sábado, 1 de agosto de 2015

Os Caminhos da Savana

Haverá sempre mais uma estória para contar sobre a saga da 3441 por terras africanas. O problema é que, muito provavelmente, eu nem sequer as conheça. Já não se trata de devaneios da memória, é mesmo assunto esgotado.
Mas, por qualquer razão, o comentário do Cabrita postado na última crónica, fez-me recordar mais um pequeno episódio que, não obstante ser coisa de somenos, nos deixou, a todos, perplexos, especialmente se tivermos em atenção que, por essa altura, ainda estávamos em início de habituação aos rigores daquela terra estéril e hostil e pouco ou nada sabíamos acerca das capacidades das gentes que por ali habitavam.
Da grande operação ao Esquadrão, sei pouco, e mesmo esse pouco, apenas de ouvir contar. E tudo porque não participei nessa grande primeira aventura belicista da companhia que meteu ataques ao solo com os velhos T6 da Força Aérea, a abrir caminho para o avanço das forças no terreno que contavam com a maior parte do efectivo da companhia, quase metade da companhia de Mavinga e ainda com o precioso reforço dos grupos de GE’s da Neriquinha e Mavinga. Tenho algumas fotos a ilustrar aquela grande campanha, retiradas do acervo do Aranha. Pelo menos a fumaçada dos disparos dos  lança-granadas e dos morteiros são bem visíveis para não falar das cubatas queimadas e das trincheiras inimigas escavadas na areia.
Mas o que me veio à memória foi exactamente a recordação dos problemas de orientação e das dificuldades em definir um rumo num terreno demasiadamente plano e sem pontos de referência. Tirando uma excepção aqui e outra acolá, a paisagem mais parecia uma mesma imagem sucessivamente repetida num cenário virgem e selvagem que talvez nunca tivesse, até então, visto gente. A imagem da Dornier a indicar o caminho ilustra bem a dificuldade de, cá em baixo, definir um rumo, embora para aquela gente isso parecesse coisa singela.
Se bem se lembram, nunca antes a tropa chegara àquele local, o que, penso eu, determinou que o nosso inimigo de então tenha decidido ali instalar uma base. Era longe e não havia caminho que lá levasse. Chegar às suas imediações implicou um longo percurso a corta-mato, seguindo as indicações de um guia que mais parecia orientar-se por telepatia exigindo aos condutores das berliets especiais habilidades na condução por entre o fraco arvoredo, sem perceberem bem por onde iam. Dizia-se que se orientavam pelas estrelas mas, das vezes que presenciei tais capacidades, o guia desorientou-se logo que caiu a noite e reencontrou o caminho mal nasceu o sol. De uma das vezes cheguei a pensar que o homem conhecia cada árvore daquela imensa savana.
Recordo-me do Gabriel contar  a aventura que foi a grande viagem através de matas e chanas desde as pontes do Cúbia até às imediações do estrutura inimiga que apelidámos de “o esquadrão”. Fiz esse caminho, mais tarde, pelo menos uma vez. Mas nessa altura já a picada estava claramente desenhada no terreno arenoso. Para isso, bastou passar duas vezes pelo mesmo sítio. Era assim que se construíam caminhos nas terras do fim do mundo. Mas, naquele momento ainda nada disso existia. Apenas areia afogueada de calor sem caminhos que se pudessem seguir.
O episódio passou-se no fim da operação. Havia que fazer de novo o caminho até àquele remoto lugar, recolher o pessoal e regressar. Para isso foi preciso encontrar um guia, alguém que conhecesse bem a zona. E, pelos vistos, isso não foi coisa difícil. Alguns da população da Neriquinha teriam vivido por ali antes da guerra que os empurrou para junto da cerca de arame farpado que delimitava o quadrado, afogado em pó, que nos serviu de morada por mais de dezoito meses. E aquele que veio a ser escolhido demonstrou que, de facto, conhecia bem os andanhos daquelas matas incaracterísticas.
Sentou-se sobre os sacos de areia do rebenta-minas, braço estendido para a frente qual agulha de uma bússola humana e foi apontando o rumo, movendo o braço ora à direita, ora à esquerda. Contornaram árvores, rodearam chanas, passaram sobre charcos, choveu torrencialmente, caiu a noite e o guia continuava a indicar o caminho como se tivesse de memória cada árvore, cada recanto, cada acidente de terreno não obstante tudo parecesse igual, numa paisagem imutável e agreste.
De repente, sem que ninguém o esperasse, fez sinal para parar. Inicialmente pensou-se que vira algo, alguma ameaça, uma emboscada. Pensou-se o pior. Mas o homem, saltando da viatura, embrenhou-se na mata de onde regressou, pouco tempo depois, trazendo na mão uma panela de ferro, escura e enferrujada pelo tempo e pelas intempéries.  Simplesmente recordara que, anos antes, quiçá fugindo com a família às vicissitudes da guerra, deixara para trás aquele utensílio doméstico.
Pelos vistos, nunca esqueceu o lugar onde a deixou. Recolhia-a, agora, como se fora algo muito precioso. Não me admiro nada que, para ele, aquela panela fosse uma relíquia. Provavelmente, algo que lhe trazia à memória recordações que o advento da guerra apagara.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O ataque às ILHAS MENGUELAS

