terça-feira, 5 de maio de 2015

Em memória, e a minha homenagem, aos que por lá ficaram sem glória mas com honra.



emblema 3441.

Em tempo porque o tempo não guarda rancores aos que partiram sem tempo...

(Excertos do livro "Capitães do Vento")

Gonçalves

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Más notícias. A primeira derrota. Somos um a menos. 
Tinham corrido rumores de um ataque iminente ao Rivungo. Numa tentativa de rentabilizar todos os meios, um lança-granadas foguete sem uso e esquecido a um canto é resgatado à letargia enferrujada em que se encontrava e decidido experimentar ali mesmo no destacamento. Sabia-se como funcionava, mas ninguém ali tinha alguma vez disparado aquela arma. Aprontaram um tiro para a chana do rio Cuando. O soldado que vai operar a arma ajeita-a no ombro com o dedo no gatilho de modo a encontrar a melhor posição para o impacto. Um toque ligeiro e esta dispara-se inadvertidamente lançando para trás um cone de fogo mortífero com uns bons dez metros de comprimento, enquanto a granada se perdia na chana. O Furriel Gonçalves apanhou em cheio com todos aqueles gases incandescentes. Teve morte imediata. Um acidente tão estúpido quanto estúpida era a guerra.

Doloroso foi depois explicar à família como se perde um filho de forma tão bruta na troca de correspondência que mantive com os pais durante algum tempo. Ajudou um pouco o facto de o pai ser, também ele, um militar. Compreensivo, foi mais da vida e não da morte que falámos. Dolorosamente compreensivo sem força nem vontade para se insurgir contra a guerra que o roubava assim de forma tão dura e cruel. Afinal, a profissão que abraçou haveria de se transformar numa espécie de carrasco que lhe levaria os seus.

Morgado

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Seria já em Luanda que sofreríamos a segunda derrota que nos decepou um segundo e último membro. Foi como que um “morrer na praia” e foi mesmo na praia que morreu a cinco dias de embarcar.
A tropa parada e sem nada que fazer, para mais com o “cacimbo” entranhado no corpo e na alma, tende para a asneira. Procurando amenizar aquele tempo de espera foram organizadas idas à praia em colunas de Berliet.
Um grupo estendia-se ao sol onde procurava harmonizar o contraste da alvura do tronco com o negro do antebraço e pescoço em V. Afogueado pelo calor o Ilídio Morgado disse levantando-se.
- Vou dar um mergulho. Reparem bem na minha pinta a mergulhar.
O mergulho foi elevado e acrobático com descida a pique. Da areia os companheiros ficaram a ver o Ilídio a boiar depois do mergulho “fazendo fôlego...”. Passaram dois, três minutos até que se compreendeu que algo não tinha corrido bem. O Ilídio continuava a boiar de barriga para baixo. Ele não tinha “fôlego” para aquele tempo todo. Retiraram-no da água já praticamente morto por afogamento, após ter batido com a cabeça no fundo de areia e ter partido o pescoço.

Não havia melhor forma de despedaçar a alegria incontida que todos vestiam no rosto naqueles últimos cinco dias de Luanda sem emboscadas de inimigos conhecidos, poeira de picada ou fome de ração de combate.

À porta do cemitério de Luanda soou um “... funeral arma!” em voz rouca gritada que rasgou o silêncio de desespero da penúltima manhã quente de guerra em África. Seguiu-se-lhe uma espécie de silêncio ensurdecedor semelhante ao de uma execução. Depois o troar uníssono de seis disparos que atordoam e deixam a sensação de nos embaterem no peito e nos vararem de lado a lado. Um segundo disparo de homenagem à vida em tempo de morte apanha-nos num meio adormecimento de resignação para com as leis da vida. O terceiro grito vociferado pelas seis G3 que, voltadas aos céus imploram ou questionam algo que não consigo vislumbrar, já não nos diz o que quer que seja, nem nos consegue sequer acordar daquele entorpecimento momentâneo que se abate sobre todos. O silêncio que fica é difícil de romper. O tempo pára e é como se não quiséssemos que continue como que receando viver a realidade que se lhe segue.
E o cais de partida ali tão perto. Data e hora de regresso marcada e alterada abruptamente a cinco dias do fim de quase todas as tormentas. Adiada para sempre a hora feliz da chegada. Por cumprir, e ali amortalhada, aquela nesga de esperança de um retalhado “... adeus ... e até ao meu regresso!”.

E o frio do Puto que nos chega com cinco dias de antecedência e enregela às onze horas da manhã de calor ardente cavalgando um fio fino de suor gelado que nos percorre as costas e estremece o peito numa angústia que nos desgoverna os sentidos e derrota o desejo tardio de vingar a morte.


