domingo, 1 de março de 2015

Adeus às Mabubas - O regresso à cidade

Não teve história a nossa saída das Mabubas. O facto de não reter pormenores convence-me disso. Contudo, recordo-me muito bem de, talvez estupidamente, ter recordado o dia em que, montados nas viaturas do MVL, saímos do degredo da Neriquinha e iniciámos aquela empolgante aventura que foi a grande viagem desde as terras do fim do mundo até ao paraíso de que agora nos despedíamos. Bem, paraíso apenas por comparação com o inferno que nos serviu de morada nos primeiros dezoito meses e pouco, ermo do qual ninguém tinha saudades. Pela parte que me toca, nunca me passou pela cabeça que alguma vez pudesse voltar àquele quadrado areento delimitado por uma ferrugenta cerca de arame farpado. Contudo, admitia que, se alguma vez voltasse a Angola, um dos primeiros locais que procuraria visitar seria certamente a barragem e a camarata, provavelmente em ruínas, onde se situava o quarto que partilhei com o Morais e que decorámos como se fosse a nossa casa.
Mais uma vez encafuei as minhas tralhas dentro da mala, cuidei de verificar que não deixava nada para trás e arrumei tudo o melhor que pude numa das viaturas que, no largo frente ao comando, aguardavam o momento de nos levarem para a cidade. Acomodei-me num canto qualquer, disse adeus a quem ficava e aguardei sem pressa a hora da partida.
As viaturas subiram a rua, lentamente. Passaram frente à messe, depois pelo boteco do Manolo, o barracão do cinema e finalmente a cancela de controlo já guardada por soldados acabados de tomar o nosso lugar. A guerra seguia em frente, naquela sistemática substituição de contingentes, uns a chegar outros a partir numa permanente adaptação a novos lugares e novas missões. Para os recém-chegados, a acalmia necessária para lamber as feridas da alma, para nós, o adeus definitivo aos quartos de sentinela, às rondas nocturnas e à limpeza das armas, arrumadas a um canto desde que libertos da savana.
A viagem até Luanda foi curta e sem surpresas. Era uma estrada normal como todas as estradas. Nos últimos oito meses havíamo-la percorrido inúmeras vezes e era certo que nada iria acontecer que merecesse ser memorizado. Passámos pelo posto de controlo do Sassa, logo ali abaixo, antes do Caxito, bordejámos os canaviais da Tentativa onde uma máquina preparava a terra para nova plantação, atravessámos Porto Quipiri, o desvio para a Barra do Dande, depois Sassalemba, os campos de algodão e de mandioca e, em pouco tempo, logo depois de Kifangondo, iniciou-se a descida em direcção ao Cacuaco onde o bando de flamingos cor‑de‑rosa, catando a praia, parecia nunca dali ter saído passeando-se pachorrentamente como sempre os vi fazer nos últimos meses em que me habituei a mirá-los. Aquela seria a última vez; nunca mais os tornaria a ver.
Penetrámos o trânsito citadino. Nada a que já não estivéssemos habituados. Os últimos tempos nas Mabubas, com as frequentes idas e vindas a Luanda, fizeram-nos esquecer o silêncio da enorme e desértica savana. Mas esta última viagem materializava o regresso definitivo à civilização, ao bulício da cidade, ao trânsito, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Para mim, contudo, representava finalmente a fuga às agruras e aos tratos de polé infligidos por uma natureza hostil. Agora sim, a mata ficava para trás e a guerra, que sentimos ir desaparecendo das nossas vidas no sossego das Mabubas, chegara definitivamente ao fim.
Entrámos no Grafanil, uma espécie de antecâmara para o inferno das matas e o stress da guerra para quem chegava a Angola. Passáramos por isso dois anos e quase dois meses atrás. Mas, para nós, que chegávamos ao fim daquela malquista missão, representava o limiar da civilização e o recomeço da vida que ficara parada no tempo.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O adeus às Mabubas - Rendição II

