quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


Introdução à apresentação do livro “Capitães do Vento” numa tertúlia militar em Oeiras
Setembro de 2012
Este é um livro azedo. Um livro onde o autor (um miliciano) revela uma enorme dificuldade em compreender onde chegou a insanidade política, o auto-convencimento militar, o desespero e a teimosia cega que conduziu ao suportar de uma guerra a qualquer preço, fosse ele um preço financeiro, humano ou mesmo patriótico. A História veio provar que o preço era demasiado elevado, ou mesmo incomportável, a médio ou a longo prazo.

A minha história foi forjada num acto de desespero político e militar, rodeado de um enorme secretismo que se se suportou no crédito da inabalável capacidade do povo lusitano em adaptar-se às circunstâncias mais difíceis e adversas, por vezes desumanas até.
Não sei quantos povos do chamado ocidente teriam sido capazes de resistir às condições de aquartelamento, de alimentação, da dureza do clima e da própria génese da guerra em que se veio transformando o conflito colonial.
Contudo, a mim coube-me suportar um outro fardo a juntar a todos estes que aqui se enumeram.
A mim coube-me carregar a escuridão das ideias, a inconsciência dos actos e o desespero da premonição de um fim por demais anunciado, que nada tinha a ver com a Pátria que todos amamos e aprendemos a defender com arreganho e alma, de que nos dá conta a nossa História nos infindos exemplos de galhardia e verdadeiro amor pátrio a que fomos habituando os nossos inimigos no passado.
Acharam-me, não de ânimo leve, mas de ânimo nenhum, que os meses que podemos contar numa só mão seriam mais que suficientes para construir um guerreiro, quiçá um pequeno Viriato, agora oriundo do sul, que fosse capaz de conduzir as suas tropas com mestria e engenho num campo de batalha adverso e feito à medida e conhecimento do inimigo. Não sei se esperavam de mim que regressasse vitorioso, mesmo que as baixas pudessem tornar-se num vilipêndio de consciência de que dificilmente me recomporia para o resto da minha vida, deixando-me sem qualquer resposta sensata para dar aos familiares que porventura me questionassem pelos erros cometidos, mesmo que em nome da Pátria.
Em 8 de Junho de 1970, tinha 22 anos, decidiram fazer de mim um Comandante de Companhia. Assim, de repente, num sopro ou golpe de mágica com o qual contavam poder prolongar a agonia da guerra e os alicerces carcomidos do regime, que haveria de ranger simbolicamente numa cadeira tolhida pelo caruncho a 27 do mês seguinte no Forte da Barra.
Com 23 anos assumi o comando de cerca de 140 homens (depois de mais 30 GE’s locais) somando 170 militares.
Tinha 23 anos, mas ninguém terá reparado nisso. Consta que serei o capitão mais jovem de sempre do Exército Português. Uma circunstância que me espantou na altura, não apenas pela idade mas pela escolha de um provinciano despolitizado arrancado aos confins do último reduto sarraceno, assinalado pela tez macerada pelo sol inclemente e uma insubmissão rebelde permanente de que em tempo se haveria de queixar a hierarquia militar.
Mais tarde percebi que o elemento decisivo para a minha eleição era o “despolitizado”, que garantia alguma segurança no cumprimento da missão. A catadupa de testes a que me submeteram durante mais de 15 dias terão encontrado outros valores que poderiam prometer uma ou outra expectativa. Mas o alheamento político era certamente o elemento mais aliciante e seguro.
Não sei como me viram ao início os meus oficiais, sargentos e praças; um jovem da mesma condição que adoptou e obrigou uma companhia de civis ao cumprimento do estatuto militar, como se de um oficial de carreira se tratasse. Uma opção tomada em consciência que acabou por nos permitir representar a hierarquia militar naquilo que tem de essencial; ordem, respeito (que não deferência) e funcionalidade.
Desde sempre senti o incómodo da situação; quer para mim, quer para eles. Mas não havia nada a explicar nem a justificar; era uma opção, um conceito. Sem sentido para alguns, que se sentiriam mais confortáveis num eventual tu-cá tu-lá de civis metidos na mesma embrulhada, a que o tempo haveria de conduzir. Uma irmandade que naturalmente descambaria numa anarquia mesmo que saudável entre amigos, onde a fraternidade desobrigaria ao cumprimento de ordens a que a cadeia de comando se obriga. Uma responsabilidade que me cabia a mim imprimir num contexto naturalmente organizado por hierarquias de comando onde me encontrava inserido e obrigado a responder à cadeia superior.
Assumi que não seria fácil compreender e aceitar esta escolha.
Mas foi aí que aprendi a conhecer melhor os que com sagacidade e inteligência aceitaram sem questionar a hierarquia imposta e a representaram sem objecções. Os que compreenderam com argúcia que em qualquer clima de guerra é condição imprescindível a hierarquia de funções e responsabilidades; mesmo que estas não correspondam a um enquadramento real mas apenas funcional. Mesmo que se constituam num contrato a termo certo, que para mim terminou no dia em que me despedi de todos eles no aeroporto de Luanda.
Por outro lado, não sei se lhes fui capaz de transmitir alguma confiança ou segurança. Não sei o que esperavam de mim no auge da batalha. Mas o que menos descanso me dava era imaginar como iriam reagir ao ressoar de trovão das espingardas quando em uníssono cruzassem fogo com o inimigo.
Eu já o tinha experimentado nos Dembos. Conhecia a sensação da fímbria da morte. Eles tinham ficado por uma boa dúzia de tiros disparados na carreira de tiro, alguns deles tapando os ouvidos.
Tudo uma insanidade. Uma irresponsabilidade que, na hora incerta da tragédia, haveria de ter um dedo apontado à minha consciência, ignorando os meus 23 anos, e ilibando todos quantos me despejaram no campo de batalha esperando que me comportasse como um verdadeiro militar experimentado. Tudo fruto de quatro “longos” meses de estágio que caucionaram a minha responsabilidade de comandante de companhia, outrora atribuída a militares do Quadro Permanente sempre com mais de 30 anos de idade e cerca de 12 anos de experiência na função.
Um dia, ainda na instrução enquanto cadete, mas já com o processo de formação em andamento, captei por acaso uma troca de palavras entre dois oficiais do Q.P.. Importa esclarecer que o meu curso foi o primeiro do chamado C.C.C. (Curso de Comandantes de Companhia).
Dizia um deles: - “Não estou a ver que isto vá a algum lado; como é que os gajos se vão desenrascar a comandar homens, quando debaixo de fogo!?”.
Ao que o outro, seguro, respondia: - “… acho que não vai haver problema; quando as coisas aquecerem o instinto de conservação há-de fazer com que sobrevivam.”
Com que sobrevivam… articulei mentalmente e nunca mais me esqueci.
Era preciso sobreviver. De preferência sem que fosse pela via do instinto.
Nesse sentido tomei algumas decisões que contribuíssem para a minha sobrevivência e a de todos os que comandava. Decidi ali mesmo que não haveria de voltar a cara àquela luta; a da sobrevivência. Talvez a mais importante decisão se resuma ao princípio que sempre me norteou no mato. Se me quisessem apanhar teria que ser de frente; nunca pelas costas ou distraído. Foi uma autêntica obsessão.
Se resultou, não sei; mas sei que nunca fomos atacados no mato. Lembrar-se-ão muitos quanto exigente me tornava em operação. Lembrar-se-ão todos a forma como foram apanhados os treze GE’s, onde pereceram quatro dos nossos, entre eles o comandante Fulai Monjuto. Pelas costas e muitos deles praticamente desarmados.
Sempre procurei transmitir aos quatro alferes operacionais estes princípios por acreditar que seriam atitudes sensatas que nos ajudariam a regressar incólumes. Tenho a certeza que o terão tido sempre em mente contribuindo assim para a segurança de todos.
Esta é genericamente a minha história. Uma história que sempre considerei criminosa e muito mal suportada até hoje.
Todos os pormenores relato-os com minúcia neste livro. Talvez demasiada minúcia. Também porque não foi apenas a guerra das armas que me aconteceu. Nas Terras do Fim do Mundo uma outra guerra me viria a apanhar desprevenido; mas essa é uma outra história que fez com que tudo tenha valido a pena. Saímos de N’riquinha deixando o vazio da nossa presença. Mas ali deixámos o calor humano com que sempre tratámos aquela gente. “A nossa gente das Terras do Fim do Mundo…” como sempre lhes hei-de chamar.
Como canta o Vitorino nos cantares alentejanos; “Fui às sortes e safê-me…!”
Eu, nas “sortes” não me safei; aliás, nas sortes aprendi logo no primeiro dia algo que desconhecia por completo.
Transido do frio que fazia no majestoso, mas gélido, convento de Mafra – já lá ia mais de uma hora nuzinho que nem um ovo cozido descascado a fim de me avaliarem as mazelas – queixei-me meio amotinado a um graduado disso mesmo.
- “Meu Alferes. Estou gelado; isto ainda vai durar, ou é mesmo castigo…?”
A resposta foi célere e esclarecedora: “… O frio é civil, nosso cadete! Não incomoda militar…!”
Eu fui à guerra e safei-me…Porque comigo esteve gente que não esqueço. Gente que, compreendendo e aceitando ou não o que nos aconteceu, esteve à altura da gesta dos navegadores que nos antecederam 500 anos antes.
E foi por pouca sorte apenas que não voltámos todos, como o tinha prometido solenemente a mim mesmo na hora da partida.
P. Cabrita
Nota
A publicação deste texto fica a dever-se apenas a um imperativo de consciência que os tempos me sugeriram que fizesse. Nenhuma outra intenção me motivou.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