Ainda que passados muitos anos e a memória continue inexoravelmente a degradar-se, retenho a ideia de que muitos dos profissionais da tropa daquele tempo nunca chegaram a perceber de facto que a guerra nas colónias não encaixava em regras susceptíveis de poderem conferir significado a definições padronizáveis. Retenho de memória que os conceitos teóricos, plasmados nas sebentas da escola da guerra, dactilografadas e sistematicamente duplicadas a setencil, se referiam amiúde ao facto de aquela ser uma guerra de guerrilha, mantida por hordas de guerrilheiros não treinados e avessos a convenções.
Ainda assim, na cabeça de alguns velhos do restelo que ocupavam as cúpulas da hierarquia militar de então, continuavam vivas velhas tácticas e estratégias com barbas e bolor, manuscritas em acervos enegrecidos pelo tempo e guardados nos sótãos bafientos da memória de gente que parou no tempo e se mostrou incapaz de perceber que a guerra travada nas matas africanas não tinha nada a ver com as grandes batalhas da idade média e não seguia qualquer dos modelos clássicos que enchem as páginas dos compêndios militares por onde haviam estudado.
Alguns deles, se calhar, continuavam a confiar na eficácia das velhas tácticas quiçá acreditando ser possível aplicar nas matas africanas o estratagema do quadrado, derradeiro esquema defensivo utilizado pelo General Custer na batalha de Litle Big Horn contra uma nação inteira de índios Sioux ou até o medieval ouriço que se sabe ter sido utlizado pela infantaria de Nuno Ávares Pereira contra a cavalaria da coroa Espanhola na célebre Batalha dos Atoleiros nos conturbados anos do fim da primeira metade do século XVII.
Pode parecer inverosímil mas, das duas, uma; ou o nosso comandante não sabia mesmo o que era a táctica do ouriço ou ainda não percebera que a guerra que na altura se travava era outra. A verdade é que, perante o catastrófico resultado da operação levada a cabo lá para os lados da Quirongosa onde treze GE´s, entre eles o nosso Fulay, encurralados pelos guerrilheiros do grupo do Kuenho, perderam a vida sem que sequer pudessem ter esboçado um gesto de defesa, o distinto oficial tenha proferido a suprema crítica:
- Porque não fizeram o ouriço?
Bem, mas o episódio que aqui me trás tem, mais uma vez como protagonista, o nosso incrível Major Tamegão quando, certa vez, o grupo estacionado no Rivungo foi incumbido de patrulhar as margens do rio Cuando até às imediações das Ilhas Menguelas, algures situados no meio do lodaçal que estabelece a fronteira entre Angola e a Zâmbia, lá bem para baixo, a meio caminho entre o Rivungo e o Luiana. Transcrevo a descrição do Eduardo Aranha que melhor do que ninguém conhece o episódio.


“Devo começar por dizer que essas ilhas não eram, nem são, qualquer espaço paradisíaco no meio do mar ou de um rio na moda para ir fazer férias ou passar luas-de-mel. Na fronteira leste sul de Angola está o rio Cuando que na altura, pelos registos, pertencia a Portugal e não à Zâmbia. Pelo que aqueles amontoados de terra arborizada que existiam pelo meio do rio e que aqui no Tejo  se chamam mouchões e servem para a agricultura, lá  pelas áfricas serviam  para esconder elementos guerrilheiros que, de noite, ousavam enfiar-se em pirogas e atravessar o rio infiltrando -se no território angolano.
Uma vez, numa operação militar, que eu não tive o prazer de comandar, estava prevista uma patrulha a pé pela margem direita do Cuando, o mais chegadinho possível a terra para não molhar os pezinhos e ninguém se constipar, pois o objectivo principal da tropa portuguesa era poder regressar à sua aldeia natal  todo completo de cabeça e corpo.  
Regressados da operação ao Rivungo, estava, ao que me contaram, o major Tamegão, como sempre vestido da sua personalidade grotesca e dos adereços de farda igualmente ridículos: dois cantis com “água de capim”, para fazer bem aos rinzes, três pares de óculos presos por fios de nylon e uma Manelika verde-vivo pintada à mão. Neste excelente aparato dirigiu-se ao comandante da referida operação inquirindo-o sobre o sucesso da mesma na aniquilação do inimigo. Na resposta, evasiva como sempre, foi-lhe dito o que também sempre se dizia; que pegadas se tinham visto, muitas, mas inimigos nenhuns, que talvez estivessem nas Ilhas Menguelas, local inacessível para tropas apeadas. Aí, muito dentro da sua lógica de oficial cujos estudos teriam parado pela Grande Guerra de 1914-1918, o sr. Major Tamegão, perguntou: -Porque não fizeram uma balsa!? Ora, balsa é o mesmo que jangada, mas é um termo menos usado que o segundo e, como o major era do norte, muita gente, do sul, pensou que ele poderia estar- se a referir a um valsa à beira-rio, o que só entre homens e naquelas paragens deveria ter-se revestido de enorme romantismo.”


Alguns meses depois, o tenente Valério, na altura o comandante da Marinha do Rivungo a quem, segundo julgo, se haviam queimado parte dos neurónios que controlam o bom senso, resolveu pôr a lancha a navegar, ultrapassando para sul tais ilhas. No regresso foi metralhado, atacado à granada, perdeu um homem atingido por uma rajada de chumbo mortífero e só a muito custo conseguiu que a lancha vencesse a correnteza e regressasse ao seu ancoradouro no recesso do Rivungo, muito mal tratada e com a moral dos seus homens a razão de juros.
Uma lancha, blindada, guarnecida de fuzileiros bem treinados e equipada com uma metralhadora Oerlikon de grosso calibre, quase que foi impedida de navegar. E o nosso major a querer que se construísse uma balsa!
Cá para mim, ou o homem via muitos filmes ou era leitor assíduo das histórias aos quadradinhos do Major Alvega.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Goma-arábica, a cola que sabia a mel