Mais de um mês decorrera desde a festa comemorativa dos dois anos de permanência em Angola. A nossa missão chegara ao fim, mas ninguém pareceu impacientar-se com o “mata-bicho”, epíteto então utilizado para designar o excesso de tempo sobre os vinte e quatro meses da praxe. Mas, como não podia deixar de ser, chegou a notícia da rendição. Chegou, sem alaridos, sem ansiedade, sem pressas e ninguém exultou com a novidade. Nada aconteceu que se parecesse com a loucura desencadeada na Neriquinha por notícia semelhante.
Com efeito, quando o primeiro zumzum começou a circular, ninguém pareceu entusiasmado e o primeiro comentário não passou de um simples:
- Ei, pessoal! Parece que nos vêm render p’ra semana.
A reacção geral pareceu-me genericamente destituída de emoção, como se a coisa não fosse notícia importante. Do que recordo, não foi além da displicente interrogativa:
- Ah é? Já não era sem tempo.
Contudo, não obstante aqueles últimos oito meses da nossa missão em África tivessem decorrido como se do descanso do guerreiro se tratasse e todos se sentissem bem naquele agradável local, o anúncio não deixou de ser arauto de boa nova. A verdade é que, por muito aprazível que fosse, as Mabubas não eram a nossa terra. A proximidade do fim da comissão, festejada com pompa no mês anterior, espicaçara as saudades mantidas em suspenso ao longo daqueles infindáveis dois anos. O desejo incontido de abraçar família e amigos que, lá longe, no outro lado do oceano, nos esperavam com natural impaciência, foi ganhando intensidade. Dois anos é muito tempo especialmente se tivermos em consideração que, até ao momento em que nos vestiram a farda, uma grande parte daqueles homens nunca se afastara da família mais de um par de dias seguidos.
Como sempre, a notícia veio singela, sem pormenores. Seríamos rendidos antes do Natal embora nada fosse dito sobre o dia do regresso a casa, ao nosso Portugal pequenino ali carinhosamente apelidado de “puto”. Mas isso não pareceu preocupar a malta. A partir desse dia, passaríamos a estar em Luanda, de papo para o ar, sem operações militares ou quartos de sentinela, apenas aguardando, na grande cidade, o momento do regresso.
Chegaram finalmente aqueles que nos foram render. Foi numa segunda-feira, quando faltava apenas uma escassa semana para o Natal daquele ano de 1973. Não eram maçaricos. Vinham suados, sujos e com ar cansado a denunciar a longa viagem que os trouxera para ali. Vinham dos confins da savana, fartos de calcorrear picadas arenosas e sofrer na pela as agruras do clima e os duros traumas do isolamento hostil passado numa base militar plantada no meio de coisa nenhuma.
A história repetia-se. Sete meses antes éramos nós a aportar às Mabubas, também numa segunda-feira, resgatados às areias escaldantes do Cuando-Cubango. A companhia que agora nos rendia, pertencente ao Batalhão de Caçadores 4611, passou pelo mesmo mas no outro lado daquele bocado das terras do fim do mundo. Nós, num lado, calcorreando as margens do Rio Cuando, do Cúbia e do Uefo, eles no outro extremo, num ermo com centro em M’Pupa nas margens do Rio Cuito, bastante lá para baixo, um pouco antes de este misturar as suas águas com as do Rio Cubango para juntos se perderem, mais abaixo, no grande delta do Okavango. Parece que as Mabubas haviam sido eleitas pelas hierarquias como local de recobro de militares resgatados à grande savana.
O dia da rendição decorreu sem grandes alaridos, sem pressas ou ansiedades. Não houve praxes que é coisa que só se faz a maçaricos e nada havia para contar que interessasse a quem vinha prenhe de histórias rocambolescas. A passagem do testemunho foi feita naturalmente por gente já experimentada e conhecedora dos correspondentes preceitos protocolares e, em boa verdade, o que havia a entregar não era muito. Quer o depósito de géneros quer a cantina tinham stock reduzido de secos e molhados já que a proximidade dos fornecedores dispensava armazenagens excessivas. É que, deste lado, porque pertinho da civilização, as faltas eram facilmente supridas. Lá em baixo, no meio daquele deserto arenoso, era necessário garantir um stock de segurança; o fornecedor mais perto estava a dias de distância, a viagem era longa e atribulada e não era garantido que o reabastecimento mensal chegasse dentro dos horários.
Abraços, apertos de mão efusivos e um acenar de até sempre compuseram uma despedida muito distinta do nosso adeus à Neriquinha sete meses atrás. Cá como lá, deixaram-se amigos, diferentes mas igualmente amigos. Contudo, da paisagem lunar da Neriquinha todos tinham pressa de fugir e sem olhar para trás. Mas as Mabubas, um lugar aprazível, cheio de gente que nos tratou bem, não era propriamente um local de que se quisesse distância. Partimos felizes porque isso apenas significava que estava perto o regresso a casa; a nossa passagem pela guerra chegara definitivamente a seu termo.
Deixámos para os recém-chegados umas instalações condignas. Quartos arejadas, pintados de fresco e com cores garridas, decorados com alguma arte, cortinas a condizer e com a certeza de que, desta vez, não haveria necessidade de desinfestar as camas: mosquitos haveria sempre que esses não podem ser exterminados, mas percevejos, como os que nos infernizavam o sono na precária camarata da Neriquinha, era coisa que por ali nunca houve.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A FESTA