JOHN INGLÊS. O aprendiz de espião


A guerra naquele canto esquecido do fim-do-mundo dava sinais de estar adormecida. Pelo menos era o que nos parecia. Se havia informações sobre as manobras do inimigo, o mais certo era que apenas chegassem à cúpula do comando poupando as bases ao stress da eventual iminência de um ataque das forças turras, deixando-nos gozar o sossego que, aos poucos, nos foi fazendo esquecer que estávamos em guerra enquanto, aos poucos ia ficando no ar aquela falsa ilusão de paz que se arrastava ao sabor das inclemências do clima.
Antes assim. Confesso que nunca me passou pela cabeça achar que a monotonia chata e pastosa da nossa desinteressante missão devesse ser animada por umas quantas fogachadas que os nossos amigos do outro lado da barricada entendessem despejar sobre nós. Animação dessa é dispensável. Certamente que nós, os “sapos da Neriquinha” (como nos apelidava a radialista Maria Turra nas emissões radiofónicas clandestinas vindas do outro lado da fronteira) preferiamos mil vezes viver o vazio desgastante do dia-a-dia modorrento e sensaborão, do que ter de enfrentar os riscos da animação de qualquer atrevimento bélico do inimigo.
A verdade é que, na Neriquinha, as nossas guerras mais ferozes tinham mosquitos e percevejos como opositores o que não quer dizer que por ali se vivia em paz e harmonia com guerrilheiros que, verdade seja dita, nunca nos vieram visitar. Com o tempo aprendemos a conhecer o meio e com isso perceber as movimentações dos grupos que se sabia activos, até porque, sendo capitaneados pelo Kuenho, não seriam propriamente meninos de coro. Terem-nos deixado em paz ao longo do tempo que por ali andámos faria parte da sua estratégia, a qual teria como principal objectivo garantir que o campo ficava livre para as suas movimentações clandestinas entre a fronteira e a suas bases no interior remoto da Kirongosa.
Neriquinha estava situada perto da fronteira com a Zâmbia. Dali até às grandes chanas do Kuando não distariam mais de 20 Km e dizia-se que, por alturas do Chicove, existiam carreiros dissimulados pelos caniços que ajudavam os então nossos inimigos a esconder as canoas artesanais utilizadas para vencer o volumoso caudal do rio que ali estabelecia a linha divisória com a vizinha Zâmbia onde assentavam os seus apoios de retaguarda. Importava manter a discrição nas andanças de cá para lá e chatear a tropa que por ali andava, não seria propriamente a melhor forma de passarem despercebidos.
E ainda bem para nós que, em abono da verdade, não nos podemos queixar muito da guerra que nos calhou em sorte. As duas únicas vezes que a 3441 chegou perto dos grupos activos na zona, resumem-se à incursão ao esquadrão e à grande operação ao Tossi que resultou na morte de treze GE´s, entre eles o Fulay, no confronto com o grupo do Kuenho que se dizia ser seu meio irmão.
Como em qualquer guerra, as informações sobre as actividades inimigas eram importantes. E, sem que déssemos por isso, condicionavam a nossa vida. Era em função delas que os estrategas militares decidiam, desenhavam e montavam as operações que teríamos de executar no rigoroso cumprimento de instruções sigilosas, sitrep´s cifrados, e outros meios que chegavam ao comando da companhia vindas das cúpulas do quartel general ou do batalhão no Cuito Cuanavale. É claro que a inteligence militar não era coisa com que nos devêssemos preocupar; isso era tarefa da PIDE-DGS e outros espiões. Mas isso não quer dizer que fossem ignoradas as informações que chegassem vindas de candidatos a espiões. Contudo sendo matéria delicada e compreensivelmente reservada, é natural que apenas chegariam ao comando da companhia, trazidas por elementos da população ou pelos prestimosos GE’s, sem que tais informações se tornassem públicas. Em boa verdade eram assuntos que nos passavam ao lado e deles só vim a conhecer alguns pormenores, anos depois de terminada a guerra.
Havia contudo uma excepção: o John Inglês. Com residência no Samejuto e passando temporadas na Neriquinha, ganhou este pomposo nome por constar que conhecia algumas palavras de inglês, vocábulos dispersos que dizia ter aprendido no outro lado da fronteira, fruto dos contactos que, segundo ele, manteria com conhecidos seus em terras zambianas. O facto é que, falando ou não inglês, distinguia-se da restante população cuja maioria nem português falava.
Ainda que sem pormenores, sabia-se que o John Inglês trazia e levava informações. Não sei donde as trazia e para quem as levava mas o facto é que da fama de agente duplo não se livrava, já que ninguém acreditava na sua incondicional adesão à nossa causa. Acreditar nisso seria pura ingenuidade: nas suas propaladas idas e vindas ao território zambiano utilizaria obrigatoriamente os mesmos itinerários do inimigo e certamente que esses saberiam onde ele vivia e com quem falava.
Nunca me interessei em saber o que o atraía ao território zambiano, mas é provável que tivesse lá gente conhecida ou familiares distantes que gostava de visitar. Ou então, o seu espírito aventureiro impelia-o a fugir da pasmaceira da Neriquinha. O que é certo, é que tinha fama de se movimentar livremente pelos caminhos pantanosos e esconsos da fronteira o que explicava as suas prolongadas ausências.
Quando aparecia, insinuava-se junto do comandante da companhia, mercadejando informações sobre alegadas movimentações do inimigo. Era atrevido e desenvolto, sabendo-se que obtinha quase sempre uma modesta paga pelas novidades que fazia questão de classificar de exclusivas e cuja utilidade estratégica nunca cheguei a conhecer. O certo é que, com alguma arte e persuasão, vendia informações condimentadas com os pormenores que visavam conferir-lhe a necessária credibilidade.
Usufruiu assim, por algum tempo, de algumas mordomias, coisas insignificantes que lhe conferiam estatuto e a que dava importância. Em certas alturas, o simples facto de ser recebido pelo capitão já era recompensa suficiente. Mas, mais importante do que isso, estavam as recompensas materiais. Não falo de dinheiro que certamente não lhe interessaria muito e não creio que houvesse para lhe pagar, mas acredito em pagamentos em espécie. Por exemplo, não resistia a umas caixas de ração de combate. Aliás, tudo fazia para as receber, atrevendo-se até a alegar que delas precisava para se alimentar nas suas idas e vindas através da chana pantanosa que separava o território angolano da vizinha Zâmbia.
Mas um dia, um GE descobriu-lhe a careca. Quando se pensava que o John Inglês se encontrava por terras da Zâmbia no cumprimento de mais uma missão de espionagem, foi encontrado ali bem perto, no kimbo no Samejuto, em total relax, preguiçando na companhia das suas mulheres. Parece que, a seu lado, ainda eram visíveis os restos das rações de combate que recentemente recebera para mais uma grande viagem ao outro lado da fronteira. O John Inglês fora desmascarado.
Afinal parece que as suas informações eram pura invenção. Até pode ser que, de vez em quando, se deslocasse à Zâmbia, mas até isso perdeu credibilidade. Se sim, certamente que não seria com a frequência que publicitava. O facto é que ficou provado que as informações que trazia não passavam de invencionice o que, paradoxalmente, não deixa de constituir um elogio à sua esperteza.
Ainda hoje estou para saber se o fazia apenas para se insinuar junto da tropa e com isso obter alguns favores, ou se, afinal, era um aliado do inimigo que lhe venderia informações falsas para nos despistar. O facto é que, a partir daí, o homem desapareceu e nunca mais foi visto por aquelas paragens.