sexta-feira, 1 de maio de 2015

Em memória do Ilídio Morgado

Quase que passou despercebido. Não fora duas ou três situações extremas que o marcaram e o facto de termos sido relegados para o fim do mundo, confinados a uma singelo quadrado delimitado por uma precária cerca de arame farpado que nos impôs uma longa convivência de proximidade, a lembrança da sua passagem pela companhia teria provavelmente ficado perdida no limbo da nossa memória colectiva.
O Ilídio Morgado era um soldado do meu pelotão integrando aquele lote dos que não dão muito nas vistas. Beirão, oriundo de uma pequena freguesia do Conselho de Sátão, comportava-se de forma algo bisonha e falava devagar conferindo às palavras aquela pronúncia sibilina característica do linguajar das gentes que habitam a região a norte das Terras de Viriato. Não sei se era preguiçoso mas a ideia que vagamente retenho da sua figura, do seu andar vagaroso e da postura indolente que punha em tudo o que fazia, deixa-me essa possibilidade. Creio que nunca fez inimigos e não consta que alguma vez alguém tivesse feito qualquer reparo menos abonatório ao Ilídio, mas também não consigo identificar nenhum grupo de amigos mais chegados a que pertencesse.
Em resumo, pode dizer-se que era um homem comum sem nada de especial que se lhe apontasse a não ser o facto de, por vezes, beber um pouco mais do que a conta.
Contudo, a ser esse o seu maior defeito, convenhamos que era uma coisa de nada se tivermos em atenção que, pelo menos naquele tempo, a melhor forma de mitigar a sede e afrontar o calor, passava pela ingestão de cerveja em quantidades razoáveis. Era barata e havia em quantidades generosas. Excluindo o Candeeiro, pescador dos mares algarvios que ficou na memória de todos pela frequência com que se enfrascava e pelo mau feitio que apenas se manifestava quando toldado por um cerveja a mais, o Ilídio, se calhar, integrava o restrito grupo dos que ficaram na memória colectiva como aqueles que, com mais assiduidade, exageravam um pouco na quantidade de imperiais.
O excesso de bebida não trouxe problemas a ninguém. É claro que nestas coisas, há sempre excepções e o Candeeiro é uma flagrante excepção. Nele, a bebida, queimando o seu fraco bom senso, fazia com que andasse sempre de candeias às avessas com as hierarquias daí resultando algumas ameaças de punições severas por parte do comandante da companhia. Mas não o Morgado; nele, a bebida apenas lhe soltava a língua, desatando num falaçar trôpego que nunca lhe trouxe problemas de maior quanto a questões disciplinares mas, tanto quanto a minha memória retém, foi o único que sofreu na pele as consequências de beber demais.
Pois é, certa vez, como que por castigo da providência, sentiu de forma muito dolorosa as consequências de um dia de excessos. Não sei se alguém se lembra mas, quando faltava para aí cerca de um par de meses para o fim da comissão, fez coincidir uma bebedeira valente com o dia que lhe competia estar de serviço de guarda à baia que controlava o acesso de viaturas à localidade, dia em que, para piorar as coisas, era aguardada a visita de um grupo de altas patentes militares, que suponho constituído pelo comandante de batalhão e respectivo séquito.
Ninguém sabe como e ele também nunca conseguiu explicar, deu um tiro em si mesmo quando, ao abaixar-se esforçando-se por manter o equilíbrio que o excesso de bebida tornava precário, accionou o gatilho da G3. São coincidências fatais e até hoje ainda ninguém conseguiu perceber por que artes do demo, num local como as Mabubas, tinha uma bala na câmara pronta a disparar. Acabou por ter sorte, a bala apenas lhe perfurou o braço obrigando-o a andar entrapado durante uns tempos.
Este pequeno incidente, a que na altura não se deu muita importância – coisas do vinho, dir‑se‑á, embora me pareça que a bebedeira era de cerveja – não deixa de ter o seu quê de premonitório. Cá para mim, a negra e encapuçada figura sem rosto, de gadanha a tiracolo, já andaria a rondar o infeliz do Morgado.
O tempo passou e a missão chegou ao fim. Agora era o tempo da diversão, do entretém, do dolce far niente. Matavam-se as saudades de tudo aquilo de que, por demasiado tempo, não se teve acesso, gozando hoje uma coisa, amanhã outra, por vezes exageradamente e ao fim do dia planeava-se o que fazer no dia seguinte. Enfim, aproveitava-se o tempo enquanto não chegava o dia do regresso a casa. A praia, porque não era longe, passou a ser local de visita assídua. E o Morgado, porque no sítio onde nascera era coisa que não havia, também por lá andou, até porque o calor a isso convidava.
Não conheço pormenores, mas num desses dias, estando ele na brincadeira com a malta do grupo que com ele decidira passar o dia na praia, resolveu fazer uma habilidade. Correu em direcção à água e ensaiou um mergulho, atirando-se de cabeça contra a onda que entretanto se desfizera espalhando-se preguiçosamente no areal.
O mergulho saiu desorganizado, espalhafatoso, descoordenado e sem estilo, visível na forma como se estatelou pesadamente nos escassos vinte centímetros de água que mal chegava a meia canela. No imediato, ninguém se apercebeu que o corpo do Morgado, inerte, apenas se movia ao sabor das ondas num embalo de vai e vem. Quando alguém deu o alarme, já era tarde. A autópsia, contou-me o alferes Correia que conduziu o processo de averiguações, concluiu que partira o pescoço.
A notícia do passamento do malogrado soldado produziu um efeito devastador no pessoal, trazendo à lembrança a trágica morte do furriel Gonçalves que desastradamente ocorrera lá bem para baixo, nos confins da savana, reabrindo feridas que só há bem pouco tempo haviam cicatrizado. O clima de festa e de diversão de que todos tiravam partido murchou e a alegria desapareceu dando lugar a uma consternação colectiva, a uma revolta surda visível no semblante de cada um.
Que raio. O pior já havia passado e já só faltava tão pouco tempo para tudo terminar.
Não foi justo.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Enquanto a peluda não chega

