quarta-feira, 1 de outubro de 2014

VIZINHOS

O relacionamento da tropa com os habitantes das Mabubas processou-se de forma natural. Ao fim de alguns meses estava absolutamente sedimentado conferindo àquela pequena urbe outra dimensão o que é o mesmo que dizer que os forasteiros fardados, resgatados às areias das terras do fim do mundo se adaptaram rapidamente ao novo ambiente, fundindo-se com o novo meio social num processo incontornável de criação de laços semelhantes aos quase esquecidos hábitos das aldeias de onde cada um provinha. Criaram-se novos hábitos e rotinas, lançaram-se raízes, cimentaram-se amizades e como acontece em qualquer comunidade, romperam-se outras como foi o caso do episódio que fez azedar irrevogavelmente relacionamentos recentes. Quer se queira quer não, o incidente com o tasqueiro Manolo, determinou que, entre outras coisas, alguns furriéis até então assíduos frequentadores do seu estaminé, se vissem obrigados a recorrer de novo à messe voltando, na falta da imperial, à cerveja bebida pela garrafa e a contentarem-se com a ementa do Morais aprimorada, se assim se pode dizer, pelas agora já mais bem treinadas habilidades do cozinheiro Lourenço. A lamentável demonstração de ciúmes do Manolo, manifestada com violentas vergastadas sobre as costas do Mota, não nos deixou outra alternativa senão abdicarmos dos acepipes da dona Benvinda que bom jeito dava quando a ementa da messe não agradava.
A verdade é que, tirando isso, o entrosamento da tropa com as pessoas se fez naturalmente, ajudado pelo facto de as instalações militares, sem muros ou ameias, estarem misturadas com as habitações civis. O ambiente de aldeia era visível a qualquer hora especialmente à noite quando a conversa animava a rua e se passavam serões esparramados no alpendre da messe, sentados no rebate da porta ou no degrau da casa de um vizinho, ou ainda, se fosse caso disso, em bancos ou cadeiras trazidas de propósito, diluindo o ambiente militar que, mal o sol se punha, quase desaparecia. Entretinha-se assim o serão aproveitando o fresco da noite enquanto o sono ou a hora da deita não chegava.
Foi graças a esta vizinhança que tive o ensejo de assistir à arte de cozinhar a célebre Muamba. Uma mulher, incontestavelmente com dedo para a cozinha, vinda dos lados do Sassa, costumava tratar da casa do lado; pelo menos a Dona Zulmira não prescindia dos seus dotes. O pátio traseiro entalado entre o da messe dos oficiais e a dos sargentos era o local utilizado para a função. Num pequeno pilão, esmagava as rosadas bagas de dendém colhidas pela manhã das palmeiras abundantes ao longo das margens do Rio Dande, despejava água a ferver sobre as bagas esmagadas e com uma perícia aprimorada pela longa experiência, retirava com uma colher a ténue película de óleo dourado que se formava à tona do líquido acastanhado da lavagem. Depois, juntava aquele óleo fresco e perfumado à molhanga onde mergulhava a galinha, os kiabos e demais temperos. Sei do que falo: a Dona Zulmira convidou-me um par de vezes para saborear o petisco e garanto que nunca mais voltei a comer coisa igual. Não sei se aquele adocicado e apetitoso sabor se devia à frescura do dendém, se à qualidade da galinha ou aos dotes da cozinheira. O mais provável era ser o resultado de todos eles. Só não me agradava a viscosidade do Kiabo e não me parecia nada apetitoso o aspecto estranho e peganhento do funge.
- Coma, olhe que melhor do que isso não vai encontrar em lado nenhum. Incitava a senhora.
Enfim, privilégios de que nem todos se podiam gabar de usufruir aos quais ainda se poderia acrescentar a fatia do bolo acabadinho de sair do forno. E isto sem contar com o jeitinho que deu à camisa que eu comprara em Luanda, apertando as costuras para que ficasse justa ao corpo como então se usava e ainda a trabalheira que teve em costurar os cortinados com que decorámos o quarto. Enfim, pouco faltou para me sentir adoptado como filho. Pelos vistos a senhora gostava de mim, talvez porque, de vez em quando, lhe arranjasse uma garrafita de licor, uma ou duas de vinho do Porto, uma ou outra de whisky encomendada pelo marido, o Sr Almeida, coisinhas que, vindas directamente da Manutenção Militar, sempre ficavam mais baratas.
É claro que estes agrados não vinham só da família do Sr. Almeida. A boa vizinhança era manifestada sem preconceitos e de diversas formas conforme a disponibilidade e a maneira de ser de cada um. Certo dia, eu e o Morais fomos convidados pela família que habitava a casa ao lado para uma ida à praia. Arrumámo-nos no apertado assento traseiro do novinho “NSU Prinz”, abrimos alas para dar lugar à pequenita filha do casal que se acomodou entre os dois e lá fomos passar o domingo à Barra do Dande. Não me lembro se foi ou não divertido, mas recordo que era um lugar aprazível e no restaurante abarracado que lá existia comia-se lagosta ao preço de carapau.
Não admira que aquele fim de comissão nas Mabubas tenha passado depressa. Com tantas mordomias, as saudades de casa foram ficando adormecidas. Por vezes quase esquecidas.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Trânsito citadino

