Na edição online de "O Jornal de Angola" foi publicada uma extensa notícia sobre o Rivungo, com data de 16 de Outubro (ontem). Refere o jornalista Lourenço Manuel:
O município do Rivungo está situado a 850 quilómetros da cidade de Menongue, a capital do Kuando-Kubango. É a última paragem antes do fim do mundo, tantas são as dificuldades de acesso. O isolamento cria dificuldades acrescidas às populações. Mas acaba de ser anunciado que foi adjudicada a empreitada de construção da estrada que liga a Mavinga. É uma página histórica na vida das populações da região, que devido ao isolamento secular foi chamada de “terras do fim do mundo”.
A circulação rodoviária entre a cidade de Menongue e Rivungo, passando por Mavinga, é quase impossível porque a estrada de areia atravessa uma floresta densa e fora dos trilhos podem estar minas.
Com uma população de 77.771 habitantes, distribuídos entre a sede do município, comuna de Chipundo, Luiana, Jamba e N’riquinha, o município do Rivungo desde tempos remotos que é uma zona de difícil acesso e segundo relatos de populares, foram as longas distâncias e o isolamento que levaram a chamar à província, “terras do fim do mundo”.
Chambinga, Lomba, Kúbia, Namoma, Vezi Vezi, Efo e Vukanga são “obstáculos” que ficam na rota de Menongue para o município de Rivungo. A viagem, mesmo com viaturas todo-o-terreno, leva dias, se tudo correr bem. Só para se ter uma ideia das dificuldades, uma viatura da Polícia de Guarda Fronteira está encalhada na zona do Efo há quase um ano.
A nossa reportagem foi ao Rivungo, mas o trajecto até Mavinga foi feito de avião. A partir daí, embarcámos em viaturas todo-o-terreno e com agasalhos reforçados porque à noite o frio é mesmo de rachar. A coluna avança com dificuldades pelos trilhos feitos na areia de uma estrada que nunca foi nada parecido com estrada. Os motoristas temem que se atravessem no caminho as manadas de elefantes que abundam nestas paragens.
A velocidade varia entre os dez e os 20 quilómetros por hora. A chuva caía sobre a picada e as viaturas enterravam-se. Mas fomos vencendo os obstáculos. Depois de 15 horas de viagem, a coluna chegou ao Rivungo, estava o sol a nascer. Apesar de ser ainda muito cedo, dezenas de pessoas vieram saudar-nos. É raro chegar gente de fora e todos querem saber o que se passa lá longe, na capital da província.
Para continuar a leitura siga este link ou recue quarenta anos no tempo lendo as diversas histórias publicadas neste blog que têm o Rivungo como cenário.
Memórias das aventuras e desventuras de 140 militares que, em Novembro de 1971, armados de G3, foram largados num ermo algures no meio das remotas savanas das terras-do-fim-do-mundo nos confins de Angola
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
A Cantina do Sr. Costa
Já há muito que aquela desconhecida terra deixara de nos parecer estranha. Habituáramo-nos a viver ali. Não foi nem fácil, nem difícil; tinha de ser, não havia outra solução e quando algo tem um caracter tão definitivo, o melhor que há a fazer é procurar tirar proveito de tudo o que possa contribuir para que o nosso dia-a-dia pareça o menos miserável possível. Desde logo, vivendo um dia de cada vez, não pensando muito no amanhã e mantendo a confiança de que, um dia, outros nos viriam render. Até lá, não valia a pena pensar no assunto.
Aos poucos, porque a tarefa não era fácil e a vontade não era muita, aquelas matas foram-se tornando familiares e, mesmo que isso possa parecer estranho, assumimos que o inverso também era verdade. Rapidamente se percebeu que só tínhamos a ganhar em conhecer o meio, que era mais seguro, mais reconfortante e incomensuravelmente mais prático saber o que vinha a seguir a cada curva da picada, que nos facilitava a vida e reduzia a canseira saber o que pisar e onde pôr os pés e que distinguir uma chana transitável de um terrível lodaçal poupava-nos aos desgastantes trabalhos necessários ao desatascanço das viaturas atoladas.
O facto é que, ao ritmo lento do arrastar dos dias, ora massacrados em permanência por um sol inclemente ora fustigados por chuvas diluvianas, fomos aprendendo a conhecer aquelas paragens ao ponto de nos serem familiares. Conhecia-se a maior parte dos itinerários, sabíamos de cor o percurso da picada para o Rivungo, o melhor trajecto para chegar à Neriquinha Velha e que a chana do Chicove era o local mais perto e acessível onde se poderia encontrar caça. Identificava-se à distância qualquer animal apenas pela pose ou porte, sabíamos que a carne do guelengue era intragável e que a da gunga era deliciosa, já experimentáramos o sabor dos exóticos e estranhos frutos que se encontravam pela mata, descobriu-se que uns eram mais ácidos mas excelentes para matar a sede e outros mais doces e com elevado poder alimentício e já ninguém resistia a saborear a polpa macia do maboque, sempre que uma dessas estranhas árvores carregadinhas de frutos amarelos nos aparecesse pela frente.
Enfim todo aquele saber de experiência feito que integra a escola da vida, agora apenas necessário para tornar menos penoso o tempo que teríamos de ali passar. A verdade é que, passados meses a calcorrear aquela terra de ninguém, já tudo nos parecia natural. Suportava-se a agressividade do sol, as chuvas intensas incomodavam cada vez menos e já não se dava pelo facto de fazer calor quando chovia e de se gelar à noite quando tudo secava e o cacimbo invadia as matas.
A verdade é que, sem darmos por isso, uns mais do que outros, nos fomos adaptando a novas vivências, nuns casos mudando radicalmente hábitos, comportamentos e rotinas e, noutros, procurando modificar aquele desprovido mundo na vã tentativa de o aproximar tanto quanto possível dos confortos da civilização que, deixada para trás, nos parecia cada vez mais distante, longínqua e difusa.
O facto é que nos fomos acomodando ao nosso despojado canto, dando valor ao pouco conforto que propiciava e confiando na precária segurança da frágil cerca de arame farpado que nos separava da agreste e interminável mata que nos rodeava; um telhado, quatro paredes, a pequena cama, um par de lençóis, o calor humano, a protecção da rede mosquiteira, tudo contribuía para conferir uma ilusória porém reconfortante sensação de intimidade que caracteriza o nosso meio.
Contudo, toda esta adaptação foi anestesiando os nossos sentimentos e sem que se desse conta, todos se foram acomodando, num processo de tolerância ao despojamento, relegando para os patamares mais profundos da memória todas as mordomias da civilização a que cada um se habituara. Era um processo de aculturação imposto pela necessidade de minimizar a ausência de tudo, ancorado na rendição à óbvia falta de opção: simplesmente era preciso viver com o que se tinha fazendo por esquecer tudo que não se podia ter.
De entre as coisas de que me lembro ter tido de abdicar, contam-se os pequenos prazeres da gula disponíveis em qualquer pequeno lugarejo: um pastelinho de nata e um simples e corriqueiro queque são algumas das banalidades que ali se transformaram em coisas de ficção. A lembrança de um prego mal passado, com mostarda a gosto, acompanhado por um copo de cerveja bem tirada ao balcão da Portugália, fazia crescer água na boca ao ponto de elevar o petisco à categoria da coisa mais apetecida. É verdade, ali não havia nem restaurantes, nem cervejarias, nem mesmo uma tasca ou simples taberna. Nada mesmo. Apenas se podia contar com a comida do rancho, cuja qualidade era fortemente condicionada pelo que havia, rateada pelo magro orçamento de que o vagomestre dispunha; quem não gostasse, passava fome.
O facto é que vivíamos no meio do mato e a distância da localidade decente mais próxima media-se em semanas de viagem, pelo que, pensar em restaurantes ou algo comparável, mesmo que não fosse digno desse nome, estava fora de questão.
Até que, vindo dos lados de Mavinga, trazida nos ventos do MVL, chegou à Neriquinha a notícia de um lugar que parecia preencher essa lacuna. A Cantina do Senhor Costa era um local que ganhara a fama de servir a melhor omeleta de chouriço do leste de Angola. Faziam-na com ovos de avestruz e dizia-se que um só ovo era capaz de saciar a fome a meia dúzia de tropas esfaimados.