Ainda nem haviam decorrido duas semanas desde que, amesendados na grande cidade aguardando sem pressas o dia em que se encetaria a viagem de regresso a casa e já muitas das agruras por que passáramos começavam a transformar-se em remotas recordações. Por mim, aquela certeza de que jamais voltaria a calcorrear as esgotantes e quentes areias das terras-do-fim-do-mundo trazia uma confortante sensação de bem-estar apenas perturbada pela recordação do inacreditável acidente que nos levara o Morgado. Exactamente quando já parecia certo que todos regressariam ilesos, o destino decidiu fazer-nos pagar a ousadia de termos conseguido escapar à má sorte, como se o azar que nos levou o Gonçalves não tivesse sido já paga suficiente. Mas, feita a catarse, com a ajuda da juventude que tudo supera, os dias continuaram a correr, intensos, quentes e aconchegantes, vividos como se houvesse pressa em compensar os tempos de escassez que, por aquelas alturas, já me pareciam suficientemente distantes.
O facto é que, aplacadas que estavam as mágoas, cauterizadas as feridas da alma e completada a convalescença com doses maciças do bálsamo apaziguador das Mabubas, tudo aquilo por que se passara parecia agora coisa de somenos.
Terá sido por aquela altura que se deu início a uma espécie de ritual que ainda hoje se repete: a irresistível tendência para trazer à espuma dos dias a lembrança dos episódios rocambolescos, dos sustos e maleitas, das alegrias e dissabores vividos e sofridos no tempo que durou a nossa passagem pelas guerras da Neriquinha, recordados a propósito de tudo e de nada, contados e recontados, explicados e relembrados como quem conta a história da última fita vista na soirée do cinema Miramar.
Foi por estas alturas que, certa manhã, lá na Pensão dos Coqueiros, unidade hoteleira modesta onde costumávamos pernoitar, creio que ao pequeno-almoço, descosendo a língua em conversa de circunstância, porventura recuperando da ressaca da noite anterior, alguém se lembrou de ter ouvido contar uma das máximas do nosso major Tamegão. Para tanto bastou um refrescar de memória trazido pelo ritual de untar a torrada com compota.
Constava que nada afectava o apetite do major e dizia-se que nunca reclamava do rancho. Aliás, o seu aspecto roliço e maneirinho era prova disso mesmo. A sua mais que conhecida fama de lateiro, típica de quem nunca reclama do rancho, ficou suficientemente demonstrada, quando, numa das poucas vezes que a sua missão o obrigou a descer ao inferno da Neriquinha, devorou um prato de massa guisada com atum que o vago-mestre incluíra na ementa numa tentativa de retaliação pelas exigências e observações esparvoadas que o homem fizera aos mapas de controlo do depósito de géneros. Tudo em vão. Enquanto toda a companhia achou a refeição uma porcaria, o Major, rapando o prato onde um último fio de massa resistia às suas arremetidas, apenas deixou escapar um: - Isto estava muito bom!
Mas, voltando à compota, parece que o homem, lá na messe do Cuito Cuanavale, descobriu um frasco com mel. A sua consistência e a cor ligeiramente ambarada eram características mais do que suficientes para que nem sequer lhe passasse pela cabeça que pudesse ser outra coisa. Aliás, estando na messe e com aquele delicioso aspecto a fazer-lhe nascer na boca uma aguadilha de gula, no seu entender não poderia ser outra coisa. Assim, todas as manhãs, a fatia de pão que lhe servia de mata-bicho, foi sendo generosamente untada com o produto e saboreada em gulosas dentadas intervaladas por largos golos de café com leite, lauta refeição por vezes finalizada com pomposa e sonora eructação.
Até que, certo dia, a mulher do médico que, uma ou outra vez o calor obrigava a madrugar, deu conta de que, afinal, era o major o responsável pelo esvaziamento constante e paulatino do conteúdo do frasco.
- O senhor major come isso? Interrogou a senhora com não disfarçada surpresa.
- Sim, eu gosto muito de mel. É muito saudável. Respondeu o oficial um tanto ou quanto atónito como se considerasse a pergunta descabida.
- Mas isso não é mel, senhor major. Isso é goma-arábica; trouxeram-na há dias da secretaria para colar uns papéis.
Apanhado de surpresa o homem, contudo, não desarmou.
- Ah é? Mas olhe que é muito bom.
Consta que, ainda assim, mesmo se apercebendo de que, afinal, andara a ingerir cola o tempo todo, não se coibiu de comer o pão até ao último migalho.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Em memória, e a minha homenagem, aos que por lá ficaram sem glória mas com honra.



emblema 3441.

Em tempo porque o tempo não guarda rancores aos que partiram sem tempo...

(Excertos do livro "Capitães do Vento")

Gonçalves

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Más notícias. A primeira derrota. Somos um a menos. 
Tinham corrido rumores de um ataque iminente ao Rivungo. Numa tentativa de rentabilizar todos os meios, um lança-granadas foguete sem uso e esquecido a um canto é resgatado à letargia enferrujada em que se encontrava e decidido experimentar ali mesmo no destacamento. Sabia-se como funcionava, mas ninguém ali tinha alguma vez disparado aquela arma. Aprontaram um tiro para a chana do rio Cuando. O soldado que vai operar a arma ajeita-a no ombro com o dedo no gatilho de modo a encontrar a melhor posição para o impacto. Um toque ligeiro e esta dispara-se inadvertidamente lançando para trás um cone de fogo mortífero com uns bons dez metros de comprimento, enquanto a granada se perdia na chana. O Furriel Gonçalves apanhou em cheio com todos aqueles gases incandescentes. Teve morte imediata. Um acidente tão estúpido quanto estúpida era a guerra.

Doloroso foi depois explicar à família como se perde um filho de forma tão bruta na troca de correspondência que mantive com os pais durante algum tempo. Ajudou um pouco o facto de o pai ser, também ele, um militar. Compreensivo, foi mais da vida e não da morte que falámos. Dolorosamente compreensivo sem força nem vontade para se insurgir contra a guerra que o roubava assim de forma tão dura e cruel. Afinal, a profissão que abraçou haveria de se transformar numa espécie de carrasco que lhe levaria os seus.

Morgado

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Seria já em Luanda que sofreríamos a segunda derrota que nos decepou um segundo e último membro. Foi como que um “morrer na praia” e foi mesmo na praia que morreu a cinco dias de embarcar.
A tropa parada e sem nada que fazer, para mais com o “cacimbo” entranhado no corpo e na alma, tende para a asneira. Procurando amenizar aquele tempo de espera foram organizadas idas à praia em colunas de Berliet.
Um grupo estendia-se ao sol onde procurava harmonizar o contraste da alvura do tronco com o negro do antebraço e pescoço em V. Afogueado pelo calor o Ilídio Morgado disse levantando-se.
- Vou dar um mergulho. Reparem bem na minha pinta a mergulhar.
O mergulho foi elevado e acrobático com descida a pique. Da areia os companheiros ficaram a ver o Ilídio a boiar depois do mergulho “fazendo fôlego...”. Passaram dois, três minutos até que se compreendeu que algo não tinha corrido bem. O Ilídio continuava a boiar de barriga para baixo. Ele não tinha “fôlego” para aquele tempo todo. Retiraram-no da água já praticamente morto por afogamento, após ter batido com a cabeça no fundo de areia e ter partido o pescoço.

Não havia melhor forma de despedaçar a alegria incontida que todos vestiam no rosto naqueles últimos cinco dias de Luanda sem emboscadas de inimigos conhecidos, poeira de picada ou fome de ração de combate.

À porta do cemitério de Luanda soou um “... funeral arma!” em voz rouca gritada que rasgou o silêncio de desespero da penúltima manhã quente de guerra em África. Seguiu-se-lhe uma espécie de silêncio ensurdecedor semelhante ao de uma execução. Depois o troar uníssono de seis disparos que atordoam e deixam a sensação de nos embaterem no peito e nos vararem de lado a lado. Um segundo disparo de homenagem à vida em tempo de morte apanha-nos num meio adormecimento de resignação para com as leis da vida. O terceiro grito vociferado pelas seis G3 que, voltadas aos céus imploram ou questionam algo que não consigo vislumbrar, já não nos diz o que quer que seja, nem nos consegue sequer acordar daquele entorpecimento momentâneo que se abate sobre todos. O silêncio que fica é difícil de romper. O tempo pára e é como se não quiséssemos que continue como que receando viver a realidade que se lhe segue.
E o cais de partida ali tão perto. Data e hora de regresso marcada e alterada abruptamente a cinco dias do fim de quase todas as tormentas. Adiada para sempre a hora feliz da chegada. Por cumprir, e ali amortalhada, aquela nesga de esperança de um retalhado “... adeus ... e até ao meu regresso!”.

