Não obstante o reboliço da chegada, deu para perceber que nada à volta se parecia com instalações militares. Considerando as casas circundantes, assumi que estaríamos no meio da povoação, uma qualquer localidade, um pequeno lugarejo que, como tantos outros, na então áfrica portuguesa, nascera ao sabor das cruas exigências de ocupação secular daquele imenso território. O quartel, esse, certamente estaria por ali. Provavelmente, deduzi, para além das traseiras do edifício do comando postado à nossa frente.
Mas não era assim. Dali a um nada descobriria que o dormitório dos furriéis, pelo menos esse, estava localizado num edifício comprido, já nos limites do casario principal mas visivelmente não enquadrado em qualquer perímetro que pudesse ser considerado quartel ou similar. É que, nem sequer tinha aspecto que se parecesse com o que quer que fosse militar. Não se viam muros, guarnições, postos de sentinela ou outros sinais que fizessem lembrar preocupações de defesa. Embora fosse suposto estarmos em guerra, não se viam sinais disso.
Abandonámos o asfalto da rua principal espremida entre uma correnteza de casas, descemos por outra, agora empedrada e metemos por um caminho de terra e piso irregular que, atravessando o campo, levava ao edifício. A paisagem envolvente, coberta de vegetação meio ressequida (a época das chuvas passara havia tempo) acompanhava as irregularidades do terreno. No outro lado do caminho uma enorme mangueira, carregadinha de pequenos mangos ainda verdes, cobria toda a parte frontal da entrada do edifício enquanto, ao longe, sobressaía a silhueta majestática e caricatural dos imbondeiros, cujas galhas, despidas e estranhas, pareciam irregularmente recortadas no intenso azul do céu. Definitivamente, nada daquilo se parecia com a Neriquinha; não havia pó, as planuras imensas desapareceram e nem a irregularidade do caminho chegava a constituir um incómodo. Na verdade, por ali tudo era novidade.
O edifício, que a partir de então passou a acomodar o grupo de sargentos da companhia, revelou-se uma agradável surpresa. Embora por fora se parecesse com um barracão ou um qualquer armazém, o seu interior era diferente, mas para melhor. Um espaçoso hall, à entrada, dava acesso a um corredor longitudinal que, correndo pelo centro do edifício distribuía à direita e à esquerda quartos espaçosos, cada um comportando duas divisões dando uma imagem singela de suíte. Duas camas, num lado, definiam a zona de dormir enquanto o outro simbolizava uma espécie de sala de estar. As camas, essas, eram iguais às da Neriquinha, mas assumi desde logo que estariam limpas de percevejos embora a rede mosquiteira que selava as janelas garantisse que os mosquitos não eram diferentes, pelo menos no que toca ao seu afã de infernizar quem se expusesse às suas picadas vorazes. Um luxo! Pensei eu provavelmente condicionado pela recordação da precariedade da nossa camarata nas terras do Cuando Cubango.Despi o camuflado e deixei-o cair por ali. Não obstante já fragilizado e coçado pelo uso intenso de dezoito meses de mato, pareceu ter enrijado. Ganhou textura em consequência da absorção de pó amassado com o suor daqueles quatro dias de viagem. Depois, peguei na toalha, lancei mão da lâmina de barbear e do sabonete e dirigi-me às instalações sanitárias localizadas um pouco mais à frente, no outro lado do corredor.
Passei sabonete várias vezes e perdi a noção do tempo saboreando a frescura revigorante do jorro forte do duche até sentir as pontas dos dedos enrugadas. Postei-me à frente do espelho e desfiz a barba de cinco dias, com cuidado, num escanhoar meticuloso e regressei ao quarto. Estiquei-me sobre a cama deixando que uma doce elanguescência fosse tomando conta do meu corpo cansado.Não sei quanto tempo por ali fiquei e nem tive consciência de ter adormecido. Se calhar a fome despertou-me do doce torpor. Qual reflexo condicionado, veio-me à memória o restaurante que vira quando iniciei a descida da rua a caminho do dormitório. Ou então, os últimos cinco dias a ração de combate começavam finalmente a fazer o seu efeito.
- Não! Pensei. Deve ser o relógio biológico a anunciar a hora da janta. Não é meu hábito deixar-me guiar pelas armadilhas imateriais do subconsciente.
Levantei-me, sem pressa. O lusco-fusco do fim de dia anunciava a noite que se aproximava. Vesti a melhor roupinha civil que arranjei, um bocado amarrotada pelos meses e meses que esteve encafuada no fundo da mala. Por sorte, naquela altura, usava-se bem justa e isso disfarçou as pregas da plissagem a que fora sujeita. Calcei o sapatinho preto, procurei companhia e em passo indolente, caminhámos em direcção ao restaurante.
Estrategicamente colocado no melhor sítio da rua principal à direita de quem desce, aquele restaurante pareceu-me o mais evidente sinal de civilização. Uma ampla esplanada, uma singela mas simpática sala de jantar e um balcão tipo snack-bar com bancos altos ao redor, anunciavam que a nossa vida começava a mudar para melhor. Tirar a barriga de misérias era coisa que ia começar já; descontando a compreensível falha de memória já queimada pelo tempo, apostaria que me devo ter alambazado com um grande bife com batatas fritas e ovo a cavalo. Era petisco com que sonhava frequentemente, especialmente quando, não havendo opção, o rancho na Neriquinha deixava muito a desejar.
Decididamente, os tempos de miséria chegavam ao fim e, como a seu tempo se verá, a coisa não se ficaria apenas pelos pecados da gula. Aquelas Mabubas que nos saíram em sorte prometiam uma nova vida. Ruas asfaltadas, casas, população civil e um restaurante eram amostras promissoras. Para já, tudo corria de feição à mesa daquele restaurante.










