Mas o nosso problema subsistia. Mavinga fica a oeste da Neriquinha, mais ou menos à mesma distância do Rivungo mas em sentido oposto, para o outro lado. Sabia-se que o caminho era mais a direito e menos demorado a percorrer mas, ainda assim, dependendo da época do ano, seriam sempre necessárias cinco ou seis horas para ir e outras tantas para regressar e o pior é que, sendo Mavinga enquadrada por uma companhia independente, nada justificava o nosso intrometimento na sua zona de intervenção. Não! Ir a Mavinga, só para comer uma omeleta de ovos de avestruz, mesmo que o chouriço fosse de primeira qualidade, estava fora de questão. Não compensava e nunca se obteria autorização para tal. Ou seja, para o efeito era como se não existisse.
Mas um dia, por qualquer razão que não retenho, foi necessário ir a Mavinga e eu fui incluído no pequeno grupo destacado para a missão e creio que também o Gabriel. Saímos, como de costume a meio da noite, tomando a direcção oposta à habitual. A berliet percorreu a pista até ao fim, por algum tempo rolou pela chana seca até esta se sumir na mata onde penetrou seguindo os sulcos areentos da picada sinuosa igual a todas as que se conheciam. Era já dia claro quando desembocámos na chana verdejante do Rio Cúbia.
Dali a Mavinga não havia que enganar. Bastou seguir o trilho que serpenteava ao longo do curso sinuoso do Rio até que a silhueta difusa do parco casario de Mavinga começou a insinuar-se ao longe. Mavinga era uma povoação um pouco maior que o Rivungo e totalmente diferente da Neriquinha. Ficava localizada nas imediações do Rio Cúbia que, nascendo em pontos indefinidos da mata da Quirongosa a pouco menos de cinquenta quilómetros para o interior, apresentava, ao longo de todo o seu curso, um fraco e irregular caudal, mas suficiente para conferir ao local um ambiente aprazível, pelo menos quando comparado com a desolação da Neriquinha. Tinha um administrador, algum comércio uma população civil constituída por três ou quatro famílias e um kimbo albergando uma população autóctone em número significativamente maior. Naquele local sempre vivera gente, ao passo que na Neriquinha apenas as instalações militares transformaram o local em refúgio da população pelo tempo que durou a guerra. Acabada esta, o povo que ali se albergara procurou outras paragens e a estrutura transformou-se em ruinas.
A Cantina do Senhor Costa ficava logo à entrada, do lado direito, local que me pareceu um convite ao viajante esfomeado vindo da terra de ninguém. Não parámos. Como ainda era cedo decidiu-se que o melhor era despachar o assunto que nos levara ali, aproveitando-se o ensejo para um natural convívio com alguns militares da companhia ali aquartelada, cujas instalações, muito semelhantes às nossas, ocupavam um costumeiro quadrado delimitado por uma cerca de arame farpado no outro lado da povoação.
Cumprida a missão, dirigimo-nos, sem mais delongas, para a Cantina do Sr. Costa. O secreto e inexplicável desejo de me sentar à mesa de um restaurante despertou em mim alguma impaciência. Por muito que me esforce não consigo recordar-me do espaço e menos ainda do que comi. Provavelmente provei a tão propagandeada omeleta e terei matado saudades de um bom bife com batatas fritas. A verdade é que não me recordo. Mas retenho de memória o prazer que senti ao sentar-me numa mesa que parecia de um restaurante, mesmo que aquele não se assemelhasse a coisa digna desse nome. Para quem há tanto tempo apenas dispunha do rancho servido num refeitório militar, aquele bocado de dia passado no estabelecimento do Sr. Costa, constituiu um luxo que aproveitei ao máximo juntamente com os companheiros de viagem.
Sem nostalgias ou satisfações excessivas, vi-me de novo nas chanas do Cúbia de volta à Neriquinha, deixando para trás aquele efémero devaneio. Seguia agora em sentido contrário ao da civilização fugazmente recordada, retornando ao nosso remoto e provisório cantinho lá no interior esquecido da savana. Quanto a Mavinga, só por lá passei mais uma e derradeira vez: desta feita apenas de passagem quando, finda a comissão, abandonámos em definitivo as areias das terras-do-fim-do-mundo a caminho de um lugar mais aprazível.
sábado, 1 de setembro de 2012
MARABUNTA
É frequente ouvirem-se referências a África que reflectem fobias por bichos. Não exactamente os de grande porte que constituem a sua rica fauna, mas aqueles, os muito pequeninos que se movimentam pelos cantos mais impensáveis, sejam eles rastejantes, voadores ou aquáticos.
Tive oportunidade de confirmar que a savana do sueste angolano é rica em insectos e outros bichos, muitos dos quais eu nunca antes havia visto. E todos eram especiais, próprios daquelas matas. Mesmo os que pensávamos já conhecer eram diferentes, fosse pelo tamanho, ou pelas suas peculiaridades, comportamentos e características. Por exemplo, gafanhotos são gafanhotos em qualquer parte do mundo, não obstante possam apresentar-se sob múltiplos aspectos. Os que por ali esvoaçavam pareciam-me sempre diferentes; no mínimo mais coloridos. As moscas, para além de existirem aos milhões, variavam em tamanho cor e feitio, desde as muito grandes e multicolores até às mais pequeninas e cinzentas. Surgiam do nada, zumbiam como satélites à volta da cabeça e entravam pelo nariz e boca, sugadas pelo simples respirar. A verdade é que infestavam as matas tornando-se especialmente irritantes no auge da canícula, exactamente quando os pulmões, carenciados de ar pelo efeito do calor e do esforço, mais sofregamente bombeavam o oxigénio necessário.
Depois eram os mosquitos, muitos. Parecendo todos iguais, eram diferentes, congregando várias estirpes que nos infernizavam a vida com as suas ferroadas. Proliferam e multiplicam-se nos lodaçais das inúmeras chanas pantanosas que caracterizam a savana do Cuando Cubango e, mal caía o lusco-fusco, levantavam-se em bandos, zunindo à nossa volta à cata de sangue quente e nem as roupas os detinham. Nas matas, trespassavam a dureza do camuflado e na caserna havia sempre um ou outro que conseguia furar a protecção da rede mosquiteira. E acreditem que bastava um para nos lixar a noite.
Depois vinham as espécies rastejantes, onde se contavam as mais exóticas centopeias, escaravelhos multicolores e outros bicharocos estranhos que se passeavam por entre a roupa, mal nos estendêssemos pelo chão procurando recobrar as forças consumidas em caminhadas sobre as areias quentes e soltas que caracterizam o solo de tão inóspitas paragens. Certa noite, enquanto dormia, algures num ponto qualquer da mata, uma dessas criaturas, certamente peçonhenta, entrou-me no ouvido. Inconscientemente devo ter-me coçado. O facto é que, no dia seguinte, uma estranha dor não me largava. A visita que fiz ao enfermeiro, após o regresso ao conforto da Neriquinha, permitiu descobrir uma infecção extensa. Ainda hoje não sei exactamente que bicho me picou, mas lembro-me perfeitamente do estrago que causou e das dores que tive de aguentar enquanto o Pinto, o furriel enfermeiro, procedia a uma desinfecção meticulosa, escarafunchando o ouvido até ter a certeza que tudo ficara desinfectado, tratado e limpo.
Havia ainda as sanguessugas que se escondiam em qualquer lugar onde corresse água, coisa que por ali não faltava, as carraças que se desprendiam do gado, os percevejos, as pulgas, a matacanha, pequenas larvas que, dizem, se infiltravam sob a derme e toda uma variedade de ácaros, opiliões e outros seres estranhos que provocavam micoses, irritações, comichões e alergias várias. Enfim, seres impróprios para coabitarem com o ser humano.
Falta ainda falar das formigas. E por ali havia muitas e para todos os gostos. Algumas estranhas, na sua maior parte inofensivas, mas outras não. Havia-as pequeninas como todas as que conhecemos, outras um pouco maiores e ainda as grandalhonas, cada uma calcorreando afanosamente os carreiros que conduziam ao seu mundo escondido algures nas entranhas da terra ou no interior de um qualquer tronco caído. Por exemplo, a salalé, formiga alada de tamanho significativo era, no meu entender, um bicho espantoso. Construía morros cónicos de dimensão considerável, cuja altura chegava a ultrapassar dois metros, autênticas fortalezas capazes de resistir a todas as intempéries ou ataques; derrubar um morro de séléle, implicava o uso de picareta e um tiro de G3, mesmo que a pouca distância, não o conseguia trespassar.
Por sorte, eram todas inofensivas. Bem, todas, excepto umas vermelhinhas cuja enorme cabeça, agarrada a um abdómen visivelmente menor, lhes conferia um aspecto caricato e ameaçador. Não recordo o nome por que eram conhecidas mas, sempre que as via, lembrava-me da marabunta que deu nome ao filme de Byron Haskin no qual Charleton Heston lutava contra hordas de formigas assassinas.
