aberto. Em toda aquela região plana, havia água a escassos metros de profundidade, não obstante o ambiente agreste à superfície. Mas, quando a companhia chegou, a bomba que a extraía e a levava ao depósito, estava avariada. O comandante da companhia anterior era um tanto ou quanto relaxado ou pouco dado a chatices. Ou, então, limitou-se a deixar a resolução do problema para outros.
A verdade é que, durante os primeiros meses, a água era recolhida a alguns quilómetros dali e transportada em bidões mal amanhados. Nunca cheguei a perceber como toda a companhia tomou banho durante todo esse tempo. Provavelmente iam, à vez, à Neriqinha Velha, restos da antiga povoação outrora chamada de Nova Riquinha, junto às margens do Rio Cuando e distando cerca de 15 quilómetros, onde ainda existiam umas paredes em ruínas a testemunhar as poucas casas que outrora albergaram colonos aventureiros. Sim, porque ninguém que não tivesse espírito de explorador se atreveria a viver em local tão ermo e selvagem longe de qualquer civilização, numa terra pouco amistosa e sem vias de comunicação. Creio que a guerra, desalojou os aventureiros atrevidos.
Parece que a existência da pista de aviação foi determinante para a construção das instalações militares naquele local, apropriando-se do nome e abreviando-o para N’Riquinha. Com o tempo, perdeu o apóstrofo, acabando na grafia ainda hoje usada: Neriquinha.
A construção do aquartelamento militar acabou por atrair a população autóctone que ancorou as suas cubatas ao abrigo da tropa, logo ali, junto ao arame farpado.
Quanto à Nova Riquinha, continuou a ser local de pastagens do gado e das lavras da população. Contudo, envelheceu. Quando ali chegámos já lhe chamavam Neriquinha Velha, uma espécie de contradição que apelidava de velho o que se dizia novo.
Já recuperado e liberto do incómodo da viagem, saí para o pátio, à porta da camarata. Na frente, no outro lado da parada, quase junto à cerca de arame farpado, as instalações da força aérea, numa construção mais recente e bem acabada, contrastando com a evidente precariedade das nossas. Apenas albergavam dois cabos telegrafistas, mas eram maiores e mais cómodas.
À direita, um estreito caminho de tabuinhas, estrutura precária semelhante à existente nas praias para poupar o esforço de caminhar sobre a areia, conduzia ao edifício que albergava a secretaria, a enfermaria e o gabinete do capitão. No topo deste edifício, uns metros mais à frente, qual sentinela, o depósito de água enganchado em cima da estrutura que o segurava.
Por momentos, senti saudades do Rivungo. Seria necessário criar novas rotinas ou adaptar-me às que por ali já se haviam instalado. A cadelita riquinha parecia enfrentar o mesmo problema. Aproximou-se abanando o rabo. Julguei perceber, no seu menear, um pedido de amparo enroscando-se aos meus pés enquanto, sentado numa tosca cadeira, procurava mitigar a sede com uma cerveja. Por ali, a água com o seu intenso sabor a ferro, era desagradável e não parecia matar a sede.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O regresso à Neriquinha

Após três meses de estada no Rivungo, chegou a vez de nos mudarmos para a Neriquinha. A regra vigente determinava que cada grupo de combate ali passasse 3 meses. Decorrido esse tempo, seria rendido por outro, este por sua vez pelo seguinte e assim sucessivamente. Só o primeiro pelotão não entrava no contrato. O respectivo alferes era, por inerência, o segundo comandante da companhia. Daí que o alferes Torres fosse o substituto do capitão Cabrita nas suas faltas, ausências e impedimentos. Só não se percebia porque teria de ser exactamente o alferes mais novo em idade e também em antiguidade na tropa. Penso que isso se devia ao facto de o Torres ser o oficial de operações especiais, pressupondo-se ser entendimento de quem definia as regras, que a passagem por Lamego (onde se formavam as tropas especiais) conferia o discernimento e as capacidades que garantiam as necessárias qualidades de comando.
