quarta-feira, 1 de maio de 2013

Chegaram os maçaricos

A notícia da iminente chegada dos maçaricos provocou uma revolução na Neriquinha. Não daquelas que visam a tomada do poder ou contestar a ordem reinante, mas uma outra, de natureza mais pacífica, uma revolução que operou mudanças significativas nos comportamentos e hábitos quotidianos que ao longo do tempo foram definindo uma certa forma de estar cauterizada pela pasmaceira desgastante de um local onde as alternativas de ocupação do tempo eram escassas.
Num primeiro momento a notícia correu de boca em boca, levada a cada recanto e repetida numa sucessão de mensagens gritadas, esfuziantes, fazendo explodir por todo o lado manifestações de júbilo e correrias de um lado para o outro. Uma notícia lançada ao vento como se uma espécie de armistício estivesse a ser anunciado.
-Vêm aí os maçaricos!
A boa nova foi repetida vezes sem conta, como se uns fizessem questão de convencer outros de que o dia, há tanto tempo esperado, vinha aí.
- É verdade, não é tanga! Os maçaricos estão quase a chegar.
Insistiam uns, procurando convencer os mais incrédulos. Sim, porque, agarrando-se à máxima de que quando a esmola é muita o pobre desconfia, alguns, permanecendo na dúvida, lançavam-se na demanda de fonte mais fidedigna.
- Oh meu alferes, é verdade que vêm aí os maçaricos?
Outros, pelo contrário, não duvidando nem um pouco, partiam logo para a euforia como se a chegada fosse no dia imediato sem que alguém se tivesse lembrado sequer de perguntar qual o dia exacto da rendição. Os maçaricos vinham aí e pronto, o resto não passava de bagatelas sem interesse.
A boa nova foi como uma lufada de ar fresco. A Neriquinha ganhou vida e um frenesim nervoso apoderou-se de quase tudo. Como por magia, um arremedo de vitalidade contagiante transformou a pasmaceira do costume num corrupio, como se, de repente, todos tivessem que fazer ou o tempo urgisse, em nítido contraste com a quietude peganhenta que há muito se instalara, muito por força do calor e do pouco que fazer que, por aquelas bandas, não ia além das andanças na mata, dos quartos de sentinela e das rondas nocturnas, entre outras ocupações semelhantes. Como por magia, a notícia matou a indolência e a pasmaceira, ao mesmo tempo que o lânguido sossego de sonecas preguiçosas deu lugar a uma azáfama anormal que há muito não se via por ali.
É verdade, uma mudança repentina determinou que, de um tempo em que a ninguém apetecia fazer o que quer que fosse, passou-se para um estado de azáfama total como se a iminência de sair dali tivesse libertado a adrenalina que pôs toda a gente a fazer qualquer coisa. E não eram apenas tarefas de arrumar as coisas. O quotidiano modorrento transformou-se, num ápice, num nervoso miudinho, um fervilhar de emoções, um gesticular impaciente de gente que, ao longo de dezoito meses, se foi habituando a tratos de polé com muita resignação à mistura e uma boa dose de solidão. Sim, todos aguardavam aquele dia como se fora o limiar da partida para o paraíso na certeza de que, a partir dali, a vida passaria a ser um mar de rosas com as mordomias da civilização à mão de semear, coisa que não era de somenos importância já que, para a maioria daquelas cerca de cento e cinquenta almas seria a primeira vez em dezoito meses que punham o pé fora da Neriquinha e arredores.
Entre as coisas a fazer, estava, talvez em primeiro plano, a preparação de uma adequada recepção aos maçaricos. Tinha de ser uma coisa em grande, um espectáculo memorável, algo mais bombástico do que a recepção que os velhinhos nos armaram dezoito meses atrás. Acima de tudo, era preciso deixar aos maçaricos a sensação de que acabavam de aterrar no inferno, um local pouco amistoso, onde imperava um ambiente capaz de desatarraxar os parafusos da caixa dos miolos a qualquer um.
O facto é que, por aquela altura, já uns quantos manifestavam sintomas de terem os circuitos do raciocínio afectados pelo clima. Marados dos cornos, com o discernimento já meio baralhado em consequência da permanente exposição às agruras do clima. Cacimbados, como então se dizia.
Atarefaram-se, lançaram mãos a tudo o que pudesse contribuir para o espectáculo, esmeram-se, deram largas à imaginação e com denodado empenho construíram um cenário de doidos. Agarraram numa caixa de madeira, acoplaram-lhe, desencantadas não sei onde, duas bobinas vazias, uma à frente e outra atrás, fixaram-lhe um tosco tripé e ficou pronta uma câmara de filmar sui generis. Depois, montaram tudo em cima de um unimog, vestiram os trajes femininos que usaram no último carnaval e assim compuseram uma equipe de filmagem pronta a fazer a reportagem de tão importante evento.
Chegou finalmente o tão desejado dia “D”, o dia em que chegaria a primeira leva de maçaricos, exactamente o segundo dia daquele inesquecível mês de Maio do ano de 1972. Todos madrugaram, se calhar nem dormiram convenientemente e, mal despontou o sol, que ali nascia bem cedo, foram saindo da caserna com a certeza mais que certa de que a fuga daquele purgatório estava por dias.
Nunca como então houve tantas sentinelas mirando o céu. Todos olhavam o horizonte, com impaciência, perscrutando o azul celeste na direcção que sabiam ser aquela de onde surgiria o Nord carregando aqueles que tomariam, a partir de então, os nossos lugares naqueles terras esquecidas do mundo.
Foi uma longa espera, que a impaciência se encarregou de prolongar ainda mais. A ansiedade foi crescendo à medida que o tempo passava e o Nord tardava. A vida quase parou com todos a postos para o grande momento até que soou o primeiro alarme.
-Lá vêm eles!
O ponto negro, já visível no horizonte, foi engrandecendo à medida que se aproximava até se tornar bem nítida a silhueta familiar do Nord Atlas na sua rota descendente em direcção ao topo norte da pista onde aterrou no meio de uma nuvem de pó avermelhado, evoluindo até se imobilizar no lugar do costume, enquanto um segundo aparelho se fazia à pista com mais uns quantos.
Toda a gente se precipitou em direcção à pista incluindo a improvisada equipe de filmagem que, a cavalo do pequeno unimog, se esforçava por manter o equilíbrio da caixa de madeira ali transformada em máquina de filmar sem câmara nem fita.
Um burburinho expectante enchia o ar enquanto se abria a pequena porta da aeronave e um elemento da tripulação fazia descer a pequena escada por onde sairiam os pobres diabos que nos vinham render. E, no exacto momento em que um camuflado novinho em folha assomou à porta e meio atordoado, num movimento hesitante começou a descer os degraus, uma gritaria esfusiante tomou conta do lugar ao mesmo tempo que cada um se esforçava por parecer o mais alucinado possível num misto de loucura e contentamento.
A compor o ramalhete, o Braga, trajando uma fatiota de mulher saloia, conduzia o unimog transformado em carro de reportagem; o Comandos, de mini-saia, procurava equilibrar-se agarrado àquela coisa que pretendia simular uma máquina de filmar; a seu lado, o Campino trajava uns farrapos quaisquer mais parecendo um foragido do manicómio. À volta, misturados com a restante plateia, outros, com fatiotas femininas vindas não sei donde, animavam o ambiente num verdadeiro teatro de loucos.
No meio de toda aquela loucura, os novos habitantes da Neriquinha, alguns com o ar mais infeliz do mundo, olhando em volta sem saber para onde se dirigir, iam sendo guiados, quase empurrados, bombardeados por explicações atabalhoadas vindas de todo o lado. Toda a gente ia contando, indicando, explicando, descrevendo, pintando de negro o que, doravante, seria a vida que iriam ter naquele rincão perdido das areias quentes das Terras-do-Fim-do-Mundo.
Não o fiz de propósito, mas a coincidência aí está: amanhã, dia 2 de maio, faz exactamente 40 anos que aquele Nord aterrou na Neriquinha anunciando a boa nova. Estava por dias o fim do nosso calvário de mais de dezoito meses de privações e sofrimento.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Vêm aí os maçaricos

