sábado, 1 de setembro de 2012

MARABUNTA

É frequente ouvirem-se referências a África que reflectem fobias por bichos. Não exactamente os de grande porte que constituem a sua rica fauna, mas aqueles, os muito pequeninos que se movimentam pelos cantos mais impensáveis, sejam eles rastejantes, voadores ou aquáticos.
Tive oportunidade de confirmar que a savana do sueste angolano é rica em insectos e outros bichos, muitos dos quais eu nunca antes havia visto. E todos eram especiais, próprios daquelas matas. Mesmo os que pensávamos já conhecer eram diferentes, fosse pelo tamanho, ou pelas suas peculiaridades, comportamentos e características. Por exemplo, gafanhotos são gafanhotos em qualquer parte do mundo, não obstante possam apresentar-se sob múltiplos aspectos. Os que por ali esvoaçavam pareciam-me sempre diferentes; no mínimo mais coloridos. As moscas, para além de existirem aos milhões, variavam em tamanho cor e feitio, desde as muito grandes e multicolores até às mais pequeninas e cinzentas. Surgiam do nada, zumbiam como satélites à volta da cabeça e entravam pelo nariz e boca, sugadas pelo simples respirar. A verdade é que infestavam as matas tornando-se especialmente irritantes no auge da canícula, exactamente quando os pulmões, carenciados de ar pelo efeito do calor e do esforço, mais sofregamente bombeavam o oxigénio necessário.
Depois eram os mosquitos, muitos. Parecendo todos iguais, eram diferentes, congregando várias estirpes que nos infernizavam a vida com as suas ferroadas. Proliferam e multiplicam-se nos lodaçais das inúmeras chanas pantanosas que caracterizam a savana do Cuando Cubango e, mal caía o lusco-fusco, levantavam-se em bandos, zunindo à nossa volta à cata de sangue quente e nem as roupas os detinham. Nas matas, trespassavam a dureza do camuflado e na caserna havia sempre um ou outro que conseguia furar a protecção da rede mosquiteira. E acreditem que bastava um para nos lixar a noite.
Depois vinham as espécies rastejantes, onde se contavam as mais exóticas centopeias, escaravelhos multicolores e outros bicharocos estranhos que se passeavam por entre a roupa, mal nos estendêssemos pelo chão procurando recobrar as forças consumidas em caminhadas sobre as areias quentes e soltas que caracterizam o solo de tão inóspitas paragens. Certa noite, enquanto dormia, algures num ponto qualquer da mata, uma dessas criaturas, certamente peçonhenta, entrou-me no ouvido. Inconscientemente devo ter-me coçado. O facto é que, no dia seguinte, uma estranha dor não me largava. A visita que fiz ao enfermeiro, após o regresso ao conforto da Neriquinha, permitiu descobrir uma infecção extensa. Ainda hoje não sei exactamente que bicho me picou, mas lembro-me perfeitamente do estrago que causou e das dores que tive de aguentar enquanto o Pinto, o furriel enfermeiro, procedia a uma desinfecção meticulosa, escarafunchando o ouvido até ter a certeza que tudo ficara desinfectado, tratado e limpo.
Havia ainda as sanguessugas que se escondiam em qualquer lugar onde corresse água, coisa que por ali não faltava, as carraças que se desprendiam do gado, os percevejos, as pulgas, a matacanha, pequenas larvas que, dizem, se infiltravam sob a derme e toda uma variedade de ácaros, opiliões e outros seres estranhos que provocavam micoses, irritações, comichões e alergias várias. Enfim, seres impróprios para coabitarem com o ser humano.
Falta ainda falar das formigas. E por ali havia muitas e para todos os gostos. Algumas estranhas, na sua maior parte inofensivas, mas outras não. Havia-as pequeninas como todas as que conhecemos, outras um pouco maiores e ainda as grandalhonas, cada uma calcorreando afanosamente os carreiros que conduziam ao seu mundo escondido algures nas entranhas da terra ou no interior de um qualquer tronco caído. Por exemplo, a salalé, formiga alada de tamanho significativo era, no meu entender, um bicho espantoso. Construía morros cónicos de dimensão considerável, cuja altura chegava a ultrapassar dois metros, autênticas fortalezas capazes de resistir a todas as intempéries ou ataques; derrubar um morro de séléle, implicava o uso de picareta e um tiro de G3, mesmo que a pouca distância, não o conseguia trespassar.