sábado, 1 de dezembro de 2012

AS DUAS REGINAS

Eram peculiares as mulheres da Neriquinha. E a sua relação com a tropa tinha os seus quês. À sua maneira, seguindo os seus próprios princípios e com os cuidados que as suas superstições e temores impunham, habituaram-se a conviver com tropas que mudavam a cada rendição. Quando começavam a conhecer melhor uns, eis que se iam embora e lá vinham outros, novinhos em folha. E tudo isto numa questão de meses. Normalmente um ano ou pouco mais. Connosco, a relação foi mais duradoura, quase dezanove meses. Penso que até então nenhuma companhia estivera ali tanto tempo como a 3441. E isso permitiu uma aproximação maior, pelo menos aprenderam a conhecer melhor muitos de nós.
- Furriel matchiririka. Atreviam-se a certa altura, quando consideravam que o furriel em questão era bonito ou simpático ou, mais provavelmente, generoso.
Como não podia deixar de ser, o inverso também tinha que se lhe dissesse. Mutatis mutandis, também da nossa parte houve necessidade de adaptação. Com as devidas cautelas, procurando não ferir susceptibilidades ou infringir regras tribais, fomos aprendendo a lidar com aquelas gentes. E com as mulheres os cuidados redobravam. Ao fim de muitos meses de convivência e à medida que em nós a imagem de mulher branca se ia desvanecendo, aquelas fêmeas andrajosas, inicialmente repelentes, fisicamente nada atraentes e nitidamente desprovidas de tudo o que até então se consideravam padrões mínimos de beleza feminina, passaram, num lento processo de habituação, a serem olhadas de outro modo, com cobiça, digamos, com olhos de comer.
Tinham hábitos estranhos; diria mesmo, desconcertantes. Mas até a esses nos fomos moldando. Por exemplo, Já se achava natural que a adolescente, quando atingia a idade dos doze ou treze anos – não me lembro bem – fosse submetida a um ritual absolutamente estranho de transformar crianças em mulheres adolescentes. Em ambiente festivo, abrilhantado com danças tribais e cânticos guturais ao som rítmico, monocórdico e repetitivo do batuque, uma estranha cerimónia tinha o seu clímax numa espécie de intimidade a que só assistiam as mulheres mais velhas. Eram estas que conduziam toda aquela espécie de via-sacra da mulher adolescente. Utilizando um qualquer processo cujos pormenores nunca cheguei a conhecer, as anciãs desvirginavam a donzela que assim, sem qualquer prazer e certamente aterrorizada, ficava, segundo a tradição, pronta a acasalar - perdia o cabaço como por ali se dizia. E como se isso não bastasse, a criança que assim, de repente, era transformada em mulher, passava obrigatoriamente a usar os paramentos que atestavam a sua novel condição: colares de missangas multicolores artisticamente entrançados no seu tronco nu e um estranho mas ao mesmo tempo artístico penteado meticulosamente preparado com bosta de vaca fresca. Andava assim por largo tempo, ganhando a bosta uma tonalidade escura e luzidia que, por mais estranho que pareça, era agradável à vista, mas apenas quando olhada de longe.
Durante esse tempo a mulher era intocável; a tradição e os costumes assim o impunham. Contudo, ainda que assim não fosse, o método utilizado pelas anciãs certamente tornaria dolorosa qualquer investida. E se isso não bastasse, o cenário repugnante e o fedor a bosta, associado à óbvia falta de higiene, para além de atrair bandos de moscas, seria seguramente razão mais do que suficiente para refrear quaisquer ímpetos, mesmo que vindos dos homens daquela população, certamente mais habituados a perfumes tão exóticos.
Vistas as coisas, todas aquelas mulheres, despidas de beleza e parcas em atractivos, foram sendo catalogadas: as mais jeitosas, já que chamar-lhes bonitas era exagero; as mais oferecidas ou, se se quiser, mais disponíveis; as que consensualmente eram consideradas intocáveis, ou por serem demasiadamente feias ou porque eram propriedade de algum GE. Finalmente as duas Reginas cujo estatuto de intocáveis não passava disso - estatuto apenas.

Uma delas, a Regina Preta, era assim chamada por razões que não conheço, já que, no que respeita à cor da pele, era tão preta como as demais, a outra, era a Regina Branca, mas isso era só de nome já que de branco não tinha nada. Era tão preta como a outra e nada as distinguia a não ser o aspecto físico. A Regina Branca, aparentando ser mais nova, era mais jeitosa. Ou, se se preferir, menos desengonçada; não tinha aquele ar pesado de marafona da Regina Preta. E isso contribuía para que fosse mais cobiçada.
A Regina Preta gozava do previlégio de ser exclusiva do furriel das transmissões que não se coibia de cuidar do seu exclusivo. A Regina Branca, obviamente mais jeitosa, não se livrava da fama de ser a favorita do Capitão.
Fosse como fosse, era óbvio o relacionamente entre as mulheres do Kimbo e tropas carentes de afetos. Se se tiver em conta que a natalidade era coisa vulgar por aqueles lados - os muitos putos que cirandavam pelo kimbo eram disso prova evidente - não é estranhar que alguns seriam naturalmente descendentes dos tropas que por ali foram passando durante o tempo que durou a guerra. Um deles era demasiado óbvio. O loirito do Kimbo da Neriquinha era o puto mais fotografado entre os demais. O seu cabelo liso, incontestavelmente louro, constituía um sinal evidente de que, entre os elementos das companhias que nos antecederam, teria havido pelo menos um militar de cabelo louro que, provavelmente sem que viesse a saber disso, ali deixou descendência.
A história é farta em exemplos  que confirmam que, afinal, isso era uma realidade comum a todas as guerras. As nossas guerras, as guerras da Neriquinha, não são excepção. A fotografia do Morais deixa para a posteridade a prova de que a Regininha Preta é filha da 3441.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Reconstrução de aeródromos no Cuando Cubango

Segundo a ANGONOTÍCIAS em despacho de 05 de novembro passado, o Governador Higino Carneiro (Menongue) anunciou a intenção de reconstruir cinco aeródromos do tempo colonial, entre os quais o do nosso conhecido Rivungo. Lendo a notícia, descobri que o aeroporto de Menongue (ex-Serpa Pinto), tem o nome de Comandante Kwenha.
Será o mesmo Kwenho que nós conhecemos como meio irmão do Fulay Monjuto e que seria o lider do grupo, na altura inimigo, que foi responsável pela chacina (ver aqui) a que se faz referência neste blog e na qual o Fulay perdeu a vida?

