sábado, 8 de novembro de 2014

Barragem das MABUBAS, 2014


















Estas fotografias, são do actual estado da Barragem das Mabubas, recuperada pelos chineses e em cujas margens vão ser implantados alguns complexos turísticos. 2014.

sábado, 1 de novembro de 2014

Caçada nocturna

Já por diversas vezes me referi à riqueza da fauna que me habituei a ver deambular pelas imensas planuras do Cuando Cubango. A flora era escassa, o que se compreende; no meio daquele quase deserto matizado de chanas alagadiças, pouca coisa medrava. Contudo, era um verdadeiro paraíso para os animais de grande porte, a julgar pela quantidade e variedade que por ali havia. Aquele bocado de savana, definido pela faixa que vai do Rio Cuando até à chanas do Utembo, terreno maninho e semi-pantanoso que aprendi a conhecer por corresponder à área de actuação da companhia, era habitado por manadas de búfalos, de songues, de gungas, de guelengues e outras espécies onde se contavam as elegantes palancas, os simpáticos antílopes de várias espécies, os rezingões porcos do mato sempre de rabo no ar como se uma antena se tratasse e até coelhos, para só falar de alguns.
Bastava percorrer alguns quilómetros que mais cedo ou tarde os encontraríamos, especialmente nas imediações das chanas húmidas onde a erva permanecia verde e fresca mesmo quando a ausência de chuva transformava tudo em volta num imenso mar de palha seca. Assim, para compensar o magro orçamento que não permitia refeições de bifes de carne de vaca, faziam-se incursões periódicas à caça de carne fresca. Abatiam-se dois ou três animais que a perícia do Ferreira reduzia a bifes, bastando acrescentar-lhes os temperos e correspondente acompanhamento para o Morais compor o rancho, compensando assim a insuficiência de verba. Mas isso era no Cuando Cubango onde a pasmaceira reinante por falta do que fazer, tornava interessante palmilhar a imensa savana à caça da melhor peça. A gunga, por exemplo, espécie de antílope de grande porte, permitia fazer uns bifes que em nada ficavam a dever à melhor vitela.
Mas, nas Mabubas, nunca poderia ser assim. Desde logo porque a variedade não era tanta e o acidentado do terreno não motivava ninguém a aventuras de caça, não conseguindo ser alternativa à vida regrada que a animação social ia propiciando. Havendo muito por onde entreter o tempo a sedentarização ganhou espaço, os dias de pasmo deram lugar a uma intensa vida social e a aventura deixou de interessar. Mas, ainda assim, sabia-se que a mata que bordejava a imensa albufeira da barragem albergava algumas famílias de pacaças, bovídeo corpulento cuja carne se dizia não ser desagradável.
Ora, pacaça era bicho que ninguém da companhia alguma vez tinha visto e isso espicaçou a curiosidade. Isso e provavelmente as recordações das grandes aventuras em que se tornavam as idas à caça na grande savana de onde viemos. A ajudar, tínhamos à carga um barco zebro, destinado ao patrulhamento da barragem, com dimensão suficiente para transportar uma equipa de caça e trazer na volta os bichos que se deixassem apanhar.
Assim sendo, certa noite, reuniu-se um pequeno grupo decidido a aventurar-se na escuridão dos meandros da albufeira e que, tanto quanto me lembro, integrava o Capitão, o Gabriel - que para além do seu mais que demonstrado gosto por aquele tipo de aventuras era o responsável pela manutenção do zebro – e ainda, porque era preciso alguém que conhecesse os segredos daquela imensidão de água, o Sr. Tomé responsável pela barragem e o seu ajudante, o Gasolina, negro corpulento que conhecia tudo por ali.
Carregaram uma bateria a que ligaram firmemente um projector e lançaram-se à aventura fazendo o zebro deslizar devagar rasgando as águas adormecidas da barragem. O Gabriel levava a G3 aperrada, o Gasolina segurava a bateria garantindo alimentação permanente do farolim com o qual o Sr. Tomé ia varrendo a mata circundante, esquadrinhando cada recanto com o foco luminoso do improvisado projector. Não demorou muito até que a luz intensa, perfurando a noite, descobrisse os olhos brilhantes de duas pacaças que encadeadas pela intensidade da luz nem se moveram tornando-se em alvo fácil que dois tiros certeiros deitaram ao chão.
O problema agora era carregar os animais corpulentos no Zebro, coisa que não parecia ser fácil. Apontaram à margem e aceleram a fundo para que a proa do barco galgasse a margem rampante na esperança de que ali se imobilizasse. O zebro ganhou velocidade seguindo o túnel luminoso do farolim e exactamente quando se aproximava da margem, embateu violentamente num tronco submerso escondido na escuridão das águas, logo abaixo da superfície. O barco estacou repentinamente travado pelo inesperado obstáculo. Abanou violentamente desequilibrando os passageiros que, agarrando-se conforme puderam, evitaram cair à água.
Todos, excepto o Gasolina que, talvez entendendo que era importante não largar a bateria, a agarrou firmemente ficando sem hipótese de se segurar. Desequilibrou-se e caiu borda fora levando consigo a bateria cujo peso o empurrou para o fundo da barragem. Momentaneamente, no meio da escuridão, apenas deram pela falta do Negro sem que, no meio da confusão, alguém soubesse exactamente onde caíra. Fizeram incidir o halo de Luz do projector sobre a superfície das águas abruptamente tiradas da sua quietude, esperando que a todo o instante emergisse. Mas, pelos vistos, não foi isso que aconteceu embora o farolim continuasse aceso.
Foi então que o Sr. Tomé, como que inspirado na lenda de Ariadne, trazendo para realidade a fantasia mitológica, seguiu o fio que desaparecia nas escuras águas. Debruçou-se sobre a borda, esticou os braços, agarrou o seu ajudante pelo cabelo e puxou-o vigorosamente para a superfície. O Gasolina emergiu, sorvendo sofregamente o ar e, nunca largando a bateria, esperou que o ajudassem a subir para bordo, escorrendo água e arengando qualquer coisa à laia de justificação.
Com muito custo e permanente adornar do barco, carregaram as duas pacaças de cujo destino pouco recordo. Sei apenas que uma foi direitinha para o refeitório enquanto a outra foi transformada em petisco. Creio que, nas Mabubas, toda a gente comeu um bocado do churrasco em que se transformou aquela massa enorme de carne fresca.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