A nossa vida mudou radicalmente. De um momento em que quase tudo era condicionado por uma disciplina militar ditada por uma enormidade de obrigações e regras de conduta até então cumpridas quase por inércia, qual reflexo condicionado de quem se teve de habituar a uma disciplina que não admitia contestação, passou-se a um estado em que cada um fazia o que mais lhe dava na gana.
É verdade, a peluda estava a poucos dias de vista e isso levava a comportamentos pouco consentâneos com as exigências militares, reduzindo os regulamentos a uma mera insignificância. Era algo de novo, uma espécie de liberdade que entrava de rompante pelas vidas de jovens que, por tempo que mais pareceu uma eternidade, se sentiram encarcerados num mundo de fardas, ordens, regras, ditames e posturas, obrigados a assumir responsabilidades, passar privações e coleccionar arrelias que esculpiram um fácies amadurecido na cara daqueles meninos quase imberbes que, dois anos antes, desembarcavam no cais de Luanda prontos para fazer uma guerra que nenhum havia começado.
Tenho ainda a longínqua recordação do alívio que experimentei perante a iminência do despir definitivo da farda em simultâneo com o formal depor das armas materializado na entrega nas arrecadações da parafernália belicista que, dois anos antes, naquele mesmo lugar, nos fora entregue e que então assumi serem sinais óbvios de que estávamos ali de passagem a caminho da guerra que, era suposto, nos esperava naquele ermo lá nos confins da savana para onde fomos relegados.
Agora que tudo passara, assistia-se a um desmontar da máquina, sendo por demais óbvio de que já nenhum oficial ou sargento se sentia com autoridade para dar ordens que ninguém parecia estar já disposto a obedecer. Constituindo etapas do ritual de corte de relações com o rigor militar, as regras foram sendo compassivamente cumpridas com aquela certeza de que faziam parte do cerimonial do divórcio ou do fim do contrato que todos foram compelidos a aceitar no momento da incorporação.
Naquela fase, a grande tarefa da companhia resumia-se ao arrumar da casa. E isso significava cumprir uma extensa e escrupulosa via-sacra por tudo quanto era repartição ou serviço da pesada burocracia militar. Era preciso pagar e encerrar contas, elaborar guias de entrega, devolver materiais e equipamentos, fazer requerimentos, assinar papelada e obter a necessária quitação que desobrigaria a companhia de tudo quanto era compromisso ou responsabilidade. Felizmente que tínhamos um primeiro-sargento de eleição, um homem, conhecedor daquele mundo complexo que apenas nos pedia ajuda pontual numa coisa ou noutra. Tirando isso, o tempo estava por nossa conta.
Por mim, inebriei-me com o cheiro a maresia, enchi os olhos daquele mar azul cristalino e caminhei sem destino gozando o bulício da cidade, não resistindo a percorrer a marginal ziguezagueando por entre as palmeiras. Pareceram-me familiares em nítido contraste com a primeira impressão experimentada dois anos antes quando, fugindo ao enjoativo convés do Vera Cruz, dei os primeiros passos naquela terra quente e perfumada que parecia inchar de calor. Pelo menos agora, não estranhei a pacífica quietude da baía que, nas cálidas noites austrais, derramava sobre a marginal centelhas de luz em sintonia com o marulhar de águas calmas.
Depois, abusei de bifes com batatas fritas e mostarda aos montes, preguicei nas esplanadas das cervejarias exagerando na cerveja devidamente acompanhada e mergulhei vezes sem conta nas águas cálidas do Atlântico que placidamente banhavam a areia cor de ouro da ilha. Depois de tanto maldizer as estafantes areias brancas da savana do Cuando Cubango, não hesitei em alagartar-me pelas praias da ilha e embrulhar-me no areal com sabor a sal para, depois de feito croquete, a dissolver num mergulho gostoso nas cálidas ondas salgadas daquele mar que apetecia abraçar.
Vi todas as fitas que passavam nos muitos cinemas da cidade, intoxiquei-me no fumo dos cafés saboreando bicas e lendo placidamente os jornais do dia, matei saudades do pastel de nata e enchi os olhos de mulheres lindas e singelamente sedutoras. Voltei à praia sempre que pude, desfrutei as delícias da noite, conheci a Gruta, afamado cabaré logo ali à entrada da ilha e apreciei o seu badalado espectáculo de striptease levado à cena por um friso de meninas que se esmeravam numa representação lasciva capaz de fazer crescer água na boca aos mais susceptíveis ou mais carentes. Ia-se ali não só pelo espectáculo mas também por uma mão cheia de outras coisas. Naquele local buliçoso enchiam-se os olhos de cor e glamour, inspirava-se o perfume de mulher oferecida, usufruia-se da fartura de sedução que espichava dos meneios de mulheres que sabiam da arte e, porque não, suspirava-se por um agrado, que mais do que isso não era permitido, que ali não era casa de putaria. Visitar a Gruta era imperativo, quase uma missão obrigatória para qualquer militar que se prezasse.
Tirando isso, lambuzei-me com a célebre muamba na Mãe-Preta, matei a fome fora de horas devorando o conhecido bitoque servido a qualquer hora da noite naquele bar lá para os lados do Clube Naval e por pouco não gastei todas as economias que a ausência de tudo e o não ter onde gastar me obrigaram a amealhar nos confins da savana.
Sei que, em cada dia, acabada a desbunda, recolhia a algum lugar. Provavelmente regressava ao Grafanil. Havia sempre aquela viatura, estranha, pesada e com ar muito antigo que, a horários estabelecidos, numa marcha pesada de quem não tinha pressa, fazia a ligação entre a Mutamba e aquele entreposto militar conhecido de todos. Andava muito devagar que a idade não dava para mais e dizia-se que gastava cem litros aos cem. Um exagero.
Mas, por mais estranho que possa parecer, não sou capaz de me recordar nem da camarata nem da cama. Provavelmente passei lá pouco tempo.