Era mais ou menos óbvio que o Cabrita confiava muito mais no alferes Fausto do que em qualquer outro dos quatro alferes da companhia. Aliás, teria sido essa a razão pela qual o meu pelotão foi escolhido para a primeira comissão no Rivungo. Ficava distante da Neriquinha e importava que ali estivesse alguém de confiança e com capacidade de liderança e o Fausto demonstrara bastas vezes que as possuía todas, ou quase.
Na verdade, não creio que, por ser o pelotão dos homens das operações especiais (o alferes Torres e o furriel Peixoto) fosse justificação para a sua permanência a tempo inteiro junto do comando da Companhia. Nunca me apercebi da existência de razões especiais que justificassem a atribuição da responsabilidade desta ou daquela operação a este ou àquele grupo e consequentemente a este ou àquele alferes, pelo facto de ser ou não especialista em operações especiais. Cada um alinhava de acordo com as ordens do Capitão ou segundo uma escala que se regia pelo seguinte princípio:
- Da última vez fui eu, agora vais tu.
De qualquer forma, também não me recordo de alguma vez alguém ter questionado a regra ou a ordem de marcha para o destacamento. Aliás, na tropa, não era aconselhável discutir decisões superiores e parece-me que, por esta ou por aquela razão e ainda por mais aqueloutra, quase todos preferiam o Rivungo à Neriquinha.
A outrora Santa Cruz do Cuando oferecia vários atractivos a que se podia acrescentar a vantagem de haver pouca probabilidade do Comandante de Batalhão aparecer por ali, o que não era razão de somenos importância. É que, o comandante Mendonça não era flor que se cheirasse e não me lembro de ter ouvido, em toda a comissão, uma única palavra de lisonja ao homem. Por ali apenas uma vez ou outra aparecia o comandante da companhia. Mas o capitão Cabrita não era homem de chatear sem motivo e não me parece que a notícia da sua visita fosse razão para pôr o pessoal em alvoroço.
O facto é que criei ali amizades e algum apego ao local. As agruras da missão eram suavizadas pelas rotinas criadas e a tendência para as quebrar apimentava a monotonia. Ao fim e ao cabo, tudo contribuía para que os dias passassem sem contratempos, relegando a angústia para segundo plano.
Na verdade, a transição de cada dia para o seguinte, era muitas vezes suavizada por ninharias.
Uma partida de Monopólio planeada para as instalações da Marinha, era suficiente para, muitas das vezes, contribuir para uma noite bem passada, onde uma equipa de jogadores, numa espécie de vício saudável e usando dinheiro de brincar, se desunhava pela compra de mais um prédio na Avenida da Liberdade ou na dos Aliados, seguindo-se a construção de mais um hotel virtual numa das ruas linearmente desenhadas sobre a cartolina, ali transformada em urbanização de ficção.
Certa noite, por ocasião da sua visita de acompanhamento religioso das tropas do batalhão, o alferes Capelão integrou um grupo de gente adulta e responsável (eu, o alferes Fausto, o tenente da Marinha e o Silva) que se manteve entretido até altas horas da Madrugada, num empolgante jogo de monopólio onde cada um procurava enriquecer o mais possível, levando os outros à falência. O vencedor só veio a ser declarado já sobre a madrugada, sem que alguém tenha dado pelo tempo passar ou se tenha sequer preocupado com isso. Não havendo nada de especial planeado para o dia seguinte, o tempo não contava. Desde que passasse sem se dar por ele, tudo estava bem.
Mas o Rivungo tinha ainda outras coisas. Por exemplo, o Rio Cuando. Ter tanta abundância de água, mesmo ali à mão, num sítio que não dispunha de água canalizada, não era propriamente algo a que não se desse importância. Para além do mais, podíamos mergulhar, dar uns passeios de bote e aventurarmo-nos em incursões nocturnas pelos seus meandros à caça de jacarés bebés. Com cuidado porque, mesmo minúsculos, se conseguissem apanhar um dedo entre os seus afiados dentes, não o deixavam em boas condições.
Enfim, aventuras que a juventude transformava em excitação, relegando privações para segundo plano.