VIZINHOS

O relacionamento da tropa com os habitantes das Mabubas processou-se de forma natural. Ao fim de alguns meses estava absolutamente sedimentado conferindo àquela pequena urbe outra dimensão o que é o mesmo que dizer que os forasteiros fardados, resgatados às areias das terras do fim do mundo se adaptaram rapidamente ao novo ambiente, fundindo-se com o novo meio social num processo incontornável de criação de laços semelhantes aos quase esquecidos hábitos das aldeias de onde cada um provinha. Criaram-se novos hábitos e rotinas, lançaram-se raízes, cimentaram-se amizades e como acontece em qualquer comunidade, romperam-se outras como foi o caso do episódio que fez azedar irrevogavelmente relacionamentos recentes. Quer se queira quer não, o incidente com o tasqueiro Manolo, determinou que, entre outras coisas, alguns furriéis até então assíduos frequentadores do seu estaminé, se vissem obrigados a recorrer de novo à messe voltando, na falta da imperial, à cerveja bebida pela garrafa e a contentarem-se com a ementa do Morais aprimorada, se assim se pode dizer, pelas agora já mais bem treinadas habilidades do cozinheiro Lourenço. A lamentável demonstração de ciúmes do Manolo, manifestada com violentas vergastadas sobre as costas do Mota, não nos deixou outra alternativa senão abdicarmos dos acepipes da dona Benvinda que bom jeito dava quando a ementa da messe não agradava.
A verdade é que, tirando isso, o entrosamento da tropa com as pessoas se fez naturalmente, ajudado pelo facto de as instalações militares, sem muros ou ameias, estarem misturadas com as habitações civis. O ambiente de aldeia era visível a qualquer hora especialmente à noite quando a conversa animava a rua e se passavam serões esparramados no alpendre da messe, sentados no rebate da porta ou no degrau da casa de um vizinho, ou ainda, se fosse caso disso, em bancos ou cadeiras trazidas de propósito, diluindo o ambiente militar que, mal o sol se punha, quase desaparecia. Entretinha-se assim o serão aproveitando o fresco da noite enquanto o sono ou a hora da deita não chegava.
Foi graças a esta vizinhança que tive o ensejo de assistir à arte de cozinhar a célebre Muamba. Uma mulher, incontestavelmente com dedo para a cozinha, vinda dos lados do Sassa, costumava tratar da casa do lado; pelo menos a Dona Zulmira não prescindia dos seus dotes. O pátio traseiro entalado entre o da messe dos oficiais e a dos sargentos era o local utilizado para a função. Num pequeno pilão, esmagava as rosadas bagas de dendém colhidas pela manhã das palmeiras abundantes ao longo das margens do Rio Dande, despejava água a ferver sobre as bagas esmagadas e com uma perícia aprimorada pela longa experiência, retirava com uma colher a ténue película de óleo dourado que se formava à tona do líquido acastanhado da lavagem. Depois, juntava aquele óleo fresco e perfumado à molhanga onde mergulhava a galinha, os kiabos e demais temperos. Sei do que falo: a Dona Zulmira convidou-me um par de vezes para saborear o petisco e garanto que nunca mais voltei a comer coisa igual. Não sei se aquele adocicado e apetitoso sabor se devia à frescura do dendém, se à qualidade da galinha ou aos dotes da cozinheira. O mais provável era ser o resultado de todos eles. Só não me agradava a viscosidade do Kiabo e não me parecia nada apetitoso o aspecto estranho e peganhento do funge.
- Coma, olhe que melhor do que isso não vai encontrar em lado nenhum. Incitava a senhora.
Enfim, privilégios de que nem todos se podiam gabar de usufruir aos quais ainda se poderia acrescentar a fatia do bolo acabadinho de sair do forno. E isto sem contar com o jeitinho que deu à camisa que eu comprara em Luanda, apertando as costuras para que ficasse justa ao corpo como então se usava e ainda a trabalheira que teve em costurar os cortinados com que decorámos o quarto. Enfim, pouco faltou para me sentir adoptado como filho. Pelos vistos a senhora gostava de mim, talvez porque, de vez em quando, lhe arranjasse uma garrafita de licor, uma ou duas de vinho do Porto, uma ou outra de whisky encomendada pelo marido, o Sr Almeida, coisinhas que, vindas directamente da Manutenção Militar, sempre ficavam mais baratas.
É claro que estes agrados não vinham só da família do Sr. Almeida. A boa vizinhança era manifestada sem preconceitos e de diversas formas conforme a disponibilidade e a maneira de ser de cada um. Certo dia, eu e o Morais fomos convidados pela família que habitava a casa ao lado para uma ida à praia. Arrumámo-nos no apertado assento traseiro do novinho “NSU Prinz”, abrimos alas para dar lugar à pequenita filha do casal que se acomodou entre os dois e lá fomos passar o domingo à Barra do Dande. Não me lembro se foi ou não divertido, mas recordo que era um lugar aprazível e no restaurante abarracado que lá existia comia-se lagosta ao preço de carapau.
Não admira que aquele fim de comissão nas Mabubas tenha passado depressa. Com tantas mordomias, as saudades de casa foram ficando adormecidas. Por vezes quase esquecidas.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Trânsito citadino