domingo, 1 de março de 2015

Adeus às Mabubas - O regresso à cidade

Não teve história a nossa saída das Mabubas. O facto de não reter pormenores convence-me disso. Contudo, recordo-me muito bem de, talvez estupidamente, ter recordado o dia em que, montados nas viaturas do MVL, saímos do degredo da Neriquinha e iniciámos aquela empolgante aventura que foi a grande viagem desde as terras do fim do mundo até ao paraíso de que agora nos despedíamos. Bem, paraíso apenas por comparação com o inferno que nos serviu de morada nos primeiros dezoito meses e pouco, ermo do qual ninguém tinha saudades. Pela parte que me toca, nunca me passou pela cabeça que alguma vez pudesse voltar àquele quadrado areento delimitado por uma ferrugenta cerca de arame farpado. Contudo, admitia que, se alguma vez voltasse a Angola, um dos primeiros locais que procuraria visitar seria certamente a barragem e a camarata, provavelmente em ruínas, onde se situava o quarto que partilhei com o Morais e que decorámos como se fosse a nossa casa.
Mais uma vez encafuei as minhas tralhas dentro da mala, cuidei de verificar que não deixava nada para trás e arrumei tudo o melhor que pude numa das viaturas que, no largo frente ao comando, aguardavam o momento de nos levarem para a cidade. Acomodei-me num canto qualquer, disse adeus a quem ficava e aguardei sem pressa a hora da partida.
As viaturas subiram a rua, lentamente. Passaram frente à messe, depois pelo boteco do Manolo, o barracão do cinema e finalmente a cancela de controlo já guardada por soldados acabados de tomar o nosso lugar. A guerra seguia em frente, naquela sistemática substituição de contingentes, uns a chegar outros a partir numa permanente adaptação a novos lugares e novas missões. Para os recém-chegados, a acalmia necessária para lamber as feridas da alma, para nós, o adeus definitivo aos quartos de sentinela, às rondas nocturnas e à limpeza das armas, arrumadas a um canto desde que libertos da savana.
A viagem até Luanda foi curta e sem surpresas. Era uma estrada normal como todas as estradas. Nos últimos oito meses havíamo-la percorrido inúmeras vezes e era certo que nada iria acontecer que merecesse ser memorizado. Passámos pelo posto de controlo do Sassa, logo ali abaixo, antes do Caxito, bordejámos os canaviais da Tentativa onde uma máquina preparava a terra para nova plantação, atravessámos Porto Quipiri, o desvio para a Barra do Dande, depois Sassalemba, os campos de algodão e de mandioca e, em pouco tempo, logo depois de Kifangondo, iniciou-se a descida em direcção ao Cacuaco onde o bando de flamingos cor‑de‑rosa, catando a praia, parecia nunca dali ter saído passeando-se pachorrentamente como sempre os vi fazer nos últimos meses em que me habituei a mirá-los. Aquela seria a última vez; nunca mais os tornaria a ver.
Penetrámos o trânsito citadino. Nada a que já não estivéssemos habituados. Os últimos tempos nas Mabubas, com as frequentes idas e vindas a Luanda, fizeram-nos esquecer o silêncio da enorme e desértica savana. Mas esta última viagem materializava o regresso definitivo à civilização, ao bulício da cidade, ao trânsito, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Para mim, contudo, representava finalmente a fuga às agruras e aos tratos de polé infligidos por uma natureza hostil. Agora sim, a mata ficava para trás e a guerra, que sentimos ir desaparecendo das nossas vidas no sossego das Mabubas, chegara definitivamente ao fim.
Entrámos no Grafanil, uma espécie de antecâmara para o inferno das matas e o stress da guerra para quem chegava a Angola. Passáramos por isso dois anos e quase dois meses atrás. Mas, para nós, que chegávamos ao fim daquela malquista missão, representava o limiar da civilização e o recomeço da vida que ficara parada no tempo.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O adeus às Mabubas - Rendição II