Por sorte, eram todas inofensivas. Bem, todas, excepto umas vermelhinhas cuja enorme cabeça, agarrada a um abdómen visivelmente menor, lhes conferia um aspecto caricato e ameaçador. Não recordo o nome por que eram conhecidas mas, sempre que as via, lembrava-me da marabunta que deu nome ao filme de Byron Haskin no qual Charleton Heston lutava contra hordas de formigas assassinas.
Certa vez, ali para os lados da Neriquinha Velha, tive oportunidade de verificar a ferocidade destes pequenos seres. Caminhávamos ao longo de uma extensa chana no cumprimento de mais uma das várias operações em que participei. O calor era, digamos, suportável mas, ainda assim, acima dos trinta graus o que, conjugado com o elevado grau da humidade do ar, fazia com que o céu parecesse pesar sobre os ombros, tornando ainda mais penoso o caminhar. Não retenho exactamente qual era o objectivo da acção, mas suponho que, como tantas outras, se destinava a percorrer determinado itinerário numa qualquer missão de patrulhamento. Iniciáramos a caminhada bem cedo palmilhando chanas e matas durante toda a manhã. No momento, seguíamos pela chana evitando o terreno areento da mata onde as botas se enterravam dificultando a marcha e exigindo o redobrar do esforço. Ainda assim, todo o grupo já estava de rastos, exausto, com os músculos dormentes e já descoordenados a obrigarem a uma paragem.
Deixámo-nos cair por ali, cada um no local onde se encontrava, aproveitando a fresquidão da erva verde e da refrescante humidade da chana que, no momento, talvez porque o céu estivesse encoberto, nos pareceu mais agradável do que a sombra das árvores próximas. Retiraram-se dos sacos as latas da ração de combate que se foram abrindo ao som do surdo tilintar das facas de mato cortando o metal e, sem pressa, o petisco sensaborão foi sendo mastigado juntamente com as côdeas do pão duro, cozido na véspera e já esborrachado pelo peso de tudo o que cada um enfiara no saco.
As latas vazias, cheirando a molho ou untadas de óleo, foram sendo depositadas em pequenos montículos, já que a regra impunha que fossem enterradas de modo a não ficarem visíveis sinais da nossa passagem. Mas isso ficaria para quando se iniciasse a marcha, coisa que não levaria mais do que um ou dois minutos já que que o terreno de areia solta tornava a tarefa fácil. Por enquanto, com o estômago composto, preguiçávamos jacentes sobre as ervas, alguns dormitando num quase inútil exercício de preparar o corpo para a inevitável e extenuante caminhada que duraria até ao anoitecer.
A princípio, ninguém deu importância, mas o facto é que se avistou uma das tais temíveis formigas e logo a seguir outra e mais outra. Era bicho que já se conhecia e a cor vermelha associada ao tamanho da cabeça dissipava qualquer dúvida que pudesse existir. E isso significava manter distância das suas ferozes pinças. Sabia-se que tinham o hábito de subir pelas pernas e morder quando se sentiam apertadas e creiam que não eram simples picadinhas; quem estivesse sentado, levantar-se-ia de um salto caso fosse vítima de uma só dessas picadas. Inicialmente, a maioria do pessoal não deu pela sua aproximação; uns dormitavam e outros simplesmente preguiçavam estendidos. Só uns quantos, mais atentos ou despertados por um ferroada inopinada, se aperceberam dos bichos, não lhes dando, contudo, muita importância; simplesmente procuraram afastar-se do seu caminho que notoriamente apontava às latas abandonadas pelo chão.
Mas, sem que nos dessemos conta, o cenário foi-se alterando e, ora um ora outro, começou a sentir o efeito das picadas, ao ponto de alguém ter de despir apressadamente as calças para melhor sacudir uma meia dúzia delas que, subindo pelas pernas, atingira zona sensível. O facto é que ali já não era possível estar. O descanso foi abruptamente interrompido e a debandada foi geral. Arrumaram-se as coisas afastámo-nos uns metros da posição em que estávamos, e mudámo-nos para a orla da mata, longe das formigas, aí permanecendo até que se esgotasse o tempo que havia sido definido para o descanso.
 Chegada a hora, ajeitaram-se os equipamentos e fizeram-se os últimos preparativos para o reinício da caminhada. Faltava apenas enterrar as latas tarefa que não ficara esquecida. Aproximámo-nos do local onde as deixáramos. Surpreendentemente estavam completamente tomadas pelas formigas formando uma espécie de massa compacta qual cobertura viva e fervilhante de milhares de bichos em frenesim. Conhecendo-se a sua ferocidade, não era aconselhável mexer-lhes. Ainda se alvitraram duas ou três soluções mas ninguém se atreveu a esboçar uma qualquer tentativa de aproximação. A decisão não podia ser outra, abandonar o local o mais depressa possível deixando as latas para as formigas.