Certa vez, ali para os lados da Neriquinha Velha, tive oportunidade de verificar a ferocidade destes pequenos seres. Caminhávamos ao longo de uma extensa chana no cumprimento de mais uma das várias operações em que participei. O calor era, digamos, suportável mas, ainda assim, acima dos trinta graus o que, conjugado com o elevado grau da humidade do ar, fazia com que o céu parecesse pesar sobre os ombros, tornando ainda mais penoso o caminhar. Não retenho exactamente qual era o objectivo da acção, mas suponho que, como tantas outras, se destinava a percorrer determinado itinerário numa qualquer missão de patrulhamento. Iniciáramos a caminhada bem cedo palmilhando chanas e matas durante toda a manhã. No momento, seguíamos pela chana evitando o terreno areento da mata onde as botas se enterravam dificultando a marcha e exigindo o redobrar do esforço. Ainda assim, todo o grupo já estava de rastos, exausto, com os músculos dormentes e já descoordenados a obrigarem a uma paragem.
Deixámo-nos cair por ali, cada um no local onde se encontrava, aproveitando a fresquidão da erva verde e da refrescante humidade da chana que, no momento, talvez porque o céu estivesse encoberto, nos pareceu mais agradável do que a sombra das árvores próximas. Retiraram-se dos sacos as latas da ração de combate que se foram abrindo ao som do surdo tilintar das facas de mato cortando o metal e, sem pressa, o petisco sensaborão foi sendo mastigado juntamente com as côdeas do pão duro, cozido na véspera e já esborrachado pelo peso de tudo o que cada um enfiara no saco.
As latas vazias, cheirando a molho ou untadas de óleo, foram sendo depositadas em pequenos montículos, já que a regra impunha que fossem enterradas de modo a não ficarem visíveis sinais da nossa passagem. Mas isso ficaria para quando se iniciasse a marcha, coisa que não levaria mais do que um ou dois minutos já que que o terreno de areia solta tornava a tarefa fácil. Por enquanto, com o estômago composto, preguiçávamos jacentes sobre as ervas, alguns dormitando num quase inútil exercício de preparar o corpo para a inevitável e extenuante caminhada que duraria até ao anoitecer.
A princípio, ninguém deu importância, mas o facto é que se avistou uma das tais temíveis formigas e logo a seguir outra e mais outra. Era bicho que já se conhecia e a cor vermelha associada ao tamanho da cabeça dissipava qualquer dúvida que pudesse existir. E isso significava manter distância das suas ferozes pinças. Sabia-se que tinham o hábito de subir pelas pernas e morder quando se sentiam apertadas e creiam que não eram simples picadinhas; quem estivesse sentado, levantar-se-ia de um salto caso fosse vítima de uma só dessas picadas. Inicialmente, a maioria do pessoal não deu pela sua aproximação; uns dormitavam e outros simplesmente preguiçavam estendidos. Só uns quantos, mais atentos ou despertados por um ferroada inopinada, se aperceberam dos bichos, não lhes dando, contudo, muita importância; simplesmente procuraram afastar-se do seu caminho que notoriamente apontava às latas abandonadas pelo chão.
Mas, sem que nos dessemos conta, o cenário foi-se alterando e, ora um ora outro, começou a sentir o efeito das picadas, ao ponto de alguém ter de despir apressadamente as calças para melhor sacudir uma meia dúzia delas que, subindo pelas pernas, atingira zona sensível. O facto é que ali já não era possível estar. O descanso foi abruptamente interrompido e a debandada foi geral. Arrumaram-se as coisas afastámo-nos uns metros da posição em que estávamos, e mudámo-nos para a orla da mata, longe das formigas, aí permanecendo até que se esgotasse o tempo que havia sido definido para o descanso.
Chegada a hora, ajeitaram-se os equipamentos e fizeram-se os últimos preparativos para o reinício da caminhada. Faltava apenas enterrar as latas tarefa que não ficara esquecida. Aproximámo-nos do local onde as deixáramos. Surpreendentemente estavam completamente tomadas pelas formigas formando uma espécie de massa compacta qual cobertura viva e fervilhante de milhares de bichos em frenesim. Conhecendo-se a sua ferocidade, não era aconselhável mexer-lhes. Ainda se alvitraram duas ou três soluções mas ninguém se atreveu a esboçar uma qualquer tentativa de aproximação. A decisão não podia ser outra, abandonar o local o mais depressa possível deixando as latas para as formigas.
Daquela vez, ficou por cumprir uma das regras impostas pela segurança; as latas não foram enterradas.
Ao cair da noite, chegado o fim da operação, quando já quase ninguém se lembrava do sucedido, ainda julguei sentir uma ferroada nas partes baixas. A savana é, sem dúvida, um local hostil mesmo que apenas com a contribuição de pequeninos seres.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
O Pinheiro recebeu uma carta
Já por mais do que uma vez fiz aqui referência à importância da chegada do correio às terras da Neriquinha. Aqueles dois dias por semana, aqueles em que o pequeno aviãozinho da TASA aterrava no meio de uma nuvem de pó vermelho para nos deixar uma mão cheia de aerogramas carregadinhos de notícias de casa, traziam mais alento ao pessoal do que uma boa refeição de bife com batatas fritas. Era uma espécie de religião, um desejo incontido, um vício irresistível, autêntica dependência saudável, fazendo com que os outros dias fossem meras etapas de um caminho que desaguava em cada terça-feira e se repetia à quinta, seguindo-se um longo interregno com um fim-de-semana pelo meio já que, ali, sábados e domingos não eram diferentes de qualquer outro dia da semana. Desde que não fosse dia de correio eram todos iguais.De facto, verdadeiramente especial, o nosso dia santo, era mesmo o dia em que se recebiam notícias. E era ver o sossego que se seguia à distribuição da correspondência, recolhendo-se cada um ao seu canto, lendo e relendo avidamente as palavras que, não podendo ser ditas, vinham escritas em cada aerograma azulinho. Era a carta dos pais, dos irmãos, dos tios e primos. Todos escreviam. A da namorada era sempre a primeira a ser lida, cada um à procura do cantinho onde fora deixado o beijo, desvanecido pela distância, já sem gosto mas mentalmente ressuscitado por uma réstia de perfume.
Era bem visível nos semblantes a tristeza daqueles que, por uma razão ou por outra, não recebiam nada. Por vezes, o pai e a mãe, porque analfabetos, tinham de recorrer a um vizinho, ou conhecido e isso condicionava a frequência da escrita. Mas, de vez em quando, nem que fosse uma vez por mês, todos recebiam notícias de lá de longe; com maior ou menor assiduidade lá vinha uma cartita, nem que fosse da madrinha de guerra.Sim, o correio era fundamental, tão importante como as coisas verdadeiramente importantes. E isso era o que acontecia com todos, desde o oficial ao soldado, a começar no mais erudito e acabando no analfabeto. Sim, porque na 3441 havia uns quantos analfabetos. E, recorrendo ou não ao companheiro do lado, todos se dedicavam à leitura, devorando sofregamente cartas que narravam acontecimentos e transmitiam sentimentos, simples discorrências para encher a folha de papel, pura descrição de assuntos a que só a distância conferia significado.
Mas havia um que não encaixava em tudo isto. Um soldado que, tanto quanto me lembro, nunca recebera uma carta. Não sei a razão. Diziam que apenas tinha uma irmã que, vá-se lá saber porquê, não queria saber dele.
O Pinheiro era um homem estranho. Um chato. E isso via-se no dia-a-dia. Parecia não ter jeito para fazer amigos e, talvez por isso, costumava andar só. Não porque quisesse, mas porque os outros o enxotavam. Quando se nos dirigia, exibia um sorriso sarcástico, parecendo querer provocar irritação. Se calhar era apenas um esgar que não controlava. Um fácies aparvalhado. E ainda por cima era refilão, defeito que procurava disfarçar com bajulice, servilismo encapotado num trejeito untuoso. É isso, o Pinheiro era uma espécie de lambe-botas controverso que não convencia ninguém. Querendo parecer submisso era na verdade um insubmisso, mas no pior sentido do termo, com tendência para o sacana, embora, paradoxalmente, nunca se metesse na vida de ninguém nem criasse problemas.