Alongava-se o tempo passado na Neriquinha. E quanto mais se prolongava, o tempo, mais lenta parecia a marcha dos dias, não obstante a irritante constância dos ponteiros do relógio.
Quando fomos largados naquele minúsculo recanto das inóspitas terras-do-fim-do-mundo, dizia-se que, dentro de um ano, mais coisa menos coisa, seríamos transferidos para um lugar mais aprazível, já que parecia difícil aceitar a possibilidade de um ser humano viver por muito tempo em local tão desolado. E acreditava-se que assim fosse. Constava ter sido isso que aconteceu com a companhia anterior. Afinal, não teria sido bem assim; viemos a saber, mais tarde, terem penado mais de catorze meses aguardando ansiosamente que os fossemos render. Ainda me lembro da alegria esfuziante daquela rapaziada quando nos viram chegar atordoados perante o inesperado, ao fim de uma atribulada e interminável viagem que teve o seu epílogo na derradeira etapa, encafuados dentro da barriga do Nord Atlas desde a cidade do Luso à Neriquinha num indescritível voo sobre a savana.
Largaram-nos ali, desamparados, sem consciência do que nos esperava e sem qualquer noção do que nos rodeava. A paisagem à volta, pelo menos num primeiro relance, mostrava-se assustadoramente selvagem, numa estranha simbiose com a desolação das instalações que, plantadas no meio daquele deserto, compunham o aquartelamento militar que, a partir de então, nos havia de servir de morada.
Fomos mandados instalar naqueles barracões decrépitos e por ali andámos, habituando-nos ao que havia até quase não se dar por nada. Algum tempo passado e o pouco que se tinha já era conforto bastante face à agressividade de tudo o mais.
Gastou-se rapidamente o mês e pouco que restava de 1971, arrastámo-nos à torreira do sol e inclemências da savana durante todo o ano de 1972 e penetrámos em 1973 convencidos de que a nossa missão na Neriquinha estava perto do fim. Quando se completou um ano a calcorrear aqueles percursos areentos, a ideia de que faltava pouco para o adeus àquela vida de provação começou, embora sem grandes certezas ou alaridos, a assentar praça na cabeça de cada um. É verdade que não se viam sinais de que isso estivesse para breve, mas o incontido desejo de sair dali era mais forte, levando-nos ao autoconvencimento de que assim seria. Por mim, preferia acreditar estar por dias, a mudança.
O facto é que o tempo foi passando sem que a tão desejada notícia chegasse. O segundo natal passou disfarçado no meio de um calor de derreter, seguindo-se os dias, um a um num lento calvário sem fim à vista. Ao décimo quinto mês deixámos de pensar no assunto e já só alguns se entretinham a contar os dias.
A partir daí deixei de pensar nisso; não valia a pena, não adiantava nada e era por demais óbvio que o tempo, esse, continuaria a arrastar-se pastoso, rotineiro, monocórdico e entediante apenas entrecortado pelas visitas semanais do “Nord” e pela sempre desejada animação, materializada naquela espécie de epifania protagonizada pelo pequenino avião do Barros trazendo-nos, duas vezes por semana, o sagrado correio acondicionado dentro daquele pequeno saco de lona cinzenta.
Esgotada a imaginação para vencer tão desinteressantes dias, fui ocupando o tempo com rotinas já mais do que rotinadas, com aquela certeza de que a sandes de paio do pequeno­‑almoço teria de ser acompanhada de duas cervejas, o mesmo acontecendo ao almoço e ao jantar, sem contar com as que eram necessárias nos intervalos para mitigar a sede e amenizar o calor, já que a água não sabia bem e a cerveja não era cara.
Já perdera a conta aos jogos de cartas com que ocupava os tempos mortos, especializei-me em bisca, tornei-me perito em king e dei umas voltinhas pelo rami com umas passagens pela canasta sem esquecer as entediantes paciências e os duelos de crapô, que ali não havia lugar para esquisitices.
O facto é que tudo já me era familiar: identificava os cheiros fortes e característicos da savana, já conhecia de cor a música desordenada das grossas pingas de chuva embatendo com violência no telhado de zinco da camarata, habituara-me às sistemáticas mudanças da paisagem que as chuvas diluvianas pintavam de múltiplos tons de verde para de seguida irem sendo teimosamente repintadas de ocre com pinceladas de negro acinzentado das queimadas à medida que a época seca se instalava.
Mais dois meses e depois outro foi tempo suficiente para se perceber que, quando chove, não pede licença e que quando a chuva se vai, instala-se um duelo permanente entre o intenso e sufocante calor do dia e o cacimbo que durante a noite cobre as matas com um manto branco de gélida neblina, obrigando a procurar o conforto do cobertor acrescentado à roupa da cama por precaução.
Passados que estavam dezoito meses, já havia considerado perdida a guerra que movera contra os percevejos embora planeasse regar de novo a cama com gasolina e pegar-lhe fogo. Da primeira vez que utilizei essa estratégia consegui liquidar todos os que se albergavam nos recantos do catre, mas logo voltaram outros. Eram combativos e resistentes aqueles bichos mal cheirosos e peçonhentos.
E quando, mais uma vez, me dedicava à meticulosa operação de remendar os pequenos buracos da rede mosquiteira, tentando perceber como raio tinha aquele insaciável mosquito conseguido ultrapassar a barreira que eu julgava intransponível, caiu a tão desejada notícia: os maçaricos vinham aí.
A boa nova, embora há muito esperada, não deixou de ser surpresa. É que ela não foi antecedida de especulações ou sururus que o permitissem antever; aquela notícia chegou sem se fazer anunciar, como aliás quase tudo na tropa. Os segredos militares não se cingiam apenas àquilo que era de facto reservado. As ordens chegavam quando as hierarquias assim o entendessem e aquela, sendo uma boa notícia, não deixava de ser uma ordem:
- Preparem-se para a rendição.
Ordem ou não, isso foi coisa que nem preocupou ninguém. O que importava é que vinha aí o fim do nosso calvário e isso era o mais importante. Aposto que, nesse mesmo dia, muitos começaram a arrumar as suas tralhas; fazer as malas, como se costuma dizer.
Por mim, lembro-me bem, cancelei os projectos que mentalmente tinha agendado. Quem aí viesse que pegasse fogo à cama se quisesse livrar-se dos percevejos e que arranjasse uma rede mosquiteira nova e sem buracos, se não quisesse ter aquele teimoso mosquito a zunir-lhe aos ouvidos a noite inteira.
Afinal, vinham aí os maçaricos. Tudo o mais deixou de ter importância.