Os milhentos ditames que compunham as regras pelas quais, naquele tempo, qualquer militar se devia pautar, eram uma preocupação permanente; um passo em falso, daqueles susceptíveis de constituir infracção a um qualquer artigo do RDM, podia transformar-se numa mão cheia de chatices, especialmente se a falta fosse cometida na presença de um daqueles militares da treta que costumavam adejar pelos corredores da burocracia militar. O desgraçado regulamento era tão persecutório que quase se pode dizer ser impossível não cometer infracções; Infringi-lo ou não era pura questão de sorte ou azar.
Libertos que estávamos das agruras ostracizantes da Neriquinha, uma das possíveis infracções que passou a ser minha preocupação frequente prendia-se com a eventualidade de, na qualidade de graduado, poder ser punido em consequência de um eventual acidente com uma viatura em que seguisse. É verdade, mesmo não estando ao volante, o graduado que seguisse na viatura podia ser responsabilizado por uma infracção ou aselhice do condutor.
Enquanto andámos pelas picadas empoeiradas do Cuando Cubango, isso não era problema porque, ali, ninguém tinha que se preocupar com o cumprimento das regras de trânsito. Naquele imenso ermo, ter essa preocupação até seria ridículo: não havia estradas, trânsito ninguém sabia o que era, cruzamentos eram apenas encontros de caminhos que levavam a lugar nenhum e sinais de trânsito ou o que quer que se pudesse aproximar das regras que preocupam quem conduz um automóvel eram coisas de ficção. A liberdade era total e as viaturas, preparadas para andar naqueles itinerários arenosos, circulavam por onde fosse preciso sem qualquer problema. Naquele mar de areia e lama a grande preocupação era a de saber por onde se andava, mas apenas para que não nos perdêssemos naquelas planuras imensas ou para nos pouparmos à carga de trabalhos necessários ao desatascanço de uma viatura que o desconhecimento ou nabice do condutor levasse para terreno menos consistente.
Agora, longe das picadas arenosas rolando por estradas asfaltadas e sem buracos, a condução era muito mais fácil, cómoda e quase sem riscos. Contudo, para condutores que se habituaram por demasiado tempo a ignorar o código da estrada e a não terem de repartir os caminhos por onde andavam com automóveis de toda a espécie, as preocupações eram muitas tanto para os condutores como para os graduados que, por inerência do posto, chefiavam a viatura em que seguissem. Pela parte que me toca, passei, sem motivo, por algumas dores de barriga, pelo menos até começar a ganhar confiança no homem que tinha a missão de conduzir.
Nas Mabubas, fui incumbido de gerir a cantina e isso implicava idas frequentes a Luanda para a necessária reposição de stocks, garantindo que, pelo menos, tabaco e cerveja nunca faltassem. As primeiras viagens foram, pelo menos para mim, exercícios de habituação. Primeiro estranhei a ausência dos saltos e ressaltos a que me habituara nos percursos esburacados das picadas sinuosas; depois fui-me familiarizando com a estrada pouco movimentada que, após cerca de uma hora de caminho, ali, logo a seguir ao Cacuaco, onde um bando de flamingos em lento movimento, pintando toda a praia de um cor-de-rosa suave, dava lugar ao trânsito citadino da então cosmopolita Luanda.
Era aí que começavam as minhas preocupações. Embora o condutor parecesse dar bem conta do recado, eu interferia na condução. Ainda que a contra gosto, avisava, alertava, carregava num pedal de travão imaginário sempre que a distância do carro da frente parecia encurtar.
- Olha que o gajo vai virar! Cuidado que vai travar! Olha aquele ali que vem para cima de nós!
O condutor, esse, nada dizia, mais parecendo conhecer o caminho que, por aquelas alturas me era totalmente desconhecido. Depois, era a estrada de Catete, naquele seu troço inicial que levava ao Grafanil. O limite de velocidade quedava-se pelos sessenta quilómetros por hora e a porcaria do velocímetro do Unimog indicava a velocidade em milhas. Afanava-me a fazer contas de cabeça, convertendo milhas em metros, até perceber que tudo estaria bem se o ponteiro não passasse além de certo ponto que, calculara eu, corresponderia, mais ou menos, à velocidade máxima permitida: sermos apanhados pela polícia militar em excesso de velocidade, mesmo que apenas por alguns metros, podia fazer nascer um processo disciplinar, cuja pena seria mais gravosa para mim do que para o condutor. Consequentemente, eu insistia:
- Oh pá! Vai mais devagar! Olha que estes gajos da PM são todos uns grandes filhos da puta.
A ansiedade baixava assim que entrava à porta do Grafanil. Por ali andava-se devagar, percorrendo cada um dos barracões da manutenção militar à procura dos produtos necessários: bebidas alcoólicas num, refrigerantes noutro, enlatados num terceiro, depois o das bolachas, o dos produtos de higiene, enfim um supermercado repartido por armazéns espalhados por aquele vasto recinto. Depois de tudo carregado, recomeçava a saga, agora em sentido inverso até nos libertarmos finalmente do trânsito citadino. Uma paragem numa das cervejarias do Cacuaco para matar a sede e saborear uns camarões era suficiente para descomprimir. Depois disso, o caminho de volta a casa era uma bênção; o trânsito era pouco, a estrada não era má e os condutores eram de confiança.

Com o tempo, acabei por me habituar, ou porque as ruas de Luanda se tornaram familiares ou porque o trânsito era agora encarado como rotina normal, ou ainda porque, afinal, concluí que não valia a pena tanta preocupação. Acidentes, acontecem, por muitos cuidados que se tenham; na verdade, nunca tivemos qualquer percalço, nenhum acidente veio conspurcar aquele pacífico fim de comissão às portas de Luanda.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Os ciúmes do taberneiro

A ausência de quase tudo no sofrido isolamento da Neriquinha quase me levou a esquecer o sabor gostoso de uma bica, daquelas cremosas, tiradinhas à pressão e creio que também o seu aroma. Lá longe, bica não havia, nem mal nem bem tirada, era coisa inacessível. Café só aquela água escura servida ao pequeno-almoço, feita no gamelão e tingida com o líquido esbranquiçado resultante da mistura de leite em pó com a água ferrenha sugada das entranhas arenosas daquele deserto poeirento. E o mesmo se pode dizer de tudo o resto. Ali apenas se podia contar com o rancho condicionado na sua qualidade pelo parco orçamento que o Morais dispunha. Talvez por isso, ao pequeno-almoço, tenha substituído a xícara de café com leite por duas cervejas. Matava a sede e ia melhor com a sandes de paio.
A mudança para as Mabubas alterou, num ápice, tudo isso. Agora, o estaminé do Manolo estava ali, à mão e devidamente abastecido. Beber uma bica voltou a ser rotina bem como tudo o resto, passando o local a ser o poiso frequente de quase toda a gente. Ali se almoçava ou jantava sempre que o rancho não agradava, tomava-se café tirado à pressão, tantos quantos se quisesse e do bom. E bebiam-se imperiais quando era necessário aplacar a sede. De caminho jogava-se às cartas, disputavam-se torneios de matraquilhos, ensaiavam-se arremedos de política barata, criticava-se o que não se achava bem, discutiam-se assuntos sérios e, porque aquilo não deixava de ser poiso da tropa, preenchia-se a falta de assunto com dichotes de caserna, tolejando quando a cerveja ingerida, ultrapassando a fasquia do razoável, toldava o raciocínio, interferia com o tino e bloqueava o bom senso.
Com uma espécie de bonomia indolente, o Manolo a tudo assistia pasmaceando atrás do balcão, atendendo todos com natural simpatia até porque não se podia queixar da vida; Clientes não lhe faltavam e embora a receita não fosse muita, sempre dava pró gasto amealhando, aos poucos, um pé-de-meia cuja dimensão nunca ninguém se preocupou em avaliar.
Da cozinha encarregava-se a esposa, senhora de trato delicado que, saindo pouco do seu encerro, no intervalo entre o empratamento de um bitoque e o virar de mais um prego, assomava à pequena janela que ligava a cozinha ao balcão para dar dois dedos de conversa à malta empoleirada nos bancos altos alinhados do outro lado. Para nós, a dona Benvinda era uma senhora, não só pela postura mas também porque a idade, não sendo muita, sempre estava uns anitos à frente da nossa. O facto é que a senhora era respeitada, com naturalidade, ao ponto de o “dona” que todos faziam questão de não esquecer sempre que se lhe dirigiam, parecer pouco respeitoso. Pelo menos era o que achava o Mota que, estabelecendo uma comparação mental com as “donas” que conhecia, corrigia-nos em tom sério:
- Dona não! Dona é a mulher-a-dias. Senhora dona, se não se importam!
Havia ainda o cinema, um grande barracão devidamente apetrechado para assim poder ser chamado. Se a minha memória não me atraiçoa, havia pelo menos uma sessão por semana. O bilhete não era caro e, por isso, fosse qual fosse a fita, toda a gente ia ao cinema, incluindo o Administrador do Caxito que ali se deslocava de propósito para assistir à sessão que, para mal de todos nós, não começava antes de sua excelência chegar. Das fitas que por ali passavam não havia nada a dizer. Para além das coboiadas do costume, retenho de memória algumas fitas interessantes ali exibidas. Recordo-me, por exemplo, de um violino no telhado, novidade cinematográfica estreada dois anos antes e um outro, cujo nome não sou capaz de recordar, mas que tinha como actor principal o francês Serge Reggiani num papel que se encaixava que nem uma luva no seu fácies triste e melancólico. Encarnava a figura de um infeliz, casado com uma mulher que, sem pudor ou recato, o enganava com todos os homens que dela se aproximassem sem se preocupar com a tristeza submissa do marido que a tudo assistia sem queixume, limitando-se a um sofrimento silencioso que os olhos mortiços do actor ajudavam a compor.
No dia seguinte, enfileirados ao balcão, beberricando imperiais, escolheu-se para tema de conversa o enredo do filme da noite anterior. Naquele dia, por estranha coincidência, o Mota estava com uma dúzia de cervejas a mais e no meio dos comentários, reparou na evidente parecença entre o Manolo e o actor francês.
- Oh Pá! Tartamudeou o Mota tentando vencer o entorpecimento da língua: - Já repararam que aqui, o Manolo, é parecido com o “gajo” da fita de ontem à noite?
A parecença era evidente: os mesmos olhos mortiços, as pálpebras meio descaídas e o ar ensonado a realçar o semblante tristonho. Contudo, embora todos concordassem, a conversa não teve andamento especialmente por parte do taberneiro que se fechou num mutismo que ninguém estranhou até porque todos sabiam que o homem era pouco falador e não se esperava que viesse agora gastar palavras perorando sobre tema que não lhe interessava.
A chatice é que, confirmando que não é natural alguém se reconhecer parecido com quem quer que seja, o Manolo achou de entender, nas palavras do Mota, coisa diferente. As parecenças, concluiu, não eram fisionómicas mas sim com o enredo do filme, mais especificamente com a personagem e o comportamento da respectiva consorte. Em suma, na cabeça enciumada do homem, o Mota estaria a insinuar que a sua Benvinda o enganava. E assim, ensimesmado e de cara fechada, foi remoendo uma surda revolta sem que alguém disso se apercebesse.
Entretanto a noite foi avançando, o tema da conversa foi mudando, acrescentaram-se mais umas quantas cervejas às muitas já bebidas e esqueceram-se os infortúnios vividos na tela pelo Reggiani.
Abandonado o aconchego do balcão, queimava-se o tempo com as últimas achegas ao tema entretanto trazido à lide, mesmo ali, em frente, no meio da rua. E de tão interessante que a conversa estava que ninguém se apercebeu que, vindo do escuro, sem emitir um som e brandindo um grosso fio eléctrico, o songamonga do Manolo investiu, qual rapace, descarregando furiosas vergastadas nas costas do Mota, aplacando assim a fúria que fora acumulando num crescendo de soberba bem disfarçada. O Mota balançou sob os golpes da improvisada chibata e, parecendo não as sentir, talvez anestesiado pelo excesso de cerveja, exclamou:
- Alto, que estão a bater no meu amigo Leitão.
O ataque veio tão rápido e tão de mansinho que antes que alguém conseguisse esboçar um movimento, o Manolo retirou-se tão lesto quanto lhe permitiu o discernimento e, esgueirando-se pela porta do restaurante, desapareceu no seu interior.
Refeitos da surpresa e mudando radicalmente o tema da conversa para tão inesperado assunto, analisámos e reanalisámos o porquê de tão inopinado ataque e rendemo-nos finalmente à evidência: o homem não percebeu que as suas parecenças eram mesmo as relativas à fisionomia do grande actor e não com a sina da personagem que, naquela fita, encarnava.
Quanto às consequências do acto, o ofendido homem perdeu a face e uma data de clientes; nós, infelizmente, vimo-nos de novo confinados ao rancho. Coisa de somenos importância. Afinal, o cozinheiro Lourenço, definitivamente adstrito à messe, não era assim tão mau a lidar com os temperos.