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O ESCAREPE

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O cumprimento do serviço militar num local tão afastado do mundo civilizado como é o caso da Neriquinha, exigia vocação de explorador, mas daqueles que se sentem atraídos por locais ermos. Ora, isso era exactamente uma característica que, na 3441, ninguém possuía. Nem era preciso. À chegada a África, não fazíamos a mínima ideia do nosso destino e como também todo aquele imenso território nos era totalmente desconhecido, tornava-se, de alguma forma, indiferente o local que nos estava destinado. Desde que não fosse para um daqueles com fama de perigosos onde, segundo se dizia, o inimigo se mostrava mais afoito, tudo o mais era igual, especialmente porque ninguém era capaz de imaginar que pudéssemos ser largados no meio de coisa nenhuma. O facto é que, pelo menos até chegar à pequena cidade do Luso, não imaginava que nos pudesse cair em sorte um lugar que bem podia ser classificado como impróprio para ser habitado por seres humanos. A juntar a tudo isto, a certeza de que não valia a pena pensar nisso. Na tropa, pelo menos naquela altura, íamos para onde nos levassem, era imperativo e não havia como reclamar.
Quando desembarquei em Luanda e a partir daí levado através daquele imenso território, naquela interminável viagem, até aos confins das terras do fim do mundo, fui interiorizando a desagradável certeza de que me estavam a afastar de tudo aquilo que, até então, fazia parte da minha vida, ao mesmo tempo que um estranho vazio se ia instalando à mistura com o turbilhão avassalador da radical mudança. O meu mundo fugia, ficava cada vez mais distante, inacessível e eu, impotente, dominado por uma anestesiante letargia, nada podia fazer para evitar aquela espécie de evanescência. Esse semi-estado de inconsciência à mistura com o permanente temor do desconhecido e as campainhas que o instinto de sobrevivência fazia soar dentro da minha cabeça exigindo para si o exclusivo dos meus cinco sentidos, compunham uma amálgama de preocupações, qual barreira psicológica que impedia a percepção exacta da realidade que me esperava. Desde que saíra de Luanda, tudo se foi desvanecendo, desaparecendo como num passe de mágica sem que disso me desse conta.
Desde logo, mulher branca foi ser que se deixou de ver. Tirando Luanda, apenas me lembro de avistar, assim de soslaio e de fugida, umas quantas que connosco se cruzaram, por mero acidente, frente à estação de comboios de Nova Lisboa, enquanto se aguardava o início daquela longa viagem, através do caminho-de-ferro de Benguela, que nos levaria até ao Luso, derradeira fronteira entre a civilização e o desterro remoto da Neriquinha. Convém esclarecer que, tanto quanto me recordo, isso não me preocupou muito, pelo menos naquela altura. Não sabendo nada sobre o nosso local de destino, não era possível antever que ali não havia mulheres brancas. Na verdade, não havia mesmo coisa nenhuma, embora disso nem me tivesse apercebido quando o Nord Atlas nos largou na pista empoeirada daquele fim de mundo. Só decorrido algum tempo, quando a saudade começou a imiscuir-se no bem-estar emocional, cada um se foi dando conta que ali, para além de não haver nada, também não havia mulheres. Pelo menos daquelas a que estávamos habituados. Sim, porque as mulheres ganguelas, a maioria autóctone que habita aquela região, para além de não deverem nada à beleza, também não possuíam quaisquer atributos dignos desse nome.
Mas isso foi no princípio. Com o passar do tempo, até mesmo os mais exigentes começaram a encontrar atractivos naqueles corpos andrajosos, sujos e mal cheirosos. E como ascetismo ou misoginia eram conceitos que ali não se aplicavam, a certa altura, qualquer mulher que não tivesse a pele enrugada e as mamas semelhantes a um bacalhau seco e enegrecido, era considerada uma beleza e isso era meio caminho andado para passar a ser cobiçada. Ao fim de algum tempo, todas estavam catalogadas, era inevitável, uma espécie de processo biológico a que era impossível fugir.
E os hábitos sexuais daquelas gentes também contribuíam para que as coisas se compusessem. Não se pode falar exactamente em comportamentos menos dignos ou em mulheres disponíveis, daquelas que vendem o corpo, como se encontra em qualquer lugar do mundo. Quer dizer, haver, havia, mas era diferente, digamos que, no seio daquela população, o sexo era coisa aceite como natural, se bem que nem todas as mulheres se disponibilizassem a isso. Os tabus eram poucos ou nenhuns e era fácil conseguir o exclusivo de um kafeco; desde que, claro está, não tivesse dono ou fosse demasiado nova. Bastava pagar o alambamento exigido - uma importância simbólica - e tudo ficava legalizado. O nosso homem das transmissões obteve o exclusivo da Regina Preta se bem que uns quantos se afanassem à procura das suas distracções para debicar na sua exclusividade. Mas de uma forma ou de outra, em troca de um agrado insignificante, qualquer um podia dispor dos favores sexuais que entendesse, sem alaridos, pressões e dispensando o uso das artes da sedução. Bastava combinar a hora, munir-se dos cuidados necessários, aventurar-se à noite por entre as cubatas do kimbo e a coisa compunha-se. A sessão de ginga ginga – termo ganguela que definia o acto – apenas durava o tempo estritamente necessário. Acabada a função, urgia fugir dali, meter-se debaixo do duche para se livrar do cheiro incomodativo e precaver qualquer maleita que dai pudesse resultar. E esse era um procedimento relativamente ao qual todos estavam convenientemente informados.
Pois é. Não há bela sem senão. Tanta facilidade tinha os seus inconvenientes. As doenças venéreas eram vulgares no meio daquela gente. A pouca higiene, o desconhecimento das consequências maléficas que daí podiam advir e a mudança frequente de parceiro, contribuíam para que, pelo menos as mais solicitadas ou mais oferecidas, constituíssem perigo de contágio para quem, descuidadamente, com elas se aventurasse a um fugaz momento de intimidade amorosa. E eram muitos os que não resistiam: uns porque mais carentes, outros por necessidade de demonstrar as suas capacidades de engate, alguns mais tímidos ou inexperientes desinibiam-se e aproveitavam o facilitismo da coisa e outros ainda porque sim, todos (ou quase todos) iam usufruindo de uns mal-amanhados favores sexuais de mulheres pouco dadas ao romance e à sedução.
Ainda assim, não era frequente ouvir-se falar de casos graves de contágio. Apenas um ou outro, queixando-se de um ardor, uma intumescência, ou simples vermelhidão, acudia à enfermaria que, bem fornecida de medicamentos adequados, ia resolvendo os problemas sem consequências de maior. O facto é que, se todos seguissem as recomendações repetidas à saciedade pelo nosso escasso corpo clínico, não havia que temer. Bastava uma simples precaução: passar com antecedência pela enfermaria que disponibilizava pomadas e unguentos para o efeito. Era só seguir as instruções que tudo correria bem.
Bem, mas havia um soldado, creio que do terceiro pelotão, que não encaixava em tudo isto. Não sei se quando ali chegou ainda era virgem, ou se as suas carências sexuais passaram a ditar o seu comportamento. A verdade é que a frequência com que frequentava o kimbo, à noite, parecia exagerada e não era certamente por competência da mulher que procurava. Não é crível que fosse por isso. Simplesmente ganhou o vício e não resistia. Depois do jantar, encaminhava-se para a passagem que ligava o perímetro do aquartelamento ao kimbo, caminhava silenciosamente por entre a escuridão apenas diluída aqui e ali pela incandescência dos madeiros que, utilizados na preparação da comida, ardiam dia e noite e, sem hesitar, demonstrando conhecer bem o caminho, dirigia-se a uma certa cubata de onde só regressava algum tempo depois recolhendo à caserna onde a maioria dos demais já dormia o sono dos justos.
A partir de certa altura, alguém estranhou que tivesse abandonado as suas incursões nocturnas. Fartou-se, pensaram, já que não era suposto que tivesse sido enjeitado. Como ali era impossível manter segredo do que quer que fosse, cedo se percebeu o porquê do jejum: o ardor que começara a sentir agravou-se, a dor aumentou e o desconforto obrigou-o a recorrer à ajuda do enfermeiro. Parece que o seu estado já inspirava cuidados. Pelo menos foi necessária a intervenção do médico e isso era sinal mais do que evidente da gravidade dos sintomas.
O diagnóstico do Dr. Lacerda obrigou a um tratamento que incluía pomadas, antibióticos e, o pior de tudo, recomendações de abstinência sexual pelo menos enquanto durasse a infecção.
Contudo, Mais cedo do que se esperava, o homem foi visto a encaminhar-se de novo para o Kimbo, voltando as suas visitas nocturnas a terem a frequência do costume. E pelos vistos a mulher era a mesma. E como não se ouvira dizer que a senhora se tivesse apresentado ao médico para tratamento, só se podia concluir que continuava a ser portadora da tão temida maleita. O mais estranho de tudo aquilo é que todos sabiam quais as mulheres que, pelas mesmas razões, deviam ser evitadas e aquela estava incluída no grupo. Mas isso não parecia incomodar o soldado.
O facto é que, passado algum tempo, quando era notório que já não conseguia suportar a dor, recorreu de novo ao enfermeiro e mais uma vez, foi preciso a intervenção do Dr. Lacerda. O diagnóstico foi claro. Para além de nem sequer ter debelado a infecção anterior, aparecia agora com um caso de blenorragia grave a exigir medidas mais drásticas.
Pensa-se que seguiu à risca o tratamento imposto pelo médico e sabe-se que deixou de frequentar o kimbo. Ou pelo menos assim parecia. Mas não teria sido exactamente assim. O facto é que voltou a ter de enfrentar o médico que não gostou da desobediência. O estado do homem apresentava-se de uma gravidade tal que o Dr. Lacerda perdeu a compostura e, em tom de ameaça, sentenciou:
- Se te apanho aqui mais uma vez, nesse estado, dou-te uma porrada de todo o tamanho.
Creio que aprendeu a lição. Ou se assustou com o solene aviso do médico ou a gravidade do seu estado foi mais forte do que o vício. Pelo menos nunca mais ouvi dizer que tivesse voltado a recorrer às injecções de penicilina.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Notícias recentes do Rivungo

Na edição online de "O Jornal de Angola" foi publicada uma extensa notícia sobre o Rivungo, com data de 16 de Outubro (ontem). Refere o jornalista Lourenço Manuel:
O município do Rivungo está situado a 850 quilómetros da cidade de Menongue, a capital do Kuando-Kubango. É a última paragem antes do fim do mundo, tantas são as dificuldades de acesso. O isolamento cria dificuldades acrescidas às populações. Mas acaba de ser anunciado que foi adjudicada a empreitada de construção da estrada que liga a Mavinga. É uma página histórica na vida das populações da região, que devido ao isolamento secular foi chamada de “terras do fim do mundo”.
A circulação rodoviária entre a cidade de Menongue e Rivungo, passando por Mavinga, é quase impossível porque a estrada de areia atravessa uma floresta densa e fora dos trilhos podem estar minas.
Com uma população de 77.771 habitantes, distribuídos entre a sede do município, comuna de Chipundo, Luiana, Jamba e N’riquinha, o município do Rivungo desde tempos remotos que é uma zona de difícil acesso e segundo relatos de populares, foram as longas distâncias e o isolamento que levaram a chamar à província, “terras do fim do mundo”.
Chambinga, Lomba, Kúbia, Namoma, Vezi Vezi, Efo e Vukanga são “obstáculos” que ficam na rota de Menongue para o município de Rivungo. A viagem, mesmo com viaturas todo-o-terreno, leva dias, se tudo correr bem. Só para se ter uma ideia das dificuldades, uma viatura da Polícia de Guarda Fronteira está encalhada na zona do Efo há quase um ano.
A nossa reportagem foi ao Rivungo, mas o trajecto até Mavinga foi feito de avião. A partir daí, embarcámos em viaturas todo-o-terreno e com agasalhos reforçados porque à noite o frio é mesmo de rachar. A coluna avança com dificuldades pelos trilhos feitos na areia de uma estrada que nunca foi nada parecido com estrada. Os motoristas temem que se atravessem no caminho as manadas de elefantes que abundam nestas paragens.
A velocidade varia entre os dez e os 20 quilómetros por hora. A chuva caía sobre a picada e as viaturas enterravam-se. Mas fomos vencendo os obstáculos. Depois de 15 horas de viagem, a coluna chegou ao Rivungo, estava o sol a nascer. Apesar de ser ainda muito cedo, dezenas de pessoas vieram saudar-nos. É raro chegar gente de fora e todos querem saber o que se passa lá longe, na capital da província.