sexta-feira, 1 de março de 2013

As Pontes do Cúbia

As vastas savanas do Cuando Cubango deixaram marcas indeléveis no meu sistema cognitivo; aquelas inóspitas paisagens, de beleza selvagem, porém feérica e de personalidade forte, tiveram em mim um efeito devastador. Gravadas pela força dos sentimentos, permanecem vivas e bem arrumadinhas nos ficheiros da memória, cujas gavetas vou abrindo aqui e ali à cata das lembranças que vão alimentando estes meus escritos. Não… não é saudosismo; apenas recordações que, de tão marcantes, não consigo apagar … e já lá vão mais de quarenta anos.
Descrever as infinitas paisagens da savana não é exercício fácil. Se por um lado se apresentam como uma monótona sucessão de grandes espaços matizados de cores intensas que vão do ocre carregado da época seca ao verde luxuriante do tempo das chuvas, a verdade é que, ainda que sem outros tons a definir contrastes, não deixavam de ser deslumbrantes à vista. Talvez a sensação de liberdade que emanava das grandes clareiras a perder de vista, adornadas aqui e ali por tufos de vegetação rasteira e entrecortadas por espaços de dimensão indefinida, ocupados por árvores raquíticas no porte e isentas de personalidade que nem sombras conseguiam projectar, compusesse um cenário próprio, sem grandes laivos ou características que conferissem beleza especial.
Para nós, que calcorreámos quilómetros e quilómetros daquela savana imensa, a paisagem já não nos dizia grande coisa. E mesmo quando, por imperativo de ordens superiores penetrávamos bem para o interior daquele mundo de ninguém no cumprimento de mais uma missão, a paisagem parecia continuar a não variar. Por onde quer que se andasse, as chanas assemelhavam-se umas às outras, não mudava muito o aspecto dos charcos, mantinha-se a pouca densidade do arvoredo e as clareiras sucediam-se com a mesma inconstância. Quanto muito, aqui e ali, um contorno mais pronunciado, umas quantas árvores de copa um pouco mais densa e uma ou outra característica sem importãncia poderiam marcar alguma diferença dos locais que já conhecíamos.
Contudo, o efeito psicológico da insegurança que se sente quando se pisa terreno desconhecido era mais forte. Qualquer chana que se encontrasse fora dos nossos percursos de rotina parecia sempre diferente por muito semelhante que pudesse ser. E, quer se queira quer não, à vista do desconhecido, sobrepunha-se sempre aquele desagradável sentimento de insegurança de quem se encontra perdido no meio de nada.
As pontes do Cúbia constituíam uma espécie de fronteira, um portal para esse mundo inseguro, inexplorado e selvagem. Construídas pouco tempo antes de ali chegarmos, o seu objectivo era óbvio: permitir a ligação à outra margem do rio Cúbia. E o local escolhido não podia ser mais apropriado, ali mesmo onde o Luengue se encontra com o Cúbia, engrossando as águas do seu tímido curso que, preguiçoso e indolente caminhava, por vezes escondido entre a vegetação, desde as profundezas da mata da Kirongosa até se encontrar com o grosso e serpenteante caudal do rio Cuando onde pacificamente se diluía no meio de uma planície pantanosa a perder de vista.
As pontes, essas, assim chamadas por integrarem dois pequenos pontões em cimento, ligavam o aterro feito a partir das duas margens de forma a permitir ultrapassar toda aquela planura alagadiça e simultaneamente garantir a passagem das águas que apenas engrossavam no pico da época das chuvas. Sem esta pequena obra de engenharia seria praticamente impossível vencer as grandes chanas do rio e francamente, sem ela, não vejo como seria possível estabelecer a ligação entre a Neriquinha e o Rivungo.
Para mim e creio que também para os meus companheiros de aventura, as pontes do Cúbia representavam o limite da nossa zona de conforto; a fronteira entre o cá e o lá. E essa característica transformou aquele local numa espécie de marco icónico que separava a proximidade de casa da longínqua terra de ninguém. Distavam pouco mais de trinta quilómetros da Neriquinha, percurso que se fazia ao longo de uma sinuosa picada que atravessava uma zona que se considerava nossa conhecida; não obstante tratar-se de uma distância considerável, era como se fosse uma extensão alargada do nosso quintal. Trinta quilómetros por aquelas picadas sinuosas era distância que representava mais de hora e meia de caminho, se tudo corresse bem. Mas era assim; até às pontes, era como se apenas tivéssemos ido ali para logo voltar, a partir daí, imperava o efeito psicológico de quem se sente longe de casa. Era a substituição do precário conforto da caserna pela exposição à intempérie, ao calor sufocante da savana e às noites ao relento à mercê de hordas de mosquitos vorazes.
É claro que não contam as idas às chanas que se seguiam às pontes, logo ali, quando se virava à esquerda tomando o caminho que levava ao Rivungo, único sítio em toda aquela imensa região onde se podiam encontrar pedras. E, como é fácil de entender, as pedras são necessárias para muita coisa e no Cuando Cubango não há pedras, apenas areia e mais areia isenta do mais pequeno seixo. Mas ali, nas chanas do Cúbia, havia um autêntico jazigo de ferro, logo à superfície. Com uma picareta arrancavam-se pesadas lascas do minério em bruto que, fazendo a vez de pedras, se utilizavam em tudo o que era preciso. Compreende-se assim que aquele local, não obstante estar  do outro lado das pontes, era-nos muito familiar; passava-se por ali amiúde, ou de propósito para carregar mais umas quantas pedras ou porque era lugar de passagem obrigatória nas nossas frequentes idas e vindas ao Rivungo.
Foi à vista das fotografias daquele local publicadas pelo José Rodrigues Ferreira da companhia que ali nos antecedeu, que me recordei do conforto que sentia quando, de regresso de uma qualquer missão, após dias na mata e horas intermináveis da viagem de regresso, avistávamos as pontes do Cúbia. Chegar ali, era como se o pior já tivesse passado. É verdade que faltavam quase duas horas de caminho mas, para nós, com os corpos amassados da viagem, empapados em suor e cobertos de pó, era como se fosse já ali.
- Estamos quase em casa. Desabafava-se.
É que, já nem se pensava na eventualidade de uma viatura poder atascar ou até parar por efeito de uma qualquer avaria. A partir dali, se disso houvesse necessidade, o socorro viria rápido. Só era preciso que o estupor do rádio funcionasse, o que, diga-se em abono da verdade, nem sempre estava garantido. Mas isso só aconteceu uma ou outra vez. Creio que até as viaturas, como que pressentindo a proximidade de casa, tudo faziam para não se deixarem ir abaixo.
Hoje, quando, usando as facilidades do Google Earth se visita o local, fica a ideia de que as pontes já não são utilizadas. É perfeitamente visível que desapareceu a picada que, na margem esquerda, dava continuidade ao caminho que levava à Neriquinha, não obstante o risco amarelo no mapa do Google insinuar a sua existência. Parece que toda aquela zona deixou de ter interesse, após a desactivação das instalações que nos serviram de morada enquanto por ali andámos. Hoje são apenas ruinas.
Contudo, quando vistos de cima, são ainda bem visíveis os dois pontões sobre a chana. As fotografias, tiradas em Agosto de 1971 pelo José Rodrigues Ferreira, mostram o seu verdadeiro aspecto, vistas de cá de baixo. Vou atrever-me a publicá-las aqui, deixando bem clara a sua autoria. Espero que o Ferreira não leve a mal.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