Já há algum tempo que os imbondeiros haviam florescido. Ninguém deu por isso nem pelo intenso odor a carniça que certamente exalaram. Floresceram durante a noite numa exuberância de branco açucena que não chegou a durar vinte e quatro horas. Por mim, apenas me lembro de, tempos depois dessa epifania floral, ter reparado naqueles grandes frutos dependurados de longos pedúnculos; a múkua é, de facto, um fruto esquisito a condizer com o gigantismo pouco elegante daquela árvore estranha.
Mas é assim, a acácia rubra floriu colorindo aqui e ali a paisagem de pinceladas avermelhadas, entrou novembro, a chuva ensaiou as primeiras borrascas e a paisagem começou de novo a verdecer. Não era propriamente o mês de sazão, que por aquelas bandas nenhum mês tem esse exclusivo, mas notava-se que as mangas intumesciam começando timidamente a ruborescer anunciando o princípio da maturação que lhes daria a doçura perfumada que as caracteriza, que banana, mamão e papaia há-os todo o ano. Talvez por isso ou por mera sugestão, o ar parecia-me rescender a fruta madura e aloés à mistura com o aroma adocicado e quente do dendém.
Por aquela altura, estava completa a adaptação aos rigores africanos. Já me parecia normal que as chuvas diluvianas viessem com o calor e há muito que considerava natural que não era possível dormir sem a protecção do dossel anti mosquito. É verdade! Sem darmos por isso, o tempo havia passado e estavam quase a completar-se dois anos desde que o Vera Cruz, após cruzar o oceano, nos deixara no cais de Luanda na ignorância do que nos esperava nem qual o nosso destino. Agora, que o tempo havia passado e não obstante os rigores sofridos, olhava-se para trás e, quiçá com o tempero do conforto das Mabubas, quase se podia pensar que o tempo passara depressa e isso merecia comemoração.
Pois é! Planeou-se um dia de festa e decidiu-se que seria num domingo. Aproveitava-se a folga do fim-de-semana e era o dia em que as Mabubas se enchiam de gente que, vinda de Luanda aos magotes, aproveitava o descanso semanal para visitar a barragem. Queríamos uma coisa memorável e o público ajudava a conferir grandeza aos festejos.
Não retenho pormenores mas creio que as acções preparatórias foram divididas por todos: era preciso organizar tudo, decidir o que fazer, planear os eventos, calendarizar as provas, inscrever concorrentes e convidar gente. Marcaram-se os itinerários, nomearam-se árbitros e fiscais de prova e definiram-se regras. E, como importava garantir o empenho dos competidores, mandaram-se fazer taças, galhardetes, prémios e outros troféus, três por cada modalidade, já que rancho melhorado estava garantido. Tudo autorizado pelo capitão com financiamento acautelado pelo nosso primeiro-sargento.
A promoção do evento também não foi descurada: imprimiram-se panfletos anunciando o programa de festas afixando-os por tudo quanto era sítio incluindo a tropa e o comércio do Caxito. Visitámos a pista de motocross de Luanda e chegámos a convencer alguns pilotos a participar. Enfim, um afã organizativo como se aquela fosse a nossa última missão já que, sem que se desse por isso, a guerra que para ali nos levou fora empurrada para a periferia do nosso arquivo de recordações.
Foi um dia memorável e quase se pode dizer que a localidade das Mabubas se engalanou. Não houve motocross porque não foi possível preparar uma pista adequada, mas substituímo-la por uma gincana de motorizadas. Quanto ao mais, correu tudo como planeado: a prova de pesca, sem grande empenho por parte dos peixes que não quiseram deixar-se apanhar, a natação em que o Zip, julgando-se perseguido por um crocodilo, bateu o seu record pessoal, o atletismo, com alguns craques à altura e finalmente o tão esperado rally automóvel. Na verdade, foi mais uma gincana na qual quem tinha carro participou: O Sr. Almeida com o seu Ford Escort, o João da mercearia a querer mostrar a potência do seu BMW 2002Ti novinho em folha, um desportivo de que não sou capaz de me lembrar a marca nem de quem era e, como não podia deixar ser, o velho Simca Aronde do “Bacalhau” que deu o que pôde mas sem condições para competir com a potência dos demais.
Finalmente, num cerimonial presidido pelo capitão, os prémios foram entregues aos vencedores, voltando o local à rotina de todos os dias. Tudo correra bem e terminou melhor.
À noite, como que fazendo o balanço da jornada, dei por mim a pensar que a nossa missão por terras africanas terminara. Tinham-se completado dois anos e agora apenas restava aguardar que outros nos viessem render. Pode parecer bizarro mas, ao contrário do que acontecera na Neriquinha, não senti qualquer tipo de impaciência relativamente à chegada desse dia, pelo menos naquele momento. Interiorizei apenas que podia ser em qualquer altura. Já não havia pressa e ali não se estava mal.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Ferradelas de mosquitos