Para continuar a leitura siga este link ou recue quarenta anos no tempo lendo as diversas histórias publicadas neste blog que têm o Rivungo como cenário.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A Cantina do Sr. Costa

Já há muito que aquela desconhecida terra deixara de nos parecer estranha. Habituáramo-nos a viver ali. Não foi nem fácil, nem difícil; tinha de ser, não havia outra solução e quando algo tem um caracter tão definitivo, o melhor que há a fazer é procurar tirar proveito de tudo o que possa contribuir para que o nosso dia-a-dia pareça o menos miserável possível. Desde logo, vivendo um dia de cada vez, não pensando muito no amanhã e mantendo a confiança de que, um dia, outros nos viriam render. Até lá, não valia a pena pensar no assunto.
Aos poucos, porque a tarefa não era fácil e a vontade não era muita, aquelas matas foram-se tornando familiares e, mesmo que isso possa parecer estranho, assumimos que o inverso também era verdade. Rapidamente se percebeu que só tínhamos a ganhar em conhecer o meio, que era mais seguro, mais reconfortante e incomensuravelmente mais prático saber o que vinha a seguir a cada curva da picada, que nos facilitava a vida e reduzia a canseira saber o que pisar e onde pôr os pés e que distinguir uma chana transitável de um terrível lodaçal poupava-nos aos desgastantes trabalhos necessários ao desatascanço das viaturas atoladas.
O facto é que, ao ritmo lento do arrastar dos dias, ora massacrados em permanência por um sol inclemente ora fustigados por chuvas diluvianas, fomos aprendendo a conhecer aquelas paragens ao ponto de nos serem familiares. Conhecia-se a maior parte dos itinerários, sabíamos de cor o percurso da picada para o Rivungo, o melhor trajecto para chegar à Neriquinha Velha e que a chana do Chicove era o local mais perto e acessível onde se poderia encontrar caça. Identificava-se à distância qualquer animal apenas pela pose ou porte, sabíamos que a carne do guelengue era intragável e que a da gunga era deliciosa, já experimentáramos o sabor dos exóticos e estranhos frutos que se encontravam pela mata, descobriu-se que uns eram mais ácidos mas excelentes para matar a sede e outros mais doces e com elevado poder alimentício e já ninguém resistia a saborear a polpa macia do maboque, sempre que uma dessas estranhas árvores carregadinhas de frutos amarelos nos aparecesse pela frente.
Enfim todo aquele saber de experiência feito que integra a escola da vida, agora apenas necessário para tornar menos penoso o tempo que teríamos de ali passar. A verdade é que, passados meses a calcorrear aquela terra de ninguém, já tudo nos parecia natural. Suportava-se a agressividade do sol, as chuvas intensas incomodavam cada vez menos e já não se dava pelo facto de fazer calor quando chovia e de se gelar à noite quando tudo secava e o cacimbo invadia as matas.
A verdade é que, sem darmos por isso, uns mais do que outros, nos fomos adaptando a novas vivências, nuns casos mudando radicalmente hábitos, comportamentos e rotinas e, noutros, procurando modificar aquele desprovido mundo na vã tentativa de o aproximar tanto quanto possível dos confortos da civilização que, deixada para trás, nos parecia cada vez mais distante, longínqua e difusa.
O facto é que nos fomos acomodando ao nosso despojado canto, dando valor ao pouco conforto que propiciava e confiando na precária segurança da frágil cerca de arame farpado que nos separava da agreste e interminável mata que nos rodeava; um telhado, quatro paredes, a pequena cama, um par de lençóis, o calor humano, a protecção da rede mosquiteira, tudo contribuía para conferir uma ilusória porém reconfortante sensação de intimidade que caracteriza o nosso meio.
Contudo, toda esta adaptação foi anestesiando os nossos sentimentos e sem que se desse conta, todos se foram acomodando, num processo de tolerância ao despojamento, relegando para os patamares mais profundos da memória todas as mordomias da civilização a que cada um se habituara. Era um processo de aculturação imposto pela necessidade de minimizar a ausência de tudo, ancorado na rendição à óbvia falta de opção: simplesmente era preciso viver com o que se tinha fazendo por esquecer tudo que não se podia ter.
De entre as coisas de que me lembro ter tido de abdicar, contam-se os pequenos prazeres da gula disponíveis em qualquer pequeno lugarejo: um pastelinho de nata e um simples e corriqueiro queque são algumas das banalidades que ali se transformaram em coisas de ficção. A lembrança de um prego mal passado, com mostarda a gosto, acompanhado por um copo de cerveja bem tirada ao balcão da Portugália, fazia crescer água na boca ao ponto de elevar o petisco à categoria da coisa mais apetecida. É verdade, ali não havia nem restaurantes, nem cervejarias, nem mesmo uma tasca ou simples taberna. Nada mesmo. Apenas se podia contar com a comida do rancho, cuja qualidade era fortemente condicionada pelo que havia, rateada pelo magro orçamento de que o vagomestre dispunha; quem não gostasse, passava fome.
O facto é que vivíamos no meio do mato e a distância da localidade decente mais próxima media-se em semanas de viagem, pelo que, pensar em restaurantes ou algo comparável, mesmo que não fosse digno desse nome, estava fora de questão.
Até que, vindo dos lados de Mavinga, trazida nos ventos do MVL, chegou à Neriquinha a notícia de um lugar que parecia preencher essa lacuna. A Cantina do Senhor Costa era um local que ganhara a fama de servir a melhor omeleta de chouriço do leste de Angola. Faziam-na com ovos de avestruz e dizia-se que um só ovo era capaz de saciar a fome a meia dúzia de tropas esfaimados.
Mas o nosso problema subsistia. Mavinga fica a oeste da Neriquinha, mais ou menos à mesma distância do Rivungo mas em sentido oposto, para o outro lado. Sabia-se que o caminho era mais a direito e menos demorado a percorrer mas, ainda assim, dependendo da época do ano, seriam sempre necessárias cinco ou seis horas para ir e outras tantas para regressar e o pior é que, sendo Mavinga enquadrada por uma companhia independente, nada justificava o nosso intrometimento na sua zona de intervenção. Não! Ir a Mavinga, só para comer uma omeleta de ovos de avestruz, mesmo que o chouriço fosse de primeira qualidade, estava fora de questão. Não compensava e nunca se obteria autorização para tal. Ou seja, para o efeito era como se não existisse.
Mas um dia, por qualquer razão que não retenho, foi necessário ir a Mavinga e eu fui incluído no pequeno grupo destacado para a missão e creio que também o Gabriel. Saímos, como de costume a meio da noite, tomando a direcção oposta à habitual. A berliet percorreu a pista até ao fim, por algum tempo rolou pela chana seca até esta se sumir na mata onde penetrou seguindo os sulcos areentos da picada sinuosa igual a todas as que se conheciam. Era já dia claro quando desembocámos na chana verdejante do Rio Cúbia.
Dali a Mavinga não havia que enganar. Bastou seguir o trilho que serpenteava ao longo do curso sinuoso do Rio até que a silhueta difusa do parco casario de Mavinga começou a insinuar-se ao longe. Mavinga era uma povoação um pouco maior que o Rivungo e totalmente diferente da Neriquinha. Ficava localizada nas imediações do Rio Cúbia que, nascendo em pontos indefinidos da mata da Quirongosa a pouco menos de cinquenta quilómetros para o interior, apresentava, ao longo de todo o seu curso, um fraco e irregular caudal, mas suficiente para conferir ao local um ambiente aprazível, pelo menos quando comparado com a desolação da Neriquinha. Tinha um administrador, algum comércio uma população civil constituída por três ou quatro famílias e um kimbo albergando uma população autóctone em número significativamente maior. Naquele local sempre vivera gente, ao passo que na Neriquinha apenas as instalações militares transformaram o local em refúgio da população pelo tempo que durou a guerra. Acabada esta, o povo que ali se albergara procurou outras paragens e a estrutura transformou-se em ruinas.
A Cantina do Senhor Costa ficava logo à entrada, do lado direito, local que me pareceu um convite ao viajante esfomeado vindo da terra de ninguém. Não parámos. Como ainda era cedo decidiu-se que o melhor era despachar o assunto que nos levara ali, aproveitando-se o ensejo para um natural convívio com alguns militares da companhia ali aquartelada, cujas instalações, muito semelhantes às nossas, ocupavam um costumeiro quadrado delimitado por uma cerca de arame farpado no outro lado da povoação.
Cumprida a missão, dirigimo-nos, sem mais delongas, para a Cantina do Sr. Costa. O secreto e inexplicável desejo de me sentar à mesa de um restaurante despertou em mim alguma impaciência. Por muito que me esforce não consigo recordar-me do espaço e menos ainda do que comi. Provavelmente provei a tão propagandeada omeleta e terei matado saudades de um bom bife com batatas fritas. A verdade é que não me recordo. Mas retenho de memória o prazer que senti ao sentar-me numa mesa que parecia de um restaurante, mesmo que aquele não se assemelhasse a coisa digna desse nome. Para quem há tanto tempo apenas dispunha do rancho servido num refeitório militar, aquele bocado de dia passado no estabelecimento do Sr. Costa, constituiu um luxo que aproveitei ao máximo juntamente com os companheiros de viagem.
Sem nostalgias ou satisfações excessivas, vi-me de novo nas chanas do Cúbia de volta à Neriquinha, deixando para trás aquele efémero devaneio. Seguia agora em sentido contrário ao da civilização fugazmente recordada, retornando ao nosso remoto e provisório cantinho lá no interior esquecido da savana. Quanto a Mavinga, só por lá passei mais uma e derradeira vez: desta feita apenas de passagem quando, finda a comissão, abandonámos em definitivo as areias das terras-do-fim-do-mundo a caminho de um lugar mais aprazível.