O seu aspecto físico também não ajudava. As calças puxadas bem para cima, seguras pelo cinto que parecia apertado de mais, afundando a concavidade da barriga e salientando a ligeira aparência recurvada, ajudavam a compor um todo pouco harmonioso. De aspecto frágil, face esguia, bochechas chupadas e marcadas pelas cicatrizes do que teria sido uma acne profunda de que ainda sobravam algumas intumescências pustulentas enfeitadas de pelos mal semeados de uma barba desalinhada e pouco cuidada. Enfim, alguém que não atraía simpatias.
A verdade é que ninguém se lembra de alguma vez ter visto o Pinheiro receber uma carta. Nem da família, nem de qualquer amigo ou conhecido. E, pelos vistos, nem se dera ao trabalho de arranjar uma madrinha de guerra que preenchesse aquele espaço em branco na sua vida e isso podia explicar a sua pouca popularidade entre a malta. Não era apenas a falta de jeito para arranjar amigos; parece que também não seria lá muito popular no seio da família, de quem, aliás, nunca falava. Talvez por isso se pensasse que não tinha pais, havendo algumas referências à irmã, mas que ninguém sabia se era mais nova, casada ou solteira. O Pinheiro falara dela uma ou duas vezes, mas sem adiantar grande coisa. Contudo, isso foi suficiente para suscitar curiosidade:
- Olha lá! A tua irmã não sabe escrever? Perguntou um curioso.
- Ou és tu que não sabes ler? Atalhou outro de forma provocatória.
A tudo isso o Pinheiro respondia com evasivas, como se o assunto incomodasse.
- Não têm nada a ver com isso! Despachava com azedume.
É neste ambiente que surge uma ideia maquiavélica. Não sei de quem, mas começou a germinar em duas ou três cabeças vingativas um plano para fazer uma partida ao Pinheiro: iria receber uma carta. Uma carta remetida pela irmã. Contudo o seu conteúdo haveria de o tirar do sério. Na verdade teria de ficar furioso.
Três ou quatro muniram-se de uma aerograma em branco, sentaram-se na cantina à volta de uma mesa e começaram a escrevinhar:
Meu irmão. Espero que te encontres de boa saúde que eu cá vou indo com a graça de Deus.
Bem, os pormenores não interessam, nem os sei reproduzir. Na verdade nunca li a malfadada carta, mas sei que, no que lá foi escrito, a irmã, para além de o culpar de uma séria de maldades, só não o chamava de santo. Até palavrões meteram no meio de um conjunto de epítetos pouco abonatórios.
Dobraram o aerograma, escreveram o endereço sem grandes pormenores omitindo, por exemplo, o número da companhia já que se pressupunha ser pouco provável que a irmã o soubesse e no dia do correio, com a conivência do cabo escriturário, meteram-no no meio da correspondência.
Como seria de esperar, o Pinheiro não se juntou à pequena multidão que rodeava o sargento-de-dia, à sombra da árvore que, por força do hábito, se tornou o local de distribuição do correio. Contudo, alguém cuidou de o avisar que havia carta para ele.
-Carta? Para mim? Questionou meio incrédulo.
Não estando habituado a receber correspondência, nem ligou à cor da missiva. Normalmente, as cartas vindas do puto eram azuis. Os amarelos tinham sentido contrário. A não ser que fossem escritos por outro militar num outro local qualquer da guerra.
Remirou de novo, coçou a cabeça e sem pressa, maquinalmente, desdobrou o aerograma.
Os autores da brincadeira, mais uns quantos que se lhes juntaram, miravam de longe, agremiados, a ver no que aquilo iria dar
O Pinheiro começou a ler, silenciosamente, mantendo um ar carregado, saturado de pontos de interrogação como se questionasse:
-Da minha irmã?
Mesmo ao longe, notaram a alteração gradual do seu fácies. À medida que avançava na leitura, foi ruborescendo, o cenho carregando, os lábios crispando a denunciar a fúria crescente. O seu olhar parecia lançar chispas. Acabou de ler, amarfanhou furiosamente o papel e vociferou colérico:
- Puta de merda! Quem pensa ela que é?
Seguiu-se uma torrente de asneiras, tantas quantas conseguiu sacar do seu reportório de caserna, atirando-as em catadupa para cima da desgraçada, à medida que, gesticulando furiosamente, acelerava o passo em direcção à caserna. Durante um bom bocado ninguém mais o ouviu.
Comprometidos, os autores da patifaria, riam à socapa. Creio que nenhum se atreveu a confessar a autoria do escrito, mesmo sabendo que, se o fizesse, ilibaria a desgraçada das culpas que não tinha. Assim, o Pinheiro continuou convencido de que a carta era mesma da sua infeliz irmã, demonstrando acreditar ser ela capaz disso ou de coisa pior. Razões haveria para que nunca lhe tivesse escrito.
Só não sei se alguma vez se dignou responder à ofensa.
domingo, 1 de julho de 2012
A PROFESSORA
A escola também chegava a cada um dos pequenos aglomerados populacionais das zonas mais remotas do Cuando-Cubango. Não a todos porque, na zona por onde andámos, não havia escola na maioria dos kimbos. Por ali, apenas Mavinga, Neriquinha e Rivungo tinham escola e o respectivo professor. O da Neriquinha, um rapaz tão novo quanto qualquer um de nós, era, à vista da população, uma pessoa importante e muito respeitada: sabia ler, desenhava letras bonitas no quadro e dominava muitos saberes trazidos lá da cidade onde aprendeu.
Eu, e penso que também a maioria dos meus companheiros, achava piada ao facto de insistir em usar gravata num local onde a indumentária mais comum era a tanga. Tal adereço, dependurado no pescoço do homem, sobressaindo sobre a camisa colorida, compunha um quadro ridículo se tivermos em conta a nudez daquele lugar empoeirado onde o calor insistia em torrar tudo à volta. O penduricalho estava nitidamente a mais, especialmente se se tiver em conta que aquelas gentes nunca tal haviam visto. Pelo menos até o professor querer dar-se ares de importante com recurso à indumentária. Até porque, a escola, um modesto barracão coberto de capim equipado com bancos improvisados, não se apresentava com a dignidade suficiente para conferir estatuto ao mestre-escola. Apenas a pequena ardósia, de cor escura, rudimentarmente encostada à parede do fundo, permitia adivinhar que ali era a sala de aula. Não fora isso, dificilmente se intuiria que aquele barraco era o estabelecimento oficial onde a criançada aprendia o bêábá.
O facto é que a gaiatada ouvia compenetrada as aulas do professor, papagaiando em coro os ensinamentos, como se a matéria tivesse de ser enfiada à força nas suas cabecitas, método assaz interessante que me levou uma ou outra vez a aparecer, espreitando a aula conduzida com alguma solenidade pelo professor.Mas vamos ao que interessa. Daí a dois dias, partiria a coluna que faria o reabastecimento ao Rivungo. O stock de cerveja, tabaco e géneros estava perigosamente baixo o mesmo acontecendo com as reservas dos PSP’s nos Kimbos que ficavam no percurso. E isso era razão mais do que suficiente para que fosse considerada vital a reposição dos níveis antes que se esgotassem.
Para a missão foi destacado o Leitão que encetou os preparativos. O Gameiro tratou de coordenar o carregamento de grades de cerveja, tabaco e outras coisas da cantina há muito requisitadas e o Morais mandou separar os géneros que o cozinheiro do Rivungo necessitava. Seria necessário ainda aguardar a chegada do Nord Atlas que semanalmente nos trazia os frescos da Manutenção Militar, aproveitando-se o ensejo para levar ao pessoal ali destacado alguma carne, ovos, hortaliças ou qualquer outra coisa que resistisse ao calor e aos solavancos das viaturas e ao mesmo tempo, não se estragasse durante a longa viagem. Na messe, à noite, depois do jantar, à volta com a última cerveja do dia, o assunto veio à conversa. Não obstante as suas funções não o obrigarem a sair para a mata, privilégio que muitos invejavam, o Gabriel gostava de, sempre que podia, fugir do espaço entediante do arame farpado. Ia à caça, por mais do que uma vez foi ao Rivungo, a Mavinga, Neriquinha Velha e Chicove; integrou a primeira incursão ao Esquadrão conduzindo ele próprio uma das berliets, era sempre voluntário para sair em auxílio de quem tivesse ficado atascado nas chanas lamacentas, como aconteceu comigo nas planícies do Cúbia e não resistia a, por vezes, ir à lenha ou às lavras da população quando calhava.
Assim, aquela viagem vinha mesmo a jeito; iria espairecer, matar saudades da malta que estava no Rivungo, dar dois dedos de conversa aos polícias do Liahona, do Mugamba e do Demba, beber umas cervejolas com o chefe França e com um pouco de sorte, até podia ser que apanhasse algumas palancas nas chanas do Cúbia.
