domingo, 1 de novembro de 2009

Raid ao Chiúme

Por: Egídio Cardoso

Um a um, os helicópteros levantaram voo, arrancando da pista um remoinho de pó vermelho. A meia dúzia de Alouette III que constituía a esquadrilha que a Força Aérea Sul-africana disponibilizara para a operação, seguiu em formação rumando a norte num voo suave sobre a savana a uma altura que permitia ver com nitidez o terreno que estava acostumado a pisar.
Sobrevoar a savana era, para mim, uma novidade, um deslumbramento que contribuiu para rapidamente anular o azedume pelo desaguisado com o comandante, não obstante continuar a parecer-me ridículo o episódio do camuflado.
Quilómetros de terrenos arenosos e chanas semi-pantanosas, pejadas de mosquitos, que lá em baixo levavam dias a vencer, eram galgadas num ápice dando uma ideia diferente da imensidão plana das Terras do Fim do Mundo.
A planura daquelas terras ganhava maior dimensão vista do alto. Até onde a vista alcançava apenas se divisava um horizonte longínquo, qual mar de cor verde seco entremeado de clareiras amareladas matizadas aqui e ali de um verde mais intenso assinalando o serpentear de rios e afluentes alimentados pelas águas das últimas chuvas. O barulho das pás dos Alouette atormentava manadas de palancas ou gazelas que, assustadas, encetavam uma correria desenfreada, fugindo daquelas coisas estranhas e barulhentas que ousavam perturbar a calma e o silêncio do seu inexplorado habitat.
Após uma viagem aparentemente curta, os helicópteros baixaram, no seu característico planar, aproximando-se da orla da mata, no outro lado de uma extensa chana, pousando sobre o terreno coberto de capim rasteiro. No ar, volteando sobre a área, apenas permaneceu o helicanhão zelando pela segurança dos aparelhos no solo. Cada esquadrilha integrava um, equipado com uma metralhadora de vinte milímetros montada transversalmente e que, em caso de ataque, despejava sobre o solo saraivadas de metralha capaz de dizimar quem se atrevesse a atacar.
Saltei sem dificuldade, não obstante o peso do equipamento que transportava, lembrando-me das vezes que, ainda em Santa Margarida, exercitei a manobra. Contudo, aí, o helicóptero pairava a alguns metros do solo, levando a entorses perante o salto para um solo irregular. Agora, em pleno cenário real, não havia razão para tal. Pousar, largar as tropas e levantar de novo, era coisa de instantes e evitava hesitações de um ou outro menos afoito que se atemorizasse perante a altura ou incerteza do solo onde aterraria.
Afastámo-nos rapidamente do local procurando protecção na orla da mata, aguardando pela segunda leva que completaria o efectivo destacado para tão importante operação.
A forma meticulosa como fora preparada, o empenho directo do comandante de batalhão, o armamento que se transportava, o envolvimento de uma esquadrilha de helicópteros vinda de propósito da vizinha Africa do Sul e o facto der ser comandada pelo próprio comandante da companhia, eram sinais mais do que suficientes para nos convencermos da sua importância.
Devia ser coisa em grande. Pelos vistos, tinha sido detectada uma grande base do inimigo, lá para os lados do Chiúme, mas ainda dentro da nossa área de actuação e falava-se à boca pequena que os altos comandos em Luanda, haviam pensado executar a acção com recurso a tropas de elite integrando forças dos comandos e unidades de pára-quedistas.
Ao que parece o Ruizinho encheu o peito de ar e atreveu-se a contrariar tão experientes estrategos.
- Quais tropas de elite qual quê! De elite eram os homens sob o seu comando, que muito melhor dariam conta do recado. Com um pouco de sorte até poderia haver feridos, ou mortos … sabe-se lá, o que a acontecer aumentaria a heroicidade da acção e o reconhecimento das altas patentes.
O grupo espalhou-se, procurando a sombra das árvores que bordejavam a chana, enquanto o capitão Cabrita conferenciava com os alferes à volta da carta militar do terreno.
Cogitando com os meus botões, à medida que, regressando, os helicópteros desapareciam ao longe, assaltou-me uma dúvida. Para mim, visto do alto, o terreno era todo igual. Pelo menos as chanas não se diferenciavam. Quem me garantia que era aquela e não outra? Como sabiam os sul-africanos que aquele era o local exacto? Podia ser a chana seguinte, outro ponto mais a norte, ou outro mais a sul.
Mas parece que o sítio era mesmo aquele, já que as ordens para o início da caminhada foram dadas sem hesitação e o carreiro por onde metemos parecia corresponder ao indicado no mapa.
Não havia tempo a perder. Era necessário chegar ao objectivo dentro dos tempos planeados, impondo-se uma progressão em ritmo vivo e esgotante, por um percurso arenoso, por vezes acidentado e irregular. As ordens vinham da frente por monossílabos. As paragens eram escassas. Parecia que o capitão Cabrita tinha fôlego de gato. Só demonstrava cansaço quando o resto do pessoal, já em dificuldade, se arrastava como que rebocado pelos da frente.
Excepto o carregador. Mais uma vez a resistência daquela gente me surpreendia. Contratado apenas para carregar as tralhas do enfermeiro e do homem das transmissões, acabou por ir aceitando carregar, a troco de algum dinheiro, os sacos de uns tantos. Como a procura era muita, improvisou uma vara, prendeu nas pontas todos os sacos que negociara, equilibrou o peso de um lado e outro e carregou-a aos ombros. O pau vergou sob o peso, mas o homem, não.