LUPALE - O intérprete

A população da Neriquinha não era diferente da de qualquer outro dos kimbos das redondezas. Contudo, se atentarmos bem à sua composição e razões que levaram à formação, naquele local, de um aglomerado populacional, identificam-se características muito particulares. Não obstante as semelhanças, insisto na ideia de que a Neriquinha era, em muitos aspectos, diferente dos demais.
Com efeito, a dezena de kimbos então existentes naquela vasta área que vai de Mavinga ao Chipundo representava aglomerados populacionais que ali se fixaram pelas diversas razões que levam o ser humano a sedentarizar-se criando raízes naqueles exactos locais e não noutros. Era ali que encontravam tudo o que precisavam e, por razões que a antropologia melhor saberá explicar, era também onde se sentiam bem.
Mas o aglomerado populacional da Neriquinha e apenas este, era subtilmente diferente. Aquele lugar não era sítio que atraísse população. E quando penso nisso, mais uma vez sou levado a concluir que fomos obrigados a viver dezoito meses num local tão inóspito que nem a população autóctone encontrava razões naturais para ali se fixar, a não ser que, pelas circunstâncias, a isso se visse obrigada.
É verdade, o kimbo da Neriquinha nasceu e cresceu em consequência da guerra. Razões ditadas pela estratégia militar determinarem ser aquele o local adequado para a implantação das instalações militares: primeiro um pequeno aglomerado de tendas de lona, material que, ao longo do tempo, foi sendo progressivamente substituído por paredes de tijolo e cobertura  de chapas de zinco. Dois barracões pré-fabricados completaram aquele arremedo de urbe aprisionada numa frágil cerca de arame farpado que, delimitando o perímetro, parecia querer conferir segurança ao local.
A população, essa, acossada pela guerra que lhes alterou o modo de vida e correspondentes rotinas, foi-se juntando do outro lado da cerca, acoitando-se à sombra de uma segurança de proximidade e, em simultâneo, beneficiando das comodidades inerentes à vizinhança da tropa. Formou-se assim um kimbo que foi crescendo com o tempo e atraindo novos habitantes, congregando no mesmo meio gente de etnias diferentes.
Quando chegámos àquele bocado semidesértico das terras do fim do mundo, a população da Neriquinha era mais ou menos estável e tinha estrutura idêntica à de qualquer aglomerado populacional da zona, ficando demonstrado que os costumes e modus vivendi eram os mesmos. E isso via-se em tudo: na construção das suas habitações e materiais que usavam, nos hábitos alimentares, nos temores e superstições, na forma como se organizavam e socializavam, nas hierarquias tribais típicas de uma sociedade agrária iminentemente paternalista (talvez devesse dizer machista) e ainda nos direitos, nos deveres e demais normas não escritas que regiam as suas condutas, o seu quotidiano e o resto.
 Enfim, uma sociedade regulada segundo cânones ancestrais cujos ditames, gravados na cabeça dos velhos, deixavam transparecer uma sociedade bem mais complexa e organizada do que aquela que uma análise superficial permitia revelar. A autoridade civil máxima descansava nos ombros do Soba, secundado pelos Sékulos, não obstante a autoridade real, fosse qual fosse a coisa a regular, pertencesse ao comandante da companhia ali aquartelada.
A população do Cuando Cubango era constituída por uns quantos grupos étnicos. Não sei bem quantos, mas eram mais do que se podia esperar poderem existir numa das maiores mas seguramente menos populosas províncias angolanas. Os Ganguelas integravam o maior dos grupos. Na verdade a ideia que se tinha é de que, excluindo os Bosquimanos com traços fisionómicos claramente identificáveis e os Camachi, de tez menos carregada, todos os demais seriam Ganguelas. Mas não era assim. Lembro-me dos Lutchaze e, em menor número, dos Bundas, dos Luvale e dos Luimbi entre outros que não recordo. O facto é que cada grupo falava o seu próprio dialecto, embora tenha a ideia de que o Ganguela seria o dialecto falado senão por todos, pelo menos pela maioria.
Isto significa que, entender aquela gente, implicava ser-se poliglota em dialectos das terras do fim do mundo e isso era impossível. E como muitos deles pouco falavam o português a comunicação tornava-se complicada.
O Lupale distinguia-se dos demais porque, para além de falar fluentemente o português, dominava ainda uns quantos dialectos. E isso, conjugado com as habilidades de um autêntico relações públicas, tornava-o num homem importante. E insinuante, acrescente-se. Na verdade, o Lupale era simpático, popular e desenvolto.
Para já, falar fluentemente o português e conseguir fazer a retroversão para a linguagem daqueles gentes não era coisa pouca, nem de somenos importância. Por ali, apenas alguns GE’s, uns tantos mais expeditos e os putos que cresceram ao lado da tropa, eram capazes de se expressar de forma a se fazerem entender
Do nosso lado, só ao fim de muito tempo se começou a decorar uma meia dúzia de termos do estranho linguajar daquelas gentes mas compreensivelmente insuficientes para estabelecer uma conversação por mais minimalista que fosse. Ainda me lembro que, durante muito tempo, tinha como certo que o puto que me lavava a roupa dava pelo nome de João Muhala Cassumbi. Só muito tempo depois é que me apercebi que o João apenas se chamava assim: João. Os epítetos Muhala e Cassumbi não eram senão uma brincadeira do seu amigo Manjolo, o outro garoto que com ele repartia a lavagem da roupa na camarata dos sargentos. Os dois nomes, que julgara serem sobrenome ou apelido, apenas significavam qualquer coisa como galinha que esgaravata no chão, uma espécie de provocação inofensiva, sem maldade ou azedume, de um garoto para outro.
O facto é que, quando ali chegámos, o Lupale apareceu-nos como o intérprete oficial, uma espécie de ministro dos negócios estrangeiros do kimbo. A importância do seu papel no seio daquela comunidade era um facto. E isso ficou bem claro exactamente quando uma delegação do estado-maior do kimbo, capitaneada pelo Soba e secundada pelos Sékulos, veio apresentar as boas vindas ao capitão. A solenidade que conferiram ao acto era bem patente na indumentária de gala com que se apresentaram e na imprescindível intermediação do Lupale que, sacando da sua erudição, fez jus à sua indiscutível competência de intérprete, transmitindo as boas vindas ao comandante recém-chegado e aproveitando ainda o ensejo para fazer umas quantas petições e uma ou duas queixas, verbalizadas como correspondendo à tradução literal dos indecifráveis monossílabos tartamudeados por aqueles altos representantes da população local, escassos vocábulos que o Lupale transformava num discurso coerente e bem elaborado, deixando no ar a dúvida se seria uma fiel tradução ou antes o pensar livre do intérprete que acrescentava, por sua conta e risco, uns quantos pontos ao discurso.
Não há dúvida, o Lupale tinha veia de político e demonstrava-o a todo o momento na forma como se comportava ou como se relacionava connosco, quer estejamos a falar do simples soldado, de um oficial ou das altas patentes. E isso viu-se pouco tempo depois quando, no Natal de 1971 o Governador de Serpa Pinto resolveu fazer uma visita de cortesia àquele remoto local da província que governava. Estando presentes, por obrigação formal, o Soba e seus Sékulos e atendendo a que não falavam a língua de Camões, mais uma vez o Lupale teve oportunidade de brilhar, desempenhando com redobrada competência o seu papel de intérprete, mais para transmitir o que dizia o Soba e menos ou quase nunca para lhe devolver a resposta. É…, cada vez mais me convenço que o Lupale traduzia mais o que lhe ia cabeça e menos o que diziam os regedores do kimbo.
Finalmente, não posso deixar passar em claro a fleuma deste homem profusamente demonstrada na estória que o Pedro Cabrita contou aqui, neste mesmo blog, cuja leitura recomendo vivamente e da qual me atrevo a reproduzir uma singela passagem. Relembro apenas que o Capitão foi instado, passe o exagero do termo, a participar numa espécie de tribunal tribal que se reunira para dirimir um litígio de natureza familiar ou seja, uma espécie de julgamento onde um colectivo sui generis deveria apreciar e decidir, aplicando as normas de um direito consuetudinário plasmado em códigos sem existência física.
Naquele tribunal, que de informal tinha pouco, mais uma vez o indefectível Lupale ali estava para servir de intérprete; o Capitão não entendia patavina daquele dialecto e do outro lado, ninguém se expressava em português.  Bem se esforçava, o nosso comandante, para tentar perceber, não só o que se discutia mas também qual o entendimento de cada um dos juízes sobre os factos em confronto. Em determinado momento e a meio de um mais alongado discurso de um deles, o capitão, procurando perceber o que ia sendo dito, perguntou num sussurro ao ouvido do Lupale.
- O que é que ele está a dizer?
A resposta foi absolutamente desconcertante.
- Por enquanto ainda não disse nada, só está a falar.
É isso, se calhar, para além de diplomata e político encapotado, o Lupale era também um filósofo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


Introdução à apresentação do livro “Capitães do Vento” numa tertúlia militar em Oeiras
Setembro de 2012
Este é um livro azedo. Um livro onde o autor (um miliciano) revela uma enorme dificuldade em compreender onde chegou a insanidade política, o auto-convencimento militar, o desespero e a teimosia cega que conduziu ao suportar de uma guerra a qualquer preço, fosse ele um preço financeiro, humano ou mesmo patriótico. A História veio provar que o preço era demasiado elevado, ou mesmo incomportável, a médio ou a longo prazo.