Mais de um mês decorrera desde a festa comemorativa dos dois anos de permanência em Angola. A nossa missão chegara ao fim, mas ninguém pareceu impacientar-se com o “mata-bicho”, epíteto então utilizado para designar o excesso de tempo sobre os vinte e quatro meses da praxe. Mas, como não podia deixar de ser, chegou a notícia da rendição. Chegou, sem alaridos, sem ansiedade, sem pressas e ninguém exultou com a novidade. Nada aconteceu que se parecesse com a loucura desencadeada na Neriquinha por notícia semelhante.
Com efeito, quando o primeiro zumzum começou a circular, ninguém pareceu entusiasmado e o primeiro comentário não passou de um simples:
- Ei, pessoal! Parece que nos vêm render p’ra semana.
A reacção geral pareceu-me genericamente destituída de emoção, como se a coisa não fosse notícia importante. Do que recordo, não foi além da displicente interrogativa:
- Ah é? Já não era sem tempo.
Contudo, não obstante aqueles últimos oito meses da nossa missão em África tivessem decorrido como se do descanso do guerreiro se tratasse e todos se sentissem bem naquele agradável local, o anúncio não deixou de ser arauto de boa nova. A verdade é que, por muito aprazível que fosse, as Mabubas não eram a nossa terra. A proximidade do fim da comissão, festejada com pompa no mês anterior, espicaçara as saudades mantidas em suspenso ao longo daqueles infindáveis dois anos. O desejo incontido de abraçar família e amigos que, lá longe, no outro lado do oceano, nos esperavam com natural impaciência, foi ganhando intensidade. Dois anos é muito tempo especialmente se tivermos em consideração que, até ao momento em que nos vestiram a farda, uma grande parte daqueles homens nunca se afastara da família mais de um par de dias seguidos.
Como sempre, a notícia veio singela, sem pormenores. Seríamos rendidos antes do Natal embora nada fosse dito sobre o dia do regresso a casa, ao nosso Portugal pequenino ali carinhosamente apelidado de “puto”. Mas isso não pareceu preocupar a malta. A partir desse dia, passaríamos a estar em Luanda, de papo para o ar, sem operações militares ou quartos de sentinela, apenas aguardando, na grande cidade, o momento do regresso.
Chegaram finalmente aqueles que nos foram render. Foi numa segunda-feira, quando faltava apenas uma escassa semana para o Natal daquele ano de 1973. Não eram maçaricos. Vinham suados, sujos e com ar cansado a denunciar a longa viagem que os trouxera para ali. Vinham dos confins da savana, fartos de calcorrear picadas arenosas e sofrer na pela as agruras do clima e os duros traumas do isolamento hostil passado numa base militar plantada no meio de coisa nenhuma.
A história repetia-se. Sete meses antes éramos nós a aportar às Mabubas, também numa segunda-feira, resgatados às areias escaldantes do Cuando-Cubango. A companhia que agora nos rendia, pertencente ao Batalhão de Caçadores 4611, passou pelo mesmo mas no outro lado daquele bocado das terras do fim do mundo. Nós, num lado, calcorreando as margens do Rio Cuando, do Cúbia e do Uefo, eles no outro extremo, num ermo com centro em M’Pupa nas margens do Rio Cuito, bastante lá para baixo, um pouco antes de este misturar as suas águas com as do Rio Cubango para juntos se perderem, mais abaixo, no grande delta do Okavango. Parece que as Mabubas haviam sido eleitas pelas hierarquias como local de recobro de militares resgatados à grande savana.
O dia da rendição decorreu sem grandes alaridos, sem pressas ou ansiedades. Não houve praxes que é coisa que só se faz a maçaricos e nada havia para contar que interessasse a quem vinha prenhe de histórias rocambolescas. A passagem do testemunho foi feita naturalmente por gente já experimentada e conhecedora dos correspondentes preceitos protocolares e, em boa verdade, o que havia a entregar não era muito. Quer o depósito de géneros quer a cantina tinham stock reduzido de secos e molhados já que a proximidade dos fornecedores dispensava armazenagens excessivas. É que, deste lado, porque pertinho da civilização, as faltas eram facilmente supridas. Lá em baixo, no meio daquele deserto arenoso, era necessário garantir um stock de segurança; o fornecedor mais perto estava a dias de distância, a viagem era longa e atribulada e não era garantido que o reabastecimento mensal chegasse dentro dos horários.
Abraços, apertos de mão efusivos e um acenar de até sempre compuseram uma despedida muito distinta do nosso adeus à Neriquinha sete meses atrás. Cá como lá, deixaram-se amigos, diferentes mas igualmente amigos. Contudo, da paisagem lunar da Neriquinha todos tinham pressa de fugir e sem olhar para trás. Mas as Mabubas, um lugar aprazível, cheio de gente que nos tratou bem, não era propriamente um local de que se quisesse distância. Partimos felizes porque isso apenas significava que estava perto o regresso a casa; a nossa passagem pela guerra chegara definitivamente a seu termo.
Deixámos para os recém-chegados umas instalações condignas. Quartos arejadas, pintados de fresco e com cores garridas, decorados com alguma arte, cortinas a condizer e com a certeza de que, desta vez, não haveria necessidade de desinfestar as camas: mosquitos haveria sempre que esses não podem ser exterminados, mas percevejos, como os que nos infernizavam o sono na precária camarata da Neriquinha, era coisa que por ali nunca houve.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A FESTA