Daquela vez, ficou por cumprir uma das regras impostas pela segurança; as latas não foram enterradas.
Ao cair da noite, chegado o fim da operação, quando já quase ninguém se lembrava do sucedido, ainda julguei sentir uma ferroada nas partes baixas. A savana é, sem dúvida, um local hostil mesmo que apenas com a contribuição de pequeninos seres.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O Pinheiro recebeu uma carta

Já por mais do que uma vez fiz aqui referência à importância da chegada do correio às terras da Neriquinha. Aqueles dois dias por semana, aqueles em que o pequeno aviãozinho da TASA aterrava no meio de uma nuvem de pó vermelho para nos deixar uma mão cheia de aerogramas carregadinhos de notícias de casa, traziam mais alento ao pessoal do que uma boa refeição de bife com batatas fritas. Era uma espécie de religião, um desejo incontido, um vício irresistível, autêntica dependência saudável, fazendo com que os outros dias fossem meras etapas de um caminho que desaguava em cada terça-feira e se repetia à quinta, seguindo-se um longo interregno com um fim-de-semana pelo meio já que, ali, sábados e domingos não eram diferentes de qualquer outro dia da semana. Desde que não fosse dia de correio eram todos iguais.
De facto, verdadeiramente especial, o nosso dia santo, era mesmo o dia em que se recebiam notícias. E era ver o sossego que se seguia à distribuição da correspondência, recolhendo-se cada um ao seu canto, lendo e relendo avidamente as palavras que, não podendo ser ditas, vinham escritas em cada aerograma azulinho. Era a carta dos pais, dos irmãos, dos tios e primos. Todos escreviam. A da namorada era sempre a primeira a ser lida, cada um à procura do cantinho onde fora deixado o beijo, desvanecido pela distância, já sem gosto mas mentalmente ressuscitado por uma réstia de perfume.
Era bem visível nos semblantes a tristeza daqueles que, por uma razão ou por outra, não recebiam nada. Por vezes, o pai e a mãe, porque analfabetos, tinham de recorrer a um vizinho, ou conhecido e isso condicionava a frequência da escrita. Mas, de vez em quando, nem que fosse uma vez por mês, todos recebiam notícias de lá de longe; com maior ou menor assiduidade lá vinha uma cartita, nem que fosse da madrinha de guerra.
Sim, o correio era fundamental, tão importante como as coisas verdadeiramente importantes. E isso era o que acontecia com todos, desde o oficial ao soldado, a começar no mais erudito e acabando no analfabeto. Sim, porque na 3441 havia uns quantos analfabetos. E, recorrendo ou não ao companheiro do lado, todos se dedicavam à leitura, devorando sofregamente cartas que narravam acontecimentos e transmitiam sentimentos, simples discorrências para encher a folha de papel, pura descrição de assuntos a que só a distância conferia significado.
Mas havia um que não encaixava em tudo isto. Um soldado que, tanto quanto me lembro, nunca recebera uma carta. Não sei a razão. Diziam que apenas tinha uma irmã que, vá-se lá saber porquê, não queria saber dele.
O Pinheiro era um homem estranho. Um chato. E isso via-se no dia-a-dia. Parecia não ter jeito para fazer amigos e, talvez por isso, costumava andar só. Não porque quisesse, mas porque os outros o enxotavam. Quando se nos dirigia, exibia um sorriso sarcástico, parecendo querer provocar irritação. Se calhar era apenas um esgar que não controlava. Um fácies aparvalhado. E ainda por cima era refilão, defeito que procurava disfarçar com bajulice, servilismo encapotado num trejeito untuoso. É isso, o Pinheiro era uma espécie de lambe-botas controverso que não convencia ninguém. Querendo parecer submisso era na verdade um insubmisso, mas no pior sentido do termo, com tendência para o sacana, embora, paradoxalmente, nunca se metesse na vida de ninguém nem criasse problemas.
O seu aspecto físico também não ajudava. As calças puxadas bem para cima, seguras pelo cinto que parecia apertado de mais, afundando a concavidade da barriga e salientando a ligeira aparência recurvada, ajudavam a compor um todo pouco harmonioso. De aspecto frágil, face esguia, bochechas chupadas e marcadas pelas cicatrizes do que teria sido uma acne profunda de que ainda sobravam algumas intumescências pustulentas enfeitadas de pelos mal semeados de uma barba desalinhada e pouco cuidada. Enfim, alguém que não atraía simpatias.