O sol aproximava-se lentamente da linha do horizonte, aliviando os corpos cansados das suas ferroadas. A ordem para parar caiu como uma bênção. Mas foi sol de pouca dura. Logo que a noite tomou conta da mata, novas ordens, dadas em surdina, puseram de novo o grupo em marcha. Só após um curto percurso em silêncio e às cegas pela mata e que pareceu durar uma eternidade, se decidiu o local de pernoita. Um sítio qualquer de contornos diluídos na densa noite. Tratava-se de uma medida de segurança visando evitar que o inimigo desse conta do sítio exacto onde dormíamos, anulando a possibilidade de ataque durante o sono.
Metido dentro de uma farda molhada de suor, acomodei-me no chão irregular o melhor que pude. Tacteei dentro do saco, escolhi uma lata de ração, abri-a em silêncio com a ajuda da faca de mato e engoli o seu conteúdo de sabor atípico. Recostei-me e adormeci vencido pelo cansaço.
O dia seguinte revelou-se demolidor. Os pés não resistiram à dura textura das botas. As costuras das calças do camuflado cederam ponto a ponto, transformando-se num pano que esvoaçava ao vento. O percurso ora irregular, ora de areia solta, fazia do caminhar martírio, tudo condimentado com um calor sufocante.
Maldizia o comandante. Não se gostando do homem, tudo o que não corria bem era culpa dele. É que, parece ter partido dele a informação de que haveria minas na zona, atoarda que determinou a opção pelas botas de cabedal, mais resistentes, em vez das de lona, mais confortáveis e adequadas ao terreno arenoso da savana.
Andar, tornou-se doloroso. As bolhas eram tantas que já não as conseguia contar. Andar descalço, com as meias a fazer de sapatos foi a melhor opção. As botas, presas uma à outra pelos atacadores, eram transportadas ao pescoço, pendentes sobre o peito, uma para cada lado.
Era imperioso continuar e encontrar o objectivo ou o que quer que nos trouxera ali. A missão teria de ser cumprida dentro dos timings e o Major de operações, sobrevoando a área na pequena Dornier, controlava os nossos passos.
O capitão, agarrado ao pequeno AVP1, comunicava lá para o alto informando da situação e recebendo no retorno, ordens, directivas e informações. Consultava os mapas e conferenciava com os alferes. Até então, nada havia sido encontrado que permitisse adivinhar a proximidade de instalações inimigas e menos ainda se estariam ou não à nossa espera, se iriam dar luta, aquietar-se ou fugir. Parece que, lá de cima, da pequena avioneta, também nada era visto. Àquela altura nem nos devia enxergar.
A proximidade do Cuando revelou sinais do que teria sido uma horta ou coisa parecida. Contudo, era óbvio que há muitos anos ali não era plantado ou colhido o que quer que fosse. Um raquítico limoeiro, enfermo pela falta de cuidados, com dois ou três limões ainda do tamanho de bolotas, fazendo companhia a uma bananeira enfezada que timidamente deixava ver por entre as tenras folhas um minúsculo cacho a desabrochar, era tudo o que restava da horta.
Contornámos o perímetro, penetrámos na mata, voltámos ao rio sem que se tivesse encontrado qualquer trilho ou sinal de vida. Interrogávamo-nos se estaríamos ou não no local certo ou se as informações que estiveram na origem de tão importante operação militar eram ou não correctas. Com o pessoal à beira do esgotamento, quase sem ração de combate e já sem saber onde procurar mais, o Capitão deu ordem de regresso. Ainda havia um longo caminho a percorrer até ao local combinado para a recolha e o tempo urgia.
A decisão, para além de bem-vinda, animou a malta, pelo menos a princípio. Mas o cansaço foi tolhendo os movimentos e atrasando a marcha. As paragens passaram a ser mais frequentes progredindo-se muito pouco.
Era um facto que não seria possível chegar ao ponto definido dentro do tempo programado. Um último esforço levou-nos a um descampado, no meio da mata a menos de meio caminho. Era uma área de vegetação rasteira e sem árvores. Apenas uns paus secos ao alto, espécie de carcaças de árvores mortas, emergiam aqui e ali por entre os arbustos. Era a solução que acabaria com o sofrimento. Bastaria limpar a área de um pau ou outro, cortar os arbustos mais viçosos e teríamos um improvisado heliporto. Era só comunicar o novo local de recolha via rádio e em dois tempos estaríamos em casa.
O homem das transmissões agarrou-se ao rádio, estabeleceu o contacto e em poucos minutos a anuência foi obtida. Numa espécie de energia renascida, cada um se precipitou sobre o que quer fosse considerado obstáculo ao pouso dos helicópteros. Facas de mato substituíram foices e machados. Os troncos secos não resistiram tombando vencidos pela força braçal que os empurrava.
Foi com alvoroço que vimos os Alouette pousar, um a um, por entre um esvoaçar de folhas e retirar-se com a primeira leva em direcção ao aconchego da Neriquinha, tão inóspita e simultaneamente tão acolhedora.
Afinal, de pouco valera o esforço. As bolhas dos pés tinham sido um sacrifício em vão. Com a garganta ressequida pelo pó, desci do helicóptero para a consistência avermelhada da pista e coxeei até à camarata. De momento, o que mais desejava era sentir a fresquidão do duche e esticar-me ao comprido. Quanto às bolhas, sararam depressa, mas durante uma semana andei de chinelos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O campo de futebol