terça-feira, 1 de julho de 2014

DESAPARECIDOS

Episódios traumatizantes ou rocambolescos, marcantes ou sem importância, acontecem a qualquer um e de tal sorte que, independentemente da sua gravidade, ficam guardados na memória prontinhos para virem ao de cima alimentando recordações de histórias passadas, especialmente se se reportam a momentos especiais da nossa existência como foram os da vida militar nas longínquas terras angolanas, sejam os passados na cosmopolita Luanda ou nas extensas planuras da savana do Cuando Cubango. Sentir-se perdido ou considerado desaparecido, podem ser exemplos do que quero dizer.
Certa vez, em Luanda, cheguei a imaginar o Morais desaparecido sem que ele tivesse estado perdido. Passávamos ali um fim-de-semana, hospedados num Hotel lá para os lados da Serpa Pinto, acho eu, um hotel agradável e com bom preço. Separámo-nos. Eu planeara fazer uma visita a uma prima, cujo marido, capitão de carreira, cumpria uma comissão em Luanda, enquanto o Morais aproveitava o resto do dia para dar umas voltas, tirar umas fotografias e desfrutar do bulício citadino de que estivéramos afastados pelo longo tempo que durou a nossa aventura pelas Terras-do-Fim-do-Mundo. Foi atropelado algures quando procurava atravessar a marginal e acabou a noite no hospital. Eu, que de nada desconfiava, é que estranhei a sua chegada tardia ao quarto de hotel.
Mas, a grande cidade não é comparável com as grandes extensões da imensa savana. Aí, a coisa é diferente e tem outra dimensão. Na mata não há pontos de referência, nem ninguém a quem pedir ajuda. Foi exactamente no meio daquelas matas agrestes que, pela primeira vez, me senti perdido quando, juntamente com um punhado de homens, numa noite de chumbo e debaixo de uma chuva diluviana, saímos da picada para só a voltarmos a encontrar na manhã do dia seguinte quando a luz do dia surgiu, definiu os contornos e conferiu significado à paisagem envolvente. Tinha por missão recolher o Silva e o seu grupo que, contrariamente ao previsto, não se encontrava no local pré-definido, voltando eu à base sem o ter encontrado, andando o Silva desaparecido por mais de dois dias, até ser resgatado por um grupo lançado para esse efeito.
Mas estes foram casos insignificantes. O Morais acabou por aparecer, combalido, cheio de mazelas, coxeando e com umas quantas nódoas negras espalhadas pelo corpo. No meu caso, reencontrei o caminho no dia seguinte e nunca fui considerado desaparecido. Quanto ao Silva, quando encontrado, apressou-se a salientar que nunca se considerou perdido.
Apenas a aventura do Varela e do Vieira preocupou uns e outros. Sentiram-se perdidos e chegaram a ser considerados desaparecidos, embora apenas por um dia e uma noite. O caso foi recordado no último almoço da companhia, remontando o episódio ao tempo em que ainda mal começáramos a habituarmo-nos ás peculiaridades daqueles terrenos arenosos semeados de capim.
O terceiro pelotão, comandado pelo alferes Correia, fora incumbido de patrulhar as matas que se seguiam às grandes chanas do Rio Cúbia, lá para os lados do Liahona, primeiro dos kimbos que se enfileiravam no caminho que levava ao Rivungo. E perceberam que aquelas matas eram ricas em caça. Umas quantas palancas, umas pequenas gazelas e as manadas de songues que pelo caminho viram pastando nas chanas alagadas, despertaram o interesse daqueles homens.
Lá para o meio da tarde, quando todos descansavam no precário aconchego das palhotas do Liahona, o Varela e o Vieira, obtido o consentimento reservado do alferes, atreveram-se pela mata circundante penetrando algumas centenas de metros sem perderem de vista a silhueta das palhotas do kimbo que a pouca densidade arbórea deixava entrever.
Avançaram mais um pouco e para surpresa de ambos, como um presente da natureza, uma pequena gazela apareceu por entre o capim mordiscando a erva verde que crescia em abundância. O Vieira fez sinal ao Varela apontando o animal ao mesmo tempo que, colando o dedo à boca, recomendava silêncio para não o afugentar. Este, não dando sinais de ter pressentido os dois, foi andando, de moita em moita, parando aqui, avançando ali, ruminando a erva que ia arrancando com pequenos puxões.
Os dois homens, silenciosos, foram seguindo o bicho, procurando confundir-se com a vegetação, progredindo de árvore em árvore, ora para a direita, depois para a esquerda, outras vezes em frente, mas sempre ao sabor do deambular sem rumo certo da pequena gazela, na esperança de a apanharem a jeito. Perderam a noção do tempo e do espaço e nem deram conta de quanto já haviam andado.
Só quando perderam o animal de vista que misteriosamente desaparecera por entre o capim, é que deram conta de que estavam perdidos. O kimbo deixara de estar à vista e o pior de tudo é que já nem eram capazes de saber que direcção tomar para voltar para trás. Entreolharam-se apreensivos e questionaram-se sobre qual o caminho a tomar. Caminharam numa direcção, hesitaram, tentaram outra e ao fim de algum tempo concluíram que estavam perdidos e o pior é que, entretanto, o sol rendia-se descendo dramaticamente abaixo da copa das árvores, pintando de um vermelho alaranjado o céu que, até então, exibira o seu normal azul intenso e luminoso.
O Vieira, homem pequeno mas de corpo maciço, mais habituado às serranias da terra onde nasceu, ia mantendo a calma em contraponto com o ar assustado do Varela que, visivelmente alarmado e temendo a mata que desconhecia, começou a dar sinais de apreensão que, aos poucos, se foram transformando em pânico, visível no queixume choroso, lamentando a sua má sorte. Entretanto, a noite caia envolvendo com o seu manto negro toda a mata circundante, conferindo maior dramatismo à situação. O Varela, quase em desespero e sentindo-se desamparado, lamentava a sua má sorte:
- Ai minha mãezinha! E eu que há tão pouco tempo me despedi dela.
Aquietaram-se, mas os barulhos da noite ampliados pelo seu característico silêncio juntaram-se ao medo dos soldados que, desconhecendo que perigos se escondiam para além do negrume, começaram a imaginar-se cercados por toda a espécie de bichos medonhos, encontrando uma ameaça em cada restolhar em cada roçagar das ervas, em cada sombra projectada pelo fraco luar coado pela ramagem das árvores. Sem sequer tentar esconder os seus temores, o Varela decidiu que o melhor seria trepar a uma árvore, convencendo-se que ali, enganchado entre os ramos, estaria a salvo da bicharada e fora das vistas do inimigo que, pensou ele, bem poderia estar por ali à espreita. Contudo, ou porque não encontrou uma árvore a jeito ou porque a calma que o Vieira aparentava o convenceram a aquietar-se, conseguiu ainda dormitar enroscado no canto que julgou mais adequado.
O dia nasceu bem cedo, como é costume naquela terra e com a luz do dia desapareceram todos os fantasmas que povoaram a noite do pequeno Vieira e do seu companheiro Varela. Levantaram-se e puseram-se a matutar na melhor forma de encontrar o caminho que os levasse de volta às palhotas do Kimbo onde o resto do pessoal se questionava preocupado com o desaparecimento daqueles dois.
A solução apareceu como por magia quando, surgindo do nada, um elemento da população que, àquela hora, vindo do kimbo, caminhava por entre as árvores num passo decidido de quem se dirige a algum lugar. A aparição daquele negro materializou a tábua de salvação a que os dois náufragos se agarraram e, sem sequer se questionarem sobre a sua identidade, perguntaram ansiosos:
- Liahona?
O negro, um tanto ou quanto atónito, apontou-lhes uma direcção que os dois seguiram sem hesitar acelerando o passo numa incontida impaciência até que, ao fim de pouco tempo, lá divisaram, por entre as árvores, a silhueta das palhotas do kimbo.
Foi uma festa. Ainda abalados pela noite mal dormida, descomprimiram descrevendo atabalhoadamente mais a forma como se perderam e menos a ajuda que os trouxe de novo ao conforto da companhia dos amigos.
Só o alferes Correia, aparentando a calma que todos lhe conheciam, passava mentalmente em revista todas as preocupações que o haviam atormentado desde o momento em que, tendo-se posto o sol, não vira os seus homens regressar. Apostaria que, nesse entretanto, se terá arrependido mais de uma dúzia de vezes de ter autorizado o passeio insensato dos dois soldados.