E o frio do Puto que nos chega com cinco dias de antecedência e enregela às onze horas da manhã de calor ardente cavalgando um fio fino de suor gelado que nos percorre as costas e estremece o peito numa angústia que nos desgoverna os sentidos e derrota o desejo tardio de vingar a morte.


sexta-feira, 1 de maio de 2015

Em memória do Ilídio Morgado

Quase que passou despercebido. Não fora duas ou três situações extremas que o marcaram e o facto de termos sido relegados para o fim do mundo, confinados a uma singelo quadrado delimitado por uma precária cerca de arame farpado que nos impôs uma longa convivência de proximidade, a lembrança da sua passagem pela companhia teria provavelmente ficado perdida no limbo da nossa memória colectiva.
O Ilídio Morgado era um soldado do meu pelotão integrando aquele lote dos que não dão muito nas vistas. Beirão, oriundo de uma pequena freguesia do Conselho de Sátão, comportava-se de forma algo bisonha e falava devagar conferindo às palavras aquela pronúncia sibilina característica do linguajar das gentes que habitam a região a norte das Terras de Viriato. Não sei se era preguiçoso mas a ideia que vagamente retenho da sua figura, do seu andar vagaroso e da postura indolente que punha em tudo o que fazia, deixa-me essa possibilidade. Creio que nunca fez inimigos e não consta que alguma vez alguém tivesse feito qualquer reparo menos abonatório ao Ilídio, mas também não consigo identificar nenhum grupo de amigos mais chegados a que pertencesse.
Em resumo, pode dizer-se que era um homem comum sem nada de especial que se lhe apontasse a não ser o facto de, por vezes, beber um pouco mais do que a conta.
Contudo, a ser esse o seu maior defeito, convenhamos que era uma coisa de nada se tivermos em atenção que, pelo menos naquele tempo, a melhor forma de mitigar a sede e afrontar o calor, passava pela ingestão de cerveja em quantidades razoáveis. Era barata e havia em quantidades generosas. Excluindo o Candeeiro, pescador dos mares algarvios que ficou na memória de todos pela frequência com que se enfrascava e pelo mau feitio que apenas se manifestava quando toldado por um cerveja a mais, o Ilídio, se calhar, integrava o restrito grupo dos que ficaram na memória colectiva como aqueles que, com mais assiduidade, exageravam um pouco na quantidade de imperiais.
O excesso de bebida não trouxe problemas a ninguém. É claro que nestas coisas, há sempre excepções e o Candeeiro é uma flagrante excepção. Nele, a bebida, queimando o seu fraco bom senso, fazia com que andasse sempre de candeias às avessas com as hierarquias daí resultando algumas ameaças de punições severas por parte do comandante da companhia. Mas não o Morgado; nele, a bebida apenas lhe soltava a língua, desatando num falaçar trôpego que nunca lhe trouxe problemas de maior quanto a questões disciplinares mas, tanto quanto a minha memória retém, foi o único que sofreu na pele as consequências de beber demais.
Pois é, certa vez, como que por castigo da providência, sentiu de forma muito dolorosa as consequências de um dia de excessos. Não sei se alguém se lembra mas, quando faltava para aí cerca de um par de meses para o fim da comissão, fez coincidir uma bebedeira valente com o dia que lhe competia estar de serviço de guarda à baia que controlava o acesso de viaturas à localidade, dia em que, para piorar as coisas, era aguardada a visita de um grupo de altas patentes militares, que suponho constituído pelo comandante de batalhão e respectivo séquito.
Ninguém sabe como e ele também nunca conseguiu explicar, deu um tiro em si mesmo quando, ao abaixar-se esforçando-se por manter o equilíbrio que o excesso de bebida tornava precário, accionou o gatilho da G3. São coincidências fatais e até hoje ainda ninguém conseguiu perceber por que artes do demo, num local como as Mabubas, tinha uma bala na câmara pronta a disparar. Acabou por ter sorte, a bala apenas lhe perfurou o braço obrigando-o a andar entrapado durante uns tempos.
Este pequeno incidente, a que na altura não se deu muita importância – coisas do vinho, dir‑se‑á, embora me pareça que a bebedeira era de cerveja – não deixa de ter o seu quê de premonitório. Cá para mim, a negra e encapuçada figura sem rosto, de gadanha a tiracolo, já andaria a rondar o infeliz do Morgado.
O tempo passou e a missão chegou ao fim. Agora era o tempo da diversão, do entretém, do dolce far niente. Matavam-se as saudades de tudo aquilo de que, por demasiado tempo, não se teve acesso, gozando hoje uma coisa, amanhã outra, por vezes exageradamente e ao fim do dia planeava-se o que fazer no dia seguinte. Enfim, aproveitava-se o tempo enquanto não chegava o dia do regresso a casa. A praia, porque não era longe, passou a ser local de visita assídua. E o Morgado, porque no sítio onde nascera era coisa que não havia, também por lá andou, até porque o calor a isso convidava.
Não conheço pormenores, mas num desses dias, estando ele na brincadeira com a malta do grupo que com ele decidira passar o dia na praia, resolveu fazer uma habilidade. Correu em direcção à água e ensaiou um mergulho, atirando-se de cabeça contra a onda que entretanto se desfizera espalhando-se preguiçosamente no areal.
O mergulho saiu desorganizado, espalhafatoso, descoordenado e sem estilo, visível na forma como se estatelou pesadamente nos escassos vinte centímetros de água que mal chegava a meia canela. No imediato, ninguém se apercebeu que o corpo do Morgado, inerte, apenas se movia ao sabor das ondas num embalo de vai e vem. Quando alguém deu o alarme, já era tarde. A autópsia, contou-me o alferes Correia que conduziu o processo de averiguações, concluiu que partira o pescoço.
A notícia do passamento do malogrado soldado produziu um efeito devastador no pessoal, trazendo à lembrança a trágica morte do furriel Gonçalves que desastradamente ocorrera lá bem para baixo, nos confins da savana, reabrindo feridas que só há bem pouco tempo haviam cicatrizado. O clima de festa e de diversão de que todos tiravam partido murchou e a alegria desapareceu dando lugar a uma consternação colectiva, a uma revolta surda visível no semblante de cada um.
Que raio. O pior já havia passado e já só faltava tão pouco tempo para tudo terminar.
Não foi justo.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Enquanto a peluda não chega