- Tá decidido! Vou contigo. Sentenciou dirigindo-se ao Leitão.
No dia seguinte, a chegada do Nord trouxe uma surpresa. Antes que se abrissem as portas traseiras por onde se descarregariam as caixas recheadas de géneros, uma figura feminina, com aspecto frágil, descia timidamente pelas escadinhas dependuradas da estreita porta lateral. A sua tez, de um castanho suave, não deixava dúvidas quanto à raça, embora, pelo menos para mim, não permitisse definir a etnia. A pele, visivelmente bem tratada e a indumentária, indiscutivelmente citadina embora humilde e vulgar, deixavam antever que não se tratava de uma qualquer mulher da Neriquinha de regresso à sua terra.
Todos os olhares convergiram para a figura da mulher que acabara de aterrar naquele fim de mundo. Não porque se questionassem sobre o porquê de tão inesperada visita, mas por outras razões. Preta ou não, o seu aspecto distanciava-se do ar andrajoso e sujo das mulheres do kimbo. O olhar guloso de cada um, seguindo com avidez o seu andar sensual era disso sinal bem evidente; havia meses que não punham a vista numa mulher de jeito e por isso, ainda que à distância, aquela foi acariciada, quase violentada e praticamente despida pelos olhares de tantos quantos presenciavam a cena, saciando, ainda que por breves instantes, pecaminosos desejos a muito custo contidos.
Só depois é que a curiosidade veio ao de cima. Quem seria? Porque veio no Nord? Estaria só de passagem como da outra vez em que se avariou o motor do Dakota? Ou vinha para ficar?
Afinal não havia mistério. Tratava-se da professora que iria reger a escola do Rivungo. Só não se percebeu por que veio de Nord, via Luso, quando o mais natural seria vir de Serpa Pinto, na carreira dos pequenos aviões da Tasa que nos traziam o correio e que a levaria direitinha ao Rivungo. Mas provavelmente sairia mais caro, já que a viagem de Nord era de borla. A coitada da professora é que não se terá apercebido que assim, teria de fazer a parte restante da viagem integrada na nossa coluna de reabastecimento. E isso não era pera doce. Sete horas sobre uma berliet aos saltos pela picada irregular e empoeirada, suportando as inclemências do tempo, não seria propriamente um passeio para uma menina que parecia não estar habituada a tais provações.
Mas não havia outra solução. Creio que lhe reservaram um lugar ao lado do condutor, acomodação que, não obstante o assento de lona, sempre era mais confortável do que viajar sentada sobre uma caixa qualquer. Acomodou-se o melhor que pôde e lá partiram, mata adentro, ao sabor dos meandros caprichosos do percurso, ficando o assunto esquecido mal a última berliet desapareceu, lá ao fundo, na curva da picada.
Bem! Esquecido por todos, menos pelo capitão. A verdade é que o Gabriel decidiu ir na coluna, mas não passou cavaco ao comandante da companhia e creio que nem sequer ao primeiro-sargento que, para além de ser o superior hierárquico imediato, costumava estar por dentro de tudo o que se passava. E isso não caiu bem, especialmente porque ninguém tirava da cabeça do capitão que a decisão do Gabriel, à sua revelia, tinha a ver com a professorinha. A forma sorrateira como o furriel se desenfiou cheirava a rabo de saias e isso ainda era mais grave. Todos se aperceberam do descontentamento do capitão e a julgar por um subtil comentário feito pelo primeiro-sargento ao jantar, viria borrasca para cima do Gabriel mal regressasse da viagem.
Mas disso nem ele sabia e se bem o conheço, nem nisso pensava. Certamente que nem lhe terá passado pela cabeça que a sua decisão em fazer aquela viagem com o Leitão lhe iria trazer dissabores. Disso só se apercebeu, volvidos dois dias quando, no fim de mais um regresso do Rivungo, as berliets se imobilizaram na parte inferior da parada como faziam sempre. Era o momento de sacudir o pó, desaperrar as armas e esticar o corpo cansado e moído de tantos safanões resultantes dos saltos e ressaltos que as irregularidades da picada impunham às viaturas. Nesse ínterim, alguém lhe soprou que o capitão se preparava para lhe dar uma porrada. No mínimo, de uma piçada ninguém o livrava. Na dúvida, o Gabriel preparou-se para a borrasca, provavelmente engatilhando explicações que justificassem a infracção que entendia não ter existido.
Ouviu sermão e música cantada, foi avisado, admoestado e ameaçado com uma punição severa. Mas a porrada ficou suspensa. O Leitão poderia confirmar que tudo fora combinado antes da chegada do Nord; A professora não poderia ter sido o leitmotiv.
Foi a vez do Leitão que, por sua vez, foi questionado, interrogado, apertado, ouviu por longo tempo as mil uma razões que justificavam a porrada. Umas quantas, no entender do capitão, eram suficientemente graves para justificar uma punição severa.
Mas nada aconteceu. Ou porque o capitão entendeu que as justificações mereciam credibilidade ou porque confiou na palavra do Leitão, o Gabriel saiu incólume. Não me admiro nada que a sua sorte tenha sido ditada pela confiança que o capitão depositava no Leitão. Era o furriel mais antigo, era sério, cumpridor, não se baldava e não criava problemas. Sim, é bem provável que isso tenha pesado na decisão.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
A tsé-tsé e os elefantes do Chicove
Aquela zona do Kuando Kubango, pelo menos a estreita faixa delimitada a sul pelo rio Utembo e a norte pelo Lomba, estendendo-se desde as margens do Cuando até praticamente a vizinhança com o Cuito, caracterizava-se por uma fauna rica e variada. Ali era o reino da imponente palanca preta e da gigantesca gunga, a par com uma multiplicidade de animais selvagens que aprendi a conhecer mesmo à distância, ao ponto de já os conseguir identificar pelo trote. A correria deselegante do caixote distinguia-se perfeitamente da do guelengue e nenhuma se comparava com a elegância majestosa da palanca ou com o passo empertigado do songue. Até o local onde costumavam pastar servia para os identificar: o songue frequentava sempre zonas alagadas, o búfalo procurava a sombra das árvores e a pequena cabra do mato saltitava por tudo quanto era canto.Tirando isso, e não contando com os jacarés e hipopótamos abundantes ao longo do curso do Cuando, apenas as hienas habitavam a região, mas essas, precavidas, não se metiam connosco. Mal sentiam a nossa presença zarpavam à procura de melhor companhia. Ainda assim, por uma vez, ou porque as provocámos ou por simples mau feitio, uma família delas tornou-se ameaçadora, obrigando o pessoal a abater algumas pondo as restantes em debandada. Quanto ao mais, nem uma simples cobra deu as caras por aquelas bandas, não obstante dizer-se que abundam em África.
Mas algo me intrigava. Até certa altura, nunca vira elefantes e, segundo aquilo que se ouvira, esses bichos mastodônticos deveriam habitar a região. Dizia-se que, garantidamente, onde houvesse elefantes haveria mosca tsé-tsé. E todo o pessoal da companhia fôra expressamente vacinado contra a doença do sono que se sabe ser por ela transportada. E o reforço da vacina, feito de seis em seis meses, era uma espécie de confirmação de que o bicho andaria pelas matas. Também é verdade que nunca vira um desses insectos, mas sempre atribui o facto a não os saber identificar. Explicaram-me que se distinguiam das demais pelas asas cruzadas e pouco mais. Para mim, moscas são moscas e por ali havia muitas, umas pequenitas outras normais mais umas quantas diferentes das que sempre conheci. Mas nenhuma delas me parecia corresponder á descrição do temível insecto.
A partir de certa altura deixei de me preocupar com isso. Se nunca vira elefantes o mais natural é que também não haveria tsé-tsé nas redondezas. Se calhar tinham emigrado juntamente com os paquidermes que se mostravam arredios.
Até o dia em que fui informado que iria integrar o grupo encarregue de executar uma acção de patrulhamento à mata que se estendia para além do Chicove, local que, até então, nunca tínhamos visitado. O Chicove era um curto braço de chana que, correndo abaixo do Rio Lomba, levava até ao Cuando a água que para ali escorresse durante a época das chuvas. Não podia ser considerado um rio, mas exibia aqui e ali uns charcos enlameados onde javalis costumavam chafurdar. Situava-se a norte da Neriquinha, e alcançava-se em pouco tempo percorrendo uma picada que, nascendo numa perpendicular à pista, formava uma linha recta fácil de percorrer.