domingo, 1 de junho de 2014

Sinecuras e dissabores

Era suave a nossa vida nas Mabubas. De tão agradável, mais parecia estarmos de férias. Não fora uma coisa ou outra, uma pequena chatice aqui, um qualquer contratempo ali, afinal coisas pequenas, insignificantes, quase episódicas, dir-se-ia que vivíamos com os anjos num mundo de paz e harmonia. Ou então, o enorme contraste com tudo o que passámos na Neriquinha, onde aguentámos as agruras daquele mundo inóspito enfeitado de imagens palustres inacreditavelmente plantadas no meio de uma aridez desértica, fazia das Mabubas e das suas gentes um quase paraíso temperado pelas frescas águas da sua barragem, qual bálsamo apaziguador de feridas na alma de homens que, por demasiado tempo, se viram sujeitos a tratos de polé, votados a um ostracismo reinante mancomunado com o clima agreste e a hostilidade selvagem da imensa savana.
A verdade é que, como não podia deixar de ser, aqueles dezoito meses de savana passados nas terras-do-fim-do-mundo, foram ficando para trás, quase esquecidos, como se fora um sonho mau que se esvaia a cada novo nascer do sol. Habituámo-nos rapidamente à nova vida, despreocupada, quase familiar, misturados com a população local como se a aldeia em que cada um nasceu tivesse sido para ali transplantada, materializando-se naquela simbiose que ganhava dimensão nos cálidos serões que se seguiam ao jantar.
A cada fim de dia e encerrado o expediente militar, despia-se a farda, tomava-se um duche para refrescar, embonecávamo-nos com a melhor farpela, saboreava-se a janta e se o rancho não agradasse, recorria-se ao bife com batatas fritas e ovo a cavalo no estaminé do Manolo, gastando-se o resto da noite na converseta, sentados no pequeno alpendre da messe ou vagueando por ali, quais heróis em período de recobro, jactantes e moderadamente impantes, exibindo a roupa justa e colorida, novinha em folha, comprada na última ida a Luanda, numa desnecessária tentativa de causar boa impressão. Aquela rua sem trânsito e sossegada ganhava vida, animava-se nas conversas à porta dos vizinhos, ao mesmo tempo que se cimentavam amizades.Com alguma pesporrência e, sem segundas intensões, cada um exibia o seu charme, tagarelando com as catraias. Muito novitas, pré-adolescentes, não eram mais de meia dúzia, mas eram lindas de morrer e ainda por cima, simpáticas.
Aos fins-de-semana, as Mabubas animavam-se. A barragem atraía muita gente que vinha de Luanda, de propósito, para ali passar o domingo fugindo ao bulício citadino, em tudo comparável com as visitas que os lisboetas fazem a Sintra ou à zona saloia, apenas pelo passeio, pela paisagem e, obviamente pela barragem e nada mais porque ali não havia mesmo mais nada para ver.
O Bacalhau comprou um carro, um velhinho Simca Aronde, azulão. Nunca saberemos onde arranjou o dinheiro, se bem que, pelo aspecto, não deve ter sido caro. Não cheguei a saber pormenores do negócio, mas tenho a impressão de que algo ficou por esclarecer incluindo a forma como arranjava gasolina sem a pagar. Sim, porque o bacalhau não era néscio e só fazia negócios vantajosos, embora, por vício ou feitio, abocanhasse sempre todas as vantagens, deixando os outros a coçar a cabeça procurando discernir de que forma tinham sido levados.
Quanto ao mais, frequentava-se o estaminé do Manolo, beberricavam-se umas imperiais, roiam-se uns amendoins, tasquinhava-se uns pregos bem regados, soltavam-se pilhérias, aprimorava-se a destreza nos matraquilhos e substituiu-se lentamente a corriqueira sueca por algo mais intelectual e chique. É verdade, o Mota, com alguma paciência, lá nos foi iniciando no bridge, exigindo raciocínios rápidos, estratégias especiais e técnicas superiores que nos mantinham entretidos e insones madrugada adentro.
Quanto à nossa missão por ali, as operações preventivas e de defesa militar que por dever de ofício tinham de ser executadas, confinavam-se, agora, aos palmares e laranjais da Fazenda Alice e apenas tinham o inconveniente da pernoita ao relento. Mas isso era uma coisa de nada. Bem! Pelo menos nos primeiros tempos. Com o passar do tempo e uma vez habituados a novos luxos, as pacíficas emboscadas, montadas nos matagais da fazenda, foram-se transformando lentamente em contratempos que, ainda assim, não chegavam sequer a beliscar a paz daquele recanto que tão bem nos recebeu.
Tirando isso, restavam as sempre bem-vindas missões em serviço a Luanda. Normalmente para levar expediente e correio, era a oportunidade para dar um salto à grande cidade. A missão era sempre executada por um Furriel que, de passagem, recolhia os envelopes na companhia do Caxito e na sede do batalhão na fazenda Tentativa e calcorreava os serviços militares espalhados pela cidade distribuído a correspondência, recolhendo o qua havia a recolher e sem pressa regressava antes do fim do dia, aproveitando a sempre incontornável paragem no Cacuaco para virar umas canecas e saborear uns camarões cuja qualidade e sabor nunca nos desiludiu.
Certa vez, competindo ao Pinto, o furriel enfermeiro da companhia, a pacífica missão, aperaltou-se com a bem engomada farda domingueira e sapatinho engraxado, montou-se na viatura conduzida pelo condutor de serviço, recolheu o expediente na secretaria, passou pelo Caxito, deteve-se na Tentativa, juntou os envelopes, separou-os por destino e seguiu viagem até à cidade. Aí chegado, passou pelo quartel-general, foi ao serviço de transmissões, deu um salto à direcção de material, andou pelo Grafanil e, cumprida a missão, regressou como de costume quando o sol já ia baixo. Não se apercebeu que, pelo caminho, sem saber onde nem como, lhe escorregou de entre os demais um dos envelopes que nem sequer veio a saber a quem se destinava. O pior é que tal envelope era do comando do Batalhão, qualquer treta administrativa do comandante destinado a uma secretaria qualquer e que nunca chegou ao destino. Sem nunca ter conseguido saber que raio de papel lhe desapareceu de entre os demais, foi severamente punido. O Major Tamegão não lhe perdoou tal irresponsabilidade. A porrada não doeu, mas moeu a auto-estima do Pinto de tal forma que ainda hoje alimenta a revolta.
Percebe-se. Há certas coisas que, sendo injustas, ganham maior dimensão do que aquilo que são, roem os miolos e são difíceis de esquecer. São, contudo, recordações que, passados tantos anos, contribuem para colorir as nossas memórias de outros tempos.