A nossa vida mudou radicalmente. De um momento em que quase tudo era condicionado por uma disciplina militar ditada por uma enormidade de obrigações e regras de conduta até então cumpridas quase por inércia, qual reflexo condicionado de quem se teve de habituar a uma disciplina que não admitia contestação, passou-se a um estado em que cada um fazia o que mais lhe dava na gana.
É verdade, a peluda estava a poucos dias de vista e isso levava a comportamentos pouco consentâneos com as exigências militares, reduzindo os regulamentos a uma mera insignificância. Era algo de novo, uma espécie de liberdade que entrava de rompante pelas vidas de jovens que, por tempo que mais pareceu uma eternidade, se sentiram encarcerados num mundo de fardas, ordens, regras, ditames e posturas, obrigados a assumir responsabilidades, passar privações e coleccionar arrelias que esculpiram um fácies amadurecido na cara daqueles meninos quase imberbes que, dois anos antes, desembarcavam no cais de Luanda prontos para fazer uma guerra que nenhum havia começado.
Tenho ainda a longínqua recordação do alívio que experimentei perante a iminência do despir definitivo da farda em simultâneo com o formal depor das armas materializado na entrega nas arrecadações da parafernália belicista que, dois anos antes, naquele mesmo lugar, nos fora entregue e que então assumi serem sinais óbvios de que estávamos ali de passagem a caminho da guerra que, era suposto, nos esperava naquele ermo lá nos confins da savana para onde fomos relegados.
Agora que tudo passara, assistia-se a um desmontar da máquina, sendo por demais óbvio de que já nenhum oficial ou sargento se sentia com autoridade para dar ordens que ninguém parecia estar já disposto a obedecer. Constituindo etapas do ritual de corte de relações com o rigor militar, as regras foram sendo compassivamente cumpridas com aquela certeza de que faziam parte do cerimonial do divórcio ou do fim do contrato que todos foram compelidos a aceitar no momento da incorporação.
Naquela fase, a grande tarefa da companhia resumia-se ao arrumar da casa. E isso significava cumprir uma extensa e escrupulosa via-sacra por tudo quanto era repartição ou serviço da pesada burocracia militar. Era preciso pagar e encerrar contas, elaborar guias de entrega, devolver materiais e equipamentos, fazer requerimentos, assinar papelada e obter a necessária quitação que desobrigaria a companhia de tudo quanto era compromisso ou responsabilidade. Felizmente que tínhamos um primeiro-sargento de eleição, um homem, conhecedor daquele mundo complexo que apenas nos pedia ajuda pontual numa coisa ou noutra. Tirando isso, o tempo estava por nossa conta.
Por mim, inebriei-me com o cheiro a maresia, enchi os olhos daquele mar azul cristalino e caminhei sem destino gozando o bulício da cidade, não resistindo a percorrer a marginal ziguezagueando por entre as palmeiras. Pareceram-me familiares em nítido contraste com a primeira impressão experimentada dois anos antes quando, fugindo ao enjoativo convés do Vera Cruz, dei os primeiros passos naquela terra quente e perfumada que parecia inchar de calor. Pelo menos agora, não estranhei a pacífica quietude da baía que, nas cálidas noites austrais, derramava sobre a marginal centelhas de luz em sintonia com o marulhar de águas calmas.
Depois, abusei de bifes com batatas fritas e mostarda aos montes, preguicei nas esplanadas das cervejarias exagerando na cerveja devidamente acompanhada e mergulhei vezes sem conta nas águas cálidas do Atlântico que placidamente banhavam a areia cor de ouro da ilha. Depois de tanto maldizer as estafantes areias brancas da savana do Cuando Cubango, não hesitei em alagartar-me pelas praias da ilha e embrulhar-me no areal com sabor a sal para, depois de feito croquete, a dissolver num mergulho gostoso nas cálidas ondas salgadas daquele mar que apetecia abraçar.
Vi todas as fitas que passavam nos muitos cinemas da cidade, intoxiquei-me no fumo dos cafés saboreando bicas e lendo placidamente os jornais do dia, matei saudades do pastel de nata e enchi os olhos de mulheres lindas e singelamente sedutoras. Voltei à praia sempre que pude, desfrutei as delícias da noite, conheci a Gruta, afamado cabaré logo ali à entrada da ilha e apreciei o seu badalado espectáculo de striptease levado à cena por um friso de meninas que se esmeravam numa representação lasciva capaz de fazer crescer água na boca aos mais susceptíveis ou mais carentes. Ia-se ali não só pelo espectáculo mas também por uma mão cheia de outras coisas. Naquele local buliçoso enchiam-se os olhos de cor e glamour, inspirava-se o perfume de mulher oferecida, usufruia-se da fartura de sedução que espichava dos meneios de mulheres que sabiam da arte e, porque não, suspirava-se por um agrado, que mais do que isso não era permitido, que ali não era casa de putaria. Visitar a Gruta era imperativo, quase uma missão obrigatória para qualquer militar que se prezasse.
Tirando isso, lambuzei-me com a célebre muamba na Mãe-Preta, matei a fome fora de horas devorando o conhecido bitoque servido a qualquer hora da noite naquele bar lá para os lados do Clube Naval e por pouco não gastei todas as economias que a ausência de tudo e o não ter onde gastar me obrigaram a amealhar nos confins da savana.
Sei que, em cada dia, acabada a desbunda, recolhia a algum lugar. Provavelmente regressava ao Grafanil. Havia sempre aquela viatura, estranha, pesada e com ar muito antigo que, a horários estabelecidos, numa marcha pesada de quem não tinha pressa, fazia a ligação entre a Mutamba e aquele entreposto militar conhecido de todos. Andava muito devagar que a idade não dava para mais e dizia-se que gastava cem litros aos cem. Um exagero.
Mas, por mais estranho que possa parecer, não sou capaz de me recordar nem da camarata nem da cama. Provavelmente passei lá pouco tempo.