A minha história foi forjada num acto de desespero político e militar, rodeado de um enorme secretismo que se se suportou no crédito da inabalável capacidade do povo lusitano em adaptar-se às circunstâncias mais difíceis e adversas, por vezes desumanas até.
Não sei quantos povos do chamado ocidente teriam sido capazes de resistir às condições de aquartelamento, de alimentação, da dureza do clima e da própria génese da guerra em que se veio transformando o conflito colonial.
Contudo, a mim coube-me suportar um outro fardo a juntar a todos estes que aqui se enumeram.
A mim coube-me carregar a escuridão das ideias, a inconsciência dos actos e o desespero da premonição de um fim por demais anunciado, que nada tinha a ver com a Pátria que todos amamos e aprendemos a defender com arreganho e alma, de que nos dá conta a nossa História nos infindos exemplos de galhardia e verdadeiro amor pátrio a que fomos habituando os nossos inimigos no passado.
Acharam-me, não de ânimo leve, mas de ânimo nenhum, que os meses que podemos contar numa só mão seriam mais que suficientes para construir um guerreiro, quiçá um pequeno Viriato, agora oriundo do sul, que fosse capaz de conduzir as suas tropas com mestria e engenho num campo de batalha adverso e feito à medida e conhecimento do inimigo. Não sei se esperavam de mim que regressasse vitorioso, mesmo que as baixas pudessem tornar-se num vilipêndio de consciência de que dificilmente me recomporia para o resto da minha vida, deixando-me sem qualquer resposta sensata para dar aos familiares que porventura me questionassem pelos erros cometidos, mesmo que em nome da Pátria.
Em 8 de Junho de 1970, tinha 22 anos, decidiram fazer de mim um Comandante de Companhia. Assim, de repente, num sopro ou golpe de mágica com o qual contavam poder prolongar a agonia da guerra e os alicerces carcomidos do regime, que haveria de ranger simbolicamente numa cadeira tolhida pelo caruncho a 27 do mês seguinte no Forte da Barra.
Com 23 anos assumi o comando de cerca de 140 homens (depois de mais 30 GE’s locais) somando 170 militares.
Tinha 23 anos, mas ninguém terá reparado nisso. Consta que serei o capitão mais jovem de sempre do Exército Português. Uma circunstância que me espantou na altura, não apenas pela idade mas pela escolha de um provinciano despolitizado arrancado aos confins do último reduto sarraceno, assinalado pela tez macerada pelo sol inclemente e uma insubmissão rebelde permanente de que em tempo se haveria de queixar a hierarquia militar.
Mais tarde percebi que o elemento decisivo para a minha eleição era o “despolitizado”, que garantia alguma segurança no cumprimento da missão. A catadupa de testes a que me submeteram durante mais de 15 dias terão encontrado outros valores que poderiam prometer uma ou outra expectativa. Mas o alheamento político era certamente o elemento mais aliciante e seguro.
Não sei como me viram ao início os meus oficiais, sargentos e praças; um jovem da mesma condição que adoptou e obrigou uma companhia de civis ao cumprimento do estatuto militar, como se de um oficial de carreira se tratasse. Uma opção tomada em consciência que acabou por nos permitir representar a hierarquia militar naquilo que tem de essencial; ordem, respeito (que não deferência) e funcionalidade.
Desde sempre senti o incómodo da situação; quer para mim, quer para eles. Mas não havia nada a explicar nem a justificar; era uma opção, um conceito. Sem sentido para alguns, que se sentiriam mais confortáveis num eventual tu-cá tu-lá de civis metidos na mesma embrulhada, a que o tempo haveria de conduzir. Uma irmandade que naturalmente descambaria numa anarquia mesmo que saudável entre amigos, onde a fraternidade desobrigaria ao cumprimento de ordens a que a cadeia de comando se obriga. Uma responsabilidade que me cabia a mim imprimir num contexto naturalmente organizado por hierarquias de comando onde me encontrava inserido e obrigado a responder à cadeia superior.
Assumi que não seria fácil compreender e aceitar esta escolha.
Mas foi aí que aprendi a conhecer melhor os que com sagacidade e inteligência aceitaram sem questionar a hierarquia imposta e a representaram sem objecções. Os que compreenderam com argúcia que em qualquer clima de guerra é condição imprescindível a hierarquia de funções e responsabilidades; mesmo que estas não correspondam a um enquadramento real mas apenas funcional. Mesmo que se constituam num contrato a termo certo, que para mim terminou no dia em que me despedi de todos eles no aeroporto de Luanda.
Por outro lado, não sei se lhes fui capaz de transmitir alguma confiança ou segurança. Não sei o que esperavam de mim no auge da batalha. Mas o que menos descanso me dava era imaginar como iriam reagir ao ressoar de trovão das espingardas quando em uníssono cruzassem fogo com o inimigo.
Eu já o tinha experimentado nos Dembos. Conhecia a sensação da fímbria da morte. Eles tinham ficado por uma boa dúzia de tiros disparados na carreira de tiro, alguns deles tapando os ouvidos.
Tudo uma insanidade. Uma irresponsabilidade que, na hora incerta da tragédia, haveria de ter um dedo apontado à minha consciência, ignorando os meus 23 anos, e ilibando todos quantos me despejaram no campo de batalha esperando que me comportasse como um verdadeiro militar experimentado. Tudo fruto de quatro “longos” meses de estágio que caucionaram a minha responsabilidade de comandante de companhia, outrora atribuída a militares do Quadro Permanente sempre com mais de 30 anos de idade e cerca de 12 anos de experiência na função.
Um dia, ainda na instrução enquanto cadete, mas já com o processo de formação em andamento, captei por acaso uma troca de palavras entre dois oficiais do Q.P.. Importa esclarecer que o meu curso foi o primeiro do chamado C.C.C. (Curso de Comandantes de Companhia).
Dizia um deles: - “Não estou a ver que isto vá a algum lado; como é que os gajos se vão desenrascar a comandar homens, quando debaixo de fogo!?”.
Ao que o outro, seguro, respondia: - “… acho que não vai haver problema; quando as coisas aquecerem o instinto de conservação há-de fazer com que sobrevivam.”
Com que sobrevivam… articulei mentalmente e nunca mais me esqueci.
Era preciso sobreviver. De preferência sem que fosse pela via do instinto.
Nesse sentido tomei algumas decisões que contribuíssem para a minha sobrevivência e a de todos os que comandava. Decidi ali mesmo que não haveria de voltar a cara àquela luta; a da sobrevivência. Talvez a mais importante decisão se resuma ao princípio que sempre me norteou no mato. Se me quisessem apanhar teria que ser de frente; nunca pelas costas ou distraído. Foi uma autêntica obsessão.
Se resultou, não sei; mas sei que nunca fomos atacados no mato. Lembrar-se-ão muitos quanto exigente me tornava em operação. Lembrar-se-ão todos a forma como foram apanhados os treze GE’s, onde pereceram quatro dos nossos, entre eles o comandante Fulai Monjuto. Pelas costas e muitos deles praticamente desarmados.
Sempre procurei transmitir aos quatro alferes operacionais estes princípios por acreditar que seriam atitudes sensatas que nos ajudariam a regressar incólumes. Tenho a certeza que o terão tido sempre em mente contribuindo assim para a segurança de todos.
Esta é genericamente a minha história. Uma história que sempre considerei criminosa e muito mal suportada até hoje.
Todos os pormenores relato-os com minúcia neste livro. Talvez demasiada minúcia. Também porque não foi apenas a guerra das armas que me aconteceu. Nas Terras do Fim do Mundo uma outra guerra me viria a apanhar desprevenido; mas essa é uma outra história que fez com que tudo tenha valido a pena. Saímos de N’riquinha deixando o vazio da nossa presença. Mas ali deixámos o calor humano com que sempre tratámos aquela gente. “A nossa gente das Terras do Fim do Mundo…” como sempre lhes hei-de chamar.
Como canta o Vitorino nos cantares alentejanos; “Fui às sortes e safê-me…!”
Eu, nas “sortes” não me safei; aliás, nas sortes aprendi logo no primeiro dia algo que desconhecia por completo.
Transido do frio que fazia no majestoso, mas gélido, convento de Mafra – já lá ia mais de uma hora nuzinho que nem um ovo cozido descascado a fim de me avaliarem as mazelas – queixei-me meio amotinado a um graduado disso mesmo.
- “Meu Alferes. Estou gelado; isto ainda vai durar, ou é mesmo castigo…?”
A resposta foi célere e esclarecedora: “… O frio é civil, nosso cadete! Não incomoda militar…!”
Eu fui à guerra e safei-me…Porque comigo esteve gente que não esqueço. Gente que, compreendendo e aceitando ou não o que nos aconteceu, esteve à altura da gesta dos navegadores que nos antecederam 500 anos antes.
E foi por pouca sorte apenas que não voltámos todos, como o tinha prometido solenemente a mim mesmo na hora da partida.
P. Cabrita
Nota
A publicação deste texto fica a dever-se apenas a um imperativo de consciência que os tempos me sugeriram que fizesse. Nenhuma outra intenção me motivou.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