Já há algum tempo que os imbondeiros haviam florescido. Ninguém deu por isso nem pelo intenso odor a carniça que certamente exalaram. Floresceram durante a noite numa exuberância de branco açucena que não chegou a durar vinte e quatro horas. Por mim, apenas me lembro de, tempos depois dessa epifania floral, ter reparado naqueles grandes frutos dependurados de longos pedúnculos; a múkua é, de facto, um fruto esquisito a condizer com o gigantismo pouco elegante daquela árvore estranha.
Mas é assim, a acácia rubra floriu colorindo aqui e ali a paisagem de pinceladas avermelhadas, entrou novembro, a chuva ensaiou as primeiras borrascas e a paisagem começou de novo a verdecer. Não era propriamente o mês de sazão, que por aquelas bandas nenhum mês tem esse exclusivo, mas notava-se que as mangas intumesciam começando timidamente a ruborescer anunciando o princípio da maturação que lhes daria a doçura perfumada que as caracteriza, que banana, mamão e papaia há-os todo o ano. Talvez por isso ou por mera sugestão, o ar parecia-me rescender a fruta madura e aloés à mistura com o aroma adocicado e quente do dendém.
Por aquela altura, estava completa a adaptação aos rigores africanos. Já me parecia normal que as chuvas diluvianas viessem com o calor e há muito que considerava natural que não era possível dormir sem a protecção do dossel anti mosquito. É verdade! Sem darmos por isso, o tempo havia passado e estavam quase a completar-se dois anos desde que o Vera Cruz, após cruzar o oceano, nos deixara no cais de Luanda na ignorância do que nos esperava nem qual o nosso destino. Agora, que o tempo havia passado e não obstante os rigores sofridos, olhava-se para trás e, quiçá com o tempero do conforto das Mabubas, quase se podia pensar que o tempo passara depressa e isso merecia comemoração.
Pois é! Planeou-se um dia de festa e decidiu-se que seria num domingo. Aproveitava-se a folga do fim-de-semana e era o dia em que as Mabubas se enchiam de gente que, vinda de Luanda aos magotes, aproveitava o descanso semanal para visitar a barragem. Queríamos uma coisa memorável e o público ajudava a conferir grandeza aos festejos.
Não retenho pormenores mas creio que as acções preparatórias foram divididas por todos: era preciso organizar tudo, decidir o que fazer, planear os eventos, calendarizar as provas, inscrever concorrentes e convidar gente. Marcaram-se os itinerários, nomearam-se árbitros e fiscais de prova e definiram-se regras. E, como importava garantir o empenho dos competidores, mandaram-se fazer taças, galhardetes, prémios e outros troféus, três por cada modalidade, já que rancho melhorado estava garantido. Tudo autorizado pelo capitão com financiamento acautelado pelo nosso primeiro-sargento.
A promoção do evento também não foi descurada: imprimiram-se panfletos anunciando o programa de festas afixando-os por tudo quanto era sítio incluindo a tropa e o comércio do Caxito. Visitámos a pista de motocross de Luanda e chegámos a convencer alguns pilotos a participar. Enfim, um afã organizativo como se aquela fosse a nossa última missão já que, sem que se desse por isso, a guerra que para ali nos levou fora empurrada para a periferia do nosso arquivo de recordações.
Foi um dia memorável e quase se pode dizer que a localidade das Mabubas se engalanou. Não houve motocross porque não foi possível preparar uma pista adequada, mas substituímo-la por uma gincana de motorizadas. Quanto ao mais, correu tudo como planeado: a prova de pesca, sem grande empenho por parte dos peixes que não quiseram deixar-se apanhar, a natação em que o Zip, julgando-se perseguido por um crocodilo, bateu o seu record pessoal, o atletismo, com alguns craques à altura e finalmente o tão esperado rally automóvel. Na verdade, foi mais uma gincana na qual quem tinha carro participou: O Sr. Almeida com o seu Ford Escort, o João da mercearia a querer mostrar a potência do seu BMW 2002Ti novinho em folha, um desportivo de que não sou capaz de me lembrar a marca nem de quem era e, como não podia deixar ser, o velho Simca Aronde do “Bacalhau” que deu o que pôde mas sem condições para competir com a potência dos demais.
Finalmente, num cerimonial presidido pelo capitão, os prémios foram entregues aos vencedores, voltando o local à rotina de todos os dias. Tudo correra bem e terminou melhor.
À noite, como que fazendo o balanço da jornada, dei por mim a pensar que a nossa missão por terras africanas terminara. Tinham-se completado dois anos e agora apenas restava aguardar que outros nos viessem render. Pode parecer bizarro mas, ao contrário do que acontecera na Neriquinha, não senti qualquer tipo de impaciência relativamente à chegada desse dia, pelo menos naquele momento. Interiorizei apenas que podia ser em qualquer altura. Já não havia pressa e ali não se estava mal.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ferradelas de mosquitos