Os milhentos ditames que compunham as regras pelas quais, naquele tempo, qualquer militar se devia pautar, eram uma preocupação permanente; um passo em falso, daqueles susceptíveis de constituir infracção a um qualquer artigo do RDM, podia transformar-se numa mão cheia de chatices, especialmente se a falta fosse cometida na presença de um daqueles militares da treta que costumavam adejar pelos corredores da burocracia militar. O desgraçado regulamento era tão persecutório que quase se pode dizer ser impossível não cometer infracções; Infringi-lo ou não era pura questão de sorte ou azar.
Libertos que estávamos das agruras ostracizantes da Neriquinha, uma das possíveis infracções que passou a ser minha preocupação frequente prendia-se com a eventualidade de, na qualidade de graduado, poder ser punido em consequência de um eventual acidente com uma viatura em que seguisse. É verdade, mesmo não estando ao volante, o graduado que seguisse na viatura podia ser responsabilizado por uma infracção ou aselhice do condutor.
Enquanto andámos pelas picadas empoeiradas do Cuando Cubango, isso não era problema porque, ali, ninguém tinha que se preocupar com o cumprimento das regras de trânsito. Naquele imenso ermo, ter essa preocupação até seria ridículo: não havia estradas, trânsito ninguém sabia o que era, cruzamentos eram apenas encontros de caminhos que levavam a lugar nenhum e sinais de trânsito ou o que quer que se pudesse aproximar das regras que preocupam quem conduz um automóvel eram coisas de ficção. A liberdade era total e as viaturas, preparadas para andar naqueles itinerários arenosos, circulavam por onde fosse preciso sem qualquer problema. Naquele mar de areia e lama a grande preocupação era a de saber por onde se andava, mas apenas para que não nos perdêssemos naquelas planuras imensas ou para nos pouparmos à carga de trabalhos necessários ao desatascanço de uma viatura que o desconhecimento ou nabice do condutor levasse para terreno menos consistente.
Agora, longe das picadas arenosas rolando por estradas asfaltadas e sem buracos, a condução era muito mais fácil, cómoda e quase sem riscos. Contudo, para condutores que se habituaram por demasiado tempo a ignorar o código da estrada e a não terem de repartir os caminhos por onde andavam com automóveis de toda a espécie, as preocupações eram muitas tanto para os condutores como para os graduados que, por inerência do posto, chefiavam a viatura em que seguissem. Pela parte que me toca, passei, sem motivo, por algumas dores de barriga, pelo menos até começar a ganhar confiança no homem que tinha a missão de conduzir.
Nas Mabubas, fui incumbido de gerir a cantina e isso implicava idas frequentes a Luanda para a necessária reposição de stocks, garantindo que, pelo menos, tabaco e cerveja nunca faltassem. As primeiras viagens foram, pelo menos para mim, exercícios de habituação. Primeiro estranhei a ausência dos saltos e ressaltos a que me habituara nos percursos esburacados das picadas sinuosas; depois fui-me familiarizando com a estrada pouco movimentada que, após cerca de uma hora de caminho, ali, logo a seguir ao Cacuaco, onde um bando de flamingos em lento movimento, pintando toda a praia de um cor-de-rosa suave, dava lugar ao trânsito citadino da então cosmopolita Luanda.
Era aí que começavam as minhas preocupações. Embora o condutor parecesse dar bem conta do recado, eu interferia na condução. Ainda que a contra gosto, avisava, alertava, carregava num pedal de travão imaginário sempre que a distância do carro da frente parecia encurtar.
- Olha que o gajo vai virar! Cuidado que vai travar! Olha aquele ali que vem para cima de nós!
O condutor, esse, nada dizia, mais parecendo conhecer o caminho que, por aquelas alturas me era totalmente desconhecido. Depois, era a estrada de Catete, naquele seu troço inicial que levava ao Grafanil. O limite de velocidade quedava-se pelos sessenta quilómetros por hora e a porcaria do velocímetro do Unimog indicava a velocidade em milhas. Afanava-me a fazer contas de cabeça, convertendo milhas em metros, até perceber que tudo estaria bem se o ponteiro não passasse além de certo ponto que, calculara eu, corresponderia, mais ou menos, à velocidade máxima permitida: sermos apanhados pela polícia militar em excesso de velocidade, mesmo que apenas por alguns metros, podia fazer nascer um processo disciplinar, cuja pena seria mais gravosa para mim do que para o condutor. Consequentemente, eu insistia:
- Oh pá! Vai mais devagar! Olha que estes gajos da PM são todos uns grandes filhos da puta.
A ansiedade baixava assim que entrava à porta do Grafanil. Por ali andava-se devagar, percorrendo cada um dos barracões da manutenção militar à procura dos produtos necessários: bebidas alcoólicas num, refrigerantes noutro, enlatados num terceiro, depois o das bolachas, o dos produtos de higiene, enfim um supermercado repartido por armazéns espalhados por aquele vasto recinto. Depois de tudo carregado, recomeçava a saga, agora em sentido inverso até nos libertarmos finalmente do trânsito citadino. Uma paragem numa das cervejarias do Cacuaco para matar a sede e saborear uns camarões era suficiente para descomprimir. Depois disso, o caminho de volta a casa era uma bênção; o trânsito era pouco, a estrada não era má e os condutores eram de confiança.