JOHN INGLÊS. O aprendiz de espião


A guerra naquele canto esquecido do fim-do-mundo dava sinais de estar adormecida. Pelo menos era o que nos parecia. Se havia informações sobre as manobras do inimigo, o mais certo era que apenas chegassem à cúpula do comando poupando as bases ao stress da eventual iminência de um ataque das forças turras, deixando-nos gozar o sossego que, aos poucos, nos foi fazendo esquecer que estávamos em guerra enquanto, aos poucos ia ficando no ar aquela falsa ilusão de paz que se arrastava ao sabor das inclemências do clima.
Antes assim. Confesso que nunca me passou pela cabeça achar que a monotonia chata e pastosa da nossa desinteressante missão devesse ser animada por umas quantas fogachadas que os nossos amigos do outro lado da barricada entendessem despejar sobre nós. Animação dessa é dispensável. Certamente que nós, os “sapos da Neriquinha” (como nos apelidava a radialista Maria Turra nas emissões radiofónicas clandestinas vindas do outro lado da fronteira) preferiamos mil vezes viver o vazio desgastante do dia-a-dia modorrento e sensaborão, do que ter de enfrentar os riscos da animação de qualquer atrevimento bélico do inimigo.
A verdade é que, na Neriquinha, as nossas guerras mais ferozes tinham mosquitos e percevejos como opositores o que não quer dizer que por ali se vivia em paz e harmonia com guerrilheiros que, verdade seja dita, nunca nos vieram visitar. Com o tempo aprendemos a conhecer o meio e com isso perceber as movimentações dos grupos que se sabia activos, até porque, sendo capitaneados pelo Kuenho, não seriam propriamente meninos de coro. Terem-nos deixado em paz ao longo do tempo que por ali andámos faria parte da sua estratégia, a qual teria como principal objectivo garantir que o campo ficava livre para as suas movimentações clandestinas entre a fronteira e a suas bases no interior remoto da Kirongosa.
Neriquinha estava situada perto da fronteira com a Zâmbia. Dali até às grandes chanas do Kuando não distariam mais de 20 Km e dizia-se que, por alturas do Chicove, existiam carreiros dissimulados pelos caniços que ajudavam os então nossos inimigos a esconder as canoas artesanais utilizadas para vencer o volumoso caudal do rio que ali estabelecia a linha divisória com a vizinha Zâmbia onde assentavam os seus apoios de retaguarda. Importava manter a discrição nas andanças de cá para lá e chatear a tropa que por ali andava, não seria propriamente a melhor forma de passarem despercebidos.
E ainda bem para nós que, em abono da verdade, não nos podemos queixar muito da guerra que nos calhou em sorte. As duas únicas vezes que a 3441 chegou perto dos grupos activos na zona, resumem-se à incursão ao esquadrão e à grande operação ao Tossi que resultou na morte de treze GE´s, entre eles o Fulay, no confronto com o grupo do Kuenho que se dizia ser seu meio irmão.
Como em qualquer guerra, as informações sobre as actividades inimigas eram importantes. E, sem que déssemos por isso, condicionavam a nossa vida. Era em função delas que os estrategas militares decidiam, desenhavam e montavam as operações que teríamos de executar no rigoroso cumprimento de instruções sigilosas, sitrep´s cifrados, e outros meios que chegavam ao comando da companhia vindas das cúpulas do quartel general ou do batalhão no Cuito Cuanavale. É claro que a inteligence militar não era coisa com que nos devêssemos preocupar; isso era tarefa da PIDE-DGS e outros espiões. Mas isso não quer dizer que fossem ignoradas as informações que chegassem vindas de candidatos a espiões. Contudo sendo matéria delicada e compreensivelmente reservada, é natural que apenas chegariam ao comando da companhia, trazidas por elementos da população ou pelos prestimosos GE’s, sem que tais informações se tornassem públicas. Em boa verdade eram assuntos que nos passavam ao lado e deles só vim a conhecer alguns pormenores, anos depois de terminada a guerra.
Havia contudo uma excepção: o John Inglês. Com residência no Samejuto e passando temporadas na Neriquinha, ganhou este pomposo nome por constar que conhecia algumas palavras de inglês, vocábulos dispersos que dizia ter aprendido no outro lado da fronteira, fruto dos contactos que, segundo ele, manteria com conhecidos seus em terras zambianas. O facto é que, falando ou não inglês, distinguia-se da restante população cuja maioria nem português falava.
Ainda que sem pormenores, sabia-se que o John Inglês trazia e levava informações. Não sei donde as trazia e para quem as levava mas o facto é que da fama de agente duplo não se livrava, já que ninguém acreditava na sua incondicional adesão à nossa causa. Acreditar nisso seria pura ingenuidade: nas suas propaladas idas e vindas ao território zambiano utilizaria obrigatoriamente os mesmos itinerários do inimigo e certamente que esses saberiam onde ele vivia e com quem falava.
Nunca me interessei em saber o que o atraía ao território zambiano, mas é provável que tivesse lá gente conhecida ou familiares distantes que gostava de visitar. Ou então, o seu espírito aventureiro impelia-o a fugir da pasmaceira da Neriquinha. O que é certo, é que tinha fama de se movimentar livremente pelos caminhos pantanosos e esconsos da fronteira o que explicava as suas prolongadas ausências.
Quando aparecia, insinuava-se junto do comandante da companhia, mercadejando informações sobre alegadas movimentações do inimigo. Era atrevido e desenvolto, sabendo-se que obtinha quase sempre uma modesta paga pelas novidades que fazia questão de classificar de exclusivas e cuja utilidade estratégica nunca cheguei a conhecer. O certo é que, com alguma arte e persuasão, vendia informações condimentadas com os pormenores que visavam conferir-lhe a necessária credibilidade.
Usufruiu assim, por algum tempo, de algumas mordomias, coisas insignificantes que lhe conferiam estatuto e a que dava importância. Em certas alturas, o simples facto de ser recebido pelo capitão já era recompensa suficiente. Mas, mais importante do que isso, estavam as recompensas materiais. Não falo de dinheiro que certamente não lhe interessaria muito e não creio que houvesse para lhe pagar, mas acredito em pagamentos em espécie. Por exemplo, não resistia a umas caixas de ração de combate. Aliás, tudo fazia para as receber, atrevendo-se até a alegar que delas precisava para se alimentar nas suas idas e vindas através da chana pantanosa que separava o território angolano da vizinha Zâmbia.
Mas um dia, um GE descobriu-lhe a careca. Quando se pensava que o John Inglês se encontrava por terras da Zâmbia no cumprimento de mais uma missão de espionagem, foi encontrado ali bem perto, no kimbo no Samejuto, em total relax, preguiçando na companhia das suas mulheres. Parece que, a seu lado, ainda eram visíveis os restos das rações de combate que recentemente recebera para mais uma grande viagem ao outro lado da fronteira. O John Inglês fora desmascarado.
Afinal parece que as suas informações eram pura invenção. Até pode ser que, de vez em quando, se deslocasse à Zâmbia, mas até isso perdeu credibilidade. Se sim, certamente que não seria com a frequência que publicitava. O facto é que ficou provado que as informações que trazia não passavam de invencionice o que, paradoxalmente, não deixa de constituir um elogio à sua esperteza.
Ainda hoje estou para saber se o fazia apenas para se insinuar junto da tropa e com isso obter alguns favores, ou se, afinal, era um aliado do inimigo que lhe venderia informações falsas para nos despistar. O facto é que, a partir daí, o homem desapareceu e nunca mais foi visto por aquelas paragens.


sábado, 1 de dezembro de 2012

AS DUAS REGINAS

Eram peculiares as mulheres da Neriquinha. E a sua relação com a tropa tinha os seus quês. À sua maneira, seguindo os seus próprios princípios e com os cuidados que as suas superstições e temores impunham, habituaram-se a conviver com tropas que mudavam a cada rendição. Quando começavam a conhecer melhor uns, eis que se iam embora e lá vinham outros, novinhos em folha. E tudo isto numa questão de meses. Normalmente um ano ou pouco mais. Connosco, a relação foi mais duradoura, quase dezanove meses. Penso que até então nenhuma companhia estivera ali tanto tempo como a 3441. E isso permitiu uma aproximação maior, pelo menos aprenderam a conhecer melhor muitos de nós.
- Furriel matchiririka. Atreviam-se a certa altura, quando consideravam que o furriel em questão era bonito ou simpático ou, mais provavelmente, generoso.
Como não podia deixar de ser, o inverso também tinha que se lhe dissesse. Mutatis mutandis, também da nossa parte houve necessidade de adaptação. Com as devidas cautelas, procurando não ferir susceptibilidades ou infringir regras tribais, fomos aprendendo a lidar com aquelas gentes. E com as mulheres os cuidados redobravam. Ao fim de muitos meses de convivência e à medida que em nós a imagem de mulher branca se ia desvanecendo, aquelas fêmeas andrajosas, inicialmente repelentes, fisicamente nada atraentes e nitidamente desprovidas de tudo o que até então se consideravam padrões mínimos de beleza feminina, passaram, num lento processo de habituação, a serem olhadas de outro modo, com cobiça, digamos, com olhos de comer.
Tinham hábitos estranhos; diria mesmo, desconcertantes. Mas até a esses nos fomos moldando. Por exemplo, Já se achava natural que a adolescente, quando atingia a idade dos doze ou treze anos – não me lembro bem – fosse submetida a um ritual absolutamente estranho de transformar crianças em mulheres adolescentes. Em ambiente festivo, abrilhantado com danças tribais e cânticos guturais ao som rítmico, monocórdico e repetitivo do batuque, uma estranha cerimónia tinha o seu clímax numa espécie de intimidade a que só assistiam as mulheres mais velhas. Eram estas que conduziam toda aquela espécie de via-sacra da mulher adolescente. Utilizando um qualquer processo cujos pormenores nunca cheguei a conhecer, as anciãs desvirginavam a donzela que assim, sem qualquer prazer e certamente aterrorizada, ficava, segundo a tradição, pronta a acasalar - perdia o cabaço como por ali se dizia. E como se isso não bastasse, a criança que assim, de repente, era transformada em mulher, passava obrigatoriamente a usar os paramentos que atestavam a sua novel condição: colares de missangas multicolores artisticamente entrançados no seu tronco nu e um estranho mas ao mesmo tempo artístico penteado meticulosamente preparado com bosta de vaca fresca. Andava assim por largo tempo, ganhando a bosta uma tonalidade escura e luzidia que, por mais estranho que pareça, era agradável à vista, mas apenas quando olhada de longe.
Durante esse tempo a mulher era intocável; a tradição e os costumes assim o impunham. Contudo, ainda que assim não fosse, o método utilizado pelas anciãs certamente tornaria dolorosa qualquer investida. E se isso não bastasse, o cenário repugnante e o fedor a bosta, associado à óbvia falta de higiene, para além de atrair bandos de moscas, seria seguramente razão mais do que suficiente para refrear quaisquer ímpetos, mesmo que vindos dos homens daquela população, certamente mais habituados a perfumes tão exóticos.
Vistas as coisas, todas aquelas mulheres, despidas de beleza e parcas em atractivos, foram sendo catalogadas: as mais jeitosas, já que chamar-lhes bonitas era exagero; as mais oferecidas ou, se se quiser, mais disponíveis; as que consensualmente eram consideradas intocáveis, ou por serem demasiadamente feias ou porque eram propriedade de algum GE. Finalmente as duas Reginas cujo estatuto de intocáveis não passava disso - estatuto apenas.

