domingo, 1 de setembro de 2013

Do rio Cuito às Mabubas

Não retenho grande coisa sobre o Cuito Cuanavale. Se calhar é trauma; associei-o sempre ao comandante do batalhão e é no que dá. Imaginei sempre o local como uma espécie de coito do comandante, feito à sua imagem, e não resistia à contraditória mania de bem dizer o facto da Neriquinha estar bem longe, lá no interior profundo e inóspito da savana o que, pensava eu, não convidava tão ilustre e indesejável figura a aparecer por ali; se a minha memória não me atraiçoa, isso aconteceu uma única vez, pelo menos que eu tivesse dado conta. E, mesmo assim, talvez por azar meu, foi o suficiente para levar um raspanete que, por imerecido e humilhante, me deixou este trauma que teima em não desaparecer. Logo eu, que tudo fazia para não infringir as regras.
Tirando isso, apenas retenho do Cuito Cuanavale a ideia de que o rio, lá em baixo, estabelecia a fronteira entre a terra de ninguém onde fui obrigado a viver por uns longos dezoito meses e o limiar da civilização que se foi insinuando aqui e ali através de sinais perfeitamente visíveis aos olhos de quem se habituara a planuras imensas onde as estradas se resumiam a picadas sinuosas e cansativas escavadas pelos rodados das viaturas na areia entediante da savana.
O facto é que, da passagem por aquele local, apenas recordo a estrada que dali levava a Serpa Pinto, de terra sim, mas firme, de macadame, com largura suficiente para acomodar trânsito em dois sentidos permitindo um andamento vivo que, para mim, se assemelhava a uma velocidade excessiva quando comparada com os pouco mais de cinco quilómetros por hora a que estávamos habituados. Decididamente, saíamos das terras esquecidas do fim do mundo e, em velocidade de cruzeiro, caminhávamos em direcção à civilização de cujas mordomias já quase só se retinham imagens longínquas.
Em menos de um nada, aportámos a Serpa Pinto. Aquele bocado de estrada que liga o Cuito Cuanavale à cidade foi vencido em cinco horas, uma coisa sem significado quando comparado com o tempo que gastávamos a percorrer uma centena de quilómetros por qualquer das picadas que fomos obrigados a cruzar nas nossas andanças por terras da Neriquinha.
Não nos deram tempo de conhecer Serpa Pinto ou então, a minha memória não foi capaz de reter nada que me faça lembrar a cidade. Não guardo nem uma imagem de um café ou cervejaria, uma simples tasca ou algo de semelhante. Mas é verdade que almoçámos na cidade e muito provavelmente devo ter-me lançado na demanda de uma bica. Digo isto porque nem me passa pela cabeça imaginar que não tenha querido matar saudades de um cafezinho tirado à pressão, bebidinha que chegámos a considerar coisa de ficção. O facto é que, tudo o que recordo não passa de uma imagem fugaz de um parque de viaturas isolado e que intuí localizado na periferia da cidade.
Ali mudámos de meio de transporte; as viaturas, próprias para vencer terrenos arenosos, foram substituídas por outras que nos levariam dali ao destino e, para não variar, também estas mais adequadas ao transporte de carga que não de gente. Contudo, para nós, habituados a  picadas irregulares e poeirentas, a suavidade do asfalto mais do que compensou o desconforto e a falta de assento enquanto que o ar, agora completamente limpo, apenas era irrespirável pela intensidade do calor.
A viagem não tem história. Os mais de mil e cem quilómetros que separavam Serpa Pinto do nosso destino prometiam uma viagem longa e monótona. Recordo a primeira metade do percurso, definido por uma estrada ondulante, sempre a direito, como se fora um carrocel que, em vez de andar à roda, seguia sempre em frente num sobe e desce sem fim que os motoristas aproveitavam para poupar combustível; desligavam o motor nas longas descidas deixando as viaturas rolar livremente até atingirem velocidade considerável, a suficiente para, ganhando embalagem, galgar parte substancial da subida que se seguia e só quando o andamento ameaçava morrer, ligavam de novo o motor para vencer o resto da subida e embalar de novo em roda livre para a depressão que antecedia a lomba seguinte.
Embora o andamento atingisse, por vezes, uma velocidade significativa, a viagem não deixou de ser monótona e cansativa através de um território imenso com paisagens a perder de vista e cheias de coisa nenhuma, cenário que nos acompanhou até ao fim do dia. O Alto Hama, mais ou menos localizado no centro do território, na província do Huambo, foi o sítio escolhido para uma paragem. Por ali ficámos umas horas que penso terem servido fundamentalmente para o descanso dos motoristas já que não é possível falar de pernoita nem de jantar. O repasto resumiu-se a uma ou duas latas da ração de combate provavelmente acompanhadas por uma cerveja adquirida num estabelecimento comercial ali existente. Dormir, de verdade, não creio que alguém o tenha conseguido. Dormitar talvez seja o termo mais adequado para definir a forma como cada um passou aquele bocado de noite; recostámo-nos por aqui e por ali, num deixar passar o tempo, à espera da hora aprazada.
Talvez por isso se tenha recomeçado a viagem bem cedo. Por volta das três horas da manhã já as viaturas rolavam através da noite sem noção exacta do sítio por onde andávamos. Por mim, aproveitei o embalo e fui dormindo, aos bocados. Desperto por um solavanco mais vivo, voltava a dormitar face a ausência do que quer que fosse que justificasse manter-me acordado. A verdade é que não me lembro de um só pormenor daquele percurso.
Sei que não passámos por Luanda. Naturalmente, por alturas de Viana, as viaturas seguiram por um atalho que nos deixou na estrada que leva ao Caxito. Passámos pela fazenda Tentativa, atravessámos o Caxito e pouco tempo depois desembocámos na rua principal das Mabubas.
Dia catorze de maio, a tarde ia a meio quando, finalmente, após quatro dias a calcorrear mais de mil e setecentos quilómetros de picadas e estradas, desde os confins das terras-do-fim-do-mundo até ao extremo oposto daquele vasto território, chegámos ao nosso destino. Era promissor  o cenário que se desenrolava à nossa frente à medida que as viaturas rolavam pela rua principal até estancarem no largo que se seguia à primeira correnteza de casas, frente ao edifício do comando. A lembrança ainda bem viva do ambiente hostil e poeirento da Neriquinha deixou-me a agradável sensação de que acabáramos de entrar num local que prometia parecer-se com um bocado de paraíso ali às portas de Luanda e bem pertinho do mar.
Pode parecer contraditório mas, naquele momento, deixou de fazer sentido a sensação de conforto e segurança precária propiciada pela cerca de arame farpado da Neriquinha.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A MATA DA CAPUA