Não há volta a dar; clima tropical e mosquitos andam sempre emparceirados. Não é possível usufruir das cálidas vantagens de um serão africano sem ter de sentir na pele o incómodo doloroso das ferroadas violentas daqueles pequenos seres que se afanam incansáveis em dar cabo da paciência de qualquer ser vivente, sugando o sangue a quem não for capaz de os sacudir antes que consigam ancorar aquela minúscula ferramenta sugadora que dá pelo nome de ferrão. E o pior é que não são esquisitos, tanto ferram no coiro duro duma pacaça, como na pele enrugada e encortiçada de um velho ainda que antes tenham acabado de picar a sedosa derme de uma donzela, contribuído alegremente para a transmissão de doenças por inoculação.
Durante o dia, enquanto o sol faz valer o seu poder escandecente sobre os elementos, não se deixam ver mas, assim que o sol se esconde por detrás do horizonte e o lusco-fusco se instala, surgem em bandos zunindo numa infernal e irritante sinfonia monocórdica, penetrando por nesgas impensáveis, encontrando o mais esconso buraquinho no mosquiteiro para, conquistado o nosso reduto de sossego, nos sugar o sangue enquanto durar a noite.
E o pior é que calor e águas paradas formam o ambiente ideal para que se multipliquem, quer estejamos a falar das remotas e pantanosas chanas do Cuando Cubango quer do pacífico recato das Mabubas onde o enorme manancial de água da barragem, permanentemente mantido ao seu nível pelo incessante caudal do Rio Dande, constituía o alfobre ideal para que se multiplicassem incessantemente. É verdade, no que toca à guerra com os mosquitos, a nossa vida nas Mabubas não era melhor que a passada no desconforto da Neriquinha. Tanto aqui como lá, a guerra contra aquele exército zumbidor era renhida e não havia forma de os vencer.
Nos quartos de dormir, entrincheirados sob a redes mosquiteiras, quase sempre se conseguia dormir sem se ser incomodado, mas na messe, depois do jantar, quando nos juntávamos no alpendre para um bocado de conversa e mais o que conviesse para roer o tempo enquanto a hora do recolher não chegava, a horda de mosquitos atacava em força, de todos os lados, e nem a roupa servia de protecção. Mesmo o tecido grosso do camuflado era facilmente perfurado pelo ferrão aguçado da bicharada ávida de sangue que sabia escolher devidamente as carnes mais expostas ou mais frágeis para se banquetear.
As cadeiras de descanso da messe, aquelas onde, nas horas de ócio, costumávamos preguiçar, tinham uma construção simplista: estrutura em ferro tubular, sendo o assento e encosto formados com uma fita de plástico grosso e de cores garridas estrategicamente entrelaçada e firmemente ancorada na estrutura metálica, plástico que, cedendo sob o peso do corpo, oferecia o conforto necessário. Mas, isso permitia que, no intervalo entre as voltas da fita, bocados do rabo e das costas, ficassem à mercê da voracidade do mosquitame, perante a nossa impossibilidade em ripostar.
Era uma luta desigual já que, um ou outro que, com uma palmada certeira, se conseguia esborrachar, pouca ou nenhuma brecha fazia naquele exercício de milhões constantemente renovado, não obstante contarmos sempre com a ajuda adicional de um pequeno pelotão de osgas que se entretinham patrulhando a parede do alpendre da messe e emboscando as melgas mais distraídas. Com uma destreza impressionante e em avanços subtis, aproximavam-se dos insectos que por ali pousassem e num movimento tão rápido quanto um piscar de olhos, como se impulsionados por uma mola, precipitavam-se sobre a minúscula presa que, engolida, desaparecia como num passe de mágica.
Não tenho a certeza, mas creio que chegámos a atribuir nomes a algumas delas: bichos que, vá -se lá saber porquê, continuam a ser considerados por muita gente como repugnantes, eram, naquele sítio, encarados como animais de estimação. O facto é que, na messe, era rigorosamente proibido molestar osgas, mas imperativo liquidar melgas que, ainda assim, nos atacavam por baixo, ferrando o bocado da nádega que espichava por entre as fitas plásticas do assento da cadeira.
Pois é, o seu atrevimento não tinha limites e nem respeitavam autoridades ou hierarquias; desde que tivessem oportunidade de ferrar a aguilhão sugador, faziam-no sem pedir licença.
Certa vez, lá na sede do batalhão instalada num casarão de traça colonial implantado à sombra dos palmares da Fazenda Tentativa e gozando da frescura viçosa propiciada pela proximidade dos seus extensos canaviais, o comandante queixava-se perante a oficialada presente, como que se insurgindo contra as vorazes melgas que se atreviam a molestar tão distinta patente.
- Picam-me as pernas mesmo por cima das calças! - Desabafava com estupefacção.
Entre o grupo estava o major Tamegão, militar de carreira vindo do curso de sargentos que, já de idade avançada, atingira o posto base dos oficiais superiores do exército e que, desempenhando as funções de segundo comandante responsável pela burocracia administrativa do batalhão, cumpria então a última comissão da sua vida. Para se perceber melhor a cena, convém salientar que o major, espécie de cabo arvorado com galões, era um exemplo de cromo que ainda hoje alimenta o anedotário que anima qualquer encontro de quem com ele privou. Era um homem sui generis, exibindo uma figura física nada harmoniosa que faria as delícias de qualquer caricaturista: baixo, largo e desproporcionado, usava sempre calções que deixavam a descoberto as pernas curtas e enfezadas que pareciam suportar com dificuldade o resto do corpo, dando maior dimensão ao aspecto ridículo da sua figura, sem desprimor pelo homem que, verdade seja dita, não fez inimigos por ali.
Reagindo ao desabafo do comandante, o Tamegão tentou uma laracha, ripostando:
- A mim não!
A sua evidente falta de jeito para fazer humor, levou a que ninguém tenha percebido que tentava fazer piada e a prova é que o comandante, não entendendo o motejo, olhou directamente o major e muito sério questionou:
-Ora essa senhor major! As melgas não o picam?
O Tamegão, ensaiando um sorriso forçado numa vã tentativa de conferir significado ao seu fraco sentido de humor, apontou para a parte das pernas não coberta pelos calções, e respondeu:
- A mim, picam-me directamente na pele.