domingo, 1 de março de 2015

Adeus às Mabubas - O regresso à cidade

Não teve história a nossa saída das Mabubas. O facto de não reter pormenores convence-me disso. Contudo, recordo-me muito bem de, talvez estupidamente, ter recordado o dia em que, montados nas viaturas do MVL, saímos do degredo da Neriquinha e iniciámos aquela empolgante aventura que foi a grande viagem desde as terras do fim do mundo até ao paraíso de que agora nos despedíamos. Bem, paraíso apenas por comparação com o inferno que nos serviu de morada nos primeiros dezoito meses e pouco, ermo do qual ninguém tinha saudades. Pela parte que me toca, nunca me passou pela cabeça que alguma vez pudesse voltar àquele quadrado areento delimitado por uma ferrugenta cerca de arame farpado. Contudo, admitia que, se alguma vez voltasse a Angola, um dos primeiros locais que procuraria visitar seria certamente a barragem e a camarata, provavelmente em ruínas, onde se situava o quarto que partilhei com o Morais e que decorámos como se fosse a nossa casa.
Mais uma vez encafuei as minhas tralhas dentro da mala, cuidei de verificar que não deixava nada para trás e arrumei tudo o melhor que pude numa das viaturas que, no largo frente ao comando, aguardavam o momento de nos levarem para a cidade. Acomodei-me num canto qualquer, disse adeus a quem ficava e aguardei sem pressa a hora da partida.
As viaturas subiram a rua, lentamente. Passaram frente à messe, depois pelo boteco do Manolo, o barracão do cinema e finalmente a cancela de controlo já guardada por soldados acabados de tomar o nosso lugar. A guerra seguia em frente, naquela sistemática substituição de contingentes, uns a chegar outros a partir numa permanente adaptação a novos lugares e novas missões. Para os recém-chegados, a acalmia necessária para lamber as feridas da alma, para nós, o adeus definitivo aos quartos de sentinela, às rondas nocturnas e à limpeza das armas, arrumadas a um canto desde que libertos da savana.
A viagem até Luanda foi curta e sem surpresas. Era uma estrada normal como todas as estradas. Nos últimos oito meses havíamo-la percorrido inúmeras vezes e era certo que nada iria acontecer que merecesse ser memorizado. Passámos pelo posto de controlo do Sassa, logo ali abaixo, antes do Caxito, bordejámos os canaviais da Tentativa onde uma máquina preparava a terra para nova plantação, atravessámos Porto Quipiri, o desvio para a Barra do Dande, depois Sassalemba, os campos de algodão e de mandioca e, em pouco tempo, logo depois de Kifangondo, iniciou-se a descida em direcção ao Cacuaco onde o bando de flamingos cor‑de‑rosa, catando a praia, parecia nunca dali ter saído passeando-se pachorrentamente como sempre os vi fazer nos últimos meses em que me habituei a mirá-los. Aquela seria a última vez; nunca mais os tornaria a ver.
Penetrámos o trânsito citadino. Nada a que já não estivéssemos habituados. Os últimos tempos nas Mabubas, com as frequentes idas e vindas a Luanda, fizeram-nos esquecer o silêncio da enorme e desértica savana. Mas esta última viagem materializava o regresso definitivo à civilização, ao bulício da cidade, ao trânsito, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Para mim, contudo, representava finalmente a fuga às agruras e aos tratos de polé infligidos por uma natureza hostil. Agora sim, a mata ficava para trás e a guerra, que sentimos ir desaparecendo das nossas vidas no sossego das Mabubas, chegara definitivamente ao fim.
Entrámos no Grafanil, uma espécie de antecâmara para o inferno das matas e o stress da guerra para quem chegava a Angola. Passáramos por isso dois anos e quase dois meses atrás. Mas, para nós, que chegávamos ao fim daquela malquista missão, representava o limiar da civilização e o recomeço da vida que ficara parada no tempo.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O adeus às Mabubas - Rendição II

Mais de um mês decorrera desde a festa comemorativa dos dois anos de permanência em Angola. A nossa missão chegara ao fim, mas ninguém pareceu impacientar-se com o “mata-bicho”, epíteto então utilizado para designar o excesso de tempo sobre os vinte e quatro meses da praxe. Mas, como não podia deixar de ser, chegou a notícia da rendição. Chegou, sem alaridos, sem ansiedade, sem pressas e ninguém exultou com a novidade. Nada aconteceu que se parecesse com a loucura desencadeada na Neriquinha por notícia semelhante.
Com efeito, quando o primeiro zumzum começou a circular, ninguém pareceu entusiasmado e o primeiro comentário não passou de um simples:
- Ei, pessoal! Parece que nos vêm render p’ra semana.
A reacção geral pareceu-me genericamente destituída de emoção, como se a coisa não fosse notícia importante. Do que recordo, não foi além da displicente interrogativa:
- Ah é? Já não era sem tempo.
Contudo, não obstante aqueles últimos oito meses da nossa missão em África tivessem decorrido como se do descanso do guerreiro se tratasse e todos se sentissem bem naquele agradável local, o anúncio não deixou de ser arauto de boa nova. A verdade é que, por muito aprazível que fosse, as Mabubas não eram a nossa terra. A proximidade do fim da comissão, festejada com pompa no mês anterior, espicaçara as saudades mantidas em suspenso ao longo daqueles infindáveis dois anos. O desejo incontido de abraçar família e amigos que, lá longe, no outro lado do oceano, nos esperavam com natural impaciência, foi ganhando intensidade. Dois anos é muito tempo especialmente se tivermos em consideração que, até ao momento em que nos vestiram a farda, uma grande parte daqueles homens nunca se afastara da família mais de um par de dias seguidos.
Como sempre, a notícia veio singela, sem pormenores. Seríamos rendidos antes do Natal embora nada fosse dito sobre o dia do regresso a casa, ao nosso Portugal pequenino ali carinhosamente apelidado de “puto”. Mas isso não pareceu preocupar a malta. A partir desse dia, passaríamos a estar em Luanda, de papo para o ar, sem operações militares ou quartos de sentinela, apenas aguardando, na grande cidade, o momento do regresso.
Chegaram finalmente aqueles que nos foram render. Foi numa segunda-feira, quando faltava apenas uma escassa semana para o Natal daquele ano de 1973. Não eram maçaricos. Vinham suados, sujos e com ar cansado a denunciar a longa viagem que os trouxera para ali. Vinham dos confins da savana, fartos de calcorrear picadas arenosas e sofrer na pela as agruras do clima e os duros traumas do isolamento hostil passado numa base militar plantada no meio de coisa nenhuma.
A história repetia-se. Sete meses antes éramos nós a aportar às Mabubas, também numa segunda-feira, resgatados às areias escaldantes do Cuando-Cubango. A companhia que agora nos rendia, pertencente ao Batalhão de Caçadores 4611, passou pelo mesmo mas no outro lado daquele bocado das terras do fim do mundo. Nós, num lado, calcorreando as margens do Rio Cuando, do Cúbia e do Uefo, eles no outro extremo, num ermo com centro em M’Pupa nas margens do Rio Cuito, bastante lá para baixo, um pouco antes de este misturar as suas águas com as do Rio Cubango para juntos se perderem, mais abaixo, no grande delta do Okavango. Parece que as Mabubas haviam sido eleitas pelas hierarquias como local de recobro de militares resgatados à grande savana.
O dia da rendição decorreu sem grandes alaridos, sem pressas ou ansiedades. Não houve praxes que é coisa que só se faz a maçaricos e nada havia para contar que interessasse a quem vinha prenhe de histórias rocambolescas. A passagem do testemunho foi feita naturalmente por gente já experimentada e conhecedora dos correspondentes preceitos protocolares e, em boa verdade, o que havia a entregar não era muito. Quer o depósito de géneros quer a cantina tinham stock reduzido de secos e molhados já que a proximidade dos fornecedores dispensava armazenagens excessivas. É que, deste lado, porque pertinho da civilização, as faltas eram facilmente supridas. Lá em baixo, no meio daquele deserto arenoso, era necessário garantir um stock de segurança; o fornecedor mais perto estava a dias de distância, a viagem era longa e atribulada e não era garantido que o reabastecimento mensal chegasse dentro dos horários.
Abraços, apertos de mão efusivos e um acenar de até sempre compuseram uma despedida muito distinta do nosso adeus à Neriquinha sete meses atrás. Cá como lá, deixaram-se amigos, diferentes mas igualmente amigos. Contudo, da paisagem lunar da Neriquinha todos tinham pressa de fugir e sem olhar para trás. Mas as Mabubas, um lugar aprazível, cheio de gente que nos tratou bem, não era propriamente um local de que se quisesse distância. Partimos felizes porque isso apenas significava que estava perto o regresso a casa; a nossa passagem pela guerra chegara definitivamente a seu termo.
Deixámos para os recém-chegados umas instalações condignas. Quartos arejadas, pintados de fresco e com cores garridas, decorados com alguma arte, cortinas a condizer e com a certeza de que, desta vez, não haveria necessidade de desinfestar as camas: mosquitos haveria sempre que esses não podem ser exterminados, mas percevejos, como os que nos infernizavam o sono na precária camarata da Neriquinha, era coisa que por ali nunca houve.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A FESTA