Não obstante a obscura fama do local, a noite decorreu em sossego, sem o mínimo percalço ou o que quer que fosse que confirmasse a perigosidade daquele ermo. Não me recordo de ter passado mal a noite. Aliás, tenho de memória que dormi sem sobressaltos e de um sono só e nem sequer me dei conta do desconforto do leito arenoso que escolhera e da precariedade do improvisado tecto.
Não me preocupei em saber como cada um se desenrascou, mas não recordo de alguém se ter queixado da pernoita. O facto é que, chegada a hora de seguir viagem e enquanto cada um ia retomando o seu lugar nas viaturas, o único que deu sinais de ter passado mal a noite, foi o Morais. Talvez por ser o vagomestre, procurou asilo na cozinha aconchegando-se a um canto resguardado da cacimba da noite. Mas teve azar. Pelos vistos, o soldado Raimundo, mais conhecido pela alcunha de Candeeiro, terá tido a mesma ideia. Pescador dos mares algarvios em quem o álcool despertava os maus fígados, provavelmente já meio bebido, como aliás era seu hábito, terá caído por ali, e não me admiro nada que a escolha tenha sido motivada pela proximidade das grades da cerveja.
O facto é que o Morais se queixava de não ter conseguido pregar olho; o Candeeiro passou a noite rangendo os dentes, o que, considerando o exíguo espaço a que estavam confinados, para além dos arrepios que provocava, era barulho bastante para tirar o sono a qualquer um.
Era ainda noite cerrada quando os motores, roncando, arrancaram da sua imobilidade as viaturas meio atascadas na areia seca, avançando lentamente pela escuridão rasgada pela luminosidade dos faróis, ficando de novo o pessoal do Dima sozinho, entregue à sua rotina.
Tínhamos pela frente a extensa Mata da Capua e era importante que fosse atravessada enquanto durasse o dia, pormenor que condicionou todo o plano da viagem, a começar na saída da Neriquinha depois do almoço, o retomar da viagem pelo meio da manhã a partir de Mavinga e a terceira etapa que agora se iniciava quando ainda faltava um par de horas para o amanhecer. É verdade que sempre se ouvira, em cada chegada do MVL, as descrições pouco animadoras das características daquela mata que, descontando a propalada proximidade das bases inimigas, escondia dificuldades e obstáculos vários responsáveis pelos atrasos do MVL nas suas idas e vindas mensais carregados com os mantimentos para a tropa aquartelada desde o Dima até ao Rivungo. Assim, importava sair cedo prevenindo-se qualquer eventualidade ou surpresa. Acima de tudo, era necessário evitar que qualquer acidente de percurso nos obrigasse a uma indesejável pernoita no meio daquela selva travestida de savana.
As viaturas avançavam seguindo a picada cujos sulcos iam sendo fracamente iluminados pelo foco saltitante dos faróis que a irregularidade do caminho impedia que se fixassem num ponto. Perscrutava-se o negro envolvente na tentativa de adivinhar os contornos da mata escondida no denso e impenetrável manto preto da noite que, como quem não quer a coisa, quase sem se dar por isso, foi sendo vencida pelo cinzento da manhã que, aos poucos foi denunciando o pó fininho que, despertado pelo rolar dos pneus, se levantava em remoinhos que iam cobrindo o ar circundante de uma poalha difusa misturada com restos de folhagem seca que, esvoaçando desordenadamente acabava por poisar hesitante até a viatura seguinte voltar a tornar tudo num reboliço irritante que incomodava quem se lhe seguia.
Aquela mata era de facto diferente. Com a mesma areia, mas de maior densidade arbórea. E isso determinou que a picada que a atravessava fosse irritantemente sinuosa, talvez em demasia. E para piorar as coisas, as raízes à superfície constituíam obstáculos que obrigavam as viaturas a um permanente escoucinhar, a uma dança frenética, um constante balanceio entremeado de saltos e ressaltos que iam massajando os corpos do pessoal que procurava a todo o custo manter o equilíbrio sobre a carroçaria desconfortável de viaturas impróprias para o transporte de gente. E tudo isto retardava o andamento deixando aquela conhecida sensação de passeio de tartaruga a conferir maior dimensão a um local onde, pensava eu, nem ratos existiriam.
A Lagoa da Capua apareceu-nos pela frente como por encanto, assim como se aquela mata incaracterística se rasgasse para, dando-lhe espaço, a acolher. Numa espécie de passe de mágica da natureza, saímos de um mundo estéril e hostil para um quase paraíso, um oásis definido por um enorme espelho de água reflectindo o intenso azul do céu, numa quietude serena contrastando com a paisagem envolvente. Os meus rudimentares conhecimentos de orografia não são suficientes para explicar como é que, no meio daquela imensa aridez e sem qualquer curso de água que a alimente, se forma uma lagoa como aquela. Provavelmente uma indelével depressão no terreno, tão subtil que nem se note, foi recebendo as águas das chuvas que, não tendo para onde ir, escorriam para ali, alimentando em permanência aquele pequeno mar de água doce que convidou a uma paragem, aproveitada para arrefecer os motores, compor o estômago, desentorpecer as pernas e apreciar aquele inusitado presente da natureza.
Mas o tempo urgia e havia ainda muita picada por vencer. Os quilómetros não eram muitos mas a dureza do caminho fazia com que a sua travessia consumisse horas em demasia. Reiniciou-se a marcha penetrando de novo naquele mundo sempre igual, cansativo e entediante que parecia não ter fim, até que, mais ou menos como previsto, a mata deu lugar de novo a uma savana aberta, igual à que aprendemos a conhecer ao longo dos últimos dezoito meses das nossas vidas. Dali até às margens do Rio Cuito foi um saltinho e lá para depois do meio da tarde, a grande chana que abraça o rio, igual a todas as chanas que palmilhámos, lá bem para baixo, no território da Neriquinha, apareceu-nos pela frente. O Rio Cuito, caudaloso e de águas mansas a lembrar o, até então, nosso Cuando, deixava-se atravessar naquele ponto por uma ponte de madeira, porém de aspecto robusto, que me deu a sensação de separar dois mundos diferentes. A picada que ali nascia e serpenteava por uma encosta de terra avermelhada e dura era obviamente diferente da consistência arenosa e esbranquiçada da savana que aprendemos a conhecer. Finalmente, ao fim de três dias a calcorrear a terra de ninguém, isso parecia ser o primeiro sinal de que as terras do fim do mundo começavam a ficar para trás.
Lentamente, a coluna foi trepando, encosta acima, em direcção ao Cuito Cuanavale que, lá no alto, nos aguardava. Ali era a sede do nosso batalhão mas aonde ainda ninguém da 3441 tinha posto os pés.
Alonguei o olhar para a imensidão da savana que, ao longe, se estendia para lá do leito sinuoso e resplandecente do rio. Senti uma sensação de alívio ao interiorizar que não mais voltaria para ali. Por agora, apenas me apetecia um bom duche que me livrasse do sarro acumulado nos últimos três dias. Tirando isso, tudo ficaria perfeito, pensei, se não encontrasse pela frente o comandante do batalhão. Tinha para mim que o homem não era pessoa de bem e por isso preferia não arriscar a eventualidade de um encontro que viesse estragar aquele fim de tarde quase perfeito.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A BARCA DE CARONTE