terça-feira, 6 de maio de 2014

MATARAM O BACALHAU

Ensaiei diversos títulos e nem sei se este será o mais adequado. O facto é que o Bacalhau morreu. Como diz o brasileiro, morreu de morte matada, com estrondo, de tal forma que foi notícia de primeira página nos jornais de ontem e de hoje.
É verdade meus amigos, o Virgílio Cabral, o nosso Bacalhau, depois de ter vivido a vida da forma que escolheu e que quis, foi brutalmente assassinado. Depois de uma vida ao volante de um táxi pelas noites lisboetas, acabou por morrer em sua casa, apunhalado, sem que se saiba bem porquê e por quem.
Pode censurar-se o seu comportamento e a forma como levava a vida. Mas era um dos nossos e como tal será sempre recordado, sem recriminações.
Ficarão para a história, certamente, todas as suas bizarrias, o seu desenrascanço, a imaginação fértil que o levava a desencantar as formas mais inesperadas de arranjar uns dinheiros extra, sempre com umas pinceladas de desonestidade quase inofensiva de que, sem pudor, fazia alarde.
O Bacalhau nunca fez mal a ninguém, que se saiba. Estou capaz de apostar que não merecia sair deste mundo sem sequer se despedir. Não deixaram. Não lhe deram hipótese.
Descansa em paz.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A AÇUCAREIRA

Ali bem pertinho, um par de quilómetros a oeste do Caxito, a Fazenda Tentativa espraiava-se pelas margens férteis do Rio Dande que se passeava preguiçoso por entre hectares e hectares de plantações de cana-de-açúcar e palmeiras dendezeiras. A fazenda era propriedade da Companhia do Açúcar de Angola, que detinha ainda fazendas mais a sul, mais propriamente no Cubal e no Dombe Grande, verdadeiro império empresarial da família Sousa Lara que produzia de tudo um pouco salientando-se o açúcar de que era a maior produtora de todo o território e ainda sisal, óleo de palma e coconote entre outras coisas.
Inicialmente, eu não fazia a mínima ideia do que aquela fazenda produzia. Havíamos por lá passado na etapa final da viagem que nos trouxe das longínquas Terras-do-Fim-do-Mundo mas, na altura, nem dei pela sua existência. Albergava a sede do batalhão, o que significava proximidade do comandante e isso era o suficiente para eu querer distância dali. Das vezes que por lá passei, por imperativos de serviço, dirigi-me sempre à secretaria, o mais rápido possível e zarpava antes de qualquer encontro imediato. Ou o homem saía pouco do círculo restrito do seu gabinete ou tive sorte. O facto é que nunca dei de caras com tal pessoa. Ainda hoje recordo, numa revolta mitigada e quase esbatida pelo tempo, o raspanete imerecido que me deu em plena pista empoeirada da Neriquinha, enquanto aguardava o momento de subir para o Alouette que me levaria até às profundezas da savana para mais uma desgastante operação militar contra um inimigo que não quis medir forças connosco. Enfim, reminiscências agora temperadas pela riqueza exuberante de uma fazenda, ali quase às portas do bulício citadino de uma aprazível Luanda.
Atrevo-me a afirmar que, para mim, a Tentativa tinha uma aura especial. Tenho a certeza de que a via de forma diferente do resto do pessoal. Da baga do dendém, confesso que, até então, nunca tal tinha visto ou imaginado, mas a plantação e cultivo da cana-de-açúcar era algo que fazia parte da minha existência. Aprendi a distinguir as suas variedades, sabia escolher a mais sumarenta e mais doce e não resistia ao seu suco delicioso que saboreava chupando‑o gulosamente até não restar gota.
Nasci e cresci na Madeira absorvendo as preocupações do meu pai numa luta permanente contra as pragas que dizimavam a plantação, exigindo cuidados que nem se extinguiam na azáfama anual da colheita e seu transporte para o engenho que a transformava em branco açúcar, em espesso e escuro mel, dali saindo ainda uma aguardente explosiva que, para ser bebida, tinha ser diluída e amaciada. Esta agro-indústria, a par com a produção de vinho, representava então, umas das maiores riquezas da ilha que me viu nascer.
Por tudo isto, entende-se a compreensível atenção que eu dispensava a todo o processo, já que a única semelhança encontrada ficava-se mesmo pelo aspecto da cana; tudo o mais era diferente. Habituado à plantação alinhada em regos paralelos desenhados nas nesgas de terra empoleiradas nos socalcos das encostas madeirenses era, pelo menos para mim, uma espectacular novidade a enormidade dos canaviais espalhados pelas ricas planuras da fazenda, dessedentando-se no generoso caudal do Dande que, uma vez domado por uma ou duas represas, deixava que as águas circulassem por canais de rega estrategicamente construídos por entre os terrenos da plantação.
Ali a cana crescia livremente formando um matagal intransponível que apenas desaparecia na altura da colheita, feita a golpes de cutelo por um exército de milhares de trabalhadores. Para além dos canaviais, que se avistavam da estrada, nunca me foi dado tomar consciência da sua real extensão e capacidade produtiva. Sabia, contudo, que a cana era transportada em pequenos vagões que rolavam por carris de ferro puxados por um tractor desde o local da colheita até à fábrica.
Constava que tinha vinte quilómetros quadrados de extensão, mas isso não me permitia ter a noção do seu significado. Apenas tendo em consideração que a fábrica laborava durante todo o ano e que o ciclo de crescimento da cana era em média de doze meses, conseguia imaginar a enormidade da extensão e da capacidade produtiva daquela fazenda à qual, a linha férrea conferia maior dimensão. Não sei se era assim, mas lembro-me que, na altura, juntando todos estes elementos, me pus a concluir que havia sempre cana em condições de colher, numa espécie de carrocel sem fim: à medida que ia sendo colhida, voltava a crescer ao ritmo da capacidade de laboração das prensas que incessantemente a espremiam.
Quando, finda a comissão, por ali passei na viagem de regresso a casa, lembro-me vagamente de ter deitado uma última olhadela aos canaviais que se estendiam desde a estrada. A folhagem da cana ondulava ao sabor da fraca brisa, quase pronta para nova safra como ciclicamente acontecia desde os recuados anos vinte, altura em que foi fundada a Companhia.
Sei que, após a independência, passaram a chamá-la de “A Açucareira”. Contudo, reza a história que, alguns anos volvidos, cessou toda a produção e todo o casario da fábrica incluindo os armazéns do açúcar, se transformou em ruinas.
Não sei o que lá se planta nos dias de hoje, mas o esqueleto de toda aquela riqueza ali permanece como um fantasma que, após a morte física, se obstina em não abandonar o mundo dos vivos.
Qual terá sido o paradeiro de toda a maquinaria pesada que equipava a fábrica? E os carris de ferro? Ainda se deixarão ver?
Bem, na verdade, nem quero saber.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A CARTA DE CONDUÇÃO