Equipamento importante existente em qualquer lado. Este, o da Neriquinha viu o seu piso melhorado pela utilização da terra vermelha trazida de outro lado para dar maior consistência à anhara até então usada como pista de aviação e que permitiu a sua promoção a AR (Aeródromo de Recurso).
O verde viçoso ao fundo, realçando o vermelho da pista e do campo de futebol, diz-nos que era a época das chuvas. Durante o cacimbo, a paisagem tinha a cor do deserto.

O jogo de futebol, quebrava a monotonia, reforçava a camaradagem, exercitava os músculos e abria o apetite para o jantar após um demorado duche que nos livrava do pó vermelho entranhado em tudo que era buraco ou refego e transformado em argamassa por efeito do suor.


(Fotografias retiradas da coleção do Vilela)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

TEMPESTADE NO MATO.

Em plena operação no mato.
A noite parecia calma. O sono tinha-nos vencido a todos por volta das sete, oito horas. Apenas dois militares se mantinham acordados, fazendo os habituais turnos de vigilância, resistindo como podiam à vontade de encostar a arma e fechar os olhos até que rompessem os primeiros raios de sol.
Duas horas da madrugada. Caem alguns pingos de água, antecedidos de um leve murmúrio de vento que agita os ramos das árvores onde nos abrigamos. O céu estrelado minutos antes tornou-se escuro apagando de súbito todo aquele cintilar de milhares de pontos brilhantes que nos serviam de tecto e ao mesmo tempo de uma espécie de jogo de embalar com que nos entretínhamos a esperar o sono, assistindo às estrelas cadentes riscando o céu como balas que nos passavam ao lado naquele jogo de fantasia das noites de relento. O céu no mato tem outro brilho, outro encanto. Tudo parece mais vivo e fulgurante.
A chuva foi engrossando tornando-se diluviana em poucos minutos. O meio sossego de mais uma pernoita a céu aberto foi abruptamente interrompido, obrigando a rearranjos de acomodação (por entre uma outra chuvada, mas de impropérios que amaldiçoavam tudo o que vinha à cabeça e que se nos afiguravam apropriados no aliviar da tormenta), na maior parte das vezes buscar apenas uma outra forma de não naufragar nas torrentes de água que Deus nos enviava.
Um clarão distante prenuncia um trovão, que segundos depois ecoa longínquo, sinal de que a tempestade maior há-de passar ao largo. O vento aumenta fustigando-nos com ondas de chuva que varrem o abrigo precário que nos proporcionam as árvores, destroçando algumas tendas erguidas para abrigo de algumas horas. Aquele trovão distante foi o único que se ouviu num espaço de tempo longo e suficiente para que se admitisse que ficaríamos pela chuva forte que caía e mesmo essa deveria ser breve.
Sem que nada o fizesse prever, um relâmpago fortíssimo iluminou de repente as redondezas como um flash fotográfico, tornando dia claro aquele sítio. O suficiente para tornar possível distinguir os vultos escuros dos ponchos dos militares que se abrigavam como podiam, fazendo lembrar um cacho de cogumelos luzidios nascidos junto ao tronco das árvores em busca da frescura da sombra.
O trovão estourou um ou dois segundos depois, sem o ribombar habitual dos ecos que a distância a que se encontra a tempestade proporciona. Ainda não estávamos recompostos daquele estrondo medonho que rasgava o silêncio da noite, deixando-nos vulneráveis como grãos de areia no deserto levados por uma enxurrada inesperada, e já outro ainda mais medonho rasgava de alto a baixo uma árvore secular a menos de trezentos metros de distância. Durante uma hora aquela tempestade pairou sobre nós reduzindo a cinzas algumas árvores das proximidades como se houvesse algo que a prendesse ali. A situação era bem pior que um ataque inimigo. Ao inimigo responde-se com as mesmas armas; ganha-se e perde-se. Aquele não. Agigantava-se com uma força indomável para a qual não tínhamos armas para responder nem sequer meios de defesa que nos abrigassem.
O vento amainou. A tempestade instalou-se sobre nós e parecia não querer deixar-nos enquanto não cumprisse uma espécie de desígnio que a mim me parecia um desejo claro de nos exterminar. De vez em quando distinguiamos o ruído da árvore que era atingida pelo raio como se um enorme machado a rachasse de alto a abaixo. Começa a pairar no espírito de cada um de nós um certo jogo de lotaria em que a sorte e o azar brincavam com a vida e a morte. Quando nos calharia a nossa árvore a ser pulverizada por aquela língua de fogo que nos haveria de lamber a todos, sorvendo-nos como um dragão esfaimado que nos engoliria de um golpe só?!
2:45. A distância mínima das árvores que a espaços ouvíamos reduzirem-se a pedaços de carvão continuava pelos cerca de trezentos metros. Concluo que no tal jogo de sorte e azar não temos que nos queixar muito. Cerca de sessenta espingardas agrupadas num raio que não iria para além dos vinte ou trinta metros é um tremendo volume de metal que em condições normais tinha todas as condições para atrair o desejo de qualquer um daquelas dezenas, centenas, de raios que nos fustigavam havia quarenta e cinco minutos.
Na minha cabeça fervilham outras tempestades. Dei ordem para que todos saíssem debaixo das árvores e aguardassem a uma distância segura que a tempestade passasse. Havia quem achasse que não valia a pena. Que aquilo havia de estar quase a passar. Pois, mas quando um raio se sentir atraído por esta molhada de ferro não vai por certo avisar com a devida antecedência, retrucava o Capitãozinho proveta, mais uma vez sujeito a apertos que jamais imaginara, nem estavam previstos nas NEP’s (Normas de Execução Permanente – uns calhamaços que continham a tropa toda...) ou em qualquer outra norma redigida sobre o joelho, aquando do desenvolvimento daquela ideia de loucos em que todos nós já estávamos enterrados havia mais de um ano.