As viaturas que nos habituáramos ver integradas no MVL que mensalmente nos trazia o reabastecimento desde Serpa Pinto, eram agora o meio que nos libertava daquele mundo. Encabeçadas pela berliet de seis rodados que, por sistema, lhes servia de escolta, seguiam agora em coluna, umas atrás das outras, sem nenhuma ordem especial, rolando sem pressa ao longo da pista em direcção ao topo norte. A cerca de arame farpado que, pela força do hábito de a termos à nossa frente, dia após dia, quase já passava despercebida, deslizava lentamente para trás como a querer despedir-se. Pelo menos foi o que me pareceu.
Olhei de relance, pela derradeira vez, a silhueta familiar do aquartelamento que, resguardado atrás da precária segurança do arame, ia desaparecendo do campo de visão à medida que a viatura progredia em direcção à picada que, indicando o caminho à nossa frente, se perdia no meio do capim amarelecido. Sem saber bem porquê, ainda olhei, de esguelha, para as últimas palhotas do kimbo com aquela certeza de que não mais as voltaria a ver. Aquela coluna podia estar a fazer o caminho de volta, como sempre o fazia e certamente voltaria a fazer mas, para nós, não haveria retorno.
Já passara a época das grandes chuvas e havia já algum tempo que a aridez do cacimbo se instalara secando a areia que se apresentava solta e entediante, obrigando as viaturas a uma marcha lenta rodando em primeira velocidade para melhor vencerem a resistência da areia solta que, dificultando a progressão, teimava em assorear os sulcos da picada. Afinal, nada a que já não estivéssemos habituados, tanto mais que aquele percurso era nosso conhecido. Por enquanto, e até chegarmos a Mavinga, a sensação era a de que ainda se vagueava pelas areias quentes da savana, porém desta feita, com ânimo diferente. O caminho era agora sempre para diante com a garantia de que não haveria voltar atrás como sempre aconteceu nas escassas vezes que, por imperativo da nossa missão, visitáramos a malta da companhia de Mavinga.
Para quem, como eu, que ufanamente se gabava de já conhecer aquelas matas, a viagem prometia ser um simples passeio pela savana imensa. E isso foi sendo confirmado à medida que se vencia aquele primeiro troço do percurso que liga a Neriquinha a Mavinga. As extensas chanas que abraçavam o tímido caudal do rio Cúbia apresentavam-se já com aquela cor familiar de verde a tender para o seco. Dentro de pouco tempo seria pasto das chamas, naquele ritual já nosso conhecido de ciclicamente se renovar pelo fogo. Como diz Mia Couto, a savana arde para poder viver.
Sem atrasos ou contratempos, aportámos a Mavinga pelo fim da tarde. De acordo com o plano previamente definido a viagem só continuaria no dia seguinte. Por agora, haveria que aproveitar o tecto oferecido o que, ainda que sem o conforto de lençóis aconchegantes, era dádiva a não regatear. O frio, que por aquela altura tinha por hábito andar de braço dado com as noites do cacimbo, era rigoroso e não se combatia com a fragilidade da parca roupa que se levava vestida.
A noite passou sem história, pelo menos ninguém se queixou, até porque não havia de quê. Sabíamos que a viagem seria longa mas isso não incomodava ninguém. A muito pior do que isso estávamos habituados e não seria agora que isso iria incomodar alguém.
Reiniciámos a marcha, lá pelo meio da manhã, deixando para trás dois dos apêndices que trouxéramos da Neriquinha: a gazela bebé que, não se dando bem com os solavancos da viatura foi acometida de compreensíveis enjoos não restando outra solução senão largá-la algures e o puto Candela que tinha à sua espera uma promessa de vida longe das matas onde cresceu e viveu os curtos anos da sua existência: um furriel da companhia de Mavinga, natural de Sá da Bandeira, predispôs-se a adoptá-lo. Não me lembro bem dos pormenores, mas penso que já estava tudo acertado para o efeito quando abandonámos a Neriquinha.
A partir daquele ponto a picada era-nos totalmente desconhecida. Talvez por isso me parecesse estranha. Por qualquer razão que não descortinava, achei que se distinguia daquelas a que nos habituáramos. Contudo, a consistência arenosa e a profundidade dos sulcos não eram diferentes sendo a mata em redor em tudo idêntica. O facto é que a savana tem características muito próprias e naquela imensidade de terreno árido, apenas pormenores sem importância distinguem cada pedaço daquela mata estéril, o suficiente para nos convencer da incomensurável dimensão daquele inferno que agora se atravessava numa lenta progressão a caminho de lugar mais aprazível.
Mesmo nos locais mais inóspitos, sejam eles o que se quiser, somos surpreendidos por recantos que, por uma razão ou por outra, destoam da aridez circundante. O local escolhido para uma curta paragem, possibilitou algum descanso aos motores, comer qualquer coisa e disfrutar do ambiente aprazível à volta do curso do rio Lomba que, atravessando aquelas terras de ninguém, cruzando chanas e matas, acaba por desaguar no Cuando acima do Chicove algures a norte da Neriquinha, lugar que nunca chegámos a conhecer. Mas ali, naquele exacto local, onde menos se esperava, uma pequena ponte de madeira permitia passar para a outra margem por sobre um surpreendente marulhar de águas cristalinas em contraste com a quietude irritante de todos os cursos de água que vagueiam por aquela savana imensa
O nosso objectivo, naquele dia, era chegar ao Dima, um lugar com má fama, considerado o pior sítio para se estar em todo o Cuando Cubango. Constava que era atacado de quando em vez e o pessoal ali destacado, um pelotão da companhia de Mavinga que se revezava amiúde, passava as noites em sobressalto. Era exactamente ali que estava previsto pernoitarmos, dando por finda a segunda etapa daquela longa travessia.
A tarde ia avançada e o sol já começava a perder o seu fulgor quando aportámos ao Dima. Hoje conhecido como Cunjamba, o local ficava no cimo de uma elevação de terreno, cujo acesso se fazia por uma picada de areia solta e de inclinação pouco frequente por aqueles lados, totalmente em desarmonia com todos os acidentes de terreno que conhecemos em dezoito meses de andanças por aquelas planuras imensas o que, pelos vistos, não impedia que, por vezes, fosse flagelada pelas forças inimigas, coisa que nunca aconteceu à Neriquinha.
Não perdi tempo a fazer qualquer reconhecimento do local; não me interessava. Estava apenas de passagem e com a garantia de que, depois de atravessar aquele deserto infernal, não voltaria a pôr os pés nas areias daquela savana inóspita. Mas deu para perceber a exiguidade das instalações, sendo visível no topo do edifício principal um arremedo de torreão guarnecido com uma metralhadora pesada cujo modelo nem cheguei a identificar, sinal mais do que suficiente para me convencer de que os tão propalados ataques ao aquartelamento não eram invenção. Mesmo que não fossem muito frequentes seriam certamente o bastante para transformar num inferno a vida de quem tinha por missão a defesa daquele pedaço da soberania portuguesa.
Acoitei-me o melhor que pude procurando abrigo debaixo de uma das viaturas. A areia fofa e ainda quente pela exposição ao calor do dia era conforto bastante e rapidamente adormeci sob a precária protecção do camião; a pior do que isso estava habituado e não seria por falta de colchão e lençol que perderia o sono. Mas a sensação de que estava exactamente no meio do inferno passou-me pela mente antes de adormecer embalado pela certeza de que, na madrugada seguinte, retomaríamos o nosso lugar naquela espécie de barca de Caronte que nos conduzia para fora daquele imenso mundo inferior.
Ali ninguém era Orfeu e não estava em curso o resgate de uma qualquer Eurídice. Também é verdade que nenhum de nós se cruzara com Hades ou Perséfone mas, por uns momentos, imaginei-me à boleia do barqueiro Caronte no regresso de mais uma viagem ao inferno onde passei dezoito meses da minha vida. Naquele preciso momento, senti como se estivesse no centro dessa terra de ninguém, mas reconfortado pela certeza de que isso seria apenas por uma noite. Quanto aos nossos anfitriões, apostaria que, naquela noite, dormiram descansados o sono dos justos. Quase uma companhia inteira era defesa mais do que suficiente contra qualquer ataque que pudesse estar programado pelo inimigo. Mesmo que assim fosse, pensei, não se atreveriam.

domingo, 2 de junho de 2013

O seu, a seu dono!


Caro Cardoso,
 
Mataste a N´Riquinha para ressuscitares as Mabubas.
É uma boa troca.
Mais: é uma troca justa!
À N´Riquinha tudo foi contado, nada foi escondido das coisas que correm no coração dos Homens. Ficou a nu e mais bonita. Foi feita  a catarse de um tempo que se colou à nossa à alma e alimentou a amizade que ainda hoje se consolida todos os anos.
 A N´Riquinha perdeu o encanto e a magia dos grandes segredos guardados a sete chaves nos confins da nossa juventude. É hoje um ponto perdido no mapa de Angola e um paraíso distante na nossa memória. Distante, mas vivo dentro de nós. Não houve sentimentos encobertos e enganosos nesta viagem pelas Terras do Fim do Mundo.
Recordámos as cores, os cheiros, as gentes, os risos, as lágrimas, os bons e os maus momentos, e, limpámos, de vez, os olhos da imagem distante das areias do Kuando-Kubango.
A N´Riquinha, já foi! Vem aí a saga das Mabubas!
 
Caro Cardoso,
Quando iniciei esta aventura do blog, tinha por objectivo ir colando, por aqui, umas histórias sobre um período das nossas vidas, cada vez mais distante no tempo, mas ainda próximo das nossas memórias já cansadas e envelhecidas. O blog cresceu à tua sombra e tornou-se num fabuloso exercício de memória da História da C. Caçadores 3441. Há muito que deixei de tentar escrever o que quer que fosse. Tu representas a Memória Viva de todos nós, companheiros dos vinte e poucos anos. O blog é teu! Considero-me o gajo que fez os estatutos da sociedade e tu o tipo que lhe deu corpo e alma, tornando-a num hino ao nosso passado e à nossa vivência comum durante mais de 2 anos.
Obrigado por tudo.
A N´RIQUINHA MORREU! VIVAM AS MABUBAS!