Com o tempo, acabei por me habituar, ou porque as ruas de Luanda se tornaram familiares ou porque o trânsito era agora encarado como rotina normal, ou ainda porque, afinal, concluí que não valia a pena tanta preocupação. Acidentes, acontecem, por muitos cuidados que se tenham; na verdade, nunca tivemos qualquer percalço, nenhum acidente veio conspurcar aquele pacífico fim de comissão às portas de Luanda.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Os ciúmes do taberneiro

A ausência de quase tudo no sofrido isolamento da Neriquinha quase me levou a esquecer o sabor gostoso de uma bica, daquelas cremosas, tiradinhas à pressão e creio que também o seu aroma. Lá longe, bica não havia, nem mal nem bem tirada, era coisa inacessível. Café só aquela água escura servida ao pequeno-almoço, feita no gamelão e tingida com o líquido esbranquiçado resultante da mistura de leite em pó com a água ferrenha sugada das entranhas arenosas daquele deserto poeirento. E o mesmo se pode dizer de tudo o resto. Ali apenas se podia contar com o rancho condicionado na sua qualidade pelo parco orçamento que o Morais dispunha. Talvez por isso, ao pequeno-almoço, tenha substituído a xícara de café com leite por duas cervejas. Matava a sede e ia melhor com a sandes de paio.
A mudança para as Mabubas alterou, num ápice, tudo isso. Agora, o estaminé do Manolo estava ali, à mão e devidamente abastecido. Beber uma bica voltou a ser rotina bem como tudo o resto, passando o local a ser o poiso frequente de quase toda a gente. Ali se almoçava ou jantava sempre que o rancho não agradava, tomava-se café tirado à pressão, tantos quantos se quisesse e do bom. E bebiam-se imperiais quando era necessário aplacar a sede. De caminho jogava-se às cartas, disputavam-se torneios de matraquilhos, ensaiavam-se arremedos de política barata, criticava-se o que não se achava bem, discutiam-se assuntos sérios e, porque aquilo não deixava de ser poiso da tropa, preenchia-se a falta de assunto com dichotes de caserna, tolejando quando a cerveja ingerida, ultrapassando a fasquia do razoável, toldava o raciocínio, interferia com o tino e bloqueava o bom senso.
Com uma espécie de bonomia indolente, o Manolo a tudo assistia pasmaceando atrás do balcão, atendendo todos com natural simpatia até porque não se podia queixar da vida; Clientes não lhe faltavam e embora a receita não fosse muita, sempre dava pró gasto amealhando, aos poucos, um pé-de-meia cuja dimensão nunca ninguém se preocupou em avaliar.
Da cozinha encarregava-se a esposa, senhora de trato delicado que, saindo pouco do seu encerro, no intervalo entre o empratamento de um bitoque e o virar de mais um prego, assomava à pequena janela que ligava a cozinha ao balcão para dar dois dedos de conversa à malta empoleirada nos bancos altos alinhados do outro lado. Para nós, a dona Benvinda era uma senhora, não só pela postura mas também porque a idade, não sendo muita, sempre estava uns anitos à frente da nossa. O facto é que a senhora era respeitada, com naturalidade, ao ponto de o “dona” que todos faziam questão de não esquecer sempre que se lhe dirigiam, parecer pouco respeitoso. Pelo menos era o que achava o Mota que, estabelecendo uma comparação mental com as “donas” que conhecia, corrigia-nos em tom sério:
- Dona não! Dona é a mulher-a-dias. Senhora dona, se não se importam!
Havia ainda o cinema, um grande barracão devidamente apetrechado para assim poder ser chamado. Se a minha memória não me atraiçoa, havia pelo menos uma sessão por semana. O bilhete não era caro e, por isso, fosse qual fosse a fita, toda a gente ia ao cinema, incluindo o Administrador do Caxito que ali se deslocava de propósito para assistir à sessão que, para mal de todos nós, não começava antes de sua excelência chegar. Das fitas que por ali passavam não havia nada a dizer. Para além das coboiadas do costume, retenho de memória algumas fitas interessantes ali exibidas. Recordo-me, por exemplo, de um violino no telhado, novidade cinematográfica estreada dois anos antes e um outro, cujo nome não sou capaz de recordar, mas que tinha como actor principal o francês Serge Reggiani num papel que se encaixava que nem uma luva no seu fácies triste e melancólico. Encarnava a figura de um infeliz, casado com uma mulher que, sem pudor ou recato, o enganava com todos os homens que dela se aproximassem sem se preocupar com a tristeza submissa do marido que a tudo assistia sem queixume, limitando-se a um sofrimento silencioso que os olhos mortiços do actor ajudavam a compor.
No dia seguinte, enfileirados ao balcão, beberricando imperiais, escolheu-se para tema de conversa o enredo do filme da noite anterior. Naquele dia, por estranha coincidência, o Mota estava com uma dúzia de cervejas a mais e no meio dos comentários, reparou na evidente parecença entre o Manolo e o actor francês.
- Oh Pá! Tartamudeou o Mota tentando vencer o entorpecimento da língua: - Já repararam que aqui, o Manolo, é parecido com o “gajo” da fita de ontem à noite?
A parecença era evidente: os mesmos olhos mortiços, as pálpebras meio descaídas e o ar ensonado a realçar o semblante tristonho. Contudo, embora todos concordassem, a conversa não teve andamento especialmente por parte do taberneiro que se fechou num mutismo que ninguém estranhou até porque todos sabiam que o homem era pouco falador e não se esperava que viesse agora gastar palavras perorando sobre tema que não lhe interessava.
A chatice é que, confirmando que não é natural alguém se reconhecer parecido com quem quer que seja, o Manolo achou de entender, nas palavras do Mota, coisa diferente. As parecenças, concluiu, não eram fisionómicas mas sim com o enredo do filme, mais especificamente com a personagem e o comportamento da respectiva consorte. Em suma, na cabeça enciumada do homem, o Mota estaria a insinuar que a sua Benvinda o enganava. E assim, ensimesmado e de cara fechada, foi remoendo uma surda revolta sem que alguém disso se apercebesse.
Entretanto a noite foi avançando, o tema da conversa foi mudando, acrescentaram-se mais umas quantas cervejas às muitas já bebidas e esqueceram-se os infortúnios vividos na tela pelo Reggiani.
Abandonado o aconchego do balcão, queimava-se o tempo com as últimas achegas ao tema entretanto trazido à lide, mesmo ali, em frente, no meio da rua. E de tão interessante que a conversa estava que ninguém se apercebeu que, vindo do escuro, sem emitir um som e brandindo um grosso fio eléctrico, o songamonga do Manolo investiu, qual rapace, descarregando furiosas vergastadas nas costas do Mota, aplacando assim a fúria que fora acumulando num crescendo de soberba bem disfarçada. O Mota balançou sob os golpes da improvisada chibata e, parecendo não as sentir, talvez anestesiado pelo excesso de cerveja, exclamou:
- Alto, que estão a bater no meu amigo Leitão.
O ataque veio tão rápido e tão de mansinho que antes que alguém conseguisse esboçar um movimento, o Manolo retirou-se tão lesto quanto lhe permitiu o discernimento e, esgueirando-se pela porta do restaurante, desapareceu no seu interior.
Refeitos da surpresa e mudando radicalmente o tema da conversa para tão inesperado assunto, analisámos e reanalisámos o porquê de tão inopinado ataque e rendemo-nos finalmente à evidência: o homem não percebeu que as suas parecenças eram mesmo as relativas à fisionomia do grande actor e não com a sina da personagem que, naquela fita, encarnava.
Quanto às consequências do acto, o ofendido homem perdeu a face e uma data de clientes; nós, infelizmente, vimo-nos de novo confinados ao rancho. Coisa de somenos importância. Afinal, o cozinheiro Lourenço, definitivamente adstrito à messe, não era assim tão mau a lidar com os temperos.