Também não posso esquecer a sempre bem-vinda companhia do chefe França com a sua permanente boa disposição e laracha na ponta da língua. E o administrador Litenda, com mais uma história serôdia de feitos africanos, ou descrições de grandes caçadas e de explorações pelos recantos da savana profunda, onde não faltava a referência à sua especial destreza para conduzir por caminhos inexplorados ou impossíveis. Coisas difíceis para condutores normais. Não para ele.
- Nunca tive um acidente. Alardeava com frequência.
É verdade! Ainda não partira e já começava a sentir saudades. Mas apenas porque o destino era a Neriquinha. Se a opção fosse o regresso ao puto, tudo seria diferente e como mais tarde ficou demonstrado, a saudade daquele lugar foi mandada às urtigas. Hoje são apenas recordações.
Havia ainda a preocupação com a cadelita que adoptámos como mascote. Déramos-lhe o nome de Riquinha, numa espécie de alusão à sede da companhia. Era ainda pequenita, tropeçando amiúde, em resultado do pouco domínio que tinha das tenras patas. Rebolava por aqui e por ali e entretinha-se mordiscando as botas de cada um, ou saltitando à procura de um afago.
- Levamo-la connosco! Sentenciou o alferes Fausto.
Pela hora do almoço, ou pouco antes, chegaram duas berliets vindas da Neriquinha. Carregavam mantimentos, cerveja, tabaco e o grupo que nos renderia, exactamente aquele a que pertencia o meu amigo Gonçalves.
Seguiu-se a transferência das responsabilidades, dos stocks e equipamentos, fizeram-se as apresentações, incluíram-se recomendações, avisos e indicações de quem já dominava o espaço e arredores. Um último mergulho no rio e de novo com as poucas tralhas pessoais a tiracolo, rumámos de volta à sede da companhia, encavalitados no desconforto das berliets. Connosco seguia a cadelita, fazendo a maior viagem da sua vida.
Nem olhei para trás. Francamente, não me pareceu um adeus. Afinal, para além de não ter havido tempo de criar raízes, as saudades daqueles sítios não faziam parte dos nossos sentimentos. De qualquer forma, haveria de ali voltar, muitas vezes e mais uma comissão de três meses. Sim, regressava à Neriquinha, mas continuava a preferir o Rivungo.
Só não me passou pela cabeça que só voltaria a ver o Zé Maria, fugazmente, apenas mais umas duas ou três vezes.

terça-feira, 19 de maio de 2009

ANGOLA - A Guerra e a sede.

…/… Há dois dias que andamos sem encontrar água.
Dois longos dias sem inimigo nem água, sendo que o primeiro não nos faz falta nenhuma. O sol não dá tréguas e continua a derramar ondas de calor chamejante desde que nasce até se esconder no horizonte vermelho, num presságio de promessa de novo inferno para o dia seguinte.
As reservas de água carregadas no rio há dois dias atrás estão esgotadas há muito. Vem-nos à memória, em jeito de miragem de uma onda de frescura, a malfadada travessia do rio dias atrás às sete da manhã. Há quem verta um resto de água quente na tampa do cantil para molhar apenas os lábios, voltando a guardar religiosamente as gotas que restaram, como se de ouro ou uma relíquia se tratasse. Há quem se atire para o chão e jure que não sai mais dali, para logo mudar de ideias mal a coluna preguiçosa se põe de novo em marcha em busca de um oásis que ninguém promete.
A língua fica pastosa e dificulta o falar. A saliva é praticamente inexistente. É como se viéssemos a mastigar cola. Os lábios ásperos e gretados ouvem-se roçar um no outro e queimam.
- Água! Ouve-se na frente.
- Água!
Passos apressados, um ânimo que parece renascer não se sabe donde, um ir destapando um cantil que ferve à cintura vazio e seco.
- ... água?
A “água” é um charco pestilento calcado por dezenas de pegadas de animais, mistura de lodo e algum líquido que borbulha à superfície, onde pululam uns bichinhos minúsculos de pouco mais de meio centímetro, movimentando-se num saracotear de corpo todo – que em pequeno costumava ver nas valetas de água parada da minha aldeia misturados com os girinos – a que se dava o nome de saltitões.