sábado, 1 de junho de 2013

A RENDIÇÃO

Agora já não havia dúvidas. Ali estavam os “mikes”, novinhos, branquinhos, recém-chegados do “puto” com os camuflados ainda a cheirar a tinta fresca e prontinhos para tomar o nosso lugar. Ainda não estavam todos, apenas a primeira leva, mas já o suficiente para se fazer a festa.
Os dias que se seguiram foram de verdadeira euforia. Bem, euforia para nós, que estávamos de partida, já que o semblante dos recém-chegados tendia mais para uma circunspecta e apreensiva sisudez, denotando apreensões e preocupações que a cerveja, a correr às dúzias, ia minimizando à medida que dissolvia arrelias e angústias.
Não sei como nos arrumámos todos naquele espaço formatado para um número limitado de homens, mas o facto é que, durante quase uma semana, a convivência entre veteranos e maçaricos foi sendo comandada pela sobranceria dos velhinhos que, ancorados na experiência de dezoito meses de savana, se arvoravam em donos da quinta, em contraponto com a quase subserviência dos novatos aturdidos pela aridez hostil que nos rodeava
Camuflados descoloridos e coçados contrastavam com as cores fortes daqueloutros recém-estreados; galões, puídos pelo tempo e quase disfarçados nos ombros dos velhinhos, impunham a sua autoridade aos novinhos, em folha, exibidos por oficiais e sargentos acabadinhos de formar. A descontracção de quem há muito se fartara da tropa e conhecia o meio, em contraponto com a postura militar dos novatos que só o tempo, as agruras do clima e os espinhos da missão se encarregariam de amolecer num processo lento de distanciamento e esquecimento das regras impostas na instrução, em nítido contraste com a crua realidade do teatro de operações que, dentro de pouco tempo, haveriam de experimentar.
Os dias que se seguiram, numa simbiose entre a euforia de uns e o “lá terá que ser” de outros, foram de transição, cumprindo-se a cíclica transmissão do testemunho, numa repetição, quase fotocopiada, do que acontecera dezoito meses antes.
Nessa altura, como agora, cumprindo os formalismos impostos, foi passada a responsabilidade por aquelas instalações com tudo o que por ali havia; eram os equipamentos, as viaturas e os geradores, mais os tachos e as marmitas, sem esquecer os stocks de comes, o armazém dos bebes, os medicamentos, os unguentos e o xaropes, as caixas disto, os pacotes daquilo e toda uma multiplicidade de pinchavelhos, parafusos, insignificâncias e sei lá mais o quê. Até a responsabilidade pelas antenas de rádio exigia recibo. Só faltou fazer a entrega do ar grosso e sobreaquecido que ali se respirava. E tudo foi conferido, certificado, contado e recontado, verificado e confirmado, garantido e acertado. E de tudo foram passadas guias e recibos, tudo assinado e arquivado, em duplicado e triplicado, ficando os velhinhos livres de responsabilidades, que assim foram passadas para cima dos ombros dos maçaricos.
Paralelamente e com a mesma sintonia, decorria uma outra passagem de testemunho. Esta, de natureza declaradamente informal, ia decorrendo sem compromissos, sem guias ou recibos, ao ritmo da roda da cerveja que escorregava gargantas abaixo. Transmitiam-se conhecimentos, passavam-se experiências e recomendavam-se cuidados:
- Olha que as chanas são traiçoeiras!
Chamava-se a atenção para o poder esgotante da areia seca das picadas e suas peculiares artimanhas, explicavam-se as manias do cacimbo e a intensidade das chuvas diluvianas que se lhe opunham, falava-se da abundância de caça, da pose majestática das palancas, das características das gungas, da graciosidade dos songues e do galope desajeitado dos guelengues e dos caixotes. Explicava-se a cultura daquelas gentes, as peculiaridades dos seus múltiplos temores e superstições, as minudências e particularidades dos seus hábitos e tudo o mais que se foi aprendendo com o tempo. Tudo foi entregue, incluindo os putos que lavavam a roupa, algumas mulheres do kimbo e ainda os percevejos das camas, as moscas sarnentas e as melgas que não nos largavam por nada deste mundo.
Aos poucos, à medida que iam sendo passadas responsabilidades, cortavam-se ligações, libertavam-se tensões e alimentavam-se expectativas de melhores dias. Mentalmente dizia-se adeus a tudo aquilo que foi o nosso mundo, o nosso cantinho de aconchego precário durante aqueles meses de provações e sacrifícios. Todas as agruras daquela espinhosa missão se transformaram, num ápice, em passado e, com isso, perderam toda a sua importância e significado.
Por agora, o futuro imediato estava logo ali, ao virar da folha do calendário. Finalmente tinham chegado ao fim as caminhadas pela savana arenosa, as noites passadas ao relento e a exposição às frias noites do cacimbo. Não mais se acordaria debaixo de chuva diluviana e era certo o adeus definitivo às chanas lamacentas, aos quartos de sentinela, às rondas nocturnas e às incursões ao kimbo à procura do prazer fugaz do colo de fêmeas andrajosas e até a sempre desejada visita bissemanal do pequeno avião do Barros, deixou de interessar - o dia santo do correio perdera o seu sagrado significado na certeza de que os sempre esperados aerogramas azulinhos, trazendo notícias de casa, seguir-nos-iam para onde quer que fossemos sem terem de percorrer tanto caminho para nos encontrar. O lugarzinho que nos esperava, diziam, era bem mais aprazível e declaradamente pertinho da civilização.
Dez de maio do ano de 1973. O tão esperado dia chegou, finalmente. O almoço foi servido e engolido, mais do que degustado. A ansiedade interferia com o apetite e a aproximação da hora da partida apressava toda a gente. Foi um reboliço de carregar sacos e malas, um corre‑corre para as viaturas, como se todos tivessem medo de perder a boleia que nos haveria de tirar dali para fora. Reservei um lugar na cabine de uma MAN e arrumei as tralhas sobre a carroçaria onde muitos já se haviam acomodado.
Duas horas da tarde, mais minuto menos minuto, iniciou-se a marcha, lentamente, uma viatura atrás da outra, iam saindo daquele quadrado de areia delimitado a arame farpado. Para trás ficava tudo aquilo que fora o nosso mundo nos últimos dezoito meses da nossa existência.
De tudo o que pertencia à Neriquinha apenas levámos connosco: o Dango, puto que, encontrado na terra de ninguém lá para os lados do esquadrão, foi apadrinhado pela companhia, o Candela, um puto barrigudo que, tendo aportado à Neriquinha no último Natal na sequência de uma operação qualquer, conquistara, com a sua simpatia, o carinho de todos, a gata chaninha que ninguém quis abandonar e uma gazela bébé que, indefesa, fora apanhada na mata e imediatamente convertida em mascote.
Pela primeira vez saíamos da Neriquinha para não mais voltar. Aquela viagem teria um só sentido. Nem adeus disse. Para quê? Aquela terra não era minha. Apenas estava ali de passagem.
Finalmente deixávamos de ser metecos em terra estranha. Outros acabavam de tomar o nosso lugar.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Chegaram os maçaricos

A notícia da iminente chegada dos maçaricos provocou uma revolução na Neriquinha. Não daquelas que visam a tomada do poder ou contestar a ordem reinante, mas uma outra, de natureza mais pacífica, uma revolução que operou mudanças significativas nos comportamentos e hábitos quotidianos que ao longo do tempo foram definindo uma certa forma de estar cauterizada pela pasmaceira desgastante de um local onde as alternativas de ocupação do tempo eram escassas.
Num primeiro momento a notícia correu de boca em boca, levada a cada recanto e repetida numa sucessão de mensagens gritadas, esfuziantes, fazendo explodir por todo o lado manifestações de júbilo e correrias de um lado para o outro. Uma notícia lançada ao vento como se uma espécie de armistício estivesse a ser anunciado.
-Vêm aí os maçaricos!
A boa nova foi repetida vezes sem conta, como se uns fizessem questão de convencer outros de que o dia, há tanto tempo esperado, vinha aí.
- É verdade, não é tanga! Os maçaricos estão quase a chegar.
Insistiam uns, procurando convencer os mais incrédulos. Sim, porque, agarrando-se à máxima de que quando a esmola é muita o pobre desconfia, alguns, permanecendo na dúvida, lançavam-se na demanda de fonte mais fidedigna.
- Oh meu alferes, é verdade que vêm aí os maçaricos?
Outros, pelo contrário, não duvidando nem um pouco, partiam logo para a euforia como se a chegada fosse no dia imediato sem que alguém se tivesse lembrado sequer de perguntar qual o dia exacto da rendição. Os maçaricos vinham aí e pronto, o resto não passava de bagatelas sem interesse.
A boa nova foi como uma lufada de ar fresco. A Neriquinha ganhou vida e um frenesim nervoso apoderou-se de quase tudo. Como por magia, um arremedo de vitalidade contagiante transformou a pasmaceira do costume num corrupio, como se, de repente, todos tivessem que fazer ou o tempo urgisse, em nítido contraste com a quietude peganhenta que há muito se instalara, muito por força do calor e do pouco que fazer que, por aquelas bandas, não ia além das andanças na mata, dos quartos de sentinela e das rondas nocturnas, entre outras ocupações semelhantes. Como por magia, a notícia matou a indolência e a pasmaceira, ao mesmo tempo que o lânguido sossego de sonecas preguiçosas deu lugar a uma azáfama anormal que há muito não se via por ali.
É verdade, uma mudança repentina determinou que, de um tempo em que a ninguém apetecia fazer o que quer que fosse, passou-se para um estado de azáfama total como se a iminência de sair dali tivesse libertado a adrenalina que pôs toda a gente a fazer qualquer coisa. E não eram apenas tarefas de arrumar as coisas. O quotidiano modorrento transformou-se, num ápice, num nervoso miudinho, um fervilhar de emoções, um gesticular impaciente de gente que, ao longo de dezoito meses, se foi habituando a tratos de polé com muita resignação à mistura e uma boa dose de solidão. Sim, todos aguardavam aquele dia como se fora o limiar da partida para o paraíso na certeza de que, a partir dali, a vida passaria a ser um mar de rosas com as mordomias da civilização à mão de semear, coisa que não era de somenos importância já que, para a maioria daquelas cerca de cento e cinquenta almas seria a primeira vez em dezoito meses que punham o pé fora da Neriquinha e arredores.
Entre as coisas a fazer, estava, talvez em primeiro plano, a preparação de uma adequada recepção aos maçaricos. Tinha de ser uma coisa em grande, um espectáculo memorável, algo mais bombástico do que a recepção que os velhinhos nos armaram dezoito meses atrás. Acima de tudo, era preciso deixar aos maçaricos a sensação de que acabavam de aterrar no inferno, um local pouco amistoso, onde imperava um ambiente capaz de desatarraxar os parafusos da caixa dos miolos a qualquer um.
O facto é que, por aquela altura, já uns quantos manifestavam sintomas de terem os circuitos do raciocínio afectados pelo clima. Marados dos cornos, com o discernimento já meio baralhado em consequência da permanente exposição às agruras do clima. Cacimbados, como então se dizia.
Atarefaram-se, lançaram mãos a tudo o que pudesse contribuir para o espectáculo, esmeram-se, deram largas à imaginação e com denodado empenho construíram um cenário de doidos. Agarraram numa caixa de madeira, acoplaram-lhe, desencantadas não sei onde, duas bobinas vazias, uma à frente e outra atrás, fixaram-lhe um tosco tripé e ficou pronta uma câmara de filmar sui generis. Depois, montaram tudo em cima de um unimog, vestiram os trajes femininos que usaram no último carnaval e assim compuseram uma equipe de filmagem pronta a fazer a reportagem de tão importante evento.
Chegou finalmente o tão desejado dia “D”, o dia em que chegaria a primeira leva de maçaricos, exactamente o segundo dia daquele inesquecível mês de Maio do ano de 1972. Todos madrugaram, se calhar nem dormiram convenientemente e, mal despontou o sol, que ali nascia bem cedo, foram saindo da caserna com a certeza mais que certa de que a fuga daquele purgatório estava por dias.
Nunca como então houve tantas sentinelas mirando o céu. Todos olhavam o horizonte, com impaciência, perscrutando o azul celeste na direcção que sabiam ser aquela de onde surgiria o Nord carregando aqueles que tomariam, a partir de então, os nossos lugares naqueles terras esquecidas do mundo.
Foi uma longa espera, que a impaciência se encarregou de prolongar ainda mais. A ansiedade foi crescendo à medida que o tempo passava e o Nord tardava. A vida quase parou com todos a postos para o grande momento até que soou o primeiro alarme.
-Lá vêm eles!
O ponto negro, já visível no horizonte, foi engrandecendo à medida que se aproximava até se tornar bem nítida a silhueta familiar do Nord Atlas na sua rota descendente em direcção ao topo norte da pista onde aterrou no meio de uma nuvem de pó avermelhado, evoluindo até se imobilizar no lugar do costume, enquanto um segundo aparelho se fazia à pista com mais uns quantos.
Toda a gente se precipitou em direcção à pista incluindo a improvisada equipe de filmagem que, a cavalo do pequeno unimog, se esforçava por manter o equilíbrio da caixa de madeira ali transformada em máquina de filmar sem câmara nem fita.
Um burburinho expectante enchia o ar enquanto se abria a pequena porta da aeronave e um elemento da tripulação fazia descer a pequena escada por onde sairiam os pobres diabos que nos vinham render. E, no exacto momento em que um camuflado novinho em folha assomou à porta e meio atordoado, num movimento hesitante começou a descer os degraus, uma gritaria esfusiante tomou conta do lugar ao mesmo tempo que cada um se esforçava por parecer o mais alucinado possível num misto de loucura e contentamento.
A compor o ramalhete, o Braga, trajando uma fatiota de mulher saloia, conduzia o unimog transformado em carro de reportagem; o Comandos, de mini-saia, procurava equilibrar-se agarrado àquela coisa que pretendia simular uma máquina de filmar; a seu lado, o Campino trajava uns farrapos quaisquer mais parecendo um foragido do manicómio. À volta, misturados com a restante plateia, outros, com fatiotas femininas vindas não sei donde, animavam o ambiente num verdadeiro teatro de loucos.
No meio de toda aquela loucura, os novos habitantes da Neriquinha, alguns com o ar mais infeliz do mundo, olhando em volta sem saber para onde se dirigir, iam sendo guiados, quase empurrados, bombardeados por explicações atabalhoadas vindas de todo o lado. Toda a gente ia contando, indicando, explicando, descrevendo, pintando de negro o que, doravante, seria a vida que iriam ter naquele rincão perdido das areias quentes das Terras-do-Fim-do-Mundo.
Não o fiz de propósito, mas a coincidência aí está: amanhã, dia 2 de maio, faz exactamente 40 anos que aquele Nord aterrou na Neriquinha anunciando a boa nova. Estava por dias o fim do nosso calvário de mais de dezoito meses de privações e sofrimento.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Vêm aí os maçaricos