A verdade é que ninguém se lembra de alguma vez ter visto o Pinheiro receber uma carta. Nem da família, nem de qualquer amigo ou conhecido. E, pelos vistos, nem se dera ao trabalho de arranjar uma madrinha de guerra que preenchesse aquele espaço em branco na sua vida e isso podia explicar a sua pouca popularidade entre a malta. Não era apenas a falta de jeito para arranjar amigos; parece que também não seria lá muito popular no seio da família, de quem, aliás, nunca falava. Talvez por isso se pensasse que não tinha pais, havendo algumas referências à irmã, mas que ninguém sabia se era mais nova, casada ou solteira. O Pinheiro falara dela uma ou duas vezes, mas sem adiantar grande coisa. Contudo, isso foi suficiente para suscitar curiosidade:
- Olha lá! A tua irmã não sabe escrever? Perguntou um curioso.
- Ou és tu que não sabes ler? Atalhou outro de forma provocatória.
A tudo isso o Pinheiro respondia com evasivas, como se o assunto incomodasse.
- Não têm nada a ver com isso! Despachava com azedume.
É neste ambiente que surge uma ideia maquiavélica. Não sei de quem, mas começou a germinar em duas ou três cabeças vingativas um plano para fazer uma partida ao Pinheiro: iria receber uma carta. Uma carta remetida pela irmã. Contudo o seu conteúdo haveria de o tirar do sério. Na verdade teria de ficar furioso.
Três ou quatro muniram-se de uma aerograma em branco, sentaram-se na cantina à volta de uma mesa e começaram a escrevinhar:
Meu irmão. Espero que te encontres de boa saúde que eu cá vou indo com a graça de Deus.
Bem, os pormenores não interessam, nem os sei reproduzir. Na verdade nunca li a malfadada carta, mas sei que, no que lá foi escrito, a irmã, para além de o culpar de uma séria de maldades, só não o chamava de santo. Até palavrões meteram no meio de um conjunto de epítetos pouco abonatórios.
Dobraram o aerograma, escreveram o endereço sem grandes pormenores omitindo, por exemplo, o número da companhia já que se pressupunha ser pouco provável que a irmã o soubesse e no dia do correio, com a conivência do cabo escriturário, meteram-no no meio da correspondência.
Como seria de esperar, o Pinheiro não se juntou à pequena multidão que rodeava o sargento-de-dia, à sombra da árvore que, por força do hábito, se tornou o local de distribuição do correio. Contudo, alguém cuidou de o avisar que havia carta para ele.
-Carta? Para mim? Questionou meio incrédulo.
Mas era verdade, ali estava um aerograma amarelinho, com o seu nome no endereço. Mirou, virou o pequeno rectângulo de um lado, revirou do outro. Procurou o remetente mas estava em branco. De quem seria?
Não estando habituado a receber correspondência, nem ligou à cor da missiva. Normalmente, as cartas vindas do puto eram azuis. Os amarelos tinham sentido contrário. A não ser que fossem escritos por outro militar num outro local qualquer da guerra.
Remirou de novo, coçou a cabeça e sem pressa, maquinalmente, desdobrou o aerograma.
Os autores da brincadeira, mais uns quantos que se lhes juntaram, miravam de longe, agremiados, a ver no que aquilo iria dar
O Pinheiro começou a ler, silenciosamente, mantendo um ar carregado, saturado de pontos de interrogação como se questionasse:
-Da minha irmã?
Mesmo ao longe, notaram a alteração gradual do seu fácies. À medida que avançava na leitura, foi ruborescendo, o cenho carregando, os lábios crispando a denunciar a fúria crescente. O seu olhar parecia lançar chispas. Acabou de ler, amarfanhou furiosamente o papel e vociferou colérico:
- Puta de merda! Quem pensa ela que é?
Seguiu-se uma torrente de asneiras, tantas quantas conseguiu sacar do seu reportório de caserna, atirando-as em catadupa para cima da desgraçada, à medida que, gesticulando furiosamente, acelerava o passo em direcção à caserna. Durante um bom bocado ninguém mais o ouviu.