Não há volta a dar; clima tropical e mosquitos andam sempre emparceirados. Não é possível usufruir das cálidas vantagens de um serão africano sem ter de sentir na pele o incómodo doloroso das ferroadas violentas daqueles pequenos seres que se afanam incansáveis em dar cabo da paciência de qualquer ser vivente, sugando o sangue a quem não for capaz de os sacudir antes que consigam ancorar aquela minúscula ferramenta sugadora que dá pelo nome de ferrão. E o pior é que não são esquisitos, tanto ferram no coiro duro duma pacaça, como na pele enrugada e encortiçada de um velho ainda que antes tenham acabado de picar a sedosa derme de uma donzela, contribuído alegremente para a transmissão de doenças por inoculação.
Durante o dia, enquanto o sol faz valer o seu poder escandecente sobre os elementos, não se deixam ver mas, assim que o sol se esconde por detrás do horizonte e o lusco-fusco se instala, surgem em bandos zunindo numa infernal e irritante sinfonia monocórdica, penetrando por nesgas impensáveis, encontrando o mais esconso buraquinho no mosquiteiro para, conquistado o nosso reduto de sossego, nos sugar o sangue enquanto durar a noite.
E o pior é que calor e águas paradas formam o ambiente ideal para que se multipliquem, quer estejamos a falar das remotas e pantanosas chanas do Cuando Cubango quer do pacífico recato das Mabubas onde o enorme manancial de água da barragem, permanentemente mantido ao seu nível pelo incessante caudal do Rio Dande, constituía o alfobre ideal para que se multiplicassem incessantemente. É verdade, no que toca à guerra com os mosquitos, a nossa vida nas Mabubas não era melhor que a passada no desconforto da Neriquinha. Tanto aqui como lá, a guerra contra aquele exército zumbidor era renhida e não havia forma de os vencer.
Nos quartos de dormir, entrincheirados sob a redes mosquiteiras, quase sempre se conseguia dormir sem se ser incomodado, mas na messe, depois do jantar, quando nos juntávamos no alpendre para um bocado de conversa e mais o que conviesse para roer o tempo enquanto a hora do recolher não chegava, a horda de mosquitos atacava em força, de todos os lados, e nem a roupa servia de protecção. Mesmo o tecido grosso do camuflado era facilmente perfurado pelo ferrão aguçado da bicharada ávida de sangue que sabia escolher devidamente as carnes mais expostas ou mais frágeis para se banquetear.
As cadeiras de descanso da messe, aquelas onde, nas horas de ócio, costumávamos preguiçar, tinham uma construção simplista: estrutura em ferro tubular, sendo o assento e encosto formados com uma fita de plástico grosso e de cores garridas estrategicamente entrelaçada e firmemente ancorada na estrutura metálica, plástico que, cedendo sob o peso do corpo, oferecia o conforto necessário. Mas, isso permitia que, no intervalo entre as voltas da fita, bocados do rabo e das costas, ficassem à mercê da voracidade do mosquitame, perante a nossa impossibilidade em ripostar.
Era uma luta desigual já que, um ou outro que, com uma palmada certeira, se conseguia esborrachar, pouca ou nenhuma brecha fazia naquele exercício de milhões constantemente renovado, não obstante contarmos sempre com a ajuda adicional de um pequeno pelotão de osgas que se entretinham patrulhando a parede do alpendre da messe e emboscando as melgas mais distraídas. Com uma destreza impressionante e em avanços subtis, aproximavam-se dos insectos que por ali pousassem e num movimento tão rápido quanto um piscar de olhos, como se impulsionados por uma mola, precipitavam-se sobre a minúscula presa que, engolida, desaparecia como num passe de mágica.
Não tenho a certeza, mas creio que chegámos a atribuir nomes a algumas delas: bichos que, vá -se lá saber porquê, continuam a ser considerados por muita gente como repugnantes, eram, naquele sítio, encarados como animais de estimação. O facto é que, na messe, era rigorosamente proibido molestar osgas, mas imperativo liquidar melgas que, ainda assim, nos atacavam por baixo, ferrando o bocado da nádega que espichava por entre as fitas plásticas do assento da cadeira.
Pois é, o seu atrevimento não tinha limites e nem respeitavam autoridades ou hierarquias; desde que tivessem oportunidade de ferrar a aguilhão sugador, faziam-no sem pedir licença.
Certa vez, lá na sede do batalhão instalada num casarão de traça colonial implantado à sombra dos palmares da Fazenda Tentativa e gozando da frescura viçosa propiciada pela proximidade dos seus extensos canaviais, o comandante queixava-se perante a oficialada presente, como que se insurgindo contra as vorazes melgas que se atreviam a molestar tão distinta patente.
- Picam-me as pernas mesmo por cima das calças! - Desabafava com estupefacção.
Entre o grupo estava o major Tamegão, militar de carreira vindo do curso de sargentos que, já de idade avançada, atingira o posto base dos oficiais superiores do exército e que, desempenhando as funções de segundo comandante responsável pela burocracia administrativa do batalhão, cumpria então a última comissão da sua vida. Para se perceber melhor a cena, convém salientar que o major, espécie de cabo arvorado com galões, era um exemplo de cromo que ainda hoje alimenta o anedotário que anima qualquer encontro de quem com ele privou. Era um homem sui generis, exibindo uma figura física nada harmoniosa que faria as delícias de qualquer caricaturista: baixo, largo e desproporcionado, usava sempre calções que deixavam a descoberto as pernas curtas e enfezadas que pareciam suportar com dificuldade o resto do corpo, dando maior dimensão ao aspecto ridículo da sua figura, sem desprimor pelo homem que, verdade seja dita, não fez inimigos por ali.
Reagindo ao desabafo do comandante, o Tamegão tentou uma laracha, ripostando:
- A mim não!
A sua evidente falta de jeito para fazer humor, levou a que ninguém tenha percebido que tentava fazer piada e a prova é que o comandante, não entendendo o motejo, olhou directamente o major e muito sério questionou:
-Ora essa senhor major! As melgas não o picam?
O Tamegão, ensaiando um sorriso forçado numa vã tentativa de conferir significado ao seu fraco sentido de humor, apontou para a parte das pernas não coberta pelos calções, e respondeu:
- A mim, picam-me directamente na pele.

sábado, 8 de novembro de 2014

Barragem das MABUBAS, 2014


















Estas fotografias, são do actual estado da Barragem das Mabubas, recuperada pelos chineses e em cujas margens vão ser implantados alguns complexos turísticos. 2014.