Alongava-se o tempo passado na Neriquinha. E quanto mais se prolongava, o tempo, mais lenta parecia a marcha dos dias, não obstante a irritante constância dos ponteiros do relógio.
Quando fomos largados naquele minúsculo recanto das inóspitas terras-do-fim-do-mundo, dizia-se que, dentro de um ano, mais coisa menos coisa, seríamos transferidos para um lugar mais aprazível, já que parecia difícil aceitar a possibilidade de um ser humano viver por muito tempo em local tão desolado. E acreditava-se que assim fosse. Constava ter sido isso que aconteceu com a companhia anterior. Afinal, não teria sido bem assim; viemos a saber, mais tarde, terem penado mais de catorze meses aguardando ansiosamente que os fossemos render. Ainda me lembro da alegria esfuziante daquela rapaziada quando nos viram chegar atordoados perante o inesperado, ao fim de uma atribulada e interminável viagem que teve o seu epílogo na derradeira etapa, encafuados dentro da barriga do Nord Atlas desde a cidade do Luso à Neriquinha num indescritível voo sobre a savana.
Largaram-nos ali, desamparados, sem consciência do que nos esperava e sem qualquer noção do que nos rodeava. A paisagem à volta, pelo menos num primeiro relance, mostrava-se assustadoramente selvagem, numa estranha simbiose com a desolação das instalações que, plantadas no meio daquele deserto, compunham o aquartelamento militar que, a partir de então, nos havia de servir de morada.
Fomos mandados instalar naqueles barracões decrépitos e por ali andámos, habituando-nos ao que havia até quase não se dar por nada. Algum tempo passado e o pouco que se tinha já era conforto bastante face à agressividade de tudo o mais.
Gastou-se rapidamente o mês e pouco que restava de 1971, arrastámo-nos à torreira do sol e inclemências da savana durante todo o ano de 1972 e penetrámos em 1973 convencidos de que a nossa missão na Neriquinha estava perto do fim. Quando se completou um ano a calcorrear aqueles percursos areentos, a ideia de que faltava pouco para o adeus àquela vida de provação começou, embora sem grandes certezas ou alaridos, a assentar praça na cabeça de cada um. É verdade que não se viam sinais de que isso estivesse para breve, mas o incontido desejo de sair dali era mais forte, levando-nos ao autoconvencimento de que assim seria. Por mim, preferia acreditar estar por dias, a mudança.
O facto é que o tempo foi passando sem que a tão desejada notícia chegasse. O segundo natal passou disfarçado no meio de um calor de derreter, seguindo-se os dias, um a um num lento calvário sem fim à vista. Ao décimo quinto mês deixámos de pensar no assunto e já só alguns se entretinham a contar os dias.
A partir daí deixei de pensar nisso; não valia a pena, não adiantava nada e era por demais óbvio que o tempo, esse, continuaria a arrastar-se pastoso, rotineiro, monocórdico e entediante apenas entrecortado pelas visitas semanais do “Nord” e pela sempre desejada animação, materializada naquela espécie de epifania protagonizada pelo pequenino avião do Barros trazendo-nos, duas vezes por semana, o sagrado correio acondicionado dentro daquele pequeno saco de lona cinzenta.
Esgotada a imaginação para vencer tão desinteressantes dias, fui ocupando o tempo com rotinas já mais do que rotinadas, com aquela certeza de que a sandes de paio do pequeno­‑almoço teria de ser acompanhada de duas cervejas, o mesmo acontecendo ao almoço e ao jantar, sem contar com as que eram necessárias nos intervalos para mitigar a sede e amenizar o calor, já que a água não sabia bem e a cerveja não era cara.
Já perdera a conta aos jogos de cartas com que ocupava os tempos mortos, especializei-me em bisca, tornei-me perito em king e dei umas voltinhas pelo rami com umas passagens pela canasta sem esquecer as entediantes paciências e os duelos de crapô, que ali não havia lugar para esquisitices.
O facto é que tudo já me era familiar: identificava os cheiros fortes e característicos da savana, já conhecia de cor a música desordenada das grossas pingas de chuva embatendo com violência no telhado de zinco da camarata, habituara-me às sistemáticas mudanças da paisagem que as chuvas diluvianas pintavam de múltiplos tons de verde para de seguida irem sendo teimosamente repintadas de ocre com pinceladas de negro acinzentado das queimadas à medida que a época seca se instalava.
Mais dois meses e depois outro foi tempo suficiente para se perceber que, quando chove, não pede licença e que quando a chuva se vai, instala-se um duelo permanente entre o intenso e sufocante calor do dia e o cacimbo que durante a noite cobre as matas com um manto branco de gélida neblina, obrigando a procurar o conforto do cobertor acrescentado à roupa da cama por precaução.
Passados que estavam dezoito meses, já havia considerado perdida a guerra que movera contra os percevejos embora planeasse regar de novo a cama com gasolina e pegar-lhe fogo. Da primeira vez que utilizei essa estratégia consegui liquidar todos os que se albergavam nos recantos do catre, mas logo voltaram outros. Eram combativos e resistentes aqueles bichos mal cheirosos e peçonhentos.
E quando, mais uma vez, me dedicava à meticulosa operação de remendar os pequenos buracos da rede mosquiteira, tentando perceber como raio tinha aquele insaciável mosquito conseguido ultrapassar a barreira que eu julgava intransponível, caiu a tão desejada notícia: os maçaricos vinham aí.
A boa nova, embora há muito esperada, não deixou de ser surpresa. É que ela não foi antecedida de especulações ou sururus que o permitissem antever; aquela notícia chegou sem se fazer anunciar, como aliás quase tudo na tropa. Os segredos militares não se cingiam apenas àquilo que era de facto reservado. As ordens chegavam quando as hierarquias assim o entendessem e aquela, sendo uma boa notícia, não deixava de ser uma ordem:
- Preparem-se para a rendição.
Ordem ou não, isso foi coisa que nem preocupou ninguém. O que importava é que vinha aí o fim do nosso calvário e isso era o mais importante. Aposto que, nesse mesmo dia, muitos começaram a arrumar as suas tralhas; fazer as malas, como se costuma dizer.
Por mim, lembro-me bem, cancelei os projectos que mentalmente tinha agendado. Quem aí viesse que pegasse fogo à cama se quisesse livrar-se dos percevejos e que arranjasse uma rede mosquiteira nova e sem buracos, se não quisesse ter aquele teimoso mosquito a zunir-lhe aos ouvidos a noite inteira.
Afinal, vinham aí os maçaricos. Tudo o mais deixou de ter importância.