sábado, 8 de novembro de 2014

Barragem das MABUBAS, 2014


















Estas fotografias, são do actual estado da Barragem das Mabubas, recuperada pelos chineses e em cujas margens vão ser implantados alguns complexos turísticos. 2014.

sábado, 1 de novembro de 2014

Caçada nocturna

Já por diversas vezes me referi à riqueza da fauna que me habituei a ver deambular pelas imensas planuras do Cuando Cubango. A flora era escassa, o que se compreende; no meio daquele quase deserto matizado de chanas alagadiças, pouca coisa medrava. Contudo, era um verdadeiro paraíso para os animais de grande porte, a julgar pela quantidade e variedade que por ali havia. Aquele bocado de savana, definido pela faixa que vai do Rio Cuando até à chanas do Utembo, terreno maninho e semi-pantanoso que aprendi a conhecer por corresponder à área de actuação da companhia, era habitado por manadas de búfalos, de songues, de gungas, de guelengues e outras espécies onde se contavam as elegantes palancas, os simpáticos antílopes de várias espécies, os rezingões porcos do mato sempre de rabo no ar como se uma antena se tratasse e até coelhos, para só falar de alguns.
Bastava percorrer alguns quilómetros que mais cedo ou tarde os encontraríamos, especialmente nas imediações das chanas húmidas onde a erva permanecia verde e fresca mesmo quando a ausência de chuva transformava tudo em volta num imenso mar de palha seca. Assim, para compensar o magro orçamento que não permitia refeições de bifes de carne de vaca, faziam-se incursões periódicas à caça de carne fresca. Abatiam-se dois ou três animais que a perícia do Ferreira reduzia a bifes, bastando acrescentar-lhes os temperos e correspondente acompanhamento para o Morais compor o rancho, compensando assim a insuficiência de verba. Mas isso era no Cuando Cubango onde a pasmaceira reinante por falta do que fazer, tornava interessante palmilhar a imensa savana à caça da melhor peça. A gunga, por exemplo, espécie de antílope de grande porte, permitia fazer uns bifes que em nada ficavam a dever à melhor vitela.
Mas, nas Mabubas, nunca poderia ser assim. Desde logo porque a variedade não era tanta e o acidentado do terreno não motivava ninguém a aventuras de caça, não conseguindo ser alternativa à vida regrada que a animação social ia propiciando. Havendo muito por onde entreter o tempo a sedentarização ganhou espaço, os dias de pasmo deram lugar a uma intensa vida social e a aventura deixou de interessar. Mas, ainda assim, sabia-se que a mata que bordejava a imensa albufeira da barragem albergava algumas famílias de pacaças, bovídeo corpulento cuja carne se dizia não ser desagradável.
Ora, pacaça era bicho que ninguém da companhia alguma vez tinha visto e isso espicaçou a curiosidade. Isso e provavelmente as recordações das grandes aventuras em que se tornavam as idas à caça na grande savana de onde viemos. A ajudar, tínhamos à carga um barco zebro, destinado ao patrulhamento da barragem, com dimensão suficiente para transportar uma equipa de caça e trazer na volta os bichos que se deixassem apanhar.