Muitos não resistem. Procuram uma zona de maior profundidade, três a quatro dedos, inclinam o cantil e enchem-no até onde é possível, procurando enxotar as pequenas jangadas de porcaria pestilenta que se precipitam em direcção à boca do cantil. Com uma bola de algodão tapam o bocal do outro cantil e vertem-lhe aquele líquido meio espesso que vai deixando o algodão empapado de lama e saltitões que se debatem como nós pela sobrevivência.
Juntam-lhe um daqueles comprimidos militares que garantem destruir a maior parte das doenças (além do fígado e dos rins) que pululam nas águas podres – teoria jamais comprovada, mas que ajudava a beber qualquer porcaria para não morrer de sede – e agitam o cantil com grande intensidade procurando aumentar o efeito do químico. Alguns nem dão tempo sequer a que se derreta e apazigúe alguns dos milhentos micróbios que se preparam para ajudar o IN, devorando-nos a nós.
O sabor é horrível mas só param depois da quarta ou quinta golada, não vá o saborear antecipado corromper a vontade de matar a sede. Alguns resistentes parecem preferir o risco de morrerem à sede, mas têm algumas armas escondidas em que confiam e que hão-de utilizar na hora certa e no momento apropriado.
Cai a noite estrelada e fresca. O desânimo é enorme. No silêncio murmuram-se maldições.
- Agora só faltava os turras atacarem, ouve-se.
- Se trouxerem água até a G3 lhes dou, carago. Que puta de vida. Que mal fiz eu a Deus? Andou a minha mãe a criar-me com tanto carinho para isto.
Ninguém tem vontade de comer. A sede tira qualquer vontade de mastigar ou engolir o que quer que seja. No mato morre-se de sede. Dificilmente se morre de fome. A água até a fome engana.
A boca tem um sabor estranho, o raciocínio imobiliza-se, o pensamento tem um único sentido: chuva, rios, mar, vinho, cerveja, água, água, água …
Na escuridão que já nos envolveu há duas ou três horas, vislumbro três vultos que deslizam em silêncio saindo duma tenda afastando-se ligeiramente da zona de concentração, sendo claro o cuidado que põem em não fazer o menor ruído para não serem vistos. Tanto quanto me é dado a perceber, um pouco mais além agacham-se os três e ficam imóveis. A situação desperta inicialmente a minha curiosidade. Há militares que ficam de sentinela de noite guardando o sono dos companheiros que dormem. Mas não assim. Normalmente são quatro que se dispõem formando um quadrado, alguns metros para lá das tendas dispostas em círculo. Admito uma segunda circunstância relacionada com a satisfação de necessidades fisiológicas, cujo uso tinha regras. Mas em grupo não me parecia apropriado. E para outras, … essas sim de grupo... o momento não me parecia o mais oportuno...
Desligo-me da situação porque nem me apetece indagar. Disponho-me a tentar dormir.
Cinco minutos depois.
- Meu Alferes, meu Alferes! Já viu? Sussurra-me o furriel “Montijo” entrando de cócoras na tenda em grande agitação.
- O quê? Pergunto, sem me mexer nem abrir os olhos. Achei que na altura me podiam até atacar que a vontade de me mexer seria nula.
- O Serrano, o “Galinhas” e o Gama estão ali atrás das tendas de joelhos a rezar para que chova. O meu Alferes já viu o que é que a merda da falta de água faz? Os gajos piraram. Têm os miolos cozidos do sol.
- Não me parece “Montijo”. Na hora do aperto a fé é a última arma para algumas pessoas. Você não acredita em Deus? Disse, continuando de olhos fechados perguntando-me a mim próprio por que carga de água trazia eu aquele tema para a conversa numa altura daquelas.
- Nunca fui de ir à missa, meu Alferes. Só me lembrei de Deus quando estive quase a patinar naquele acidente em que me ia partindo todo contra um poste. Ia lá deixando os dentes todos. Já lhe contei essa, não contei? Depois curei-me e olhe, nunca mais me lembrei disso outra vez.