Já há algum tempo que os imbondeiros haviam florescido. Ninguém deu por isso nem pelo intenso odor a carniça que certamente exalaram. Floresceram durante a noite numa exuberância de branco açucena que não chegou a durar vinte e quatro horas. Por mim, apenas me lembro de, tempos depois dessa epifania floral, ter reparado naqueles grandes frutos dependurados de longos pedúnculos; a múkua é, de facto, um fruto esquisito a condizer com o gigantismo pouco elegante daquela árvore estranha.
Mas é assim, a acácia rubra floriu colorindo aqui e ali a paisagem de pinceladas avermelhadas, entrou novembro, a chuva ensaiou as primeiras borrascas e a paisagem começou de novo a verdecer. Não era propriamente o mês de sazão, que por aquelas bandas nenhum mês tem esse exclusivo, mas notava-se que as mangas intumesciam começando timidamente a ruborescer anunciando o princípio da maturação que lhes daria a doçura perfumada que as caracteriza, que banana, mamão e papaia há-os todo o ano. Talvez por isso ou por mera sugestão, o ar parecia-me rescender a fruta madura e aloés à mistura com o aroma adocicado e quente do dendém.
Por aquela altura, estava completa a adaptação aos rigores africanos. Já me parecia normal que as chuvas diluvianas viessem com o calor e há muito que considerava natural que não era possível dormir sem a protecção do dossel anti mosquito. É verdade! Sem darmos por isso, o tempo havia passado e estavam quase a completar-se dois anos desde que o Vera Cruz, após cruzar o oceano, nos deixara no cais de Luanda na ignorância do que nos esperava nem qual o nosso destino. Agora, que o tempo havia passado e não obstante os rigores sofridos, olhava-se para trás e, quiçá com o tempero do conforto das Mabubas, quase se podia pensar que o tempo passara depressa e isso merecia comemoração.
Pois é! Planeou-se um dia de festa e decidiu-se que seria num domingo. Aproveitava-se a folga do fim-de-semana e era o dia em que as Mabubas se enchiam de gente que, vinda de Luanda aos magotes, aproveitava o descanso semanal para visitar a barragem. Queríamos uma coisa memorável e o público ajudava a conferir grandeza aos festejos.
Não retenho pormenores mas creio que as acções preparatórias foram divididas por todos: era preciso organizar tudo, decidir o que fazer, planear os eventos, calendarizar as provas, inscrever concorrentes e convidar gente. Marcaram-se os itinerários, nomearam-se árbitros e fiscais de prova e definiram-se regras. E, como importava garantir o empenho dos competidores, mandaram-se fazer taças, galhardetes, prémios e outros troféus, três por cada modalidade, já que rancho melhorado estava garantido. Tudo autorizado pelo capitão com financiamento acautelado pelo nosso primeiro-sargento.
A promoção do evento também não foi descurada: imprimiram-se panfletos anunciando o programa de festas afixando-os por tudo quanto era sítio incluindo a tropa e o comércio do Caxito. Visitámos a pista de motocross de Luanda e chegámos a convencer alguns pilotos a participar. Enfim, um afã organizativo como se aquela fosse a nossa última missão já que, sem que se desse por isso, a guerra que para ali nos levou fora empurrada para a periferia do nosso arquivo de recordações.
Foi um dia memorável e quase se pode dizer que a localidade das Mabubas se engalanou. Não houve motocross porque não foi possível preparar uma pista adequada, mas substituímo-la por uma gincana de motorizadas. Quanto ao mais, correu tudo como planeado: a prova de pesca, sem grande empenho por parte dos peixes que não quiseram deixar-se apanhar, a natação em que o Zip, julgando-se perseguido por um crocodilo, bateu o seu record pessoal, o atletismo, com alguns craques à altura e finalmente o tão esperado rally automóvel. Na verdade, foi mais uma gincana na qual quem tinha carro participou: O Sr. Almeida com o seu Ford Escort, o João da mercearia a querer mostrar a potência do seu BMW 2002Ti novinho em folha, um desportivo de que não sou capaz de me lembrar a marca nem de quem era e, como não podia deixar ser, o velho Simca Aronde do “Bacalhau” que deu o que pôde mas sem condições para competir com a potência dos demais.
Finalmente, num cerimonial presidido pelo capitão, os prémios foram entregues aos vencedores, voltando o local à rotina de todos os dias. Tudo correra bem e terminou melhor.
À noite, como que fazendo o balanço da jornada, dei por mim a pensar que a nossa missão por terras africanas terminara. Tinham-se completado dois anos e agora apenas restava aguardar que outros nos viessem render. Pode parecer bizarro mas, ao contrário do que acontecera na Neriquinha, não senti qualquer tipo de impaciência relativamente à chegada desse dia, pelo menos naquele momento. Interiorizei apenas que podia ser em qualquer altura. Já não havia pressa e ali não se estava mal.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ferradelas de mosquitos