sábado, 1 de setembro de 2012

MARABUNTA

É frequente ouvirem-se referências a África que reflectem fobias por bichos. Não exactamente os de grande porte que constituem a sua rica fauna, mas aqueles, os muito pequeninos que se movimentam pelos cantos mais impensáveis, sejam eles rastejantes, voadores ou aquáticos.
Tive oportunidade de confirmar que a savana do sueste angolano é rica em insectos e outros bichos, muitos dos quais eu nunca antes havia visto. E todos eram especiais, próprios daquelas matas. Mesmo os que pensávamos já conhecer eram diferentes, fosse pelo tamanho, ou pelas suas peculiaridades, comportamentos e características. Por exemplo, gafanhotos são gafanhotos em qualquer parte do mundo, não obstante possam apresentar-se sob múltiplos aspectos. Os que por ali esvoaçavam pareciam-me sempre diferentes; no mínimo mais coloridos. As moscas, para além de existirem aos milhões, variavam em tamanho cor e feitio, desde as muito grandes e multicolores até às mais pequeninas e cinzentas. Surgiam do nada, zumbiam como satélites à volta da cabeça e entravam pelo nariz e boca, sugadas pelo simples respirar. A verdade é que infestavam as matas tornando-se especialmente irritantes no auge da canícula, exactamente quando os pulmões, carenciados de ar pelo efeito do calor e do esforço, mais sofregamente bombeavam o oxigénio necessário.
Depois eram os mosquitos, muitos. Parecendo todos iguais, eram diferentes, congregando várias estirpes que nos infernizavam a vida com as suas ferroadas. Proliferam e multiplicam-se nos lodaçais das inúmeras chanas pantanosas que caracterizam a savana do Cuando Cubango e, mal caía o lusco-fusco, levantavam-se em bandos, zunindo à nossa volta à cata de sangue quente e nem as roupas os detinham. Nas matas, trespassavam a dureza do camuflado e na caserna havia sempre um ou outro que conseguia furar a protecção da rede mosquiteira. E acreditem que bastava um para nos lixar a noite.
Depois vinham as espécies rastejantes, onde se contavam as mais exóticas centopeias, escaravelhos multicolores e outros bicharocos estranhos que se passeavam por entre a roupa, mal nos estendêssemos pelo chão procurando recobrar as forças consumidas em caminhadas sobre as areias quentes e soltas que caracterizam o solo de tão inóspitas paragens. Certa noite, enquanto dormia, algures num ponto qualquer da mata, uma dessas criaturas, certamente peçonhenta, entrou-me no ouvido. Inconscientemente devo ter-me coçado. O facto é que, no dia seguinte, uma estranha dor não me largava. A visita que fiz ao enfermeiro, após o regresso ao conforto da Neriquinha, permitiu descobrir uma infecção extensa. Ainda hoje não sei exactamente que bicho me picou, mas lembro-me perfeitamente do estrago que causou e das dores que tive de aguentar enquanto o Pinto, o furriel enfermeiro, procedia a uma desinfecção meticulosa, escarafunchando o ouvido até ter a certeza que tudo ficara desinfectado, tratado e limpo.
Havia ainda as sanguessugas que se escondiam em qualquer lugar onde corresse água, coisa que por ali não faltava, as carraças que se desprendiam do gado, os percevejos, as pulgas, a matacanha, pequenas larvas que, dizem, se infiltravam sob a derme e toda uma variedade de ácaros, opiliões e outros seres estranhos que provocavam micoses, irritações, comichões e alergias várias. Enfim, seres impróprios para coabitarem com o ser humano.
Falta ainda falar das formigas. E por ali havia muitas e para todos os gostos. Algumas estranhas, na sua maior parte inofensivas, mas outras não. Havia-as pequeninas como todas as que conhecemos, outras um pouco maiores e ainda as grandalhonas, cada uma calcorreando afanosamente os carreiros que conduziam ao seu mundo escondido algures nas entranhas da terra ou no interior de um qualquer tronco caído. Por exemplo, a salalé, formiga alada de tamanho significativo era, no meu entender, um bicho espantoso. Construía morros cónicos de dimensão considerável, cuja altura chegava a ultrapassar dois metros, autênticas fortalezas capazes de resistir a todas as intempéries ou ataques; derrubar um morro de séléle, implicava o uso de picareta e um tiro de G3, mesmo que a pouca distância, não o conseguia trespassar.
Por sorte, eram todas inofensivas. Bem, todas, excepto umas vermelhinhas cuja enorme cabeça, agarrada a um abdómen visivelmente menor, lhes conferia um aspecto caricato e ameaçador. Não recordo o nome por que eram conhecidas mas, sempre que as via, lembrava-me da marabunta que deu nome ao filme de Byron Haskin no qual Charleton Heston lutava contra hordas de formigas assassinas.
Certa vez, ali para os lados da Neriquinha Velha, tive oportunidade de verificar a ferocidade destes pequenos seres. Caminhávamos ao longo de uma extensa chana no cumprimento de mais uma das várias operações em que participei. O calor era, digamos, suportável mas, ainda assim, acima dos trinta graus o que, conjugado com o elevado grau da humidade do ar, fazia com que o céu parecesse pesar sobre os ombros, tornando ainda mais penoso o caminhar. Não retenho exactamente qual era o objectivo da acção, mas suponho que, como tantas outras, se destinava a percorrer determinado itinerário numa qualquer missão de patrulhamento. Iniciáramos a caminhada bem cedo palmilhando chanas e matas durante toda a manhã. No momento, seguíamos pela chana evitando o terreno areento da mata onde as botas se enterravam dificultando a marcha e exigindo o redobrar do esforço. Ainda assim, todo o grupo já estava de rastos, exausto, com os músculos dormentes e já descoordenados a obrigarem a uma paragem.
Deixámo-nos cair por ali, cada um no local onde se encontrava, aproveitando a fresquidão da erva verde e da refrescante humidade da chana que, no momento, talvez porque o céu estivesse encoberto, nos pareceu mais agradável do que a sombra das árvores próximas. Retiraram-se dos sacos as latas da ração de combate que se foram abrindo ao som do surdo tilintar das facas de mato cortando o metal e, sem pressa, o petisco sensaborão foi sendo mastigado juntamente com as côdeas do pão duro, cozido na véspera e já esborrachado pelo peso de tudo o que cada um enfiara no saco.
As latas vazias, cheirando a molho ou untadas de óleo, foram sendo depositadas em pequenos montículos, já que a regra impunha que fossem enterradas de modo a não ficarem visíveis sinais da nossa passagem. Mas isso ficaria para quando se iniciasse a marcha, coisa que não levaria mais do que um ou dois minutos já que que o terreno de areia solta tornava a tarefa fácil. Por enquanto, com o estômago composto, preguiçávamos jacentes sobre as ervas, alguns dormitando num quase inútil exercício de preparar o corpo para a inevitável e extenuante caminhada que duraria até ao anoitecer.
A princípio, ninguém deu importância, mas o facto é que se avistou uma das tais temíveis formigas e logo a seguir outra e mais outra. Era bicho que já se conhecia e a cor vermelha associada ao tamanho da cabeça dissipava qualquer dúvida que pudesse existir. E isso significava manter distância das suas ferozes pinças. Sabia-se que tinham o hábito de subir pelas pernas e morder quando se sentiam apertadas e creiam que não eram simples picadinhas; quem estivesse sentado, levantar-se-ia de um salto caso fosse vítima de uma só dessas picadas. Inicialmente, a maioria do pessoal não deu pela sua aproximação; uns dormitavam e outros simplesmente preguiçavam estendidos. Só uns quantos, mais atentos ou despertados por um ferroada inopinada, se aperceberam dos bichos, não lhes dando, contudo, muita importância; simplesmente procuraram afastar-se do seu caminho que notoriamente apontava às latas abandonadas pelo chão.
Mas, sem que nos dessemos conta, o cenário foi-se alterando e, ora um ora outro, começou a sentir o efeito das picadas, ao ponto de alguém ter de despir apressadamente as calças para melhor sacudir uma meia dúzia delas que, subindo pelas pernas, atingira zona sensível. O facto é que ali já não era possível estar. O descanso foi abruptamente interrompido e a debandada foi geral. Arrumaram-se as coisas afastámo-nos uns metros da posição em que estávamos, e mudámo-nos para a orla da mata, longe das formigas, aí permanecendo até que se esgotasse o tempo que havia sido definido para o descanso.
 Chegada a hora, ajeitaram-se os equipamentos e fizeram-se os últimos preparativos para o reinício da caminhada. Faltava apenas enterrar as latas tarefa que não ficara esquecida. Aproximámo-nos do local onde as deixáramos. Surpreendentemente estavam completamente tomadas pelas formigas formando uma espécie de massa compacta qual cobertura viva e fervilhante de milhares de bichos em frenesim. Conhecendo-se a sua ferocidade, não era aconselhável mexer-lhes. Ainda se alvitraram duas ou três soluções mas ninguém se atreveu a esboçar uma qualquer tentativa de aproximação. A decisão não podia ser outra, abandonar o local o mais depressa possível deixando as latas para as formigas.
Daquela vez, ficou por cumprir uma das regras impostas pela segurança; as latas não foram enterradas.
Ao cair da noite, chegado o fim da operação, quando já quase ninguém se lembrava do sucedido, ainda julguei sentir uma ferroada nas partes baixas. A savana é, sem dúvida, um local hostil mesmo que apenas com a contribuição de pequeninos seres.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O Pinheiro recebeu uma carta