Uma delas, a Regina Preta, era assim chamada por razões que não conheço, já que, no que respeita à cor da pele, era tão preta como as demais, a outra, era a Regina Branca, mas isso era só de nome já que de branco não tinha nada. Era tão preta como a outra e nada as distinguia a não ser o aspecto físico. A Regina Branca, aparentando ser mais nova, era mais jeitosa. Ou, se se preferir, menos desengonçada; não tinha aquele ar pesado de marafona da Regina Preta. E isso contribuía para que fosse mais cobiçada.
A Regina Preta gozava do previlégio de ser exclusiva do furriel das transmissões que não se coibia de cuidar do seu exclusivo. A Regina Branca, obviamente mais jeitosa, não se livrava da fama de ser a favorita do Capitão.
Fosse como fosse, era óbvio o relacionamente entre as mulheres do Kimbo e tropas carentes de afetos. Se se tiver em conta que a natalidade era coisa vulgar por aqueles lados - os muitos putos que cirandavam pelo kimbo eram disso prova evidente - não é estranhar que alguns seriam naturalmente descendentes dos tropas que por ali foram passando durante o tempo que durou a guerra. Um deles era demasiado óbvio. O loirito do Kimbo da Neriquinha era o puto mais fotografado entre os demais. O seu cabelo liso, incontestavelmente louro, constituía um sinal evidente de que, entre os elementos das companhias que nos antecederam, teria havido pelo menos um militar de cabelo louro que, provavelmente sem que viesse a saber disso, ali deixou descendência.
A história é farta em exemplos  que confirmam que, afinal, isso era uma realidade comum a todas as guerras. As nossas guerras, as guerras da Neriquinha, não são excepção. A fotografia do Morais deixa para a posteridade a prova de que a Regininha Preta é filha da 3441.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Reconstrução de aeródromos no Cuando Cubango

Segundo a ANGONOTÍCIAS em despacho de 05 de novembro passado, o Governador Higino Carneiro (Menongue) anunciou a intenção de reconstruir cinco aeródromos do tempo colonial, entre os quais o do nosso conhecido Rivungo. Lendo a notícia, descobri que o aeroporto de Menongue (ex-Serpa Pinto), tem o nome de Comandante Kwenha.
Será o mesmo Kwenho que nós conhecemos como meio irmão do Fulay Monjuto e que seria o lider do grupo, na altura inimigo, que foi responsável pela chacina (ver aqui) a que se faz referência neste blog e na qual o Fulay perdeu a vida?