sexta-feira, 1 de março de 2013

As Pontes do Cúbia

As vastas savanas do Cuando Cubango deixaram marcas indeléveis no meu sistema cognitivo; aquelas inóspitas paisagens, de beleza selvagem, porém feérica e de personalidade forte, tiveram em mim um efeito devastador. Gravadas pela força dos sentimentos, permanecem vivas e bem arrumadinhas nos ficheiros da memória, cujas gavetas vou abrindo aqui e ali à cata das lembranças que vão alimentando estes meus escritos. Não… não é saudosismo; apenas recordações que, de tão marcantes, não consigo apagar … e já lá vão mais de quarenta anos.
Descrever as infinitas paisagens da savana não é exercício fácil. Se por um lado se apresentam como uma monótona sucessão de grandes espaços matizados de cores intensas que vão do ocre carregado da época seca ao verde luxuriante do tempo das chuvas, a verdade é que, ainda que sem outros tons a definir contrastes, não deixavam de ser deslumbrantes à vista. Talvez a sensação de liberdade que emanava das grandes clareiras a perder de vista, adornadas aqui e ali por tufos de vegetação rasteira e entrecortadas por espaços de dimensão indefinida, ocupados por árvores raquíticas no porte e isentas de personalidade que nem sombras conseguiam projectar, compusesse um cenário próprio, sem grandes laivos ou características que conferissem beleza especial.
Para nós, que calcorreámos quilómetros e quilómetros daquela savana imensa, a paisagem já não nos dizia grande coisa. E mesmo quando, por imperativo de ordens superiores penetrávamos bem para o interior daquele mundo de ninguém no cumprimento de mais uma missão, a paisagem parecia continuar a não variar. Por onde quer que se andasse, as chanas assemelhavam-se umas às outras, não mudava muito o aspecto dos charcos, mantinha-se a pouca densidade do arvoredo e as clareiras sucediam-se com a mesma inconstância. Quanto muito, aqui e ali, um contorno mais pronunciado, umas quantas árvores de copa um pouco mais densa e uma ou outra característica sem importãncia poderiam marcar alguma diferença dos locais que já conhecíamos.
Contudo, o efeito psicológico da insegurança que se sente quando se pisa terreno desconhecido era mais forte. Qualquer chana que se encontrasse fora dos nossos percursos de rotina parecia sempre diferente por muito semelhante que pudesse ser. E, quer se queira quer não, à vista do desconhecido, sobrepunha-se sempre aquele desagradável sentimento de insegurança de quem se encontra perdido no meio de nada.
As pontes do Cúbia constituíam uma espécie de fronteira, um portal para esse mundo inseguro, inexplorado e selvagem. Construídas pouco tempo antes de ali chegarmos, o seu objectivo era óbvio: permitir a ligação à outra margem do rio Cúbia. E o local escolhido não podia ser mais apropriado, ali mesmo onde o Luengue se encontra com o Cúbia, engrossando as águas do seu tímido curso que, preguiçoso e indolente caminhava, por vezes escondido entre a vegetação, desde as profundezas da mata da Kirongosa até se encontrar com o grosso e serpenteante caudal do rio Cuando onde pacificamente se diluía no meio de uma planície pantanosa a perder de vista.
As pontes, essas, assim chamadas por integrarem dois pequenos pontões em cimento, ligavam o aterro feito a partir das duas margens de forma a permitir ultrapassar toda aquela planura alagadiça e simultaneamente garantir a passagem das águas que apenas engrossavam no pico da época das chuvas. Sem esta pequena obra de engenharia seria praticamente impossível vencer as grandes chanas do rio e francamente, sem ela, não vejo como seria possível estabelecer a ligação entre a Neriquinha e o Rivungo.
Para mim e creio que também para os meus companheiros de aventura, as pontes do Cúbia representavam o limite da nossa zona de conforto; a fronteira entre o cá e o lá. E essa característica transformou aquele local numa espécie de marco icónico que separava a proximidade de casa da longínqua terra de ninguém. Distavam pouco mais de trinta quilómetros da Neriquinha, percurso que se fazia ao longo de uma sinuosa picada que atravessava uma zona que se considerava nossa conhecida; não obstante tratar-se de uma distância considerável, era como se fosse uma extensão alargada do nosso quintal. Trinta quilómetros por aquelas picadas sinuosas era distância que representava mais de hora e meia de caminho, se tudo corresse bem. Mas era assim; até às pontes, era como se apenas tivéssemos ido ali para logo voltar, a partir daí, imperava o efeito psicológico de quem se sente longe de casa. Era a substituição do precário conforto da caserna pela exposição à intempérie, ao calor sufocante da savana e às noites ao relento à mercê de hordas de mosquitos vorazes.
É claro que não contam as idas às chanas que se seguiam às pontes, logo ali, quando se virava à esquerda tomando o caminho que levava ao Rivungo, único sítio em toda aquela imensa região onde se podiam encontrar pedras. E, como é fácil de entender, as pedras são necessárias para muita coisa e no Cuando Cubango não há pedras, apenas areia e mais areia isenta do mais pequeno seixo. Mas ali, nas chanas do Cúbia, havia um autêntico jazigo de ferro, logo à superfície. Com uma picareta arrancavam-se pesadas lascas do minério em bruto que, fazendo a vez de pedras, se utilizavam em tudo o que era preciso. Compreende-se assim que aquele local, não obstante estar  do outro lado das pontes, era-nos muito familiar; passava-se por ali amiúde, ou de propósito para carregar mais umas quantas pedras ou porque era lugar de passagem obrigatória nas nossas frequentes idas e vindas ao Rivungo.
Foi à vista das fotografias daquele local publicadas pelo José Rodrigues Ferreira da companhia que ali nos antecedeu, que me recordei do conforto que sentia quando, de regresso de uma qualquer missão, após dias na mata e horas intermináveis da viagem de regresso, avistávamos as pontes do Cúbia. Chegar ali, era como se o pior já tivesse passado. É verdade que faltavam quase duas horas de caminho mas, para nós, com os corpos amassados da viagem, empapados em suor e cobertos de pó, era como se fosse já ali.
- Estamos quase em casa. Desabafava-se.
É que, já nem se pensava na eventualidade de uma viatura poder atascar ou até parar por efeito de uma qualquer avaria. A partir dali, se disso houvesse necessidade, o socorro viria rápido. Só era preciso que o estupor do rádio funcionasse, o que, diga-se em abono da verdade, nem sempre estava garantido. Mas isso só aconteceu uma ou outra vez. Creio que até as viaturas, como que pressentindo a proximidade de casa, tudo faziam para não se deixarem ir abaixo.
Hoje, quando, usando as facilidades do Google Earth se visita o local, fica a ideia de que as pontes já não são utilizadas. É perfeitamente visível que desapareceu a picada que, na margem esquerda, dava continuidade ao caminho que levava à Neriquinha, não obstante o risco amarelo no mapa do Google insinuar a sua existência. Parece que toda aquela zona deixou de ter interesse, após a desactivação das instalações que nos serviram de morada enquanto por ali andámos. Hoje são apenas ruinas.
Contudo, quando vistos de cima, são ainda bem visíveis os dois pontões sobre a chana. As fotografias, tiradas em Agosto de 1971 pelo José Rodrigues Ferreira, mostram o seu verdadeiro aspecto, vistas de cá de baixo. Vou atrever-me a publicá-las aqui, deixando bem clara a sua autoria. Espero que o Ferreira não leve a mal.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