Já por mais do que uma vez fiz aqui referência à importância da chegada do correio às terras da Neriquinha. Aqueles dois dias por semana, aqueles em que o pequeno aviãozinho da TASA aterrava no meio de uma nuvem de pó vermelho para nos deixar uma mão cheia de aerogramas carregadinhos de notícias de casa, traziam mais alento ao pessoal do que uma boa refeição de bife com batatas fritas. Era uma espécie de religião, um desejo incontido, um vício irresistível, autêntica dependência saudável, fazendo com que os outros dias fossem meras etapas de um caminho que desaguava em cada terça-feira e se repetia à quinta, seguindo-se um longo interregno com um fim-de-semana pelo meio já que, ali, sábados e domingos não eram diferentes de qualquer outro dia da semana. Desde que não fosse dia de correio eram todos iguais.
De facto, verdadeiramente especial, o nosso dia santo, era mesmo o dia em que se recebiam notícias. E era ver o sossego que se seguia à distribuição da correspondência, recolhendo-se cada um ao seu canto, lendo e relendo avidamente as palavras que, não podendo ser ditas, vinham escritas em cada aerograma azulinho. Era a carta dos pais, dos irmãos, dos tios e primos. Todos escreviam. A da namorada era sempre a primeira a ser lida, cada um à procura do cantinho onde fora deixado o beijo, desvanecido pela distância, já sem gosto mas mentalmente ressuscitado por uma réstia de perfume.
Era bem visível nos semblantes a tristeza daqueles que, por uma razão ou por outra, não recebiam nada. Por vezes, o pai e a mãe, porque analfabetos, tinham de recorrer a um vizinho, ou conhecido e isso condicionava a frequência da escrita. Mas, de vez em quando, nem que fosse uma vez por mês, todos recebiam notícias de lá de longe; com maior ou menor assiduidade lá vinha uma cartita, nem que fosse da madrinha de guerra.
Sim, o correio era fundamental, tão importante como as coisas verdadeiramente importantes. E isso era o que acontecia com todos, desde o oficial ao soldado, a começar no mais erudito e acabando no analfabeto. Sim, porque na 3441 havia uns quantos analfabetos. E, recorrendo ou não ao companheiro do lado, todos se dedicavam à leitura, devorando sofregamente cartas que narravam acontecimentos e transmitiam sentimentos, simples discorrências para encher a folha de papel, pura descrição de assuntos a que só a distância conferia significado.
Mas havia um que não encaixava em tudo isto. Um soldado que, tanto quanto me lembro, nunca recebera uma carta. Não sei a razão. Diziam que apenas tinha uma irmã que, vá-se lá saber porquê, não queria saber dele.
O Pinheiro era um homem estranho. Um chato. E isso via-se no dia-a-dia. Parecia não ter jeito para fazer amigos e, talvez por isso, costumava andar só. Não porque quisesse, mas porque os outros o enxotavam. Quando se nos dirigia, exibia um sorriso sarcástico, parecendo querer provocar irritação. Se calhar era apenas um esgar que não controlava. Um fácies aparvalhado. E ainda por cima era refilão, defeito que procurava disfarçar com bajulice, servilismo encapotado num trejeito untuoso. É isso, o Pinheiro era uma espécie de lambe-botas controverso que não convencia ninguém. Querendo parecer submisso era na verdade um insubmisso, mas no pior sentido do termo, com tendência para o sacana, embora, paradoxalmente, nunca se metesse na vida de ninguém nem criasse problemas.
O seu aspecto físico também não ajudava. As calças puxadas bem para cima, seguras pelo cinto que parecia apertado de mais, afundando a concavidade da barriga e salientando a ligeira aparência recurvada, ajudavam a compor um todo pouco harmonioso. De aspecto frágil, face esguia, bochechas chupadas e marcadas pelas cicatrizes do que teria sido uma acne profunda de que ainda sobravam algumas intumescências pustulentas enfeitadas de pelos mal semeados de uma barba desalinhada e pouco cuidada. Enfim, alguém que não atraía simpatias.
A verdade é que ninguém se lembra de alguma vez ter visto o Pinheiro receber uma carta. Nem da família, nem de qualquer amigo ou conhecido. E, pelos vistos, nem se dera ao trabalho de arranjar uma madrinha de guerra que preenchesse aquele espaço em branco na sua vida e isso podia explicar a sua pouca popularidade entre a malta. Não era apenas a falta de jeito para arranjar amigos; parece que também não seria lá muito popular no seio da família, de quem, aliás, nunca falava. Talvez por isso se pensasse que não tinha pais, havendo algumas referências à irmã, mas que ninguém sabia se era mais nova, casada ou solteira. O Pinheiro falara dela uma ou duas vezes, mas sem adiantar grande coisa. Contudo, isso foi suficiente para suscitar curiosidade:
- Olha lá! A tua irmã não sabe escrever? Perguntou um curioso.
- Ou és tu que não sabes ler? Atalhou outro de forma provocatória.
A tudo isso o Pinheiro respondia com evasivas, como se o assunto incomodasse.
- Não têm nada a ver com isso! Despachava com azedume.
É neste ambiente que surge uma ideia maquiavélica. Não sei de quem, mas começou a germinar em duas ou três cabeças vingativas um plano para fazer uma partida ao Pinheiro: iria receber uma carta. Uma carta remetida pela irmã. Contudo o seu conteúdo haveria de o tirar do sério. Na verdade teria de ficar furioso.
Três ou quatro muniram-se de uma aerograma em branco, sentaram-se na cantina à volta de uma mesa e começaram a escrevinhar:
Meu irmão. Espero que te encontres de boa saúde que eu cá vou indo com a graça de Deus.
Bem, os pormenores não interessam, nem os sei reproduzir. Na verdade nunca li a malfadada carta, mas sei que, no que lá foi escrito, a irmã, para além de o culpar de uma séria de maldades, só não o chamava de santo. Até palavrões meteram no meio de um conjunto de epítetos pouco abonatórios.
Dobraram o aerograma, escreveram o endereço sem grandes pormenores omitindo, por exemplo, o número da companhia já que se pressupunha ser pouco provável que a irmã o soubesse e no dia do correio, com a conivência do cabo escriturário, meteram-no no meio da correspondência.
Como seria de esperar, o Pinheiro não se juntou à pequena multidão que rodeava o sargento-de-dia, à sombra da árvore que, por força do hábito, se tornou o local de distribuição do correio. Contudo, alguém cuidou de o avisar que havia carta para ele.
-Carta? Para mim? Questionou meio incrédulo.
Mas era verdade, ali estava um aerograma amarelinho, com o seu nome no endereço. Mirou, virou o pequeno rectângulo de um lado, revirou do outro. Procurou o remetente mas estava em branco. De quem seria?
Não estando habituado a receber correspondência, nem ligou à cor da missiva. Normalmente, as cartas vindas do puto eram azuis. Os amarelos tinham sentido contrário. A não ser que fossem escritos por outro militar num outro local qualquer da guerra.
Remirou de novo, coçou a cabeça e sem pressa, maquinalmente, desdobrou o aerograma.
Os autores da brincadeira, mais uns quantos que se lhes juntaram, miravam de longe, agremiados, a ver no que aquilo iria dar
O Pinheiro começou a ler, silenciosamente, mantendo um ar carregado, saturado de pontos de interrogação como se questionasse:
-Da minha irmã?
Mesmo ao longe, notaram a alteração gradual do seu fácies. À medida que avançava na leitura, foi ruborescendo, o cenho carregando, os lábios crispando a denunciar a fúria crescente. O seu olhar parecia lançar chispas. Acabou de ler, amarfanhou furiosamente o papel e vociferou colérico:
- Puta de merda! Quem pensa ela que é?
Seguiu-se uma torrente de asneiras, tantas quantas conseguiu sacar do seu reportório de caserna, atirando-as em catadupa para cima da desgraçada, à medida que, gesticulando furiosamente, acelerava o passo em direcção à caserna. Durante um bom bocado ninguém mais o ouviu.
Comprometidos, os autores da patifaria, riam à socapa. Creio que nenhum se atreveu a confessar a autoria do escrito, mesmo sabendo que, se o fizesse, ilibaria a desgraçada das culpas que não tinha. Assim, o Pinheiro continuou convencido de que a carta era mesma da sua infeliz irmã, demonstrando acreditar ser ela capaz disso ou de coisa pior. Razões haveria para que nunca lhe tivesse escrito.
Só não sei se alguma vez se dignou responder à ofensa.