Assim sendo, certa noite, reuniu-se um pequeno grupo decidido a aventurar-se na escuridão dos meandros da albufeira e que, tanto quanto me lembro, integrava o Capitão, o Gabriel - que para além do seu mais que demonstrado gosto por aquele tipo de aventuras era o responsável pela manutenção do zebro – e ainda, porque era preciso alguém que conhecesse os segredos daquela imensidão de água, o Sr. Tomé responsável pela barragem e o seu ajudante, o Gasolina, negro corpulento que conhecia tudo por ali.
Carregaram uma bateria a que ligaram firmemente um projector e lançaram-se à aventura fazendo o zebro deslizar devagar rasgando as águas adormecidas da barragem. O Gabriel levava a G3 aperrada, o Gasolina segurava a bateria garantindo alimentação permanente do farolim com o qual o Sr. Tomé ia varrendo a mata circundante, esquadrinhando cada recanto com o foco luminoso do improvisado projector. Não demorou muito até que a luz intensa, perfurando a noite, descobrisse os olhos brilhantes de duas pacaças que encadeadas pela intensidade da luz nem se moveram tornando-se em alvo fácil que dois tiros certeiros deitaram ao chão.
O problema agora era carregar os animais corpulentos no Zebro, coisa que não parecia ser fácil. Apontaram à margem e aceleram a fundo para que a proa do barco galgasse a margem rampante na esperança de que ali se imobilizasse. O zebro ganhou velocidade seguindo o túnel luminoso do farolim e exactamente quando se aproximava da margem, embateu violentamente num tronco submerso escondido na escuridão das águas, logo abaixo da superfície. O barco estacou repentinamente travado pelo inesperado obstáculo. Abanou violentamente desequilibrando os passageiros que, agarrando-se conforme puderam, evitaram cair à água.
Todos, excepto o Gasolina que, talvez entendendo que era importante não largar a bateria, a agarrou firmemente ficando sem hipótese de se segurar. Desequilibrou-se e caiu borda fora levando consigo a bateria cujo peso o empurrou para o fundo da barragem. Momentaneamente, no meio da escuridão, apenas deram pela falta do Negro sem que, no meio da confusão, alguém soubesse exactamente onde caíra. Fizeram incidir o halo de Luz do projector sobre a superfície das águas abruptamente tiradas da sua quietude, esperando que a todo o instante emergisse. Mas, pelos vistos, não foi isso que aconteceu embora o farolim continuasse aceso.
Foi então que o Sr. Tomé, como que inspirado na lenda de Ariadne, trazendo para realidade a fantasia mitológica, seguiu o fio que desaparecia nas escuras águas. Debruçou-se sobre a borda, esticou os braços, agarrou o seu ajudante pelo cabelo e puxou-o vigorosamente para a superfície. O Gasolina emergiu, sorvendo sofregamente o ar e, nunca largando a bateria, esperou que o ajudassem a subir para bordo, escorrendo água e arengando qualquer coisa à laia de justificação.
Com muito custo e permanente adornar do barco, carregaram as duas pacaças de cujo destino pouco recordo. Sei apenas que uma foi direitinha para o refeitório enquanto a outra foi transformada em petisco. Creio que, nas Mabubas, toda a gente comeu um bocado do churrasco em que se transformou aquela massa enorme de carne fresca.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