terça-feira, 1 de julho de 2014

DESAPARECIDOS

Episódios traumatizantes ou rocambolescos, marcantes ou sem importância, acontecem a qualquer um e de tal sorte que, independentemente da sua gravidade, ficam guardados na memória prontinhos para virem ao de cima alimentando recordações de histórias passadas, especialmente se se reportam a momentos especiais da nossa existência como foram os da vida militar nas longínquas terras angolanas, sejam os passados na cosmopolita Luanda ou nas extensas planuras da savana do Cuando Cubango. Sentir-se perdido ou considerado desaparecido, podem ser exemplos do que quero dizer.
Certa vez, em Luanda, cheguei a imaginar o Morais desaparecido sem que ele tivesse estado perdido. Passávamos ali um fim-de-semana, hospedados num Hotel lá para os lados da Serpa Pinto, acho eu, um hotel agradável e com bom preço. Separámo-nos. Eu planeara fazer uma visita a uma prima, cujo marido, capitão de carreira, cumpria uma comissão em Luanda, enquanto o Morais aproveitava o resto do dia para dar umas voltas, tirar umas fotografias e desfrutar do bulício citadino de que estivéramos afastados pelo longo tempo que durou a nossa aventura pelas Terras-do-Fim-do-Mundo. Foi atropelado algures quando procurava atravessar a marginal e acabou a noite no hospital. Eu, que de nada desconfiava, é que estranhei a sua chegada tardia ao quarto de hotel.
Mas, a grande cidade não é comparável com as grandes extensões da imensa savana. Aí, a coisa é diferente e tem outra dimensão. Na mata não há pontos de referência, nem ninguém a quem pedir ajuda. Foi exactamente no meio daquelas matas agrestes que, pela primeira vez, me senti perdido quando, juntamente com um punhado de homens, numa noite de chumbo e debaixo de uma chuva diluviana, saímos da picada para só a voltarmos a encontrar na manhã do dia seguinte quando a luz do dia surgiu, definiu os contornos e conferiu significado à paisagem envolvente. Tinha por missão recolher o Silva e o seu grupo que, contrariamente ao previsto, não se encontrava no local pré-definido, voltando eu à base sem o ter encontrado, andando o Silva desaparecido por mais de dois dias, até ser resgatado por um grupo lançado para esse efeito.
Mas estes foram casos insignificantes. O Morais acabou por aparecer, combalido, cheio de mazelas, coxeando e com umas quantas nódoas negras espalhadas pelo corpo. No meu caso, reencontrei o caminho no dia seguinte e nunca fui considerado desaparecido. Quanto ao Silva, quando encontrado, apressou-se a salientar que nunca se considerou perdido.
Apenas a aventura do Varela e do Vieira preocupou uns e outros. Sentiram-se perdidos e chegaram a ser considerados desaparecidos, embora apenas por um dia e uma noite. O caso foi recordado no último almoço da companhia, remontando o episódio ao tempo em que ainda mal começáramos a habituarmo-nos ás peculiaridades daqueles terrenos arenosos semeados de capim.
O terceiro pelotão, comandado pelo alferes Correia, fora incumbido de patrulhar as matas que se seguiam às grandes chanas do Rio Cúbia, lá para os lados do Liahona, primeiro dos kimbos que se enfileiravam no caminho que levava ao Rivungo. E perceberam que aquelas matas eram ricas em caça. Umas quantas palancas, umas pequenas gazelas e as manadas de songues que pelo caminho viram pastando nas chanas alagadas, despertaram o interesse daqueles homens.
Lá para o meio da tarde, quando todos descansavam no precário aconchego das palhotas do Liahona, o Varela e o Vieira, obtido o consentimento reservado do alferes, atreveram-se pela mata circundante penetrando algumas centenas de metros sem perderem de vista a silhueta das palhotas do kimbo que a pouca densidade arbórea deixava entrever.
Avançaram mais um pouco e para surpresa de ambos, como um presente da natureza, uma pequena gazela apareceu por entre o capim mordiscando a erva verde que crescia em abundância. O Vieira fez sinal ao Varela apontando o animal ao mesmo tempo que, colando o dedo à boca, recomendava silêncio para não o afugentar. Este, não dando sinais de ter pressentido os dois, foi andando, de moita em moita, parando aqui, avançando ali, ruminando a erva que ia arrancando com pequenos puxões.