sábado, 1 de novembro de 2014

Caçada nocturna

Já por diversas vezes me referi à riqueza da fauna que me habituei a ver deambular pelas imensas planuras do Cuando Cubango. A flora era escassa, o que se compreende; no meio daquele quase deserto matizado de chanas alagadiças, pouca coisa medrava. Contudo, era um verdadeiro paraíso para os animais de grande porte, a julgar pela quantidade e variedade que por ali havia. Aquele bocado de savana, definido pela faixa que vai do Rio Cuando até à chanas do Utembo, terreno maninho e semi-pantanoso que aprendi a conhecer por corresponder à área de actuação da companhia, era habitado por manadas de búfalos, de songues, de gungas, de guelengues e outras espécies onde se contavam as elegantes palancas, os simpáticos antílopes de várias espécies, os rezingões porcos do mato sempre de rabo no ar como se uma antena se tratasse e até coelhos, para só falar de alguns.
Bastava percorrer alguns quilómetros que mais cedo ou tarde os encontraríamos, especialmente nas imediações das chanas húmidas onde a erva permanecia verde e fresca mesmo quando a ausência de chuva transformava tudo em volta num imenso mar de palha seca. Assim, para compensar o magro orçamento que não permitia refeições de bifes de carne de vaca, faziam-se incursões periódicas à caça de carne fresca. Abatiam-se dois ou três animais que a perícia do Ferreira reduzia a bifes, bastando acrescentar-lhes os temperos e correspondente acompanhamento para o Morais compor o rancho, compensando assim a insuficiência de verba. Mas isso era no Cuando Cubango onde a pasmaceira reinante por falta do que fazer, tornava interessante palmilhar a imensa savana à caça da melhor peça. A gunga, por exemplo, espécie de antílope de grande porte, permitia fazer uns bifes que em nada ficavam a dever à melhor vitela.
Mas, nas Mabubas, nunca poderia ser assim. Desde logo porque a variedade não era tanta e o acidentado do terreno não motivava ninguém a aventuras de caça, não conseguindo ser alternativa à vida regrada que a animação social ia propiciando. Havendo muito por onde entreter o tempo a sedentarização ganhou espaço, os dias de pasmo deram lugar a uma intensa vida social e a aventura deixou de interessar. Mas, ainda assim, sabia-se que a mata que bordejava a imensa albufeira da barragem albergava algumas famílias de pacaças, bovídeo corpulento cuja carne se dizia não ser desagradável.
Ora, pacaça era bicho que ninguém da companhia alguma vez tinha visto e isso espicaçou a curiosidade. Isso e provavelmente as recordações das grandes aventuras em que se tornavam as idas à caça na grande savana de onde viemos. A ajudar, tínhamos à carga um barco zebro, destinado ao patrulhamento da barragem, com dimensão suficiente para transportar uma equipa de caça e trazer na volta os bichos que se deixassem apanhar.
Assim sendo, certa noite, reuniu-se um pequeno grupo decidido a aventurar-se na escuridão dos meandros da albufeira e que, tanto quanto me lembro, integrava o Capitão, o Gabriel - que para além do seu mais que demonstrado gosto por aquele tipo de aventuras era o responsável pela manutenção do zebro – e ainda, porque era preciso alguém que conhecesse os segredos daquela imensidão de água, o Sr. Tomé responsável pela barragem e o seu ajudante, o Gasolina, negro corpulento que conhecia tudo por ali.
Carregaram uma bateria a que ligaram firmemente um projector e lançaram-se à aventura fazendo o zebro deslizar devagar rasgando as águas adormecidas da barragem. O Gabriel levava a G3 aperrada, o Gasolina segurava a bateria garantindo alimentação permanente do farolim com o qual o Sr. Tomé ia varrendo a mata circundante, esquadrinhando cada recanto com o foco luminoso do improvisado projector. Não demorou muito até que a luz intensa, perfurando a noite, descobrisse os olhos brilhantes de duas pacaças que encadeadas pela intensidade da luz nem se moveram tornando-se em alvo fácil que dois tiros certeiros deitaram ao chão.
O problema agora era carregar os animais corpulentos no Zebro, coisa que não parecia ser fácil. Apontaram à margem e aceleram a fundo para que a proa do barco galgasse a margem rampante na esperança de que ali se imobilizasse. O zebro ganhou velocidade seguindo o túnel luminoso do farolim e exactamente quando se aproximava da margem, embateu violentamente num tronco submerso escondido na escuridão das águas, logo abaixo da superfície. O barco estacou repentinamente travado pelo inesperado obstáculo. Abanou violentamente desequilibrando os passageiros que, agarrando-se conforme puderam, evitaram cair à água.
Todos, excepto o Gasolina que, talvez entendendo que era importante não largar a bateria, a agarrou firmemente ficando sem hipótese de se segurar. Desequilibrou-se e caiu borda fora levando consigo a bateria cujo peso o empurrou para o fundo da barragem. Momentaneamente, no meio da escuridão, apenas deram pela falta do Negro sem que, no meio da confusão, alguém soubesse exactamente onde caíra. Fizeram incidir o halo de Luz do projector sobre a superfície das águas abruptamente tiradas da sua quietude, esperando que a todo o instante emergisse. Mas, pelos vistos, não foi isso que aconteceu embora o farolim continuasse aceso.
Foi então que o Sr. Tomé, como que inspirado na lenda de Ariadne, trazendo para realidade a fantasia mitológica, seguiu o fio que desaparecia nas escuras águas. Debruçou-se sobre a borda, esticou os braços, agarrou o seu ajudante pelo cabelo e puxou-o vigorosamente para a superfície. O Gasolina emergiu, sorvendo sofregamente o ar e, nunca largando a bateria, esperou que o ajudassem a subir para bordo, escorrendo água e arengando qualquer coisa à laia de justificação.
Com muito custo e permanente adornar do barco, carregaram as duas pacaças de cujo destino pouco recordo. Sei apenas que uma foi direitinha para o refeitório enquanto a outra foi transformada em petisco. Creio que, nas Mabubas, toda a gente comeu um bocado do churrasco em que se transformou aquela massa enorme de carne fresca.