VIZINHOS

O relacionamento da tropa com os habitantes das Mabubas processou-se de forma natural. Ao fim de alguns meses estava absolutamente sedimentado conferindo àquela pequena urbe outra dimensão o que é o mesmo que dizer que os forasteiros fardados, resgatados às areias das terras do fim do mundo se adaptaram rapidamente ao novo ambiente, fundindo-se com o novo meio social num processo incontornável de criação de laços semelhantes aos quase esquecidos hábitos das aldeias de onde cada um provinha. Criaram-se novos hábitos e rotinas, lançaram-se raízes, cimentaram-se amizades e como acontece em qualquer comunidade, romperam-se outras como foi o caso do episódio que fez azedar irrevogavelmente relacionamentos recentes. Quer se queira quer não, o incidente com o tasqueiro Manolo, determinou que, entre outras coisas, alguns furriéis até então assíduos frequentadores do seu estaminé, se vissem obrigados a recorrer de novo à messe voltando, na falta da imperial, à cerveja bebida pela garrafa e a contentarem-se com a ementa do Morais aprimorada, se assim se pode dizer, pelas agora já mais bem treinadas habilidades do cozinheiro Lourenço. A lamentável demonstração de ciúmes do Manolo, manifestada com violentas vergastadas sobre as costas do Mota, não nos deixou outra alternativa senão abdicarmos dos acepipes da dona Benvinda que bom jeito dava quando a ementa da messe não agradava.
A verdade é que, tirando isso, o entrosamento da tropa com as pessoas se fez naturalmente, ajudado pelo facto de as instalações militares, sem muros ou ameias, estarem misturadas com as habitações civis. O ambiente de aldeia era visível a qualquer hora especialmente à noite quando a conversa animava a rua e se passavam serões esparramados no alpendre da messe, sentados no rebate da porta ou no degrau da casa de um vizinho, ou ainda, se fosse caso disso, em bancos ou cadeiras trazidas de propósito, diluindo o ambiente militar que, mal o sol se punha, quase desaparecia. Entretinha-se assim o serão aproveitando o fresco da noite enquanto o sono ou a hora da deita não chegava.
Foi graças a esta vizinhança que tive o ensejo de assistir à arte de cozinhar a célebre Muamba. Uma mulher, incontestavelmente com dedo para a cozinha, vinda dos lados do Sassa, costumava tratar da casa do lado; pelo menos a Dona Zulmira não prescindia dos seus dotes. O pátio traseiro entalado entre o da messe dos oficiais e a dos sargentos era o local utilizado para a função. Num pequeno pilão, esmagava as rosadas bagas de dendém colhidas pela manhã das palmeiras abundantes ao longo das margens do Rio Dande, despejava água a ferver sobre as bagas esmagadas e com uma perícia aprimorada pela longa experiência, retirava com uma colher a ténue película de óleo dourado que se formava à tona do líquido acastanhado da lavagem. Depois, juntava aquele óleo fresco e perfumado à molhanga onde mergulhava a galinha, os kiabos e demais temperos. Sei do que falo: a Dona Zulmira convidou-me um par de vezes para saborear o petisco e garanto que nunca mais voltei a comer coisa igual. Não sei se aquele adocicado e apetitoso sabor se devia à frescura do dendém, se à qualidade da galinha ou aos dotes da cozinheira. O mais provável era ser o resultado de todos eles. Só não me agradava a viscosidade do Kiabo e não me parecia nada apetitoso o aspecto estranho e peganhento do funge.
- Coma, olhe que melhor do que isso não vai encontrar em lado nenhum. Incitava a senhora.
Enfim, privilégios de que nem todos se podiam gabar de usufruir aos quais ainda se poderia acrescentar a fatia do bolo acabadinho de sair do forno. E isto sem contar com o jeitinho que deu à camisa que eu comprara em Luanda, apertando as costuras para que ficasse justa ao corpo como então se usava e ainda a trabalheira que teve em costurar os cortinados com que decorámos o quarto. Enfim, pouco faltou para me sentir adoptado como filho. Pelos vistos a senhora gostava de mim, talvez porque, de vez em quando, lhe arranjasse uma garrafita de licor, uma ou duas de vinho do Porto, uma ou outra de whisky encomendada pelo marido, o Sr Almeida, coisinhas que, vindas directamente da Manutenção Militar, sempre ficavam mais baratas.
É claro que estes agrados não vinham só da família do Sr. Almeida. A boa vizinhança era manifestada sem preconceitos e de diversas formas conforme a disponibilidade e a maneira de ser de cada um. Certo dia, eu e o Morais fomos convidados pela família que habitava a casa ao lado para uma ida à praia. Arrumámo-nos no apertado assento traseiro do novinho “NSU Prinz”, abrimos alas para dar lugar à pequenita filha do casal que se acomodou entre os dois e lá fomos passar o domingo à Barra do Dande. Não me lembro se foi ou não divertido, mas recordo que era um lugar aprazível e no restaurante abarracado que lá existia comia-se lagosta ao preço de carapau.
Não admira que aquele fim de comissão nas Mabubas tenha passado depressa. Com tantas mordomias, as saudades de casa foram ficando adormecidas. Por vezes quase esquecidas.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Trânsito citadino