- Pois é “Montijo”; quando a vida começa a andar para trás é que as pessoas se lembram de Deus. É assim como quando faz trovões. Depois, passa a tempestade e só se voltam a lembrar quando trovejar de novo.
- Não tinha que morrer. Senão tinha morrido mesmo, não acha? Eu só me lembrei. Mas não pedi nada. Eu nunca acreditei em Deus. O que tiver que ser é... e seja o que Deus quiser...
- Claro, “... e seja o que Deus quiser “Montijo”… ”.
- Vamos mas é dormir ó “Montijo”, porque assim nem sentimos a sede. Amanhã à noite estamos em casa.
O “Montijo” acomoda-se na tenda virando-se de costas para mim enquanto abafa um riso fungado que se lhe escapa pelos dedos que comprimem o nariz.
- Meu Alferes! Tenho a impressão que já está a pingar...
- Não goze “Montijo”, não goze.
- Os gajos piraram. O “Galinhas” então, mesmo sem sede já é marado.
Na mata às sete horas já se dorme. Naquela noite seriam umas nove quando nos dispusemos a tentar descansar, perturbados como estávamos com a falta de água que nos martirizava de uma forma difícil de traduzir por palavras. Os tormentos da sede confundem-nos de tal forma o raciocínio e os sentimentos que o que fica na memória é uma espécie de dor vazia de imagens, cuja recordação traz mal-estar e um enorme desejo de não lembrar.
Duas da madrugada. Em enorme sobressalto agarro-me à espingarda com o “Montijo” em grande alvoroço dentro da tenda.
- Meu Alferes, meu Alferes; porra chove para caraças; o cantil, o cantil!
Uma das características do clima de África é a alternância brusca entre um sol radioso ou uma noite estrelada e uma chuvada diluviana em menos de uma hora, para logo depois tudo serenar.
O alvoroço era indescritível. Inventavam-se mil e uma maneiras de apanhar a água que caía generosamente do céu. Fizemos uma goteira a partir do bico dos ponchos que formavam a tenda e a água corria a fio ali mesmo à nossa frente. Alguns soldados dançavam em grande algazarra à chuva agarrados uns aos outros, perante a escamação do Alferes Chagas que lembrava em vão a necessidade de observância do silêncio e das normas de segurança.
- Eu quero que os turras se f....
Era o tipo de resposta que invariavelmente se conseguia ouvir, numa perfeita loucura que subvertia os conceitos e preconceitos, comandos e hierarquias, que no escuro de uma noite de chuva intensa sofregamente abençoada se misturavam e confundiam.
A água sabia à borracha dos ponchos e trazia um leve travo salobro do suor que se lhe entranhava durante o dia quando transportado às costas dobrado e atado ao saco. E tudo porque ninguém se atreveu a perder as primeiras gotas que caíram e o lavaram de três dias de poeira e transpiração transbordante. A chuva podia terminar de um momento para o outro. O céu escuro não deixava adivinhar a dimensão da chuvada.
Choveu toda a noite. Foram bebedeiras de água e de pragas devolvidas ao sossego dos espíritos saciados da guerra da sede. Qual alambique destilando o melhor álcool, cada cantil sabia melhor que o anterior, depois de bem lavados os telhados da tenda que nos abrigava. Ninguém mais dormiu. Não só porque todos queriam beber até não poder mais, mas também porque a chuva inesperada encharcou tudo, entrando pelas tendas adentro.
Meditativo, o “Montijo” está sentado à porta da tenda de pernas cruzadas e olhar fixo no fio de água que escorre para dentro do cantil.
- Porra meu Alferes! E choveu mesmo. Diz sem tirar os olhos da água que corre límpida para dentro do terceiro ou quarto cantil que enche.
- Agora é que você começa a ir à missa ó “Montijo”.
- Náh! O meu primo era um beato do caraças que até ajudava à missa. Mesmo assim não deixou de se enfiar por uma ribanceira abaixo com uma bebedeira que nem queira saber. Olhe, ainda ficou com menos dentes do que eu.
- Mas ó “Montijo”; isso foi da bebedeira.