Não há volta a dar; clima tropical e mosquitos andam sempre emparceirados. Não é possível usufruir das cálidas vantagens de um serão africano sem ter de sentir na pele o incómodo doloroso das ferroadas violentas daqueles pequenos seres que se afanam incansáveis em dar cabo da paciência de qualquer ser vivente, sugando o sangue a quem não for capaz de os sacudir antes que consigam ancorar aquela minúscula ferramenta sugadora que dá pelo nome de ferrão. E o pior é que não são esquisitos, tanto ferram no coiro duro duma pacaça, como na pele enrugada e encortiçada de um velho ainda que antes tenham acabado de picar a sedosa derme de uma donzela, contribuído alegremente para a transmissão de doenças por inoculação.
Durante o dia, enquanto o sol faz valer o seu poder escandecente sobre os elementos, não se deixam ver mas, assim que o sol se esconde por detrás do horizonte e o lusco-fusco se instala, surgem em bandos zunindo numa infernal e irritante sinfonia monocórdica, penetrando por nesgas impensáveis, encontrando o mais esconso buraquinho no mosquiteiro para, conquistado o nosso reduto de sossego, nos sugar o sangue enquanto durar a noite.
E o pior é que calor e águas paradas formam o ambiente ideal para que se multipliquem, quer estejamos a falar das remotas e pantanosas chanas do Cuando Cubango quer do pacífico recato das Mabubas onde o enorme manancial de água da barragem, permanentemente mantido ao seu nível pelo incessante caudal do Rio Dande, constituía o alfobre ideal para que se multiplicassem incessantemente. É verdade, no que toca à guerra com os mosquitos, a nossa vida nas Mabubas não era melhor que a passada no desconforto da Neriquinha. Tanto aqui como lá, a guerra contra aquele exército zumbidor era renhida e não havia forma de os vencer.
Nos quartos de dormir, entrincheirados sob a redes mosquiteiras, quase sempre se conseguia dormir sem se ser incomodado, mas na messe, depois do jantar, quando nos juntávamos no alpendre para um bocado de conversa e mais o que conviesse para roer o tempo enquanto a hora do recolher não chegava, a horda de mosquitos atacava em força, de todos os lados, e nem a roupa servia de protecção. Mesmo o tecido grosso do camuflado era facilmente perfurado pelo ferrão aguçado da bicharada ávida de sangue que sabia escolher devidamente as carnes mais expostas ou mais frágeis para se banquetear.
As cadeiras de descanso da messe, aquelas onde, nas horas de ócio, costumávamos preguiçar, tinham uma construção simplista: estrutura em ferro tubular, sendo o assento e encosto formados com uma fita de plástico grosso e de cores garridas estrategicamente entrelaçada e firmemente ancorada na estrutura metálica, plástico que, cedendo sob o peso do corpo, oferecia o conforto necessário. Mas, isso permitia que, no intervalo entre as voltas da fita, bocados do rabo e das costas, ficassem à mercê da voracidade do mosquitame, perante a nossa impossibilidade em ripostar.
Era uma luta desigual já que, um ou outro que, com uma palmada certeira, se conseguia esborrachar, pouca ou nenhuma brecha fazia naquele exercício de milhões constantemente renovado, não obstante contarmos sempre com a ajuda adicional de um pequeno pelotão de osgas que se entretinham patrulhando a parede do alpendre da messe e emboscando as melgas mais distraídas. Com uma destreza impressionante e em avanços subtis, aproximavam-se dos insectos que por ali pousassem e num movimento tão rápido quanto um piscar de olhos, como se impulsionados por uma mola, precipitavam-se sobre a minúscula presa que, engolida, desaparecia como num passe de mágica.
Não tenho a certeza, mas creio que chegámos a atribuir nomes a algumas delas: bichos que, vá -se lá saber porquê, continuam a ser considerados por muita gente como repugnantes, eram, naquele sítio, encarados como animais de estimação. O facto é que, na messe, era rigorosamente proibido molestar osgas, mas imperativo liquidar melgas que, ainda assim, nos atacavam por baixo, ferrando o bocado da nádega que espichava por entre as fitas plásticas do assento da cadeira.
Pois é, o seu atrevimento não tinha limites e nem respeitavam autoridades ou hierarquias; desde que tivessem oportunidade de ferrar a aguilhão sugador, faziam-no sem pedir licença.
Certa vez, lá na sede do batalhão instalada num casarão de traça colonial implantado à sombra dos palmares da Fazenda Tentativa e gozando da frescura viçosa propiciada pela proximidade dos seus extensos canaviais, o comandante queixava-se perante a oficialada presente, como que se insurgindo contra as vorazes melgas que se atreviam a molestar tão distinta patente.
- Picam-me as pernas mesmo por cima das calças! - Desabafava com estupefacção.
Entre o grupo estava o major Tamegão, militar de carreira vindo do curso de sargentos que, já de idade avançada, atingira o posto base dos oficiais superiores do exército e que, desempenhando as funções de segundo comandante responsável pela burocracia administrativa do batalhão, cumpria então a última comissão da sua vida. Para se perceber melhor a cena, convém salientar que o major, espécie de cabo arvorado com galões, era um exemplo de cromo que ainda hoje alimenta o anedotário que anima qualquer encontro de quem com ele privou. Era um homem sui generis, exibindo uma figura física nada harmoniosa que faria as delícias de qualquer caricaturista: baixo, largo e desproporcionado, usava sempre calções que deixavam a descoberto as pernas curtas e enfezadas que pareciam suportar com dificuldade o resto do corpo, dando maior dimensão ao aspecto ridículo da sua figura, sem desprimor pelo homem que, verdade seja dita, não fez inimigos por ali.
Reagindo ao desabafo do comandante, o Tamegão tentou uma laracha, ripostando:
- A mim não!
A sua evidente falta de jeito para fazer humor, levou a que ninguém tenha percebido que tentava fazer piada e a prova é que o comandante, não entendendo o motejo, olhou directamente o major e muito sério questionou:
-Ora essa senhor major! As melgas não o picam?
O Tamegão, ensaiando um sorriso forçado numa vã tentativa de conferir significado ao seu fraco sentido de humor, apontou para a parte das pernas não coberta pelos calções, e respondeu:
- A mim, picam-me directamente na pele.