domingo, 1 de julho de 2012

A PROFESSORA

A escola também chegava a cada um dos pequenos aglomerados populacionais das zonas mais remotas do Cuando-Cubango. Não a todos porque, na zona por onde andámos, não havia escola na maioria dos kimbos. Por ali, apenas Mavinga, Neriquinha e Rivungo tinham escola e o respectivo professor. O da Neriquinha, um rapaz tão novo quanto qualquer um de nós, era, à vista da população, uma pessoa importante e muito respeitada: sabia ler, desenhava letras bonitas no quadro e dominava muitos saberes trazidos lá da cidade onde aprendeu.
Eu, e penso que também a maioria dos meus companheiros, achava piada ao facto de insistir em usar gravata num local onde a indumentária mais comum era a tanga. Tal adereço, dependurado no pescoço do homem, sobressaindo sobre a camisa colorida, compunha um quadro ridículo se tivermos em conta a nudez daquele lugar empoeirado onde o calor insistia em torrar tudo à volta. O penduricalho estava nitidamente a mais, especialmente se se tiver em conta que aquelas gentes nunca tal haviam visto. Pelo menos até o professor querer dar-se ares de importante com recurso à indumentária. Até porque, a escola, um modesto barracão coberto de capim equipado com bancos improvisados, não se apresentava com a dignidade suficiente para conferir estatuto ao mestre-escola. Apenas a pequena ardósia, de cor escura, rudimentarmente encostada à parede do fundo, permitia adivinhar que ali era a sala de aula. Não fora isso, dificilmente se intuiria que aquele barraco era o estabelecimento oficial onde a criançada aprendia o bêábá.
O facto é que a gaiatada ouvia compenetrada as aulas do professor, papagaiando em coro os ensinamentos, como se a matéria tivesse de ser enfiada à força nas suas cabecitas, método assaz interessante que me levou uma ou outra vez a aparecer, espreitando a aula conduzida com alguma solenidade pelo professor.
Mas vamos ao que interessa. Daí a dois dias, partiria a coluna que faria o reabastecimento ao Rivungo. O stock de cerveja, tabaco e géneros estava perigosamente baixo o mesmo acontecendo com as reservas dos PSP’s nos Kimbos que ficavam no percurso. E isso era razão mais do que suficiente para que fosse considerada vital a reposição dos níveis antes que se esgotassem.
Para a missão foi destacado o Leitão que encetou os preparativos. O Gameiro tratou de coordenar o carregamento de grades de cerveja, tabaco e outras coisas da cantina há muito requisitadas e o Morais mandou separar os géneros que o cozinheiro do Rivungo necessitava. Seria necessário ainda aguardar a chegada do Nord Atlas que semanalmente nos trazia os frescos da Manutenção Militar, aproveitando-se o ensejo para levar ao pessoal ali destacado alguma carne, ovos, hortaliças ou qualquer outra coisa que resistisse ao calor e aos solavancos das viaturas e ao mesmo tempo, não se estragasse durante a longa viagem.
As berliets foram preparadas, verificaram-se os níveis, encheram-se os depósitos de gasóleo, os pneus foram passados em revista e o Lobato deu as últimas afinadelas. Enfim, tudo preparado com a minúcia que o Leitão costumava exigir. Ficara apenas por resolver um problema de última hora com os condutores. Uma sequência de acontecimentos estava a dificultar a vida ao Gabriel, furriel mecânico da companhia a quem competia a gestão da frota e do respectivo pessoal. Parece que um dos condutores estava doente, um outro argumentou com um impedimento qualquer e como nem todos os outros estavam habilitados a conduzir berliets, a coisa começou a complicar-se, aventando-se a hipótese de ter de avançar um dos que ainda mal descansara da última missão.
Na messe, à noite, depois do jantar, à volta com a última cerveja do dia, o assunto veio à conversa. Não obstante as suas funções não o obrigarem a sair para a mata, privilégio que muitos invejavam, o Gabriel gostava de, sempre que podia, fugir do espaço entediante do arame farpado. Ia à caça, por mais do que uma vez foi ao Rivungo, a Mavinga, Neriquinha Velha e Chicove; integrou a primeira incursão ao Esquadrão conduzindo ele próprio uma das berliets, era sempre voluntário para sair em auxílio de quem tivesse ficado atascado nas chanas lamacentas, como aconteceu comigo nas planícies do Cúbia e não resistia a, por vezes, ir à lenha ou às lavras da população quando calhava.
Assim, aquela viagem vinha mesmo a jeito; iria espairecer, matar saudades da malta que estava no Rivungo, dar dois dedos de conversa aos polícias do Liahona, do Mugamba e do Demba, beber umas cervejolas com o chefe França e com um pouco de sorte, até podia ser que apanhasse algumas palancas nas chanas do Cúbia.
- Tá decidido! Vou contigo. Sentenciou dirigindo-se ao Leitão.
No dia seguinte, a chegada do Nord trouxe uma surpresa. Antes que se abrissem as portas traseiras por onde se descarregariam as caixas recheadas de géneros, uma figura feminina, com aspecto frágil, descia timidamente pelas escadinhas dependuradas da estreita porta lateral. A sua tez, de um castanho suave, não deixava dúvidas quanto à raça, embora, pelo menos para mim, não permitisse definir a etnia. A pele, visivelmente bem tratada e a indumentária, indiscutivelmente citadina embora humilde e vulgar, deixavam antever que não se tratava de uma qualquer mulher da Neriquinha de regresso à sua terra.
Todos os olhares convergiram para a figura da mulher que acabara de aterrar naquele fim de mundo. Não porque se questionassem sobre o porquê de tão inesperada visita, mas por outras razões. Preta ou não, o seu aspecto distanciava-se do ar andrajoso e sujo das mulheres do kimbo. O olhar guloso de cada um, seguindo com avidez o seu andar sensual era disso sinal bem evidente; havia meses que não punham a vista numa mulher de jeito e por isso, ainda que à distância, aquela foi acariciada, quase violentada e praticamente despida pelos olhares de tantos quantos presenciavam a cena, saciando, ainda que por breves instantes, pecaminosos desejos a muito custo contidos.
Só depois é que a curiosidade veio ao de cima. Quem seria? Porque veio no Nord? Estaria só de passagem como da outra vez em que se avariou o motor do Dakota? Ou vinha para ficar?
Afinal não havia mistério. Tratava-se da professora que iria reger a escola do Rivungo. Só não se percebeu por que veio de Nord, via Luso, quando o mais natural seria vir de Serpa Pinto, na carreira dos pequenos aviões da Tasa que nos traziam o correio e que a levaria direitinha ao Rivungo. Mas provavelmente sairia mais caro, já que a viagem de Nord era de borla. A coitada da professora é que não se terá apercebido que assim, teria de fazer a parte restante da viagem integrada na nossa coluna de reabastecimento. E isso não era pera doce. Sete horas sobre uma berliet aos saltos pela picada irregular e empoeirada, suportando as inclemências do tempo, não seria propriamente um passeio para uma menina que parecia não estar habituada a tais provações.
Mas não havia outra solução. Creio que lhe reservaram um lugar ao lado do condutor, acomodação que, não obstante o assento de lona, sempre era mais confortável do que viajar sentada sobre uma caixa qualquer. Acomodou-se o melhor que pôde e lá partiram, mata adentro, ao sabor dos meandros caprichosos do percurso, ficando o assunto esquecido mal a última berliet desapareceu, lá ao fundo, na curva da picada.
Bem! Esquecido por todos, menos pelo capitão. A verdade é que o Gabriel decidiu ir na coluna, mas não passou cavaco ao comandante da companhia e creio que nem sequer ao primeiro-sargento que, para além de ser o superior hierárquico imediato, costumava estar por dentro de tudo o que se passava. E isso não caiu bem, especialmente porque ninguém tirava da cabeça do capitão que a decisão do Gabriel, à sua revelia, tinha a ver com a professorinha. A forma sorrateira como o furriel se desenfiou cheirava a rabo de saias e isso ainda era mais grave. Todos se aperceberam do descontentamento do capitão e a julgar por um subtil comentário feito pelo primeiro-sargento ao jantar, viria borrasca para cima do Gabriel mal regressasse da viagem.
Mas disso nem ele sabia e se bem o conheço, nem nisso pensava.  Certamente que nem lhe terá passado pela cabeça que a sua decisão em fazer aquela viagem com o Leitão lhe iria trazer dissabores. Disso só se apercebeu, volvidos dois dias quando, no fim de mais um regresso do Rivungo, as berliets se imobilizaram na parte inferior da parada como faziam sempre. Era o momento de sacudir o pó, desaperrar as armas e esticar o corpo cansado e moído de tantos safanões resultantes dos saltos e ressaltos que as irregularidades da picada impunham às viaturas. Nesse ínterim, alguém lhe soprou que o capitão se preparava para lhe dar uma porrada. No mínimo, de uma piçada ninguém o livrava. Na dúvida, o Gabriel preparou-se para a borrasca, provavelmente engatilhando explicações que justificassem a infracção que entendia não ter existido.
Ouviu sermão e música cantada, foi avisado, admoestado e ameaçado com uma punição severa. Mas a porrada ficou suspensa. O Leitão poderia confirmar que tudo fora combinado antes da chegada do Nord; A professora não poderia ter sido o leitmotiv.
Foi a vez do Leitão que, por sua vez, foi questionado, interrogado, apertado, ouviu por longo tempo as mil uma razões que justificavam a porrada. Umas quantas, no entender do capitão, eram suficientemente graves para justificar uma punição severa.
Mas nada aconteceu. Ou porque o capitão entendeu que as justificações mereciam credibilidade ou porque confiou na palavra do Leitão, o Gabriel saiu incólume. Não me admiro nada que a sua sorte tenha sido ditada pela confiança que o capitão depositava no Leitão. Era o furriel mais antigo, era sério, cumpridor, não se baldava e não criava problemas. Sim, é bem provável que isso tenha pesado na decisão.