- Ó meu Alferes; e Deus naquela altura também estava distraído ou com os copos, não? Ao que consta, Deus não dorme... nem bebe. Só que... sei lá…
Pronto. E assim se tresmalhou mais uma ovelha que se admitiria poder constituir-se num sério candidato ao rebanho de Deus, passada que foi aquela provação de tão grande aperto e sofrimento.
Talvez na próxima, quando Deus e os homens ousarem desafiar as convicções de um “Montijo” que entende que a chuva nem sempre cai quando Deus quer ou manda…/…

P. Cabrita
Excerto do livro “Capitães do Vento” Dezembro de 1970, algures nos Dembos – Norte de Angola

sábado, 16 de maio de 2009

Perdidos na noite

Decorria uma operação. Comandada pelo Silva, visava bater uma área distante, mesmo nos limites da zona operacional da companhia, lá bem para o interior, afastada de tudo e sem qualquer kimbo nas redondezas.
De certeza que ali não seria encontrada população. Ficava fora do limite de segurança definido. Qualquer elemento que ali fosse encontrado seria considerado guerrilheiro ou simpatizante. Não creio que a tropa tivesse por ali passado nos últimos anos. Na melhor das hipóteses talvez só os Flechas, que esses, nunca se sabia por onde andavam. Quando eram lançados numa operação, recebiam da tropa a ração de combate, enterravam-na à saída do kimbo e passavam uma semana ou mais em perseguição dos guerrilheiros. O resultado quase nunca se conhecia. Constava que os perseguiam dia e noite sem serem detectados até que, no momento mais oportuno, atacavam e não deixavam ninguém vivo para contar. Nunca consegui confirmar se isso era verdade. Fazia parte dos segredos da pide.
Verdade era andarem pelo mato durante semanas. Quando regressavam, desenterravam as latas da ração e entregavam-nas à família. Eram recrutados pela pide entre a população de etnia bosquimane, um povo tradicionalmente nómada e auto-suficiente, que sobrevivia naturalmente do que a mata dava. Aliás, contava-se que o ódio que tinham aos guerrilheiros, radicava no facto de a guerra lhes ter imposto uma vida sedentária, alterando-lhes os costumes, em total contradição com o seu ancestral modo de vida. E isso era visível nas cubatas que construíam. Mal atamancadas, com ar de provisório.
O plano para a missão do Silva previa a recolha do grupo três dias depois, num determinado local devidamente assinalado no mapa, exactamente onde findava o risco que definia a picada, sinal óbvio que dali para diante, apenas existia a profundeza da mata africana, virgem, intocada, como parte de um território imenso e selvagem.
A operação de resgate ficara à minha responsabilidade. Dispunha para isso de uma viatura Berliet, vinda de propósito da Neriquinha, já que, no Rivungo, apenas se dispunha de dois Unimogs, dos pequenos.
Ainda assim, dada a dimensão do grupo a recolher, era certo que apenas a Berliet não chegava. A ajuda veio da PSP que dispensou o seu velho Unimog, maior e em melhor estado que os nossos. Partimos por volta da meia-noite. O plano era fazer a viagem durante a noite, de forma a chegar ao local previsto pela manhã do dia seguinte.
Seguimos em direcção a sul, por um percurso já nosso conhecido, do qual saímos, algumas horas depois, virando à direita e penetrando numa zona desconhecida por uma picada pouco marcada, sumida em alguns troços, sinal de que há muito a tropa por ali não andava.
Chovia desalmadamente. O tempo arrefecera e as roupas molhadas aumentavam o desconforto. A noite, densa, enegrecida pela ausência de lua que parecia ter-se mudado para outras paragens, conferia ao ambiente um toque dramático. Só a picada, pouco batida, permitindo um andamento mais ou menos suave, poupava os ossos aos agressivos solavancos.
A berliet seguia na frente, por um troço de picada que corria pelo meio de uma chana não alagada. Atrás, a alguma distância, o pequeno Unimog da PSP saltitava sem se distanciar muito. Camuflada pela noite, uma pequena manada de palancas foi denunciada pela luminosidade dos faróis. Os seus olhos, quando atingidos pela luz, brilhavam tão intensamente no escuro que quase os podíamos contar. De noite, não podiam correr. Quando encadeados, ficavam estáticos e a luz intensa dos faróis baralhava-os.