Depois havia um outro problema ainda mais grave e mais susceptível de poder acontecer. Todos nós trazíamos granadas defensivas à cintura. Tínhamos aprendido que estas rebentavam por simpatia, que era um termo muito curioso. Ou seja, se houver um rebentamento próximo e suficientemente forte a granada também rebenta pelo simples impacto do estrondo. Comecei a pensar que aqueles estouros medonhos que se ouviam à nossa volta eram capazes de ter potência suficiente para se tornarem “simpáticos” com as nossas granadas. Depois se uma rebentasse, a simpatia era bem capaz de se estender às outras e a catástrofe incalculável.
Decidi-me por mandar que todos deixassem as granadas num determinado local distante e protegido por um tronco de árvore grosso, suficiente para nos proteger dos milhentos estilhaços que voariam na nossa direcção se uma detonação viesse a ter lugar.
Durante mais cerca de meia hora todos ficaram de cócoras a uma distância segura das árvores, aguardando que todo aquele pesadelo passasse. Os raios continuavam a estourar sobre nós com uma potência que nos reduzia a seres insignificantes esmagados por tanto poder e força. Uma noite de água e fogo baralhada com os dias guerra.
Por fim o silêncio, quase tão repentino quanto o da chegada da tempestade. Voltámos ao “conforto” de um chão encharcado debaixo das árvores onde os últimos pingos de água escorriam ainda das folhas e nos acabavam de ensopar após um dilúvio de mais de uma hora de chuva ininterrupta.
Passou meia hora. Algumas estrelas apareciam meio envergonhadas por entre restos de nuvens que corriam numa determinada direcção. O tempo agora era de espera pela manhã que nos traria os raios de sol retemperadores secando-nos a roupa em pouco tempo. Como de costume naquelas ocasiões, ninguém tinha condições para reformular as condições de pernoita. A regra era sentar com o poncho enfiado pela cabeça, abrigando a arma e o saco por baixo dele a fim de manter funcionais quer a arma quer os alimentos, e esperar pela manhã para retomar a caminhada. A noite de sono estava perdida. As chagas do corpo sem redenção à vista. O hábito à chuva nocturna já fazia parte das nossas rotinas de dezenas de operações no mato pelo que, muitos, habituados àquele sofrimento acabavam por adormecer mesmo assim. Eu era dos que já dormitava procurando esquecer aquele pesadelo que nos fustigara por mais de uma hora. O corpo encharcado resignava-se a tudo e dispunha-se ao descanso possível.
Um estrondo enorme sacudiu tudo de novo colocando-me em pé de um salto. Precisei de alguns segundos para compreender o que se estava a passar.
- Estamos a ser atacados? A esta hora? Não me lembro de tal.
Passa das três e meia. Um soldado pragueja ao meu lado; “F....., que filho da p... de trovão... Quase que me borrava todo! Ainda tenho o zumbido nos ouvidos.”
Em segundos chovia de novo copiosamente. Como se nascessem de um nova fornalha de incandescências pairando sobre nós, os relâmpagos fustigavam-nos de novo com a mesma ferocidade de meia hora antes. Tudo recomeçara tão de repente como da primeira vez. Desta não vamos escapar, penso. Novamente tudo para fora das árvores, granadas depositadas longe e uma lavra de cogumelos plantados de novo fora das árvores, aguardando que Deus tivesse misericórdia de nós e escutasse as rezas que não se ouviam mas que se sentiam subir aos céus e, já agora, se compadecesse dos praguejos que com elas se misturavam em crenças pouco divinas e mais de colher proventos com o fervor dos insultos do que com os favores da fé.
Tudo se repetiu como uma segunda sessão de uma mesma representação. A mesma intensidade, o mesmo fogo de artifício que quase dispensava luz artificial para que pudéssemos distinguir tudo com clareza. Aquela espera pela lotaria da sobrevivência iria durar mais meia hora.
Por fim tudo acalmou. No ar sentia-se um leve cheiro eléctrico produzido pelas descargas contínuas que fustigaram as redondezas por mais de duas horas. Aos poucos pequenos vultos movimentam-se silenciosos e errantes como que a medo em busca de lugares incertos, pairando depois em pé por largos minutos para logo depois regressarem ao mesmo sítio como se estivessem perdidos, ou à espera que algo acontecesse. Os primeiros alvores da madrugada anunciavam-se a leste por onde os últimos fulgores da tempestade ainda se perdem faiscando as nuvens com uma frequência impressionante de raios que ligavam o céu à terra.
Levantei-me ainda a medo receando que um último suspiro de tempestade me colhesse menos abrigado. Os meus olhos dirigiram-se por intuição para oeste procurando descortinar se mais alguma borrasca se desenhava no horizonte agora mais claro e descortinável. Afastei-me um pouco procurando limpar o meu campo de visão de algumas árvores que me impediam de ver mais além. O céu era já azul, embora um azul quase negro, onde bruxuleantes se apagavam já as últimas estrelas. O inferno parecia por fim apaziguado.
Olhávamo-nos ainda com ar assustado e com pouco que dizer. Alguns rematavam ainda algumas preces de reforço à protecção recebida, ou partes duma longa ladainha ainda não terminada, mas prometida e iniciada durante a hora de aperto. Um sinal da cruz feito à socapa completava o ofertório e sinalizava o fim da liquidação do benefício colhido, enquanto outros iam sacudindo o poncho e a roupa, ou descalçavam as botas procurando que o sol, que se adivinhava, secasse um pouco as meias e as vestes, que duma forma ou de outra estavam encharcadas da chuva e do suor do dia anterior.