Os dois homens, silenciosos, foram seguindo o bicho, procurando confundir-se com a vegetação, progredindo de árvore em árvore, ora para a direita, depois para a esquerda, outras vezes em frente, mas sempre ao sabor do deambular sem rumo certo da pequena gazela, na esperança de a apanharem a jeito. Perderam a noção do tempo e do espaço e nem deram conta de quanto já haviam andado.
Só quando perderam o animal de vista que misteriosamente desaparecera por entre o capim, é que deram conta de que estavam perdidos. O kimbo deixara de estar à vista e o pior de tudo é que já nem eram capazes de saber que direcção tomar para voltar para trás. Entreolharam-se apreensivos e questionaram-se sobre qual o caminho a tomar. Caminharam numa direcção, hesitaram, tentaram outra e ao fim de algum tempo concluíram que estavam perdidos e o pior é que, entretanto, o sol rendia-se descendo dramaticamente abaixo da copa das árvores, pintando de um vermelho alaranjado o céu que, até então, exibira o seu normal azul intenso e luminoso.
O Vieira, homem pequeno mas de corpo maciço, mais habituado às serranias da terra onde nasceu, ia mantendo a calma em contraponto com o ar assustado do Varela que, visivelmente alarmado e temendo a mata que desconhecia, começou a dar sinais de apreensão que, aos poucos, se foram transformando em pânico, visível no queixume choroso, lamentando a sua má sorte. Entretanto, a noite caia envolvendo com o seu manto negro toda a mata circundante, conferindo maior dramatismo à situação. O Varela, quase em desespero e sentindo-se desamparado, lamentava a sua má sorte:
- Ai minha mãezinha! E eu que há tão pouco tempo me despedi dela.
Aquietaram-se, mas os barulhos da noite ampliados pelo seu característico silêncio juntaram-se ao medo dos soldados que, desconhecendo que perigos se escondiam para além do negrume, começaram a imaginar-se cercados por toda a espécie de bichos medonhos, encontrando uma ameaça em cada restolhar em cada roçagar das ervas, em cada sombra projectada pelo fraco luar coado pela ramagem das árvores. Sem sequer tentar esconder os seus temores, o Varela decidiu que o melhor seria trepar a uma árvore, convencendo-se que ali, enganchado entre os ramos, estaria a salvo da bicharada e fora das vistas do inimigo que, pensou ele, bem poderia estar por ali à espreita. Contudo, ou porque não encontrou uma árvore a jeito ou porque a calma que o Vieira aparentava o convenceram a aquietar-se, conseguiu ainda dormitar enroscado no canto que julgou mais adequado.
O dia nasceu bem cedo, como é costume naquela terra e com a luz do dia desapareceram todos os fantasmas que povoaram a noite do pequeno Vieira e do seu companheiro Varela. Levantaram-se e puseram-se a matutar na melhor forma de encontrar o caminho que os levasse de volta às palhotas do Kimbo onde o resto do pessoal se questionava preocupado com o desaparecimento daqueles dois.
A solução apareceu como por magia quando, surgindo do nada, um elemento da população que, àquela hora, vindo do kimbo, caminhava por entre as árvores num passo decidido de quem se dirige a algum lugar. A aparição daquele negro materializou a tábua de salvação a que os dois náufragos se agarraram e, sem sequer se questionarem sobre a sua identidade, perguntaram ansiosos:
- Liahona?
O negro, um tanto ou quanto atónito, apontou-lhes uma direcção que os dois seguiram sem hesitar acelerando o passo numa incontida impaciência até que, ao fim de pouco tempo, lá divisaram, por entre as árvores, a silhueta das palhotas do kimbo.
Foi uma festa. Ainda abalados pela noite mal dormida, descomprimiram descrevendo atabalhoadamente mais a forma como se perderam e menos a ajuda que os trouxe de novo ao conforto da companhia dos amigos.
Só o alferes Correia, aparentando a calma que todos lhe conheciam, passava mentalmente em revista todas as preocupações que o haviam atormentado desde o momento em que, tendo-se posto o sol, não vira os seus homens regressar. Apostaria que, nesse entretanto, se terá arrependido mais de uma dúzia de vezes de ter autorizado o passeio insensato dos dois soldados.