Dois tiros certeiros deitaram por terra dois dos animais. Mandei avançar a berliet para os carregar. Contudo, a altura considerável da carroçaria e o seu peso exigiram maior força braçal, obrigando a que o unimog que aguardava imóvel na picada se aproximasse. Foram precisos seis homens para conseguir carregar os bichos.
Demos meia volta e avançámos de retorno à picada, procurando adivinhar a sua direcção. Esta, contudo, não aparecia. Mandei avançar mais um pouco. Nada.
Pensei:
- Será que aqui a picada desapareceu?
Podíamos perfeitamente estar num troço em que o rasto antigo tivesse desaparecido, engolido pela vegetação.
Questionei o guia. Mas a noite parecia tê-lo baralhado. Limitou-se a estender a mão e apontar uma direcção. Seguimos a indicação. Contudo, da picada, nada.
A chuva, intensa, continuava a cair, impiedosa, persistente, grossa, incomodativa.
Parámos. Raciocinámos. Não podia ser. Apenas nos tínhamos afastado uns escassos metros. A picada não podia estar tão longe. Era por ali, algures, perto.
Insisti junto do guia. Avançamos mais um pouco, sem rumo definido.
- Perdemo-nos! Concluí.
A luz dos faróis iluminou, por entre as bátegas grossas, um rasto de pneus, fresco.
- Finalmente! Pensei.
- Este deve ser o rasto que deixámos ao sair da picada para recolher a caça!
Deduzi, esperançoso. Agora era só segui-lo e logo estaríamos de novo no caminho certo.
Estranhei as árvores, tão perto. Quando avançámos pela chana, estavam mais afastadas. Mesmo assim, continuámos.
Rapidamente me apercebi que seguíamos em círculo. O rasto fora feito pouquíssimo tempo atrás. Que sensação estranha. Era como se andássemos atrás de nós mesmos, mas com o nós sempre a fugir, como o cão procurando alcançar a cauda.
Olhei o guia. Até então não soltara palavra. Estava nitidamente desorientado. Perdido.
A chuva aumentara de intensidade. Parecia que o céu se abriu e cismou de nos castigar, mantendo-nos bem encharcados. Sentia a água a escorrer pelas costas. Entrava abundantemente pela gola do camuflado, por debaixo da aba do quico. O poncho deixou de funcionar como impermeável. Apenas nos mantinha quentes.
- Dormimos aqui.
Decidi.
- Continuar nestas condições pode significar estarmo-nos a embrenhar cada vez mais na mata ... andar sem rumo.
Justifiquei.
Cada um se aconchegou onde pôde, procurando abrigo da chuva. Uns inutilmente debaixo da berliet, já que a carroçaria esburacada não oferecia protecção. Açoitado pelas bátegas intensas, sentei-me encostado a uma árvore procurando minimizar o efeito do dilúvio. Inútil. Acabei por me esticar ao comprido no pequeno declive formado pelo terreno à volta do tronco. Dada a inclinação, a água escorria livremente por debaixo do corpo. Sempre era melhor que dormir numa poça.
Por estranho que possa parecer, adormeci.
Acordei pouco depois. O dia nascia por entre os ramos das árvores. Parara de chover, sinal que dentro de pouco tempo os abrasadores raios solares que sistematicamente se seguiam a grandes borrascas, secariam a roupa, a pele, a boca, a mata, tudo.
As duas peças de caça, responsáveis pela situação, jaziam no fundo da berliet. O calor provavelmente se encarregaria de nos estragar o petisco. Tudo dependeria do tempo que levaríamos a chegar a casa. Abriram-se as palancas e retiraram-se as vísceras. Retardaria a decomposição e durariam mais tempo.
Com o romper da aurora o guia encontrou rapidamente o seu rumo. Afinal apenas estávamos a cinco minutos da picada. Ali tão perto, porém tão longe. Afastada da nossa vista pela escuridão, de nada valeu o estar ali ao lado.