Os milhentos ditames que compunham as regras pelas quais, naquele tempo, qualquer militar se devia pautar, eram uma preocupação permanente; um passo em falso, daqueles susceptíveis de constituir infracção a um qualquer artigo do RDM, podia transformar-se numa mão cheia de chatices, especialmente se a falta fosse cometida na presença de um daqueles militares da treta que costumavam adejar pelos corredores da burocracia militar. O desgraçado regulamento era tão persecutório que quase se pode dizer ser impossível não cometer infracções; Infringi-lo ou não era pura questão de sorte ou azar.
Libertos que estávamos das agruras ostracizantes da Neriquinha, uma das possíveis infracções que passou a ser minha preocupação frequente prendia-se com a eventualidade de, na qualidade de graduado, poder ser punido em consequência de um eventual acidente com uma viatura em que seguisse. É verdade, mesmo não estando ao volante, o graduado que seguisse na viatura podia ser responsabilizado por uma infracção ou aselhice do condutor.
Enquanto andámos pelas picadas empoeiradas do Cuando Cubango, isso não era problema porque, ali, ninguém tinha que se preocupar com o cumprimento das regras de trânsito. Naquele imenso ermo, ter essa preocupação até seria ridículo: não havia estradas, trânsito ninguém sabia o que era, cruzamentos eram apenas encontros de caminhos que levavam a lugar nenhum e sinais de trânsito ou o que quer que se pudesse aproximar das regras que preocupam quem conduz um automóvel eram coisas de ficção. A liberdade era total e as viaturas, preparadas para andar naqueles itinerários arenosos, circulavam por onde fosse preciso sem qualquer problema. Naquele mar de areia e lama a grande preocupação era a de saber por onde se andava, mas apenas para que não nos perdêssemos naquelas planuras imensas ou para nos pouparmos à carga de trabalhos necessários ao desatascanço de uma viatura que o desconhecimento ou nabice do condutor levasse para terreno menos consistente.
Agora, longe das picadas arenosas rolando por estradas asfaltadas e sem buracos, a condução era muito mais fácil, cómoda e quase sem riscos. Contudo, para condutores que se habituaram por demasiado tempo a ignorar o código da estrada e a não terem de repartir os caminhos por onde andavam com automóveis de toda a espécie, as preocupações eram muitas tanto para os condutores como para os graduados que, por inerência do posto, chefiavam a viatura em que seguissem. Pela parte que me toca, passei, sem motivo, por algumas dores de barriga, pelo menos até começar a ganhar confiança no homem que tinha a missão de conduzir.
Nas Mabubas, fui incumbido de gerir a cantina e isso implicava idas frequentes a Luanda para a necessária reposição de stocks, garantindo que, pelo menos, tabaco e cerveja nunca faltassem. As primeiras viagens foram, pelo menos para mim, exercícios de habituação. Primeiro estranhei a ausência dos saltos e ressaltos a que me habituara nos percursos esburacados das picadas sinuosas; depois fui-me familiarizando com a estrada pouco movimentada que, após cerca de uma hora de caminho, ali, logo a seguir ao Cacuaco, onde um bando de flamingos em lento movimento, pintando toda a praia de um cor-de-rosa suave, dava lugar ao trânsito citadino da então cosmopolita Luanda.
Era aí que começavam as minhas preocupações. Embora o condutor parecesse dar bem conta do recado, eu interferia na condução. Ainda que a contra gosto, avisava, alertava, carregava num pedal de travão imaginário sempre que a distância do carro da frente parecia encurtar.
- Olha que o gajo vai virar! Cuidado que vai travar! Olha aquele ali que vem para cima de nós!
O condutor, esse, nada dizia, mais parecendo conhecer o caminho que, por aquelas alturas me era totalmente desconhecido. Depois, era a estrada de Catete, naquele seu troço inicial que levava ao Grafanil. O limite de velocidade quedava-se pelos sessenta quilómetros por hora e a porcaria do velocímetro do Unimog indicava a velocidade em milhas. Afanava-me a fazer contas de cabeça, convertendo milhas em metros, até perceber que tudo estaria bem se o ponteiro não passasse além de certo ponto que, calculara eu, corresponderia, mais ou menos, à velocidade máxima permitida: sermos apanhados pela polícia militar em excesso de velocidade, mesmo que apenas por alguns metros, podia fazer nascer um processo disciplinar, cuja pena seria mais gravosa para mim do que para o condutor. Consequentemente, eu insistia:
- Oh pá! Vai mais devagar! Olha que estes gajos da PM são todos uns grandes filhos da puta.
A ansiedade baixava assim que entrava à porta do Grafanil. Por ali andava-se devagar, percorrendo cada um dos barracões da manutenção militar à procura dos produtos necessários: bebidas alcoólicas num, refrigerantes noutro, enlatados num terceiro, depois o das bolachas, o dos produtos de higiene, enfim um supermercado repartido por armazéns espalhados por aquele vasto recinto. Depois de tudo carregado, recomeçava a saga, agora em sentido inverso até nos libertarmos finalmente do trânsito citadino. Uma paragem numa das cervejarias do Cacuaco para matar a sede e saborear uns camarões era suficiente para descomprimir. Depois disso, o caminho de volta a casa era uma bênção; o trânsito era pouco, a estrada não era má e os condutores eram de confiança.

Com o tempo, acabei por me habituar, ou porque as ruas de Luanda se tornaram familiares ou porque o trânsito era agora encarado como rotina normal, ou ainda porque, afinal, concluí que não valia a pena tanta preocupação. Acidentes, acontecem, por muitos cuidados que se tenham; na verdade, nunca tivemos qualquer percalço, nenhum acidente veio conspurcar aquele pacífico fim de comissão às portas de Luanda.