Não apetece caminhar. Não apetece fazer a guerra. Apetece prostrar e esperar o tempo de partir, de regressar.
O tempo de tudo terminar. O tempo de quase tudo recomeçar…

P.Cabrita

(Alguém se lembra desta noite?)

Excerto do livro “Capitães do Vento”

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

OS PRIMOS


Durante a guerra colonial, em Angola, as partes beligerantes contavam com apoios vizinhos. No Sul, o exército português tinha o apoio quase incondicional da África do Sul, enquanto o MPLA contava com a Zâmbia.
A ajuda sul-africana tinha várias vertentes. Na Neriquinha víamo-la nos rótulos da ração de combate e de forma intensa na participação da sua força aérea, sempre que uma qualquer operação implicasse o envolvimento de helicópteros.
Mesmo não se estando por dentro dos meandros das negociações ou do pedido de apoio, a ideia que ficava é que não olhavam a meios. Sempre que fosse preciso, uma esquadrilha de Alouette III surgia com os aparelhos que fossem considerados necessários. Nós só entrávamos com o combustível. JP1 era coisa que não faltava na Neriquinha, e a logística militar encarregava-se de não descurar o abastecimento.
Chamávamo-los de “os primos”. Da origem do nome não conheço pormenores. Aliás, penso que o baptismo não foi da autoria da 3441. A designação já vinha de trás e era a forma como todos se referiam aos vizinhos do Sul.
- Prá semana temos cá os primos! Dizia-se sempre que se avizinhava uma operação em maior escala ou a ser levada a cabo em zonas mais afastadas e inacessíveis por terra.
Eram sempre bem-vindos. Traziam animação e quebravam a monotonia doentia do ram-ram estupidificante.
Parqueavam na pista, para lá do arame farpado, obrigando a um reforço adicional das sentinelas com mais dois ou três homens posicionados estrategicamente dia e noite, zelando pela segurança dos aparelhos. Fosse quem fosse o escalonado, barafustava sempre.
- Porra! Calha-me sempre a fava!
Para mim eram dias fantásticos. Perdia a noção do tempo seguindo todos os passos da criteriosa e quase religiosa sequência dos cuidados com a manutenção, autênticos mimos que dispensavam àquelas máquinas extraordinárias. Deliciava-me a tentar entender como funcionavam. Acessoriamente, desenferrujava o mal sabido inglês escolar.
É claro que isso só acontecia quando eu não participava na operação em curso. Nessa altura apenas os via à chegada, durante o voo e à partida. Não acompanhava o frenesim em terra mas, sendo um dos transportados, dava para ver como manobravam aquelas coisas, para além de desfrutar da sensação de um voo que não se assemelhava ao de qualquer avião. Pairava-se no ar, podia-se voar alto ou baixinho e pousar onde se quisesse. Até dava para ir à caça. Já imaginaram caçar de Helicópetro? Normalmente apanhavam-se duas peças que se transportavam dependuradas, uma em cada estribo. Assim garantiam o equilíbrio do voo.
A tripulação era sui generis. Embora simpáticos e de certa forma, compinchas, o seu comportamento denunciava os tiques da realidade política da África do Sul onde então vigorava um regime de apartheide com uma segregação racial levada a sério. A facilidade com que os portugueses conviviam com os negros era coisa estranha para o seu entendimento.
- you do like negros! Indeed.
Esta espécie de desprezo racial ficou demonstrada quando, certa noite, após o jantar, na sequência de um quase ritual alcoólico, ofereceram uma cerveja ao rapaz negro que ajudava na messe. O que a princípio parecia simpatia, não era mais do que uma atitude deliberada de o embebedar. Com a ajuda de um funil que lhe colocaram à força na boca, foram despejando cerveja após cerveja, directamente para a garganta do infeliz. Só a nossa intervenção livrou a horrorizada vítima das mãos dos três militares que o seguravam.
- Just Joking. Justificaram-se no meio das risadas.
A relação destes homens com o álcool era uma das suas imagens de marca. Durante todo o dia e enquanto durasse a sua actividade, nunca ingeriam uma simples gota de álcool. Apenas bebiam refrigerantes desde a gasosa à laranjada, mesmo às refeições, o que nos parecia estranho, já que, sendo o vinho, zurrapa, duas cervejas era o mínimo que qualquer um bebia ao almoço, com a devida excepção de um ou outro abstémico. Mas os Sul-Africanos, nem isso. Nem água bebiam. Apenas laranjadas e coisas assim, revelando a disciplina rígida de quem tinha a responsabilidade de pilotar helicópteros ou fazer a sua manutenção.
Mas, ao fim do dia, arrumados os aparelhos, feita a sua criteriosa manutenção, cobertas com lona todas as suas partes sensíveis e concluídas as tarefas de que estavam incumbidos, recolhiam aos balneários, substituam os fatos-de-macaco camuflados por roupa civil e apareciam um após outro na messe. Faziam-se acompanhar invariavelmente por garrafas de um brandy produzido na África do Sul.
O intragável brandy Richelieu deveria ser a sua bebida preferida. Traziam sempre caixas daquilo e bebiam-no desalmadamente.
Aliás, era impressionante a quantidade de álcool que aqueles odres ingeriam no bocado de noite que mediava entre o fim do jantar e a hora de recolher. Numa autêntica bagunça feita orgia alcoólica, bebiam o Richelieu puro ou misturado com cerveja em proporções iguais. Confesso que nunca pensei que se pudesse misturar brandy com cerveja e menos ainda naquelas quantidades.
Tinham técnicas eficazes para se embebedarem depressa e bem. Uma delas era a referida mistura. Outra passava por uma espécie de prova de habilidade e concentração onde também alinhávamos. Um grupo, de seis ou sete, sentava-se à roda de um mesa, cada um com uma garrafa de cerveja vazia. O objectivo era passar a garrafa ao seguinte, recolher a que nos era deixada pelo anterior e passá-la de novo ao seguinte, tudo ao ritmo de uma canção sem letra, comandada pelas batidas do fundo da garrafa na mesa. Importava ter atenção ao ritmo e ao facto de, a cada duas passagens de garrafa, não a largar, voltar atrás e depois à frente e só então largá-la para o seguinte. Quem se enganasse teria de beber uma cerveja.
Claro que, quanto mais nos enganávamos, mais se bebia e quanto mais se bebia mais nos enganávamos, num ciclo vicioso de onde só se saía caindo para o lado.
Por volta da meia-noite estavam todos tão bebidos que chegávamos a duvidar que no dia seguinte os helicópteros levantassem. Uns cambaleavam até à cama e outros eram levados pelos mais resistentes. Mas o facto é que se levantavam cedo, frescos, lúcidos e prontos para a tarefa de transportar tropas para os locais da operação, em segurança e com um sentido de responsabilidade e disciplina notáveis, como se nada tivesse acontecido no dia anterior. É que nem falavam nisso.
Na noite seguinte voltavam ao mesmo, repondo o stock de Richelieu e infligindo baixas significativas no nosso stock de cerveja.
Tudo acabava quando, cumprida a missão, carregavam tudo nos helicópteros e voavam em formação rumo a sul, prometendo voltar. Na operação seguinte voltavam. Alguns eram os mesmos, outros não. Contudo o comportamento não se alterava: refrigerantes durante o dia e excesso de álcool à noite. Até as caixas de Richelieu pareciam as mesmas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Os MAIORES













Da esquerda para a direita: o Soba da N'Riquinha, o Sekulo Sarikissi, o Governador do Cuando-Cubango, Major Branco Ló, o cantineiro Marques - o nosso Chefe da Messe - e o Capitão Cabrita. Natal de 1971.












Da esquerda para a direita: Cabo Martins (FA), eu, Gonçalves, Ramires (só a cabeça), Sarikisse, Soba, Ajudante de Campo do Governador, Alferes Correia, Governador Major Branco Ló, 1º Sargento, Capitão Cabrita, Alferes Torres, Gameiro (só a cabeça), Viola, Mota, Pinto e P. da Costa.

Feridos

Estas fotografias, dizem respeito á Companhia de Comandos, que, em 1972, esteve estacionada na N'Riquinha, para uma missão de combate junto á Jamba. Por curiosidade, foram os tais que ficaram sem cerveja como castigo - imposto pelo cantineiro Marques - depois de ter apurado que aqueles meliantes, tinham comido uma cabrita que por ali circulava e que era uma mascote das muitas que passaram pela companhia (ler post MASCOTES).