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O ESCAREPE

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O cumprimento do serviço militar num local tão afastado do mundo civilizado como é o caso da Neriquinha, exigia vocação de explorador, mas daqueles que se sentem atraídos por locais ermos. Ora, isso era exactamente uma característica que, na 3441, ninguém possuía. Nem era preciso. À chegada a África, não fazíamos a mínima ideia do nosso destino e como também todo aquele imenso território nos era totalmente desconhecido, tornava-se, de alguma forma, indiferente o local que nos estava destinado. Desde que não fosse para um daqueles com fama de perigosos onde, segundo se dizia, o inimigo se mostrava mais afoito, tudo o mais era igual, especialmente porque ninguém era capaz de imaginar que pudéssemos ser largados no meio de coisa nenhuma. O facto é que, pelo menos até chegar à pequena cidade do Luso, não imaginava que nos pudesse cair em sorte um lugar que bem podia ser classificado como impróprio para ser habitado por seres humanos. A juntar a tudo isto, a certeza de que não valia a pena pensar nisso. Na tropa, pelo menos naquela altura, íamos para onde nos levassem, era imperativo e não havia como reclamar.
Quando desembarquei em Luanda e a partir daí levado através daquele imenso território, naquela interminável viagem, até aos confins das terras do fim do mundo, fui interiorizando a desagradável certeza de que me estavam a afastar de tudo aquilo que, até então, fazia parte da minha vida, ao mesmo tempo que um estranho vazio se ia instalando à mistura com o turbilhão avassalador da radical mudança. O meu mundo fugia, ficava cada vez mais distante, inacessível e eu, impotente, dominado por uma anestesiante letargia, nada podia fazer para evitar aquela espécie de evanescência. Esse semi-estado de inconsciência à mistura com o permanente temor do desconhecido e as campainhas que o instinto de sobrevivência fazia soar dentro da minha cabeça exigindo para si o exclusivo dos meus cinco sentidos, compunham uma amálgama de preocupações, qual barreira psicológica que impedia a percepção exacta da realidade que me esperava. Desde que saíra de Luanda, tudo se foi desvanecendo, desaparecendo como num passe de mágica sem que disso me desse conta.
Desde logo, mulher branca foi ser que se deixou de ver. Tirando Luanda, apenas me lembro de avistar, assim de soslaio e de fugida, umas quantas que connosco se cruzaram, por mero acidente, frente à estação de comboios de Nova Lisboa, enquanto se aguardava o início daquela longa viagem, através do caminho-de-ferro de Benguela, que nos levaria até ao Luso, derradeira fronteira entre a civilização e o desterro remoto da Neriquinha. Convém esclarecer que, tanto quanto me recordo, isso não me preocupou muito, pelo menos naquela altura. Não sabendo nada sobre o nosso local de destino, não era possível antever que ali não havia mulheres brancas. Na verdade, não havia mesmo coisa nenhuma, embora disso nem me tivesse apercebido quando o Nord Atlas nos largou na pista empoeirada daquele fim de mundo. Só decorrido algum tempo, quando a saudade começou a imiscuir-se no bem-estar emocional, cada um se foi dando conta que ali, para além de não haver nada, também não havia mulheres. Pelo menos daquelas a que estávamos habituados. Sim, porque as mulheres ganguelas, a maioria autóctone que habita aquela região, para além de não deverem nada à beleza, também não possuíam quaisquer atributos dignos desse nome.
Mas isso foi no princípio. Com o passar do tempo, até mesmo os mais exigentes começaram a encontrar atractivos naqueles corpos andrajosos, sujos e mal cheirosos. E como ascetismo ou misoginia eram conceitos que ali não se aplicavam, a certa altura, qualquer mulher que não tivesse a pele enrugada e as mamas semelhantes a um bacalhau seco e enegrecido, era considerada uma beleza e isso era meio caminho andado para passar a ser cobiçada. Ao fim de algum tempo, todas estavam catalogadas, era inevitável, uma espécie de processo biológico a que era impossível fugir.
E os hábitos sexuais daquelas gentes também contribuíam para que as coisas se compusessem. Não se pode falar exactamente em comportamentos menos dignos ou em mulheres disponíveis, daquelas que vendem o corpo, como se encontra em qualquer lugar do mundo. Quer dizer, haver, havia, mas era diferente, digamos que, no seio daquela população, o sexo era coisa aceite como natural, se bem que nem todas as mulheres se disponibilizassem a isso. Os tabus eram poucos ou nenhuns e era fácil conseguir o exclusivo de um kafeco; desde que, claro está, não tivesse dono ou fosse demasiado nova. Bastava pagar o alambamento exigido - uma importância simbólica - e tudo ficava legalizado. O nosso homem das transmissões obteve o exclusivo da Regina Preta se bem que uns quantos se afanassem à procura das suas distracções para debicar na sua exclusividade. Mas de uma forma ou de outra, em troca de um agrado insignificante, qualquer um podia dispor dos favores sexuais que entendesse, sem alaridos, pressões e dispensando o uso das artes da sedução. Bastava combinar a hora, munir-se dos cuidados necessários, aventurar-se à noite por entre as cubatas do kimbo e a coisa compunha-se. A sessão de ginga ginga – termo ganguela que definia o acto – apenas durava o tempo estritamente necessário. Acabada a função, urgia fugir dali, meter-se debaixo do duche para se livrar do cheiro incomodativo e precaver qualquer maleita que dai pudesse resultar. E esse era um procedimento relativamente ao qual todos estavam convenientemente informados.
Pois é. Não há bela sem senão. Tanta facilidade tinha os seus inconvenientes. As doenças venéreas eram vulgares no meio daquela gente. A pouca higiene, o desconhecimento das consequências maléficas que daí podiam advir e a mudança frequente de parceiro, contribuíam para que, pelo menos as mais solicitadas ou mais oferecidas, constituíssem perigo de contágio para quem, descuidadamente, com elas se aventurasse a um fugaz momento de intimidade amorosa. E eram muitos os que não resistiam: uns porque mais carentes, outros por necessidade de demonstrar as suas capacidades de engate, alguns mais tímidos ou inexperientes desinibiam-se e aproveitavam o facilitismo da coisa e outros ainda porque sim, todos (ou quase todos) iam usufruindo de uns mal-amanhados favores sexuais de mulheres pouco dadas ao romance e à sedução.
Ainda assim, não era frequente ouvir-se falar de casos graves de contágio. Apenas um ou outro, queixando-se de um ardor, uma intumescência, ou simples vermelhidão, acudia à enfermaria que, bem fornecida de medicamentos adequados, ia resolvendo os problemas sem consequências de maior. O facto é que, se todos seguissem as recomendações repetidas à saciedade pelo nosso escasso corpo clínico, não havia que temer. Bastava uma simples precaução: passar com antecedência pela enfermaria que disponibilizava pomadas e unguentos para o efeito. Era só seguir as instruções que tudo correria bem.
Bem, mas havia um soldado, creio que do terceiro pelotão, que não encaixava em tudo isto. Não sei se quando ali chegou ainda era virgem, ou se as suas carências sexuais passaram a ditar o seu comportamento. A verdade é que a frequência com que frequentava o kimbo, à noite, parecia exagerada e não era certamente por competência da mulher que procurava. Não é crível que fosse por isso. Simplesmente ganhou o vício e não resistia. Depois do jantar, encaminhava-se para a passagem que ligava o perímetro do aquartelamento ao kimbo, caminhava silenciosamente por entre a escuridão apenas diluída aqui e ali pela incandescência dos madeiros que, utilizados na preparação da comida, ardiam dia e noite e, sem hesitar, demonstrando conhecer bem o caminho, dirigia-se a uma certa cubata de onde só regressava algum tempo depois recolhendo à caserna onde a maioria dos demais já dormia o sono dos justos.
A partir de certa altura, alguém estranhou que tivesse abandonado as suas incursões nocturnas. Fartou-se, pensaram, já que não era suposto que tivesse sido enjeitado. Como ali era impossível manter segredo do que quer que fosse, cedo se percebeu o porquê do jejum: o ardor que começara a sentir agravou-se, a dor aumentou e o desconforto obrigou-o a recorrer à ajuda do enfermeiro. Parece que o seu estado já inspirava cuidados. Pelo menos foi necessária a intervenção do médico e isso era sinal mais do que evidente da gravidade dos sintomas.
O diagnóstico do Dr. Lacerda obrigou a um tratamento que incluía pomadas, antibióticos e, o pior de tudo, recomendações de abstinência sexual pelo menos enquanto durasse a infecção.
Contudo, Mais cedo do que se esperava, o homem foi visto a encaminhar-se de novo para o Kimbo, voltando as suas visitas nocturnas a terem a frequência do costume. E pelos vistos a mulher era a mesma. E como não se ouvira dizer que a senhora se tivesse apresentado ao médico para tratamento, só se podia concluir que continuava a ser portadora da tão temida maleita. O mais estranho de tudo aquilo é que todos sabiam quais as mulheres que, pelas mesmas razões, deviam ser evitadas e aquela estava incluída no grupo. Mas isso não parecia incomodar o soldado.
O facto é que, passado algum tempo, quando era notório que já não conseguia suportar a dor, recorreu de novo ao enfermeiro e mais uma vez, foi preciso a intervenção do Dr. Lacerda. O diagnóstico foi claro. Para além de nem sequer ter debelado a infecção anterior, aparecia agora com um caso de blenorragia grave a exigir medidas mais drásticas.
Pensa-se que seguiu à risca o tratamento imposto pelo médico e sabe-se que deixou de frequentar o kimbo. Ou pelo menos assim parecia. Mas não teria sido exactamente assim. O facto é que voltou a ter de enfrentar o médico que não gostou da desobediência. O estado do homem apresentava-se de uma gravidade tal que o Dr. Lacerda perdeu a compostura e, em tom de ameaça, sentenciou:
- Se te apanho aqui mais uma vez, nesse estado, dou-te uma porrada de todo o tamanho.
Creio que aprendeu a lição. Ou se assustou com o solene aviso do médico ou a gravidade do seu estado foi mais forte do que o vício. Pelo menos nunca mais ouvi dizer que tivesse voltado a recorrer às injecções de penicilina.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Notícias recentes do Rivungo

Na edição online de "O Jornal de Angola" foi publicada uma extensa notícia sobre o Rivungo, com data de 16 de Outubro (ontem). Refere o jornalista Lourenço Manuel:
O município do Rivungo está situado a 850 quilómetros da cidade de Menongue, a capital do Kuando-Kubango. É a última paragem antes do fim do mundo, tantas são as dificuldades de acesso. O isolamento cria dificuldades acrescidas às populações. Mas acaba de ser anunciado que foi adjudicada a empreitada de construção da estrada que liga a Mavinga. É uma página histórica na vida das populações da região, que devido ao isolamento secular foi chamada de “terras do fim do mundo”.
A circulação rodoviária entre a cidade de Menongue e Rivungo, passando por Mavinga, é quase impossível porque a estrada de areia atravessa uma floresta densa e fora dos trilhos podem estar minas.
Com uma população de 77.771 habitantes, distribuídos entre a sede do município, comuna de Chipundo, Luiana, Jamba e N’riquinha, o município do Rivungo desde tempos remotos que é uma zona de difícil acesso e segundo relatos de populares, foram as longas distâncias e o isolamento que levaram a chamar à província, “terras do fim do mundo”.
Chambinga, Lomba, Kúbia, Namoma, Vezi Vezi, Efo e Vukanga são “obstáculos” que ficam na rota de Menongue para o município de Rivungo. A viagem, mesmo com viaturas todo-o-terreno, leva dias, se tudo correr bem. Só para se ter uma ideia das dificuldades, uma viatura da Polícia de Guarda Fronteira está encalhada na zona do Efo há quase um ano.
A nossa reportagem foi ao Rivungo, mas o trajecto até Mavinga foi feito de avião. A partir daí, embarcámos em viaturas todo-o-terreno e com agasalhos reforçados porque à noite o frio é mesmo de rachar. A coluna avança com dificuldades pelos trilhos feitos na areia de uma estrada que nunca foi nada parecido com estrada. Os motoristas temem que se atravessem no caminho as manadas de elefantes que abundam nestas paragens.
A velocidade varia entre os dez e os 20 quilómetros por hora. A chuva caía sobre a picada e as viaturas enterravam-se. Mas fomos vencendo os obstáculos. Depois de 15 horas de viagem, a coluna chegou ao Rivungo, estava o sol a nascer. Apesar de ser ainda muito cedo, dezenas de pessoas vieram saudar-nos. É raro chegar gente de fora e todos querem saber o que se passa lá longe, na capital da província.


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