Naqueles tempos, não havia acesso aos facilitismos que caracterizam os dias de hoje e não me refiro sequer à evolução tecnológica de que quase todo o ser pensante modernamente usufrui. Para dar um exemplo comezinho, ocorre-me citar o telefone; fazer um simples telefonema de Angola para Lisboa era quase ficção, coisa difícil. Quanto muito um telegrama, via Marconi, então transmitido recorrendo aos pipiipi’s que representavam os pontos e traços do velhinho código Morse. Ou seja, comunicar com a família, só mesmo recorrendo à escrita bem arrumadinha no curto espaço disponível dum simples aerograma. Telegrama só em caso de extrema urgência e, ainda assim, era preciso poupar nas palavras e omitir os artigos definidos, os indefinidos, as preposições e outras miudezas da escrita.
Eram de facto outros tempos. E as diferenças eram muitas. Umas mais insignificantes, outras mais radicais e outras ainda diferentes por razões diversas. Veja-se, por exemplo, a carta de condução; hoje, qualquer miúdo com dezassete anos, já está habilitado com a licença adequada à condução da máquina de que mais gostar. Naqueles tempos, conduzir era coisa que ocupava os sonhos de muitos mas, simultaneamente, era algo que não estava nos planos mais imediatos da maioria. E eu não era excepção. A primeira vez que experimentei tal coisa foi ao volante de um unimog, dos pequenos, nas picadas arenosas que sulcavam os longes por onde andámos. Mas aí, a coisa era simples; desde que conseguisse engrenar uma velocidade, o pequeno pincho andava quase sozinho. A profundidade do sulco da picada mantinha-o no caminho e a ausência de trânsito dispensava o conhecimento dos artigos do código da estrada. Assim sendo, eram muito poucos os encartados da companhia. É claro que os condutores da tropa não entram na contagem. Alguns destes tinham apenas carta militar, atribuída pelo exército, após umas aulas mal-amanhadas frequentadas na escola de condução militar.
Mas, vamos ao que interessa. Ali bem pertinho, na pequena povoação do Caxito, havia uma escola de condução e isso bastou para motivar uns tantos a tirar a carta! Não fui eu, de certeza, quem primeiro se lembrou de tal coisa mas, decidi inscrever-me. E mais uns quantos também. Não recordo exactamente de quem, mas o Morais, que me acompanhou desde as primeiras lições, era um deles e, pelas razões que motivam esta história, o soldado cozinheiro Lourenço era um dos outros.
O Lourenço era um homem sui generis. Aprendi a conhecê-lo no Rivungo, quando ali cheguei pela primeira vez e me apresentei à grande chana do rio Cuando. Foi o cozinheiro que nos calhou em sorte e ainda hoje estou para saber porque raio foi o homem escolhido para, sozinho, tratar dos tachos e dar de comer à malta para ali destacada, enquanto na Neriquinha ficava toda a equipa, para mais orientada pelo Cabo Ribeiro que se sabia ser o único com experiência na função.
Para além de ser cozinheiro de fracos recursos, era um cromo. Bom tipo, certamente mas se, naqueles primeiros tempos de mata, não tivesse tido a preciosa ajuda do velho Máquina, negro ganguela nascido nas profundezas da savana, mas bastante habilidoso nos temperos, estaríamos bem tramados e creio bem que passaríamos o tempo a mastigar salsichas com massa e massa com salsichas entremeada com um ou outro acepipe gorduroso aprendido na escola de culinária militar daqueles tempos. Aquele seu trejeito fungoso à mistura com o discurso fanhoso não augurava nada de bom, pelo menos no que se refere à confecção de comida de jeito. Mas safou-se bem e tenho a certeza de que aprendeu muito com o Máquina. Isso e o facto de ser boa pessoa, talvez seja a explicação para não ter recebido, ao longo do tempo que tratou da janta do pessoal, reparos de maior. Caiu no goto da malta, é o que é. Todos o tratavam com bonomia à mistura com um ou outro apodo inspirado na sua bisonha figura e peculiares trejeitos, incluindo a forma como metia os pés para dentro ao andar. Pois bem, este homem que, para além do mais era pouco dado às coisas da cultura, também resolveu tirar carta de condução. Não sei quais seriam os seus planos para o futuro, mas foi assim que aconteceu.
As lições de condução não constituíram grande problema. Na vila do Caxito apenas havia uma rua. Em boa verdade era a estrada que, vindo de Luanda e depois de passar pela Fazenda Tentativa, atravessava a urbe em direcção a norte. O trânsito era escasso, não havia cruzamentos nem rotundas e tão pouco subidas e descidas, o que significa que as lições práticas não eram um problema para os instruendos mas, em compensação exigia muita imaginação do instrutor que procurava tudo o que pudesse ajudar no treino de todas as manobras impostas pelo regulamento. Lembro-me que, para praticar o ponto de embraiagem, dado tudo ser plano por ali, recorria-se a uma pequena rampa de terra que, em resultado do nivelamento da estrada aquando do seu asfaltamento, dava acesso à picada que, num plano inferior, dali nascia em direcção ao interior da mata. Era suave, a rampa, bastante curtinha, mas era o único declive que havia nas proximidades. Quanto ao mais, o instrutor metia dois alunos no carro, um conduzia até à Fazenda Tentativa, fazia aí a inversão de marcha e o outro fazia o percurso inverso de regresso à escola.
Assim sendo, para o Lourenço, as lições foram correndo sem grandes problemas e, aos poucos, lá foi conseguindo fazer tudo direitinho. O problema era o código. Fixar todas aquelas regras era complicado. Bem se esmerou a estudar pelo manual mas a coisa não estava fácil e isso via-se, durante as aulas teóricas, especialmente porque não conseguia encaixar na pergunta do instrutor aquilo que, com tanto denodo, estudara na noite anterior. É verdade que os manuais incluíam uma variedade considerável de perguntas e respostas correspondentes mas, ali, perante o instrutor, era difícil encaixar na pergunta a resposta certa.
Mas o Lourenço não se intimidou. Decorou o manual de ponta a ponta, afinou bem a coisa e dentro de algum tempo tinha tudo memorizado ao mais ínfimo pormenor; agora nada podia falhar. Mas, perante uma pergunta concreta, tornava-se difícil rebobinar tudo o que memorizara, acontecendo por vezes escolher a resposta destinada a pergunta diferente. Foi então que encontrou a solução radical. Para não se enganar, decorou, de forma encadeada, cada pergunta e a respectiva resposta. A partir daí nunca mais se enganou. Perante uma pergunta e independentemente de como o instrutor a formulava, o Lourenço respondia sempre da mesma forma: papagueando, repetia a pergunta tal como estava no manual e acrescentava-lhe a resposta correspondente.
Não me lembro se alguma vez, percebendo mal a questão, rebobinou a pergunta errada e se com isso, também errou a resposta. Mas sei que fez o exame e passou à primeira.