domingo, 1 de junho de 2014

Sinecuras e dissabores

Era suave a nossa vida nas Mabubas. De tão agradável, mais parecia estarmos de férias. Não fora uma coisa ou outra, uma pequena chatice aqui, um qualquer contratempo ali, afinal coisas pequenas, insignificantes, quase episódicas, dir-se-ia que vivíamos com os anjos num mundo de paz e harmonia. Ou então, o enorme contraste com tudo o que passámos na Neriquinha, onde aguentámos as agruras daquele mundo inóspito enfeitado de imagens palustres inacreditavelmente plantadas no meio de uma aridez desértica, fazia das Mabubas e das suas gentes um quase paraíso temperado pelas frescas águas da sua barragem, qual bálsamo apaziguador de feridas na alma de homens que, por demasiado tempo, se viram sujeitos a tratos de polé, votados a um ostracismo reinante mancomunado com o clima agreste e a hostilidade selvagem da imensa savana.
A verdade é que, como não podia deixar de ser, aqueles dezoito meses de savana passados nas terras-do-fim-do-mundo, foram ficando para trás, quase esquecidos, como se fora um sonho mau que se esvaia a cada novo nascer do sol. Habituámo-nos rapidamente à nova vida, despreocupada, quase familiar, misturados com a população local como se a aldeia em que cada um nasceu tivesse sido para ali transplantada, materializando-se naquela simbiose que ganhava dimensão nos cálidos serões que se seguiam ao jantar.
A cada fim de dia e encerrado o expediente militar, despia-se a farda, tomava-se um duche para refrescar, embonecávamo-nos com a melhor farpela, saboreava-se a janta e se o rancho não agradasse, recorria-se ao bife com batatas fritas e ovo a cavalo no estaminé do Manolo, gastando-se o resto da noite na converseta, sentados no pequeno alpendre da messe ou vagueando por ali, quais heróis em período de recobro, jactantes e moderadamente impantes, exibindo a roupa justa e colorida, novinha em folha, comprada na última ida a Luanda, numa desnecessária tentativa de causar boa impressão. Aquela rua sem trânsito e sossegada ganhava vida, animava-se nas conversas à porta dos vizinhos, ao mesmo tempo que se cimentavam amizades.Com alguma pesporrência e, sem segundas intensões, cada um exibia o seu charme, tagarelando com as catraias. Muito novitas, pré-adolescentes, não eram mais de meia dúzia, mas eram lindas de morrer e ainda por cima, simpáticas.
Aos fins-de-semana, as Mabubas animavam-se. A barragem atraía muita gente que vinha de Luanda, de propósito, para ali passar o domingo fugindo ao bulício citadino, em tudo comparável com as visitas que os lisboetas fazem a Sintra ou à zona saloia, apenas pelo passeio, pela paisagem e, obviamente pela barragem e nada mais porque ali não havia mesmo mais nada para ver.
O Bacalhau comprou um carro, um velhinho Simca Aronde, azulão. Nunca saberemos onde arranjou o dinheiro, se bem que, pelo aspecto, não deve ter sido caro. Não cheguei a saber pormenores do negócio, mas tenho a impressão de que algo ficou por esclarecer incluindo a forma como arranjava gasolina sem a pagar. Sim, porque o bacalhau não era néscio e só fazia negócios vantajosos, embora, por vício ou feitio, abocanhasse sempre todas as vantagens, deixando os outros a coçar a cabeça procurando discernir de que forma tinham sido levados.
Quanto ao mais, frequentava-se o estaminé do Manolo, beberricavam-se umas imperiais, roiam-se uns amendoins, tasquinhava-se uns pregos bem regados, soltavam-se pilhérias, aprimorava-se a destreza nos matraquilhos e substituiu-se lentamente a corriqueira sueca por algo mais intelectual e chique. É verdade, o Mota, com alguma paciência, lá nos foi iniciando no bridge, exigindo raciocínios rápidos, estratégias especiais e técnicas superiores que nos mantinham entretidos e insones madrugada adentro.
Quanto à nossa missão por ali, as operações preventivas e de defesa militar que por dever de ofício tinham de ser executadas, confinavam-se, agora, aos palmares e laranjais da Fazenda Alice e apenas tinham o inconveniente da pernoita ao relento. Mas isso era uma coisa de nada. Bem! Pelo menos nos primeiros tempos. Com o passar do tempo e uma vez habituados a novos luxos, as pacíficas emboscadas, montadas nos matagais da fazenda, foram-se transformando lentamente em contratempos que, ainda assim, não chegavam sequer a beliscar a paz daquele recanto que tão bem nos recebeu.
Tirando isso, restavam as sempre bem-vindas missões em serviço a Luanda. Normalmente para levar expediente e correio, era a oportunidade para dar um salto à grande cidade. A missão era sempre executada por um Furriel que, de passagem, recolhia os envelopes na companhia do Caxito e na sede do batalhão na fazenda Tentativa e calcorreava os serviços militares espalhados pela cidade distribuído a correspondência, recolhendo o qua havia a recolher e sem pressa regressava antes do fim do dia, aproveitando a sempre incontornável paragem no Cacuaco para virar umas canecas e saborear uns camarões cuja qualidade e sabor nunca nos desiludiu.
Certa vez, competindo ao Pinto, o furriel enfermeiro da companhia, a pacífica missão, aperaltou-se com a bem engomada farda domingueira e sapatinho engraxado, montou-se na viatura conduzida pelo condutor de serviço, recolheu o expediente na secretaria, passou pelo Caxito, deteve-se na Tentativa, juntou os envelopes, separou-os por destino e seguiu viagem até à cidade. Aí chegado, passou pelo quartel-general, foi ao serviço de transmissões, deu um salto à direcção de material, andou pelo Grafanil e, cumprida a missão, regressou como de costume quando o sol já ia baixo. Não se apercebeu que, pelo caminho, sem saber onde nem como, lhe escorregou de entre os demais um dos envelopes que nem sequer veio a saber a quem se destinava. O pior é que tal envelope era do comando do Batalhão, qualquer treta administrativa do comandante destinado a uma secretaria qualquer e que nunca chegou ao destino. Sem nunca ter conseguido saber que raio de papel lhe desapareceu de entre os demais, foi severamente punido. O Major Tamegão não lhe perdoou tal irresponsabilidade. A porrada não doeu, mas moeu a auto-estima do Pinto de tal forma que ainda hoje alimenta a revolta.
Percebe-se. Há certas coisas que, sendo injustas, ganham maior dimensão do que aquilo que são, roem os miolos e são difíceis de esquecer. São, contudo, recordações que, passados tantos anos, contribuem para colorir as nossas memórias de outros tempos.

terça-feira, 6 de maio de 2014

MATARAM O BACALHAU

Ensaiei diversos títulos e nem sei se este será o mais adequado. O facto é que o Bacalhau morreu. Como diz o brasileiro, morreu de morte matada, com estrondo, de tal forma que foi notícia de primeira página nos jornais de ontem e de hoje.
É verdade meus amigos, o Virgílio Cabral, o nosso Bacalhau, depois de ter vivido a vida da forma que escolheu e que quis, foi brutalmente assassinado. Depois de uma vida ao volante de um táxi pelas noites lisboetas, acabou por morrer em sua casa, apunhalado, sem que se saiba bem porquê e por quem.
Pode censurar-se o seu comportamento e a forma como levava a vida. Mas era um dos nossos e como tal será sempre recordado, sem recriminações.
Ficarão para a história, certamente, todas as suas bizarrias, o seu desenrascanço, a imaginação fértil que o levava a desencantar as formas mais inesperadas de arranjar uns dinheiros extra, sempre com umas pinceladas de desonestidade quase inofensiva de que, sem pudor, fazia alarde.
O Bacalhau nunca fez mal a ninguém, que se saiba. Estou capaz de apostar que não merecia sair deste mundo sem sequer se despedir. Não deixaram. Não lhe deram hipótese.
Descansa em paz.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A AÇUCAREIRA