O chefe do kimbo

Este era o lídimo representante da soberania de Portugal no kimbo da N'Riquinha: Sekulo Sarikissi





































quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Natal de 1971

Em 1971 o Natal foi passado assim, na N'Riquinha, Cuando-Cubango, Angola.
(click para ampliar)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Comandantes

O batalhão 3857, do qual fazia parte a 3441, tinha no topo da pirâmide de comando, como qualquer batalhão de caçadores, uma espécie de triunvirato. É verdade que não exercia os seus poderes como se diz que teria acontecido nos autênticos, nos da Roma antiga, já que o autoritarismo do comandante tornava isso numa impossibilidade, mas o facto é que eles eram três.
No topo, como comandante, um tenente-coronel. Logo abaixo, dois majores: um com o papel de subcomandante e responsável pelas questões administrativas e de logística, o outro com o pelouro da operacionalidade do batalhão.
O major de operações, o mais novo dos três, era um homem de porte atlético, exibindo um farto bigode, adorno muito em voga na época mas pouco apreciado pelas hierarquias militares. Quando aparecia na companhia, apenas o víamos à conversa com o Capitão e alguns oficiais, certamente cogitando e planeando estratégias para a próxima operação. Desaparecia de seguida levado pela pequena Dornier que o transportava por via aérea, aparelho que também utilizava para, lá do alto, seguir o desenrolar das operações mais importantes que, cá em baixo, decorriam contra o inimigo, levadas a cabo por tropas à beira do esgotamento.
O segundo comandante era um homem atarracado e volumoso, arrumado num físico pouco harmonioso e exibindo uma figura com tendência para o ridículo, sem desprimor pelo homem. Militar de carreira, oriundo da classe de sargentos, o Major Tamegão integrava o aparelho administrativo do exército. Era sem dúvida o elemento mais velho (em idade) de todo o batalhão. Quando aparecia na Neriquinha (o que não aconteceu mais do que um par de vezes) era porque o calendário das regras de controlo impunha uma inspecção à papelada. Coisas de secretaria e de contabilidade militares.
Nessas alturas (raras) saía do aconchego da sede de Batalhão no Cuito Cuanavale e por obrigação do cargo, visitava, à vez, cada uma das companhias.
A 3441 era a mais afastada. Confinada a uma pequena área delimitada por uma cerca de arame farpado plantada num local remoto no meio de coisa nenhuma, distava do Cuito Cuanavale, cerca de uma semana por picada. Tudo ingredientes que parecia não agradar ao major, não obstante possibilitar um pouco de aventura. Nessas alturas, retirava do estojo uma velha Kalachnikov que arranjara em comissões anteriores, provavelmente apreendida ao inimigo em alguma operação em que certamente não participara. Aproveitava a proximidade do mato para dar uso à relíquia e sem exagerar na aventura, arranjava um pretexto. No caso, juntou um grupo, afastou-se pouco mais de meia dúzia de quilómetros, o suficiente para se sentir no meio da savana de forma a criar um cenário de caça. Só que, tão perto do aquartelamento, não havia caça. Na verdade, não havia nada em que valesse a pena atirar. Animais selvagens afastam-se naturalmente do bulício humano. Excepto um bufo que, provavelmente por distracção, se empoleirou no ramo de uma árvore, ali perto. O Major não hesitou. Era a oportunidade de fazer o gosto ao dedo e desenferrujar a relíquia. O infeliz do bufo é que pagou as favas.
Tirando isso, sentava-se frente à messe, à sombra, numa espécie de cadeirão que por ali jazia e determinava de quando em vez, nos intervalos das sonecas que a idade e o calor iam impondo, que lhe fossem presentes um conjunto de papeis e fichas que os furriéis responsáveis pelas coisas do material dos combustíveis e dos víveres tinham de manter escriturados de acordo com as regras definidas pelas omnipresentes NEP’s (normas de execução permanente).
Encontrava sempre algo que considerava irregular. Sendo por natureza uma boa pessoa, daquelas de que se diz não fazerem mal a uma mosca, esforçava-se por parecer mau ou austero, numa vã tentativa de se aproximar da atitude do comandante, homem execrável que transpirava veneno por cada poro da sua pele suada de militar pequeno.
Diz o povo que homem pequeno, ou é velhaco ou dançarino. O comandante não era certamente dançarino e embora não pudesse ser apodado de velhaco, a verdade é que não era boa pessoa. Ficou conhecido pelo Ruizinho, diminutivo do seu nome próprio, espécie de caricatura não só da sua pequena estatura, mas também da sua mesquinhez.
Pouco ou nada respeitado desde o oficial ao soldado, era, contudo, um homem temido. Com ele presente nunca se sabia que tipo de norma estaríamos a infringir, sendo certo que era elevada a probabilidade de, no mínimo, levarmos com uma ameaça, uma admoestação (a tradicional piçada) ou algo pior (uma porrada). Dedo em riste, cara de poucos amigos e batendo na perna com a sua inseparável chibata, num tique irritante, passava o raspanete ou cuspia a ameaça, após o que nos presenteava com um altaneiro rodopiar, virando as costas em atitude de puro desprezo pelo animal fardado que acabava de mimosear com mais uma dose de bílis mal digerida, quiçá resultante de uma qualquer insuficiência hepática. Afastava-se verbalizando sapiências militares ilustradas por movimentos de chibata, adorno ou fetiche cuja utilidade nunca cheguei a compreender.