Talvez por isso, era um sítio que se visitava amiúde. Era perto, a picada não era má, tinha uma chana extensa e normalmente aparecia caça que justificava a viagem. Contudo nunca se atravessara a chana até ao outro lado. Podia-se fazê-lo a pé mas presumia-se que do outro lado não havia nada que justificasse o esforço e de viatura, arriscava-se o atascanço.
Contudo, os planos de actividade operacional da companhia haviam de anular a lacuna. A operação foi planeada com o fim de patrulhar uma pequena área da extensa mata que separava o Chicove do Rio Lomba e a missão foi destinada ao meu grupo de combate reforçado com mais uns quantos homens. A princípio pensei tratar-se de uma operação importante já que o comando ficou directamente a cargo do Capitão que não dispensou a participação do alferes Oliveira. Contudo, não era uma operação complicada; de acordo com os planos, seríamos largados num dia e recolhidos no outro, particularidade que caracterizava as acções de simples rotina. Apenas me preocupava as recomendações que foram feitas; quico bem enfiado na cabeça, mangas descidas e bem abotoadas e se possível um cachecol à volta do pescoço. O Oliveira avisara ser quase certo encontrarmos a temível tsé-tsé e, por isso, era preciso diminuir ao máximo a área exposta.
As viaturas largaram-nos ao princípio da manhã no Chicove e encetámos a curta travessia do descampado que nos separava do outro lado. Abotoei o colarinho até cima, desci as mangas da camisa, enterrei bem o quico na cabeça e iniciámos a marcha penetrando arvoredo adentro seguindo sem pressa um trajecto paralelo à chana em direcção à foz, se assim se pode chamar ao encontro da chana do Chicove com a imensa planura do Cuando.
O aviso sobre a mosca pôs-nos todos de sobreaviso. Por mim e mal se iniciou a caminhada, procurei descortinar em cada insecto esvoaçante as características de que ouvira falar: asas cruzadas, tamanho indefinido, não fugia quando enxotada. Mas, que diabo, ali todas as moscas tinham essa mania, alapavam-se à pele e não fugiam quando as sacudíamos. E o pior é que nem conseguia ver se tinham ou não as asas cruzadas. O melhor era considerar que todas as que pousassem eram uma ameaça. Mas isso acontecia continuamente. As moscas abundam em áfrica, gostam do calor e da humidade, são atraídas pelo cheiro a merda e parece que também pelo do suor humano. Fartos de esbracejar, procurando em vão enxotá-las, já não importava se eram tsé-tsé ou outra estirpe qualquer, a solução passou pelo recurso a um pequeno ramo mantido em permanente agitação, varrendo sistematicamente a cara com as folhas. Transportando ou não a doença do sono, procurava-se evitar que alguma conseguisse pousar por tempo suficiente para largar a praga.
Caminháramos durante toda a manhã e mais de metade da tarde sem que se avistasse qualquer sinal de elefantes, diminuindo-se o ritmo do cansativo abanar do ramo verde com que se procurava obstar ao persistente ataque das moscas. Por mim, estava praticamente convencido que aquele bocado de mata não era diferente de todos os outros que já se conheciam. Aliás, se na mata do outro lado da chana, já por nós percorrida inúmeras vezes, nunca se haviam divisado sinais de elefantes ou da exótica mosca, por que raio os haveriamos de encontrar, logo ali, tão pertinho, mesmo do outro lado do inofensivo Chicove?
As coisas são mesmo assim. Mal a dúvida acabara de se instalar na minha cabeça, um grupo de elefantes surgiu na nossa peugada, como se, vindos do mesmo lugar, nos estivessem vindo a seguir. Era um pequeno grupo, talvez uma família de meia dúzia de animais, uns maiores outros mais pequenos, caminhando no seu trote indolente como se, em passeio, desfrutassem a despida paisagem circundante sem pressa ou correrias. No meu entender, era como se estivessem em casa, não iam a lugar nenhum. Simplesmente deambulavam.
No imediato, não reagimos. Desde o início da caminhada que se esperava ver elefantes. Mas, naquele exacto momento, o seu aparecimento pareceu inesperado. Permanecemos quedos e mudos sem saber bem o que fazer. O problema é que os bichos vinham na nossa direcção. Não pareciam ameaçadores mas temíamos pela sua reação perante aquele grupo de seres estranhos e provavelmente nunca vistos por ali. Conferenciámos à boca pequena e o capitão alvitrou que o melhor era ficarmos quietos. Recuámos um pouco procurando fugir ao que parecia ser a trajectória da caminhada dos paquidermes e deixámo-nos ficar em silêncio.
Os bichos aproximaram-se, passaram por nós sem pressas e ignorando completamente a nossa presença seguiram o seu caminho até desapareceram por entre o arvoredo.
Nós, também seguimos o nosso caminho como se, sem convicção, os perseguíssemos. Durante algum tempo esquecemo-nos da malfadada mosca. É que, se se confirmasse a regra, havendo elefantes também haveria tsé-tsé. Continuei a tentar identificá-la por entre as centenas que esvoaçavam à minha volta sem que conseguisse encontrar uma com o aspecto que julgava já ter interiorizado. Na dúvida voltei a agitar o ramo que, entretanto, não largara.
Afinal, havia elefantes a norte do Chicove e eu vi-os. Mas só daquela vez. Contudo, não fiquei tão certo de ter avistado a tsé-tsé. Ainda hoje não tenho a certeza de que tal coisa se tenha cruzado comigo durante os longos dezoito meses passados nas Terras-do-Fim-do-Mundo.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
17º Almoço de Convívio
O encontro deste ano realiza-se no Restaurante "Oficina dos Sabores", em Aveiras de Cima, no último sábado de Maio, dia 26.
A concentração será no parque de estacionamento do restaurante pelas 12h
EMENTA
Entradas: Tradicionais petiscos da Região
Sopa
Prato Carne
Sobremesa: Frutas e Doce
Bebidas: Vinhos e Sumos
Café
Digestivos
Bolo comemorativo
Preço por pessoa: 20 euros
LOCAL:
Restaurante “Oficina dos Sabores”
Estrada Nacional 366 – Km 23,6 – Ladeira
2050 Aveiras de Cima
GPS: Lat. 39º,07 N – Long. 08º,53 O
http://oficinadossabores.com.sapo.pt/
Como chegar :
Viajando pela A1 do sentido Porto –Lisboa ou Lisboa – Porto, sair na Saída de Aveiras.
Passando as portagens encontrará uma rotunda, na qual deves sair na saída da esquerda, cujas indicações são “Aveiras” e “Azambuja” e entrarás na vila pela rua principal.
Segues essa rua sempre em frente, atravessas a vila e passas pela Cruz Vermelha, pela Igreja já na saída da vila, passas por baixo do viaduto da A1 e encontrarás o restaurante à tua esquerda.
O restaurante dispõe de parque privativo.
A concentração será no parque de estacionamento do restaurante pelas 12h
EMENTA
Entradas: Tradicionais petiscos da Região
Sopa
Prato Carne
Sobremesa: Frutas e Doce
Bebidas: Vinhos e Sumos
Café
Digestivos
Bolo comemorativo
Preço por pessoa: 20 euros
LOCAL:
Restaurante “Oficina dos Sabores”
Estrada Nacional 366 – Km 23,6 – Ladeira
2050 Aveiras de Cima
GPS: Lat. 39º,07 N – Long. 08º,53 O
http://oficinadossabores.com.sapo.pt/
Como chegar :
Viajando pela A1 do sentido Porto –Lisboa ou Lisboa – Porto, sair na Saída de Aveiras.
Passando as portagens encontrará uma rotunda, na qual deves sair na saída da esquerda, cujas indicações são “Aveiras” e “Azambuja” e entrarás na vila pela rua principal.
Segues essa rua sempre em frente, atravessas a vila e passas pela Cruz Vermelha, pela Igreja já na saída da vila, passas por baixo do viaduto da A1 e encontrarás o restaurante à tua esquerda.
O restaurante dispõe de parque privativo.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Passar o tempo
Depois de muitos meses passados na Neriquinha, entremeados com duas estadas no Rivungo, a vida foi-se paulatinamente tornando monótona e nem as esgotantes operações pelos recantos da savana sem fim conseguiam quebrar a modorra que obrigatoriamente caracterizava o dia-a-dia vivido na espectativa de sair dali.