sábado, 1 de março de 2014

Os crocodilos da barragem

Continuo a não resistir à tentação de comparar as terras-do-fim-do-mundo com o quase paraíso que era agora a nossa nova morada. Naquele fim de mundo, era a aridez da savana que afogava a Neriquinha em calor, pó e muito de coisa nenhuma em contraponto com o lenitivo deste pequeno recanto abraçado à civilização e temperado pelas águas mansas da sua imensa barragem. E como se isso não bastasse, lá faltava tudo e até a água tinha de ser sugada de um furo dependente dos humores do pequeno gerador, enquanto aqui, disfrutava-se da abundância de água canalizada, com abastecimento garantido pela inesgotável albufeira de água cristalina. No degredo da savana, a electricidade vinha aos empurrões saída de geradores cansados, movidos a gasolina, enquanto aqui havia energia com fartura garantida permanentemente pela força das turbinas mantidas em funcionamento por um inesgotável manancial de água que, submissa, se aquietava acima do paredão.
A existência das Mabubas deve-se, seguramente, à barragem. Construída no exacto local onde o rio Dande estreitava espremido no fundo de uma garganta rochosa, aprisionou as águas que rapidamente encheram a grande albufeira, cobrindo toda uma extensa área de mato que desapareceu submerso naquela imensidão de água que invadiu cada pequeno recanto, cada vale ou simples depressão, trepando pela encosta, engolindo árvores, empurrando a fauna encosta acima, ao mesmo tempo que, formando um novo habitat, passou a acolher uma grande variedade de criaturas aquáticas onde se incluiam crocodilos que aos poucos, embora não se deixassem ver, se foram instalando. Simultaneamente, as cascatas que, segundo se diz, por ali existiam e que terão dado nome ao local – mabubas, é o termo em quimbundo que significa isso mesmo - desapareceram abafadas naquela imensidão líquida.
Nunca me deu para explorar a albufeira ou então andei distraído e não soube aproveitar uma das muitas oportunidades para o fazer. Sei, porque se dizia e quem conhecia garantia, que a viagem de bote, seguindo a direito desde o paredão até à embocadura do rio, levava bem mais de uma hora e explorar todos os recantos, enseadas e recortes era tarefa para levar dias, dependendo das voltas que se dessem. Do meu ponto de vista, os verdadeiros conhecedores, aqueles que dominavam todos os segredos, todos os recantos, meandros e esconderijos daquele imenso lago artificial, seriam certamente o Sr. Tomé e o Gasolina, seu homem de confiança. O Sr. Tomé tinha um barquito, uma pequena canoa a que eufemisticamente dera o nome de “Foz do Arelho”, certamente em memória da sua terra natal onde ainda vive segundo julgo saber. Era no “Foz do Arelho” que fazia as inspecções à barragem, que se aventurava em caçadas nocturnas às pacaças e se dedicava à pesca, lançando as suas redes onde, certa vez, um crocodilo se deixou enlear morrendo afogado. É verdade, os crocodilos podem morrer afogados se forem impedidos de emergir.
Crocodilos, como se sabe, era bicho que abundava nas chanas do Cuando, lá para os lados do Rivungo. Mas aí, eram conhecidos por jacarés. Aos que habitavam a barragem, chamavam crocodilos. É verdade que crocodilos não são jacarés e estes não podem ser chamados de crocodilos, sendo certo que nunca me deu para tentar perceber a diferença. Seja como for, o facto é que me habituei à ideia de que, fossem eles elegantes crocodilos ou poderosos jacarés, uns e outros, abundavam onde houvesse água e isso era coisa que não faltava num lado e no outro. Aqui, aprisionada pelo amplexo da barragem; lá longe, livre e pachorrenta, passeando-se pelos sinuosos meandros do grande rio, espraiando-se pelas chanas pantanosas, apoderando-se de grandes extensões daquelas imensas planuras, cortando caminhos e picadas mas pincelando de verde aquelas paisagens agrestes. Quanto aos ditos bichos, ainda hoje não sei se os do Cuando, chamados de jacarés, o eram de facto ou se estou a cometer uma gafe aceitando que os da barragem eram crocodilos. Por mim, prefiro outras companhias, já que aqueles que conheci nas chanas pantanosas do Rivungo nunca me pareceram amistosos.
De qualquer forma, esse mundo selvagem, hostil mas de beleza feérica, ficara para trás, lá bem longe, perdido na savana e era certo que nunca mais para lá voltaríamos.
A realidade agora era a paz das Mabubas com todo aquele fulgente lençol de água a perder de vista: era fresca, tinha peixe que permitia um entretém relaxante, verdadeiro refrigério de ressacas ou maus humores, um passatempo para quem não tinha com que se entreter. Até eu, que nunca consegui arranjar paciência para a pesca, cheguei a munir-me de uma cana improvisada, atei-lhe uma linha e num domingo à tarde, sem nada para fazer, lancei umas duas ou três vezes o anzol e fui dando que fazer à paciência por umas horas. Não pesquei coisa nenhuma, verdade seja dita e apenas a cavaqueira com os parceiros de ocasião acabou por ser o único proveito que obtive.
Dos crocodilos das Mabubas pouco se sabia e creio que muitos nem se aperceberam de que os havia. Mas o ZIP ficou com a certeza de que tais bichos andavam por ali e de tal forma que, creio, nunca mais se esqueceu disso. O Marcelino era um soldado condutor, baixote, um tanto ou quanto franzino, a quem, por razões que não retenho, todos chamavam de Zip Zip, epíteto que se lhe colou de tal forma à pele que, ainda hoje, mais de quarenta anos volvidos, continua a sobrepor-se ao seu nome de baptismo do qual poucos se lembrarão.
Pois bem, o Zip inscreveu-se e participou numa prova de natação integrada num conjunto de eventos que preparámos para comemorar o aniversário da companhia. Não sei se se dispôs a ganhar a prova, mas o facto é que se aplicou, num esforço estrénuo, em braçadas vigorosas, rodando a cabeça ao ritmo das braçadas, de um lado para o outro, num estilo próprio de quem aprendeu a manter-se à tona deixando a técnica para depois. E naquele afã de quem procura medir a distância e avaliar quanto faltava para a meta, descortinou algures lá para trás a cabeça de um crocodilo aflorando a superfície reluzente da água.
O redobrado vigor que imprimiu às braçadas não deixou margem para dúvidas: o Zip deduziu que o bicho o perseguia. Provavelmente imaginando-se a ser abocanhado, reuniu as forças que lhe restavam, sacou do seu melhor crawl e num ápice alcançou a margem. Ofegante com os bofes a saltarem pela boca, mas na segurança de terra firme, olhou para trás como a querer certificar-se se de facto fora mais rápido que o bicho. Mas este desparecera.
Ainda hoje, desconfio que o crocodilo nem chegou a esboçar qualquer ataque. O bulício circundante afugentara-o naturalmente e submergiu desaparecendo nas frescas águas. Se calhar, nem deu pela presença do Zip; ou então, terá decidido que era coisa que não justificava um esforço.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Brincadeiras de miúdos