LUPALE - O intérprete

A população da Neriquinha não era diferente da de qualquer outro dos kimbos das redondezas. Contudo, se atentarmos bem à sua composição e razões que levaram à formação, naquele local, de um aglomerado populacional, identificam-se características muito particulares. Não obstante as semelhanças, insisto na ideia de que a Neriquinha era, em muitos aspectos, diferente dos demais.
Com efeito, a dezena de kimbos então existentes naquela vasta área que vai de Mavinga ao Chipundo representava aglomerados populacionais que ali se fixaram pelas diversas razões que levam o ser humano a sedentarizar-se criando raízes naqueles exactos locais e não noutros. Era ali que encontravam tudo o que precisavam e, por razões que a antropologia melhor saberá explicar, era também onde se sentiam bem.
Mas o aglomerado populacional da Neriquinha e apenas este, era subtilmente diferente. Aquele lugar não era sítio que atraísse população. E quando penso nisso, mais uma vez sou levado a concluir que fomos obrigados a viver dezoito meses num local tão inóspito que nem a população autóctone encontrava razões naturais para ali se fixar, a não ser que, pelas circunstâncias, a isso se visse obrigada.
É verdade, o kimbo da Neriquinha nasceu e cresceu em consequência da guerra. Razões ditadas pela estratégia militar determinarem ser aquele o local adequado para a implantação das instalações militares: primeiro um pequeno aglomerado de tendas de lona, material que, ao longo do tempo, foi sendo progressivamente substituído por paredes de tijolo e cobertura  de chapas de zinco. Dois barracões pré-fabricados completaram aquele arremedo de urbe aprisionada numa frágil cerca de arame farpado que, delimitando o perímetro, parecia querer conferir segurança ao local.
A população, essa, acossada pela guerra que lhes alterou o modo de vida e correspondentes rotinas, foi-se juntando do outro lado da cerca, acoitando-se à sombra de uma segurança de proximidade e, em simultâneo, beneficiando das comodidades inerentes à vizinhança da tropa. Formou-se assim um kimbo que foi crescendo com o tempo e atraindo novos habitantes, congregando no mesmo meio gente de etnias diferentes.
Quando chegámos àquele bocado semidesértico das terras do fim do mundo, a população da Neriquinha era mais ou menos estável e tinha estrutura idêntica à de qualquer aglomerado populacional da zona, ficando demonstrado que os costumes e modus vivendi eram os mesmos. E isso via-se em tudo: na construção das suas habitações e materiais que usavam, nos hábitos alimentares, nos temores e superstições, na forma como se organizavam e socializavam, nas hierarquias tribais típicas de uma sociedade agrária iminentemente paternalista (talvez devesse dizer machista) e ainda nos direitos, nos deveres e demais normas não escritas que regiam as suas condutas, o seu quotidiano e o resto.
 Enfim, uma sociedade regulada segundo cânones ancestrais cujos ditames, gravados na cabeça dos velhos, deixavam transparecer uma sociedade bem mais complexa e organizada do que aquela que uma análise superficial permitia revelar. A autoridade civil máxima descansava nos ombros do Soba, secundado pelos Sékulos, não obstante a autoridade real, fosse qual fosse a coisa a regular, pertencesse ao comandante da companhia ali aquartelada.
A população do Cuando Cubango era constituída por uns quantos grupos étnicos. Não sei bem quantos, mas eram mais do que se podia esperar poderem existir numa das maiores mas seguramente menos populosas províncias angolanas. Os Ganguelas integravam o maior dos grupos. Na verdade a ideia que se tinha é de que, excluindo os Bosquimanos com traços fisionómicos claramente identificáveis e os Camachi, de tez menos carregada, todos os demais seriam Ganguelas. Mas não era assim. Lembro-me dos Lutchaze e, em menor número, dos Bundas, dos Luvale e dos Luimbi entre outros que não recordo. O facto é que cada grupo falava o seu próprio dialecto, embora tenha a ideia de que o Ganguela seria o dialecto falado senão por todos, pelo menos pela maioria.
Isto significa que, entender aquela gente, implicava ser-se poliglota em dialectos das terras do fim do mundo e isso era impossível. E como muitos deles pouco falavam o português a comunicação tornava-se complicada.
O Lupale distinguia-se dos demais porque, para além de falar fluentemente o português, dominava ainda uns quantos dialectos. E isso, conjugado com as habilidades de um autêntico relações públicas, tornava-o num homem importante. E insinuante, acrescente-se. Na verdade, o Lupale era simpático, popular e desenvolto.
Para já, falar fluentemente o português e conseguir fazer a retroversão para a linguagem daqueles gentes não era coisa pouca, nem de somenos importância. Por ali, apenas alguns GE’s, uns tantos mais expeditos e os putos que cresceram ao lado da tropa, eram capazes de se expressar de forma a se fazerem entender
Do nosso lado, só ao fim de muito tempo se começou a decorar uma meia dúzia de termos do estranho linguajar daquelas gentes mas compreensivelmente insuficientes para estabelecer uma conversação por mais minimalista que fosse. Ainda me lembro que, durante muito tempo, tinha como certo que o puto que me lavava a roupa dava pelo nome de João Muhala Cassumbi. Só muito tempo depois é que me apercebi que o João apenas se chamava assim: João. Os epítetos Muhala e Cassumbi não eram senão uma brincadeira do seu amigo Manjolo, o outro garoto que com ele repartia a lavagem da roupa na camarata dos sargentos. Os dois nomes, que julgara serem sobrenome ou apelido, apenas significavam qualquer coisa como galinha que esgaravata no chão, uma espécie de provocação inofensiva, sem maldade ou azedume, de um garoto para outro.
O facto é que, quando ali chegámos, o Lupale apareceu-nos como o intérprete oficial, uma espécie de ministro dos negócios estrangeiros do kimbo. A importância do seu papel no seio daquela comunidade era um facto. E isso ficou bem claro exactamente quando uma delegação do estado-maior do kimbo, capitaneada pelo Soba e secundada pelos Sékulos, veio apresentar as boas vindas ao capitão. A solenidade que conferiram ao acto era bem patente na indumentária de gala com que se apresentaram e na imprescindível intermediação do Lupale que, sacando da sua erudição, fez jus à sua indiscutível competência de intérprete, transmitindo as boas vindas ao comandante recém-chegado e aproveitando ainda o ensejo para fazer umas quantas petições e uma ou duas queixas, verbalizadas como correspondendo à tradução literal dos indecifráveis monossílabos tartamudeados por aqueles altos representantes da população local, escassos vocábulos que o Lupale transformava num discurso coerente e bem elaborado, deixando no ar a dúvida se seria uma fiel tradução ou antes o pensar livre do intérprete que acrescentava, por sua conta e risco, uns quantos pontos ao discurso.
Não há dúvida, o Lupale tinha veia de político e demonstrava-o a todo o momento na forma como se comportava ou como se relacionava connosco, quer estejamos a falar do simples soldado, de um oficial ou das altas patentes. E isso viu-se pouco tempo depois quando, no Natal de 1971 o Governador de Serpa Pinto resolveu fazer uma visita de cortesia àquele remoto local da província que governava. Estando presentes, por obrigação formal, o Soba e seus Sékulos e atendendo a que não falavam a língua de Camões, mais uma vez o Lupale teve oportunidade de brilhar, desempenhando com redobrada competência o seu papel de intérprete, mais para transmitir o que dizia o Soba e menos ou quase nunca para lhe devolver a resposta. É…, cada vez mais me convenço que o Lupale traduzia mais o que lhe ia cabeça e menos o que diziam os regedores do kimbo.
Finalmente, não posso deixar passar em claro a fleuma deste homem profusamente demonstrada na estória que o Pedro Cabrita contou aqui, neste mesmo blog, cuja leitura recomendo vivamente e da qual me atrevo a reproduzir uma singela passagem. Relembro apenas que o Capitão foi instado, passe o exagero do termo, a participar numa espécie de tribunal tribal que se reunira para dirimir um litígio de natureza familiar ou seja, uma espécie de julgamento onde um colectivo sui generis deveria apreciar e decidir, aplicando as normas de um direito consuetudinário plasmado em códigos sem existência física.
Naquele tribunal, que de informal tinha pouco, mais uma vez o indefectível Lupale ali estava para servir de intérprete; o Capitão não entendia patavina daquele dialecto e do outro lado, ninguém se expressava em português.  Bem se esforçava, o nosso comandante, para tentar perceber, não só o que se discutia mas também qual o entendimento de cada um dos juízes sobre os factos em confronto. Em determinado momento e a meio de um mais alongado discurso de um deles, o capitão, procurando perceber o que ia sendo dito, perguntou num sussurro ao ouvido do Lupale.
- O que é que ele está a dizer?
A resposta foi absolutamente desconcertante.
- Por enquanto ainda não disse nada, só está a falar.
É isso, se calhar, para além de diplomata e político encapotado, o Lupale era também um filósofo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


Introdução à apresentação do livro “Capitães do Vento” numa tertúlia militar em Oeiras
Setembro de 2012
Este é um livro azedo. Um livro onde o autor (um miliciano) revela uma enorme dificuldade em compreender onde chegou a insanidade política, o auto-convencimento militar, o desespero e a teimosia cega que conduziu ao suportar de uma guerra a qualquer preço, fosse ele um preço financeiro, humano ou mesmo patriótico. A História veio provar que o preço era demasiado elevado, ou mesmo incomportável, a médio ou a longo prazo.