Ali, o quebrar da rotina tinha dia marcado: duas vezes por semana o pequeno avião que nos trazia o correio, uma visita semanal do Nord Atlas com o reabastecimento de frescos e mensalmente a azafama do MVL com o abastecimento de tudo o que não era perecível. Tirando isso, só a preparação das indesejadas operações nos faziam sair da indolência, mas essas, pelas piores razões, já que, era preferível o ócio na protecção do arame farpado do que três dias a calcorrear as matas arenosas à torreira do sol e à mercê das inclemências de um clima pouco amigável. Assim, sem sítio aonde ir e confinados à clausura do arame farpado, dava-se que fazer à imaginação na permanente demanda do que quer que servisse para ocupar o tempo que sobrava das tarefas que a cada um estavam cometidas. E tudo servia para matar o marasmo reinante, desde as ocupações mais eruditas às mais singelas, passando por muitas parvoíces e outras tantas palhaçadas. Na verdade, o que mais interessava era que o tempo passasse depressa de forma a encurtar a distância que nos separava do dia mais desejado: aquele em que seríamos tirados dali. E para isso, valia tudo o que se pudesse inventar. Por exemplo, um dos cabos da força aérea que ocupava as instalações no lado oposto da parada, lado a lado com a horta, adoptou uma galinha como animal de estimação. E como se isso não bastasse, certo dia, amarrou um cordel ao pescoço do galináceo, levando o bicho a passear pelo kimbo, como cãozinho pela arreata, elevando o passatempo a patamares do ridículo, próprio de quem, apanhado pelo clima e sem mais nada com que se ocupar, atingira níveis de insanidade extremos.
Contudo, não obstante tanta provação, os dias vazios tinham algumas vantagens. Pôr a leitura em dia era uma delas. Foi na Neriquinha que me dediquei de corpo e alma à leitura de uma obra que, de outra forma, não sei se me disponibilizaria a ler. O Pavilhão dos Cancerosos de Soljenitsine é uma obra extensa, gorda e chata, deprimente e doentia que só fui capaz de ler porque, na altura, não havia outro livro à mão. Não me lembro de quem era, mas estava capaz de apostar que era do Viola. Ou o trouxe com o mesmo propósito, ou alguém de mau gosto lho enviou pelo correio.Os soldados, embora compreensivelmente menos apetrechados culturalmente, também se dedicavam à leitura. Contudo, com uma excepção ou outra, bastavam-se com as revistas enviadas pelo Movimento Nacional Feminino, recolhidas dos monos amontoados nos armazéns da Agência Portuguesa de Revistas. O pior é que, na sua maioria, eram fotonovelas, onde pontuavam as famosas “Corin Tellado” e as “Capricho” entre muitas outras que, copiando a receita, exploravam o filão muito em voga na altura, revistas essas que, não obstante se destinarem fundamentalmente ao sexo feminino, eram encaminhadas para soldados sedentos de mulher, pouco importando que a leitura fosse inadequada. O facto é que essas revistas eram devoradas, mais pelas fotografias de mulheres do que pela história que era suposto contarem.
Uma ou outra chegava à camarata dos furriéis, onde eram lidas sem pruridos culturais de maior. Contavam histórias de amor impossível, ilustradas com fotografias a preto e branco e de pouca qualidade que nem dava para perceber se a “gaja” valia alguma coisa. Algumas, com um enredo falho de imaginação, eram lidas em conjunto. Três ou quatro juntavam-se em grupo, liam os diálogos em voz alta, ridicularizando a história com comentários boçais numa galhofa colectiva. Pode parecer parvoíce, mas era um entretém que ocupava uma parte do dia, divertia e trazia boa disposição.
Lembro-me de que, certa vez, após a chegada de mais um lote de fotonovelas baratas remetidas pela secção de Movimento Nacional Feminino de Serpa Pinto, uma delas, de uma colecção desconhecida, chegou às nossas mãos. Nessa brincadeira, entrou o alferes Aranha que, em plena parada, com a revista numa das mãos e colocando um tom shakespeariano na voz, declamava os diálogos ao mesmo tempo que teatralizava com meneios do corpo e gestos de mão a preceito, as cenas mais dramáticas da trama, contendo o riso a muito custo, face às gargalhadas dos circunstantes. Hoje, a atitude do Aranha pode parecer não ter tido piada, mas lembro-me que, naquela altura, o enredo ganhou interesse, exactamente porque o drama fotonovelesco foi travestido de comédia. Mas, não foi por isso que aquele género de romance ilustrado, empacotado a sépia nos quadrinhos da revista, deixou de ser lido. À falta de melhor, mais uns Capricho’s e um ou outro Corin Tellado do lote recém-chegado, foram igualmente lidos, nem que fosse para apreciar o físico mal delineado das protagonistas femininas da trama.E era assim que, por estas e por outras, se concluía finalmente:
- Tás mas é cacimbado!
Ou seja, culpava-se o clima pelas nossas saudáveis brincadeiras, esquecendo-se que talvez a juventude justificasse uma boa parte dos exageros. Se a minha memória não me falha, herdámos dos velhinhos da companhia anterior umas brincadeiras igualmente parvas, cujos rituais mantivemos mesmo depois de se terem ido embora. O famoso “cu de boi” não passava de um ritual idiota que se resumia a bater freneticamente num tambor que por ali foi deixado, acompanhado de gritos guturais que se limitavam a repetir, até à exaustão, o refrão:
- Cu de boi, tum, tum, tum,… cu de boi, tum, tum, tum …cu de boi ….
A parvoíce ainda durou uns tempos, mas foi rapidamente substituída por outras menos barulhentas.
Certa noite, uma daquelas noites quentes em que não corria a mais pequena brisa, fomo-nos juntando, após o jantar, no pequeno pátio fronteiro á camarata, já que, no seu interior, o calor abafado se tornara insuportável obrigando-nos a abandonar o jogo de cartas que nos entretinha a maior parte das vezes. Ocupavam-se os poucos assentos que por ali havia, umas cadeiras de ferro cujo assento era feito de tiras de plástico interlaçado e uns cadeirões improvisados construídos a partir de restos de aduelas de barril.
Não me lembro exactamente de quem, mas alguém saíu sorrateiramente, foi aos balneários, encheu um balde com água e despejou-o sobre o que estava mais à mão. Foi a risada geral, perante o ar surpreso da vítima que, não obstante o banho inopinado, não se mostrou agastado nem esboçou a mínima revolta. Pelo contrário, aquele balde de água pareceu chegar como uma bênção, perante o calor que se fazia sentir. Levantou-se, entrou na camarata com o propósito de se limpar e mudar de roupa, demorou algum tempo e sorrateiramente, encheu o mesmo balde, aguardou um momento de distracção da malta e atirou a água que acertou em cheio no autor da brincadeira, molhando também os que se encontravam à volta.Este segundo banho contagiou o resto do pessoal que, abandonando o local, se foi disfarçadamente munindo do vasilhame que encontrou, desde alguidares, tachos da cozinha, jarros e vasilhas desencantadas não sei onde, enchendo-as sorrateiramente onde encontrassem uma torneira: na messe, nos balneários dos praças e outros ainda na messe de oficiais.
O facto é que daí a pouco, todos atiravam água uns aos outros, criando emboscadas, surgindo de repente ou inventando estratégias para apanhar alguém distraído. Quanto maior a surpresa de quem levava o banho maior a piada.
Andámos nisto um bom bocado da noite, até que, ou pelo cansaço, pelo adiantado da hora ou porque a coisa perdeu a graça, se deu por finda a brincadeira. Arrumaram-se tachos alguidares e baldes e, certamente bem mais frescos, cada um recolheu ao seu canto.
Foi sem dúvida um serão diferente. Desta vez, as leituras, as jogatinas de king e as rodadas de sueca, foram substituídas por uma estranha espécie de apanhada que obrigou a maioria a um duche ao recolher.

quinta-feira, 12 de abril de 2012
Notícias recentes do Rivungo
O Jornal de Angola publicou em Fevereiro um artigo desenvolvido sobre o Rivungo. Volta a falar-se de itinerários minados e da dificuldade em circular.
A notícia fala da intenção de construir uma estrada entre Mavinga e o Rivungo.
Ver notícia aqui
A notícia fala da intenção de construir uma estrada entre Mavinga e o Rivungo.