A nossa estada nas Mabubas corria de feição. Na verdade corria tudo tão bem que quase já ninguém se lembrava das agruras passadas na Neriquinha e na aridez da savana que a circundava. Mas isso era apenas ilusão. Aqueles tempos marcaram-nos, colaram-se-nos à pele, encafuaram-se nos escaninhos da memória de forma tão intensa que bastava qualquer coisa insignificante, mesmo que nada tivesse a ver com aquilo, para que as imagens daquelas areias escaldantes e daquelas gentes, saltassem do patamar mais fundo do baú de memórias para a superfície, desembrulhando-se em imagens coloridas que, sobrepondo-se à nossa quotidiana vontade, impunham a sua presença.
Nas Mabubas havia miúdos, como em qualquer lugar. Uns pretos, outros brancos, uns quantos mais reguilas que outros, uns mais pequenos e outros mais crescidotes, mas todos alegres, vivaços, umas vezes rindo outras chorando, mas felizes e irrequietos como naturalmente são os miúdos. Perante a sua natural algaraviada, veio-me instintivamente à memória a imagem dos putos da Neriquinha: todos eles pretos, nus, descalços, sujos, ranhosos e deserdados da sorte, mas igualmente alegres, irrequietos e felizes com a vida que tinham, até porque não conheciam outra.
Qualquer coisa lhes servia para preencher o seu imaginário mundo de fantasia, os seus entreténs e brincadeiras; os da Neriquinha com meios mais limitados e estes, os das Mabubas, naturalmente com acesso a outras coisas, variando os passatempos em função do que, quer uns quer outros, conseguissem arranjar. Aqueles, lá nos confins da savana, via-os brincar com as pequenas coisas que encontravam na mata, aos quais, aos poucos, foram juntando os artefactos que, com a chegada da tropa, foram aparecendo como novidades a que naturalmente não resistiam. Em contraponto, estes, os das Mabubas, embora não desdenhando coisas semelhantes, acrescentavam-lhe os brinquedos comprados nas lojas a que tinham acesso e que, lá nos confins do território, não existiam.
Mas vamos ao que interessa. Para um miúdo, qualquer coisa, mesmo que insignificante ou inútil, serve os propósitos de uma brincadeira: de uma meia fazem uma bola, uma lata dará um potente carro, a imaginação fará de um qualquer pau uma poderosa excalibur e uma simples caixa de cartão pode perfeitamente fazer a vez de um castelo. Nas Mabubas, um dos putos entre os demais, resolveu fazer isso mesmo. Encontrou uma caixa de cartão suficientemente grande, imaginou-a o seu castelo e meteu-se lá dentro entretendo-se, no seu mundo de fantasia, a congeminar planos de governo e estratégias de defesa de torreões virtuais.
Não sei se apenas se meteu dentro da caixa no exacto lugar onde a encontrou ou se decidiu ser aquele o melhor local para instalar a fortaleza, ali, mesmo no meio da rua, mais ou menos antes da curva que antecedia o último troço que levava ao paredão da barragem, por alturas das oficinas auto.
O trânsito era raro, quase inexistente. Os carros, militares ou civis, apenas eram utilizadas quando fosse estritamente necessário, onde não se incluía cirandar pelo povoado e, talvez por isso, a natural irresponsabilidade infantil daquela como de todas as crianças, não encerrava, naquele caso, um perigo iminente. O mais certo era fartar-se da brincadeira e, mais cedo do que se poderia pensar, abandonaria a fortaleza de cartão antes que um carro, por qualquer razão inesperada, por ali circulasse. E mesmo que tal viesse a acontecer, o tamanho da caixa era suficientemente grande para poder ser avistada ao longe por qualquer condutor. De facto, estar a brincar no meio da rua, naquela rua, não era perigo que causasse alarme ou preocupação de maior.
Mas, (há sempre um mas) as coisas não correram assim. Sendo o trânsito quase inexistente, contudo, havia viaturas nas Mabubas e não apenas as da tropa como acontecia na Neriquinha. E circulavam, pouco, mas circulavam. Cada família tinha o seu carro e havia ainda o Land Rover que diariamente o senhor Tomé, responsável pela Barragem, utilizava sempre que descia à central localizada a jusante do paredão, até porque, para lá chegar, haveria que percorrer um íngreme caminho que, descendo pela encosta, morria frente ao edifício da central construído à beira do rio que ali recebia as águas que, chutadas pelas pás das turbinas, eram de novo devolvidas ao rio que as acolhia num marulhar de boas vindas.
Naquele fim de dia, ao volante do Land Rover, o senhor Tomé regressava exactamente da central depois de lá ter passado toda a tarde na sua função de responsável máximo pelo perfeito funcionamento de toda aquela maquinaria. Subiu a encosta, atravessou o paredão e sem pressa, que o tempo não urgia, galgou o pedaço de rua que subia até à curva onde o miúdo se entretinha fora das vistas de quem por ali passasse.
Para o senhor Tomé, aquilo que se lhe deparou não passava de uma simples caixa de cartão, um pouco grande, mas não mais do que isso. Mentalmente questionou-se sobre o local pouco próprio para alguém largar tal coisa. Certamente estaria vazia, terá pensado, admitindo, por simples razão de lógica, que qualquer coisa a empurrara para ali. Provavelmente o vento, não obstante não se lembrar de o ter sentido soprar em todo aquele tórrido dia que nenhuma aragem fizera refrescar.
Continuou a direito decidido a passar-lhe por cima. Era de cartão, o Land Rover facilmente a esmagaria e, assim sendo, mesmo que continuasse no meio da rua já não seria obstáculo. Encarregaria depois o Gasolina, um negro taludo, seu subordinado, um pouco o faz tudo por ali, de a ir retirar. Afinal, que importância tinha uma simples caixa de cartão? Avançou, sempre a direito, naquele vagar embalado pelo som rítmico e indolente do motor do Land Rover, pensando mais num quase nada de tudo e menos naquela caixa que inexplicavelmente se mantinha imóvel à sua frente.
Contudo, quase no último momento, quando faltava para aí uma escassa meia dúzia de metros para o embate, uma espécie de sexto sentido, um sinal, um quase impulso gritado silenciosamente pelo seu bom senso, fê-lo rodar ligeiramente o volante levando a carripana a passar de lado quase roçando a caixa, mas sem lhe tocar.
Quando ficou lado a lado, olhou instintivamente para dentro da caixa. O miúdo, sentado lá no fundo, entretido com as suas brincadeiras, mirou-o com um sorriso gaiato como se lhe dissesse: - gostas do meu castelo?
O sangue, como que se lhe gelou nas veias, o coração quase parou para de seguida sair disparado num bater alucinado de quem acaba de apanhar o maior susto da sua vida. Parou perto de nós, saiu do carro lívido e com voz trémula, titubeou: - Quase matava o miúdo!
Não foi nada comigo, mas ainda hoje, evito passar por cima de qualquer coisa que me apareça no meio da estrada.