Não obstante ter cabido em sorte à 3441 o pior, o mais remoto e inóspito local de toda área operacional do batalhão, não deixava de ser vantajoso o facto de estar o mais afastado possível do centro de comando, com a vantagem de as suas precárias instalações não convidarem muito a visitas do ilustríssimo oficial, poupando-nos aos seus desmandos. Compreende-se assim que tenha chegado a sentir pena do pessoal da CCS, (Companhia de Comando e Serviços) a qual, por integrar a estrutura de comando do batalhão, tinha o comandante sempre à perna, o que, de alguma forma, anulava a vantagem de ficar quase sempre melhor localizada e não ter actividade operacional.
Assim, o homem só aparecia quando maquinava qualquer coisa para nos lixar a vida. Normalmente uma qualquer operação militar planeada em noites de insónia na sequência de fidedignas informações sobre os movimentos do inimigo, sacadas pela sinistra PIDE a um qualquer indígena azarado que tivesse sido submetido aos seus eficazes interrogatórios secretos.
É assim que nos sai na rifa mais uma daquelas operações, visando a destruição do inimigo que, diga-se de passagem, nunca se mostrou muito interessado em pedir meças às unidades do batalhão. Admite-se que o Ruizinho, no alto do seu heroísmo, tenha decidido que, se eles não nos procuram vamos lá chateá-los.
Operação em grande, no mínimo com dois grupos de combate, comandada pelo próprio capitão, lá para os lados do Chiúme, quase já fora da área de actuação da companhia, zona inacessível por picada o que implicou o transporte por helicóptero, no caso, garantido por uma esquadrilha da força aérea Sul-africana.
Deveríamos percorrer uma vasta área de território selvagem onde apenas se dizia existirem alguns carreiros percorridos por população não enquadrada, pelo que, como era natural, equipei-me com o camuflado mais usado e que, por via disso, exibia as marcas das diversas andanças pela mata: um pequeno rasgão aqui, um remendo acolá, a falta de uma bainha, uma ponta a desfiar-se. Enfim, impróprio para os formalismos militares, mas adequado a uma operação que de formal não tinha nada.
O facto é que só possuía dois camuflados e era importante que, pelo menos um deles chegasse ao fim dos dois anos de comissão. O exército não fornecia fardamento aos oficiais e sargentos e não me apetecia investir dinheiro num terceiro camuflado. Fora obrigado a comprar os que tinha e custaram-me uma pipa de massa. Por esse facto, castigava sempre um dos dois, preservando o outro para as mariquices militares a exigirem maior cuidado no atavio.
Decorria toda a azáfama de preparação para o embarque nos helicópteros que fariam o transporte do efectivo para o local da acção. A capacidade limitada dos Alouette III obrigava a duas viagens para a colocação da força no terreno.
Nesse entretanto, o comandante deambulava de um lado para o outro, distribuindo ordens à direita e à esquerda até olhar para a minha equipa que aguardava, junto ao helicóptero, o momento de embarque. Sem nada que justificasse uma ordem ou instrução do competentíssimo militar, resolveu implicar com o meu camuflado.
- Ó nosso furriel! Dirigiu-se-me em tom ameaçador.
Que será que eu fiz? Questionei-me em silêncio, perfilando-me apressadamente.
- Isso são modos de um graduado se apresentar frente aos seus homens? Continuou sem que eu percebesse exactamente a que se referia.
Só faltava agora implicar comigo. Pensei ao mesmo tempo que procurava corrigir a postura na esperança de anular a grave falta que determinara tão enfática censura.
- Esse fardamento está uma vergonha! Exclamou furioso.
Braço em riste, apontando a ridícula chibata em direcção ao aquartelamento, ordenou:
- Vá imediatamente fardar-se.
Balbuciei um “sim meu comandante” e encetei um passo de corrida militar em direcção à camarata.
Retirei o outro camuflado cuidadosamente dobrado na mala arrumada debaixo da cama, vesti-o, voltei a colocar todo o equipamento de combate e corri de novo em direcção à pista onde uma esquadrilha de helicópteros me aguardava para a partida.
Pelo caminho pensava na estupidez da ordem.
Será que o animal não sabe o que é andar na mata? Interrogava-me.
Será que o inimigo se, por remota hipótese com ele nos cruzarmos, irá reparar num ou noutro remendo no camuflado?
Ainda por cima, o homem já não andava nas redondezas quando cheguei junto do meu grupo. Se não tivesse mudado de farda, não teria dado por isso. Pior ainda foi o facto de as calças não terem resistido às exigências da caminhada. As costuras do interior das pernas cederam totalmente ainda durante o primeiro dia de operação. Passei a andar como se vestisse uma saia comprida, com duas enormes rachas: uma à frente e outra atrás.
Que diria o comandante se à chegada me visse naquele estado?