Ver notícia aqui
domingo, 1 de abril de 2012
Frigoríficos a petróleo
Quando pela primeira vez pisei o chão vermelho da pista empoeirada da Neriquinha, experimentei um misto de surpresa e desagrado. O cenário que se me deparou era muito pior do que qualquer expectativa pessimista. Até então, apenas nos tinha sido comunicado o nome do local que nos havia saído em sorte, mas sem qualquer informação do que nos esperava. Só ao fim da derradeira etapa da longa viagem que nos levou de Lisboa aos confins das Terras-do-Fim-do-Mundo, quando o Nord Atlas já sobrevoava as chanas nas imediações do nosso destino, nos apercebemos que estávamos a aterrar no meio de coisa nenhuma, a verdadeira personificação do degredo num dos locais mais inóspitos do território angolano.Corria o mês de Novembro daquele ano de 1971 e o calor fazia-se sentir em toda a sua pujança. Um bafo quente de ar saturado de pó avermelhado atiçado pelo rodopiar das hélices do avião, atingiu-me como uma bofetada de boas vindas quando, abandonando a barriga da aeronave, tocava pela primeira vez o solo que haveria de palmilhar durante os longos dezoitos meses que durou a missão da 3441 naquele fim de mundo.
Segui maquinalmente os meus companheiros de aventura em direcção ao centro daquela espécie de acampamento militar, olhando em redor como que anestesiado pela desolação envolvente sem me dar conta, pelo menos no imediato, de que aquele exíguo espaço, perdido no meio da imensa savana, mais se assemelhava a uma espécie de base remota, sem nada em volta ou o que quer que fosse que pudesse ser chamado de vizinhança. Para lá do limite do arame farpado, apenas existia mata e mais mata, numa sucessão infinitesimal de coisa nenhuma.
Entrei na messe, situada no barracão localizado mais ou menos ao centro do perímetro e aproximei-me do pequeno balcão arrumado a um canto. A garganta seca e o desconforto provocado pelo calor intenso exigiam qualquer coisa fresca. Lembro-me de ter pedido uma cerveja que sorvi sofregamente de um só golo, sem reclamar do facto de estar pouco fresca. Simplesmente intui que a canícula condicionava as capacidades do frigorífico, especialmente se se tiver em conta o ritmo a que as bebidas eram consumidas. Fosse como fosse, nem por um momento me passou pela cabeça que, num sítio daqueles, poderia nem haver frigoríficos. Sempre me habituei à sua existência mesmo nos lares mais pobres ou nas tascas mais humildes. É verdade que tomei consciência de que estávamos num local com aspecto de prefabricado provisório mas, naquele momento, nem me ocorreu pensar que, num sítio como aquele, não haveria rede eléctrica pública. São coisas em que não se pensa, especialmente se se está formatado para considerar a energia eléctrica como sendo um bem essencial existente em qualquer lugar.
Mas não na Neriquinha e arredores. Por ali não havia electricidade permanente. Apenas um pequeno gerador que só podia funcionar nas escassas três ou quatro horas que iam desde o cair da noite até ao recolher e isso não seria suficiente para alimentar frigoríficos que teriam de trabalhar dia e noite.
Na verdade, ali os frigoríficos eram alimentados a petróleo. E para que funcionassem satisfatoriamente, era preciso abastecer os depósitos amiúde e dispensar-lhes cuidados especiais. Mas disso só me apercebi depois de chegar ao Rivungo. O meu grupo de combate fora o escolhido para render aquele destacamento e por isso, tinha sido o primeiro a chegar, tendo permanecido na Neriquinha apenas o tempo suficiente para engolir um almoço de massa com salsichas, mistela que, vim a saber mais tarde, era sempre servida aos maçaricos como praxe de boas vindas, dando sentido à espécie de saudação com que fomos recebidos e que se resumia a um chavão cujo significado na altura não percebi:
- É só zala!
Ora, na língua dos Ganguelas, zala significa fome.
Como ia dizendo, só comecei a dar-me conta das particularidades dos frigoríficos a petróleo, depois de ter chegado ao Rivungo. No fim daquela infernal e quase interminável primeira viagem pelas picadas arenosas da savana, fui incumbido de receber a cantina e com ela o frigorífico que a equipava. A passagem do testemunho incluiu uma breve explicação do seu funcionamento e respectiva manutenção, instruções dadas de forma muito resumida já que os velhinhos tinham pressa em sair dali.
- Se queres ter cerveja fresca todos os dias, toma atenção! Avisou-me o furriel que eu iria substituir, enquanto assinava as guias que atestavam a transferência de responsabilidade.
Se a minha memória não me atraiçoa, o petróleo do frigorífico acabou ainda não tinha decorrido uma semana, pelo que chegara a altura de por à prova os ensinamentos que recebera: encher o depósito, ajeitar o pavio e pôr tudo a funcionar antes que as cervejas aquecessem.
Com a ajuda do cabo Almeida, que no Rivungo foi nomeado o cantineiro de serviço, meti mãos à obra. Retirei, com cuidado, o depósito do petróleo de formato achatado e que, em jeito de arrastadeira, encaixava debaixo do frigorífico, apaguei o pavio incandescente e segui os passos de forma meticulosa, devagar, para não fazer asneira e de forma a garantir que o Almeida aprendesse o ritual, já que, doravante, deveria ser ele a encarregar-se da tarefa.
Não era complicado, mas exigia algum cuidado e minúcia na preparação do pavio. Teria de se eliminar a parte carbonizada garantindo que a chama fosse o mais azulada possível; uma chama amarelada não produzia calor suficiente, fazia muito fumo, entupia a chaminé e o frigorífico não produzia frio. Depois, era só voltar a encaixar o depósito debaixo do frigorífico, garantir que a chama coincidia com o centro da chaminé e rezar para que as cervejas ficassem no ponto.
Daquela vez, a chama não ficou tão azul como deveria, mas, com o tempo, a técnica foi sendo aprimorada. O Almeida foi ganhando experiência, percebendo as manias do aparelho, descobrindo o jeitinho que garantia a chama ideal que, entrando pela chaminé, fazia a vez da electricidade transformando calor em frio.
Ganhou rotina e com isso, confiança. Até um dia. Quando procurava acertar no gargalo do depósito, a mão ter-lhe-á tremido e verteu uma boa porção de petróleo que se espalhou pela superfície delimitada por um rebordo que o reteve. Demorou algum tempo a aparar o pavio, colocou-o com a altura mais adequada, ajeitou o depósito e preparou-se para o acender. Não sei se por esquecimento, excesso de confiança ou se simplesmente deduziu que não haveria perigo, não limpou o excesso de petróleo que se derramara. Riscou o fósforo e no momento em que aproximou a chama do pavio, incendiou o combustível derramado.
A labareda irrompeu com violência, apanhando o Cabo que, de cócoras, se debruçara sobre o depósito para melhor executar a tarefa, não lhe deixando espaço para que se desviasse. A chama lambeu-lhe a parte superior do tronco, apanhou o pescoço e atingiu em cheio a cara do infeliz, incendiando-lhe o cabelo.
Acudiu o enfermeiro que, não sabendo bem o que fazer, o levou para a enfermaria com a ajuda de um ou dois. O Almeida apresentava um aspecto desolador: a pele empolara e desaparecera aqui e ali. E o pior é que a inexperiência do enfermeiro não chegava para avaliar da profundidade das lesões e decidir qual o tratamento mais adequado. Urgia fazer algo de imediato já que eram notórios os esgares de dor do paciente que, a muito custo, se continha para não gritar.
A única hipótese era recorrer ao saber do médico da companhia. Mas o Dr. Lacerda estava na Neriquinha e, dada a gravidade da situação, era o mesmo que estar no outro lado do mundo. O contacto via rádio apresentava-se como única solução, recurso que, aliás, estava previsto nos planos de contingência. O Dr. Lacerda era obrigado a dar consultas via rádio, numa exasperante sequência de códigos dos homens das transmissões, com muitos “base, base, escuto” e outros tantos “ok, transmita”, e uma infinidade de "Alfas", "Bravos" e "Foxtrots" do designado código fonético usado nas transmissões militares, entremeados de instruções médicas.
A verdade é que o enfermeiro lá anotou tudo, acabando o Almeida por ficar com o pescoço e a cara cobertos de tiras amareladas da milagrosa topifurazona que desempenhou a sua função na perfeição, sendo visível o efeito refrescante que refreou o afogueamento e acalmou o ardor do malogrado Cabo.
Por sorte, não obstante a sua dimensão, a queimadura era superficial e ao fim de uma semana a face já só apresentava um aspecto rosado mas sem sequelas de maior, passando depois a um pálido doentio que rapidamente voltou a ganhar a cor bronzeada pela exposição gradual ao sol africano, até desaparecerem todos os sinais do acidente.
Quanto a mim, pelo menos nos primeiros tempos e enquanto durou o impedimento do Almeida, tive de voltar a cuidar do frigorífico garantindo cerveja fresca em condições de matar a sede ao pessoal.
Mas, obviamente redobrei os cuidados que punha no manuseamento do depósito, do pavio e do jerrican do petróleo.
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