A minha história foi forjada num acto de desespero político e militar, rodeado de um enorme secretismo que se se suportou no crédito da inabalável capacidade do povo lusitano em adaptar-se às circunstâncias mais difíceis e adversas, por vezes desumanas até.
Não sei quantos povos do chamado ocidente teriam sido capazes de resistir às condições de aquartelamento, de alimentação, da dureza do clima e da própria génese da guerra em que se veio transformando o conflito colonial.
Contudo, a mim coube-me suportar um outro fardo a juntar a todos estes que aqui se enumeram.
A mim coube-me carregar a escuridão das ideias, a inconsciência dos actos e o desespero da premonição de um fim por demais anunciado, que nada tinha a ver com a Pátria que todos amamos e aprendemos a defender com arreganho e alma, de que nos dá conta a nossa História nos infindos exemplos de galhardia e verdadeiro amor pátrio a que fomos habituando os nossos inimigos no passado.
Acharam-me, não de ânimo leve, mas de ânimo nenhum, que os meses que podemos contar numa só mão seriam mais que suficientes para construir um guerreiro, quiçá um pequeno Viriato, agora oriundo do sul, que fosse capaz de conduzir as suas tropas com mestria e engenho num campo de batalha adverso e feito à medida e conhecimento do inimigo. Não sei se esperavam de mim que regressasse vitorioso, mesmo que as baixas pudessem tornar-se num vilipêndio de consciência de que dificilmente me recomporia para o resto da minha vida, deixando-me sem qualquer resposta sensata para dar aos familiares que porventura me questionassem pelos erros cometidos, mesmo que em nome da Pátria.
Em 8 de Junho de 1970, tinha 22 anos, decidiram fazer de mim um Comandante de Companhia. Assim, de repente, num sopro ou golpe de mágica com o qual contavam poder prolongar a agonia da guerra e os alicerces carcomidos do regime, que haveria de ranger simbolicamente numa cadeira tolhida pelo caruncho a 27 do mês seguinte no Forte da Barra.
Com 23 anos assumi o comando de cerca de 140 homens (depois de mais 30 GE’s locais) somando 170 militares.
Tinha 23 anos, mas ninguém terá reparado nisso. Consta que serei o capitão mais jovem de sempre do Exército Português. Uma circunstância que me espantou na altura, não apenas pela idade mas pela escolha de um provinciano despolitizado arrancado aos confins do último reduto sarraceno, assinalado pela tez macerada pelo sol inclemente e uma insubmissão rebelde permanente de que em tempo se haveria de queixar a hierarquia militar.
Mais tarde percebi que o elemento decisivo para a minha eleição era o “despolitizado”, que garantia alguma segurança no cumprimento da missão. A catadupa de testes a que me submeteram durante mais de 15 dias terão encontrado outros valores que poderiam prometer uma ou outra expectativa. Mas o alheamento político era certamente o elemento mais aliciante e seguro.
Não sei como me viram ao início os meus oficiais, sargentos e praças; um jovem da mesma condição que adoptou e obrigou uma companhia de civis ao cumprimento do estatuto militar, como se de um oficial de carreira se tratasse. Uma opção tomada em consciência que acabou por nos permitir representar a hierarquia militar naquilo que tem de essencial; ordem, respeito (que não deferência) e funcionalidade.
Desde sempre senti o incómodo da situação; quer para mim, quer para eles. Mas não havia nada a explicar nem a justificar; era uma opção, um conceito. Sem sentido para alguns, que se sentiriam mais confortáveis num eventual tu-cá tu-lá de civis metidos na mesma embrulhada, a que o tempo haveria de conduzir. Uma irmandade que naturalmente descambaria numa anarquia mesmo que saudável entre amigos, onde a fraternidade desobrigaria ao cumprimento de ordens a que a cadeia de comando se obriga. Uma responsabilidade que me cabia a mim imprimir num contexto naturalmente organizado por hierarquias de comando onde me encontrava inserido e obrigado a responder à cadeia superior.
Assumi que não seria fácil compreender e aceitar esta escolha.
Mas foi aí que aprendi a conhecer melhor os que com sagacidade e inteligência aceitaram sem questionar a hierarquia imposta e a representaram sem objecções. Os que compreenderam com argúcia que em qualquer clima de guerra é condição imprescindível a hierarquia de funções e responsabilidades; mesmo que estas não correspondam a um enquadramento real mas apenas funcional. Mesmo que se constituam num contrato a termo certo, que para mim terminou no dia em que me despedi de todos eles no aeroporto de Luanda.
Por outro lado, não sei se lhes fui capaz de transmitir alguma confiança ou segurança. Não sei o que esperavam de mim no auge da batalha. Mas o que menos descanso me dava era imaginar como iriam reagir ao ressoar de trovão das espingardas quando em uníssono cruzassem fogo com o inimigo.
Eu já o tinha experimentado nos Dembos. Conhecia a sensação da fímbria da morte. Eles tinham ficado por uma boa dúzia de tiros disparados na carreira de tiro, alguns deles tapando os ouvidos.
Tudo uma insanidade. Uma irresponsabilidade que, na hora incerta da tragédia, haveria de ter um dedo apontado à minha consciência, ignorando os meus 23 anos, e ilibando todos quantos me despejaram no campo de batalha esperando que me comportasse como um verdadeiro militar experimentado. Tudo fruto de quatro “longos” meses de estágio que caucionaram a minha responsabilidade de comandante de companhia, outrora atribuída a militares do Quadro Permanente sempre com mais de 30 anos de idade e cerca de 12 anos de experiência na função.
Um dia, ainda na instrução enquanto cadete, mas já com o processo de formação em andamento, captei por acaso uma troca de palavras entre dois oficiais do Q.P.. Importa esclarecer que o meu curso foi o primeiro do chamado C.C.C. (Curso de Comandantes de Companhia).
Dizia um deles: - “Não estou a ver que isto vá a algum lado; como é que os gajos se vão desenrascar a comandar homens, quando debaixo de fogo!?”.
Ao que o outro, seguro, respondia: - “… acho que não vai haver problema; quando as coisas aquecerem o instinto de conservação há-de fazer com que sobrevivam.”
Com que sobrevivam… articulei mentalmente e nunca mais me esqueci.
Era preciso sobreviver. De preferência sem que fosse pela via do instinto.
Nesse sentido tomei algumas decisões que contribuíssem para a minha sobrevivência e a de todos os que comandava. Decidi ali mesmo que não haveria de voltar a cara àquela luta; a da sobrevivência. Talvez a mais importante decisão se resuma ao princípio que sempre me norteou no mato. Se me quisessem apanhar teria que ser de frente; nunca pelas costas ou distraído. Foi uma autêntica obsessão.
Se resultou, não sei; mas sei que nunca fomos atacados no mato. Lembrar-se-ão muitos quanto exigente me tornava em operação. Lembrar-se-ão todos a forma como foram apanhados os treze GE’s, onde pereceram quatro dos nossos, entre eles o comandante Fulai Monjuto. Pelas costas e muitos deles praticamente desarmados.
Sempre procurei transmitir aos quatro alferes operacionais estes princípios por acreditar que seriam atitudes sensatas que nos ajudariam a regressar incólumes. Tenho a certeza que o terão tido sempre em mente contribuindo assim para a segurança de todos.
Esta é genericamente a minha história. Uma história que sempre considerei criminosa e muito mal suportada até hoje.
Todos os pormenores relato-os com minúcia neste livro. Talvez demasiada minúcia. Também porque não foi apenas a guerra das armas que me aconteceu. Nas Terras do Fim do Mundo uma outra guerra me viria a apanhar desprevenido; mas essa é uma outra história que fez com que tudo tenha valido a pena. Saímos de N’riquinha deixando o vazio da nossa presença. Mas ali deixámos o calor humano com que sempre tratámos aquela gente. “A nossa gente das Terras do Fim do Mundo…” como sempre lhes hei-de chamar.
Como canta o Vitorino nos cantares alentejanos; “Fui às sortes e safê-me…!”
Eu, nas “sortes” não me safei; aliás, nas sortes aprendi logo no primeiro dia algo que desconhecia por completo.
Transido do frio que fazia no majestoso, mas gélido, convento de Mafra – já lá ia mais de uma hora nuzinho que nem um ovo cozido descascado a fim de me avaliarem as mazelas – queixei-me meio amotinado a um graduado disso mesmo.
- “Meu Alferes. Estou gelado; isto ainda vai durar, ou é mesmo castigo…?”
A resposta foi célere e esclarecedora: “… O frio é civil, nosso cadete! Não incomoda militar…!”
Eu fui à guerra e safei-me…Porque comigo esteve gente que não esqueço. Gente que, compreendendo e aceitando ou não o que nos aconteceu, esteve à altura da gesta dos navegadores que nos antecederam 500 anos antes.
E foi por pouca sorte apenas que não voltámos todos, como o tinha prometido solenemente a mim mesmo na hora da partida.
P. Cabrita
Nota
A publicação deste texto fica a dever-se apenas a um imperativo de consciência que os tempos me sugeriram que fizesse. Nenhuma outra intenção me motivou.