Retomámos o caminho, agora mais endurecido pela chuva e liberto da esgotante e incomodativa poeira, o que permitiu aumentar a velocidade. Chegámos ao destino mais cedo do que esperávamos. A picada foi-se sumindo progressivamente até desaparecer como se fosse água de riacho em areias desérticas.
Conferia com o mapa, deveria ser ali o ponto de encontro.
Mas o Silva não estava. Ninguém estava à nossa espera.
- Será que chegámos muito cedo? Alvitrou alguém.
Mandei avançar mais um pouco, a picada podia ter desaparecido ali mas continuar um pouco mais à frente. Avançámos mais dois quilómetros seguindo a direcção que presumivelmente seria a continuação da picada. Mas nada. Quem a marcou (as picadas não se constroem) ficara-se mesmo por ali. Dali para a frente nunca ninguém passara, certamente.
Esperámos.
- Pode ser que venham a caminho.
Mas nada. Nem sinal. Tentámos o rádio. Sintonizou-se a frequência. Como resposta apenas o irritante barulho de frigideira ao lume.
E agora?
Tentámos o contacto com a base. Não conseguimos ligação. Provavelmente era distância a mais para o moderno Racal TR 28. Aos insistentes “base, base, charlie chama” apenas se obtinha como resposta, o silêncio.
Que fazer? Esperar? Regressar sem o pessoal?
- Será que o doido do Silva levou a missão para além do previsto?
- Se calhar, foram atacados e na sequência da escaramuça, perderam-se.
Resmungou alguém.
- Não, perdidos não!
Lembrei que, com um guia como o velho António, ninguém se perdia. Era homem de confiança e que conhecia a região como a palma da sua mão.
O meio-dia aproximava-se. Conferenciámos. Esperar mais era inútil. Pura perda de tempo.
Iniciou-se o regresso ainda com a esperança que o António levasse o grupo até à picada que nos trouxera ali. Se assim fosse, encontrá-los-íamos pelo caminho. A hipótese fez-nos acelerar a marcha com a ajuda do terreno pouco batido.
Mas nada. Do Silva e do seu grupo não se encontrou sinal. Voltámos ao Rivungo de mãos a abanar.
E agora?
O Alferes Fausto contactou a Neriquinha. Chamar a Força Aérea para a busca era uma hipótese.
Que não. Não se justificava. Ainda era cedo para isso.
Era preferível seguir outra estratégia. Voltar ao local foi a opção
Resultou, o grupo foi encontrado já na picada nossa conhecida, muito acima do local inicialmente combinado. Provavelmente se eu tivesse por ali ficado mais umas horas, tê-los-ia encontrado no caminho de regresso.
O Silva, de facto, por razões que desconheço, avançou mais no terreno do que o previsto. O António, conhecedor da região, concluiu ser preferível progredir para a bifurcação das picadas, mais a norte, já em direcção ao Rivungo e em sentido contrário ao do planeado. Caminhar para o local previamente definido, seria voltar para trás.
Falhara o timing e a bateria do TR 28 que, ao pifar, inviabilizou a comunicação.
Na chegada ao Rivungo o Silva não culpava ninguém. Para ele tudo correra normalmente. Apenas um pequeno percalço deixara os seus homens à beira do esgotamento e com os cantis vazios. Salvara-os as fortes chuvadas que possibilitaram matar a sede com recurso a palhinhas feitas de capim, por onde sorviam a água que se acumulava aqui e ali.
Olhei para o António.
- Então Homem! Pensei que se tivesse perdido!
- Não Furrié, isso comigo nunca aconteceria.
Respondeu, com um ar muito sério.
Confidenciou-me depois, como se fosse um segredo, que seria incapaz de pôr em risco a vida dos seus amigos.
Recordo o velho António como um homem bom. Alguém para quem se olha como se fosse um pai. Alguém em quem se confia. Cegamente.
Não. Com ele, certamente ninguém se podia perder.
Quanto às duas palancas, foi um festim para a população. Para quem estava habituado a secar a carne ao sol, eram mantimentos frescos.
Só a tropa não se atreveu a provar.