sábado, 1 de agosto de 2009

Mascotes

Provavelmente é próprio do homem a mania de se rodear de mascotes. Umas vezes por superstição, outras, simplesmente porque sim e outras ainda, sabe-se lá porquê. E não falo apenas da simples tendência para adoptar animais domésticos, sejam eles cães, gatos, periquitos ou papagaios. Refiro-me às mascotes, àqueles que, para além de animais de estimação, têm um significado especial. Uma espécie de superstição. Que dão sorte.
O Matias, por exemplo, encontrou, algures no meio da mata, um pequeno macaco. Perdera-se da mãe (ou perdera a mãe). A verdade é que ganhou afeição ao pequeno símio e este parecia corresponder. Acompanhava-o para todo o lado, tendo facilmente criado o hábito de se encavalitar no seu ombro, mordiscando pedacitos de guloseimas que este lhe ia dando. O Matias, com os seus óculos de aros grossos pesando-lhe sobre o nariz, ignorava os comentários brejeiros da malta. Revoltava-se de quando em vez ou porque a paciência se esgotava ou porque entendia que a brejeirice ultrapassava os seus limites. Mais preocupante parecia ser o caso de um dos cabos da Força Aérea. Ou porque já afectado pelo cacimbo ou, mais provável, condicionado na sua razoabilidade pelos charros de liamba, adoptou uma galinha. A sua imaginação foi ao ponto de levar o galináceo a passear por entre as palhotas do kimbo, atada pelo pescoço com um cordel a que chamava de trela, como se passeasse um caniche pelas ruas da cidade. Encorajava o animal com suaves toques de uma improvisada vergasta incitando-o com voz meiga:
- Anda bicha, anda.
Após algumas voltas sobre a areia solta do Kimbo, metia-a debaixo do duche. Não que lhe quisesse dar banho. Simplesmente descobriu que a galinha, provavelmente porque confundia o duche com a chuva, aquietava-se naquele genético e característico empinar do corpo para facilitar o escorrer da água sobre as penas.
- Assim, ela não foge.
Concluía o cabo, sem conseguir convencer alguém sobre o seu temor pela fuga da galinha. Na verdade, o bicho nunca se afastou para além do perímetro do arame farpado, como acontecia com a criação da população que deambulava por entre as palhotas. Galinhas são animais domésticos e naturalmente, não se distanciam muito do local onde lhes é fornecido alimento
Mascote era também o camaleão que vivia junto ao pequeno jardim frente à messe. Pacífico e pachorrento, era mimado por todos, passeando frequentemente aos ombros de uns e de outros, numa pose de verdadeiro animal doméstico, mudando de cor em função do padrão do tecido onde se agarrava com firmeza. Após o passeio, depositavam-no sempre sobre as plantas do jardim, passando de ramo para ramo no seu passo hesitante de câmara lenta, alimentando-se de mosquitos e outros insectos. Aliás, qualquer animal que fosse considerado predador de mosquitos era sempre bem-vindo. Até as osgas que se alapavam na parede, por serem especialistas na caça ao mosquito, eram estimadas e não me lembro que alguém, alguma vez, se tivesse atrevido a molestá-las, não obstante a repugnância manifestada por alguns.
Detestados, apenas os percevejos que usurpavam as nossas camas, infernizavam o sono e provocavam erupções na pele seguidas de comichão que se agravava com o inevitável coçar.
Os ratos eram igualmente indesejados, pelo que, foi com alguma preocupação que alguém encontrou, algures pelo aquartelamento, uma ninhada. Eram ainda muito pequenos e indefesos, mas tinham de ser eliminados, já que uma praga de roedores era certamente coisa a evitar.
Assim, três ou quatro cacimbados ofereceram-se como voluntários para a tarefa, transformando o acto de extermínio dos bicharocos num passatempo. Um risco no chão passou a simbolizar uma fronteira. Largavam um ratito num dos lados e sentenciavam: - Se passares o risco, lixas-te.
O animal vagueava, perdido, sem se decidir por onde avançar, intimidado pelo bulício à sua volta. A aproximação do risco criava um suspense. Enquanto uns incitavam, outros gritavam em excitação pela iminência da passagem da fronteira.
- Ooooohhh…bolas!
Exclamavam em coro de desapontamento, quando, no último momento, o atarantado murganho inflectia a marcha e adiava o cruzar da linha fatal.
Quanto finalmente ultrapassava o risco, o rato era eliminado e imediatamente substituído por outro, sucedendo-se a cena até não restar nenhum.
Mas, ninhadas de ratos não se encontravam com frequência pelo que, outras vezes, uma ou outra barata menos lesta na fuga, foi utilizada na brincadeira até o jogo perder a graça e ser substituído por outro entretém para matar o tempo.
Porém, a mais mimada, era a cadelita Riquinha que trouxéramos do Rivungo. Sendo a mascote do meu pelotão, tornou-se rapidamente no centro das atenções. Atrevida e simpática, assenhorou-se das atenções, do espaço, da camarata, das messes e alargou paulatinamente o perímetro do seu território de brincadeira. Tomava banho amiúde, usufruindo dos nossos duches, não fosse ser acometida por alguma praga de pulgas a juntar à de percevejos existente.
Foi crescendo, lentamente, embora se visse de imediato ser um animal de fraca estatura.
Havia ainda dois cães, o Tigre e o Cúbia. Corpulentos, embora não em excesso, eram de raça indefinida, ou então, o meu fraco conhecimento da matéria não a permitiu identificar. Haviam sido herdados da companhia anterior que por sua vez também os herdara da que os antecedeu. Um, era acastanhado e o outro, de cor escura matizada. Não sei exactamente qual era o Tigre e qual o Cúbia. Andavam sempre juntos e quando se chamava um, vinham os dois. Quanto aos nomes, admito que o Tigre tenha sido escolhido porque, naquela altura, a maioria dos cães respondia pelo nome de Tigre ou Leão. O do outro, provavelmente em homenagem ao rio do mesmo nome, afluente do Cuando, cujas margens éramos obrigados a calcorrear com frequência, especialmente porque alinhava o caminho para o Rivungo.
Esta parceria canina, fazia-me sempre lembrar dois rios ligados à história da civilização antiga: o Tigre e o Eufrates, um pelo nome e obviamente o outro por ser nome de rio. Enfim, reminiscências de estudante habituado a decorar o que não podia ser assimilado pela compreensão.
Havia quem dissesse que eram cães treinados para a guerra, animais que seriam capazes de dar luta a qualquer turra que se atrevesse a invadir o recinto e por isso sentinelas eficazes. Mas isso não era verdade. Cresceram habituados às fardas militares, mostrando-se indiferentes a quem a usasse e manifestavam, de quando em vez, alguma animosidade para com o aspecto seminu que definia o trajar da população. Contudo, nunca houve notícia de que tivessem alguma vez atacado ou mordido alguém, sendo mais pacíficos do que o seu aspecto aparentava.
A Riquinha, no natural atrevimento de canídeos novos, infernizava a o dia a dia do Tigre e do Cúbia. Estes, a princípio, ignoravam-na, não dando importância às suas brincadeiras atrevidas, designadamente quando, em atitude provocatória, mordiscava a orelha de um ou puxava a pata do outro. Não demorou muito para que passassem a ser vistos juntos com maior frequência.
Ou porque a cadela era oferecida ou porque os cães não olham a idades, pareceu-nos que a brincadeira passou a ter outro interesse. Digamos que lhe acrescentaram sensualidade ou lascívia canina. Mas não. Creio que os cães reagem a tais impulsos por instinto, não se podendo colocar maldade no que a natureza comanda. Fosse como fosse, passado algum tempo, tornou-se notório o aumento de volume do ventre do animal. A Riquinha estava prenha.
- Não pode ser! Exclamavam uns.
- A cadela é muito nova! Acrescentavam outros.
Mas era um facto. A cadela estava mesmo prenha e bem cedo deu sinais de ainda não estar fisicamente preparada para a tarefa. Tropeçava frequentemente como se não pudesse com o peso, perdeu o apetite e parecia lamentar-se num silêncio de culpa.
- Prenha coisa nenhuma, isso só pode ser doença. Sentenciou alguém.
Acabou por morrer antes de dar à luz, sem que se tivesse descoberto, afinal, qual tinha sido o responsável. Se o Tigre, se o Cúbia.
Os dois canzarrões não mostraram preocupação, lamento ou dor pelo desfecho.
Continuaram na sua ocupação ociosa: esticados debaixo de uma qualquer sombra, indiferentes ao desaparecimento da malograda mascote.