Ali bem pertinho, um par de quilómetros a oeste do Caxito, a Fazenda Tentativa espraiava-se pelas margens férteis do Rio Dande que se passeava preguiçoso por entre hectares e hectares de plantações de cana-de-açúcar e palmeiras dendezeiras. A fazenda era propriedade da Companhia do Açúcar de Angola, que detinha ainda fazendas mais a sul, mais propriamente no Cubal e no Dombe Grande, verdadeiro império empresarial da família Sousa Lara que produzia de tudo um pouco salientando-se o açúcar de que era a maior produtora de todo o território e ainda sisal, óleo de palma e coconote entre outras coisas.
Inicialmente, eu não fazia a mínima ideia do que aquela fazenda produzia. Havíamos por lá passado na etapa final da viagem que nos trouxe das longínquas Terras-do-Fim-do-Mundo mas, na altura, nem dei pela sua existência. Albergava a sede do batalhão, o que significava proximidade do comandante e isso era o suficiente para eu querer distância dali. Das vezes que por lá passei, por imperativos de serviço, dirigi-me sempre à secretaria, o mais rápido possível e zarpava antes de qualquer encontro imediato. Ou o homem saía pouco do círculo restrito do seu gabinete ou tive sorte. O facto é que nunca dei de caras com tal pessoa. Ainda hoje recordo, numa revolta mitigada e quase esbatida pelo tempo, o raspanete imerecido que me deu em plena pista empoeirada da Neriquinha, enquanto aguardava o momento de subir para o Alouette que me levaria até às profundezas da savana para mais uma desgastante operação militar contra um inimigo que não quis medir forças connosco. Enfim, reminiscências agora temperadas pela riqueza exuberante de uma fazenda, ali quase às portas do bulício citadino de uma aprazível Luanda.
Atrevo-me a afirmar que, para mim, a Tentativa tinha uma aura especial. Tenho a certeza de que a via de forma diferente do resto do pessoal. Da baga do dendém, confesso que, até então, nunca tal tinha visto ou imaginado, mas a plantação e cultivo da cana-de-açúcar era algo que fazia parte da minha existência. Aprendi a distinguir as suas variedades, sabia escolher a mais sumarenta e mais doce e não resistia ao seu suco delicioso que saboreava chupando‑o gulosamente até não restar gota.
Nasci e cresci na Madeira absorvendo as preocupações do meu pai numa luta permanente contra as pragas que dizimavam a plantação, exigindo cuidados que nem se extinguiam na azáfama anual da colheita e seu transporte para o engenho que a transformava em branco açúcar, em espesso e escuro mel, dali saindo ainda uma aguardente explosiva que, para ser bebida, tinha ser diluída e amaciada. Esta agro-indústria, a par com a produção de vinho, representava então, umas das maiores riquezas da ilha que me viu nascer.
Por tudo isto, entende-se a compreensível atenção que eu dispensava a todo o processo, já que a única semelhança encontrada ficava-se mesmo pelo aspecto da cana; tudo o mais era diferente. Habituado à plantação alinhada em regos paralelos desenhados nas nesgas de terra empoleiradas nos socalcos das encostas madeirenses era, pelo menos para mim, uma espectacular novidade a enormidade dos canaviais espalhados pelas ricas planuras da fazenda, dessedentando-se no generoso caudal do Dande que, uma vez domado por uma ou duas represas, deixava que as águas circulassem por canais de rega estrategicamente construídos por entre os terrenos da plantação.
Ali a cana crescia livremente formando um matagal intransponível que apenas desaparecia na altura da colheita, feita a golpes de cutelo por um exército de milhares de trabalhadores. Para além dos canaviais, que se avistavam da estrada, nunca me foi dado tomar consciência da sua real extensão e capacidade produtiva. Sabia, contudo, que a cana era transportada em pequenos vagões que rolavam por carris de ferro puxados por um tractor desde o local da colheita até à fábrica.
Constava que tinha vinte quilómetros quadrados de extensão, mas isso não me permitia ter a noção do seu significado. Apenas tendo em consideração que a fábrica laborava durante todo o ano e que o ciclo de crescimento da cana era em média de doze meses, conseguia imaginar a enormidade da extensão e da capacidade produtiva daquela fazenda à qual, a linha férrea conferia maior dimensão. Não sei se era assim, mas lembro-me que, na altura, juntando todos estes elementos, me pus a concluir que havia sempre cana em condições de colher, numa espécie de carrocel sem fim: à medida que ia sendo colhida, voltava a crescer ao ritmo da capacidade de laboração das prensas que incessantemente a espremiam.
Quando, finda a comissão, por ali passei na viagem de regresso a casa, lembro-me vagamente de ter deitado uma última olhadela aos canaviais que se estendiam desde a estrada. A folhagem da cana ondulava ao sabor da fraca brisa, quase pronta para nova safra como ciclicamente acontecia desde os recuados anos vinte, altura em que foi fundada a Companhia.
Sei que, após a independência, passaram a chamá-la de “A Açucareira”. Contudo, reza a história que, alguns anos volvidos, cessou toda a produção e todo o casario da fábrica incluindo os armazéns do açúcar, se transformou em ruinas.
Não sei o que lá se planta nos dias de hoje, mas o esqueleto de toda aquela riqueza ali permanece como um fantasma que, após a morte física, se obstina em não abandonar o mundo dos vivos.
Qual terá sido o paradeiro de toda a maquinaria pesada que equipava a fábrica? E os carris de ferro? Ainda se deixarão ver?
Bem, na verdade, nem quero saber.