Comprometidos, os autores da patifaria, riam à socapa. Creio que nenhum se atreveu a confessar a autoria do escrito, mesmo sabendo que, se o fizesse, ilibaria a desgraçada das culpas que não tinha. Assim, o Pinheiro continuou convencido de que a carta era mesma da sua infeliz irmã, demonstrando acreditar ser ela capaz disso ou de coisa pior. Razões haveria para que nunca lhe tivesse escrito.
Só não sei se alguma vez se dignou responder à ofensa.

domingo, 1 de julho de 2012

A PROFESSORA

A escola também chegava a cada um dos pequenos aglomerados populacionais das zonas mais remotas do Cuando-Cubango. Não a todos porque, na zona por onde andámos, não havia escola na maioria dos kimbos. Por ali, apenas Mavinga, Neriquinha e Rivungo tinham escola e o respectivo professor. O da Neriquinha, um rapaz tão novo quanto qualquer um de nós, era, à vista da população, uma pessoa importante e muito respeitada: sabia ler, desenhava letras bonitas no quadro e dominava muitos saberes trazidos lá da cidade onde aprendeu.
Eu, e penso que também a maioria dos meus companheiros, achava piada ao facto de insistir em usar gravata num local onde a indumentária mais comum era a tanga. Tal adereço, dependurado no pescoço do homem, sobressaindo sobre a camisa colorida, compunha um quadro ridículo se tivermos em conta a nudez daquele lugar empoeirado onde o calor insistia em torrar tudo à volta. O penduricalho estava nitidamente a mais, especialmente se se tiver em conta que aquelas gentes nunca tal haviam visto. Pelo menos até o professor querer dar-se ares de importante com recurso à indumentária. Até porque, a escola, um modesto barracão coberto de capim equipado com bancos improvisados, não se apresentava com a dignidade suficiente para conferir estatuto ao mestre-escola. Apenas a pequena ardósia, de cor escura, rudimentarmente encostada à parede do fundo, permitia adivinhar que ali era a sala de aula. Não fora isso, dificilmente se intuiria que aquele barraco era o estabelecimento oficial onde a criançada aprendia o bêábá.
O facto é que a gaiatada ouvia compenetrada as aulas do professor, papagaiando em coro os ensinamentos, como se a matéria tivesse de ser enfiada à força nas suas cabecitas, método assaz interessante que me levou uma ou outra vez a aparecer, espreitando a aula conduzida com alguma solenidade pelo professor.
Mas vamos ao que interessa. Daí a dois dias, partiria a coluna que faria o reabastecimento ao Rivungo. O stock de cerveja, tabaco e géneros estava perigosamente baixo o mesmo acontecendo com as reservas dos PSP’s nos Kimbos que ficavam no percurso. E isso era razão mais do que suficiente para que fosse considerada vital a reposição dos níveis antes que se esgotassem.
Para a missão foi destacado o Leitão que encetou os preparativos. O Gameiro tratou de coordenar o carregamento de grades de cerveja, tabaco e outras coisas da cantina há muito requisitadas e o Morais mandou separar os géneros que o cozinheiro do Rivungo necessitava. Seria necessário ainda aguardar a chegada do Nord Atlas que semanalmente nos trazia os frescos da Manutenção Militar, aproveitando-se o ensejo para levar ao pessoal ali destacado alguma carne, ovos, hortaliças ou qualquer outra coisa que resistisse ao calor e aos solavancos das viaturas e ao mesmo tempo, não se estragasse durante a longa viagem.
As berliets foram preparadas, verificaram-se os níveis, encheram-se os depósitos de gasóleo, os pneus foram passados em revista e o Lobato deu as últimas afinadelas. Enfim, tudo preparado com a minúcia que o Leitão costumava exigir. Ficara apenas por resolver um problema de última hora com os condutores. Uma sequência de acontecimentos estava a dificultar a vida ao Gabriel, furriel mecânico da companhia a quem competia a gestão da frota e do respectivo pessoal. Parece que um dos condutores estava doente, um outro argumentou com um impedimento qualquer e como nem todos os outros estavam habilitados a conduzir berliets, a coisa começou a complicar-se, aventando-se a hipótese de ter de avançar um dos que ainda mal descansara da última missão.
Na messe, à noite, depois do jantar, à volta com a última cerveja do dia, o assunto veio à conversa. Não obstante as suas funções não o obrigarem a sair para a mata, privilégio que muitos invejavam, o Gabriel gostava de, sempre que podia, fugir do espaço entediante do arame farpado. Ia à caça, por mais do que uma vez foi ao Rivungo, a Mavinga, Neriquinha Velha e Chicove; integrou a primeira incursão ao Esquadrão conduzindo ele próprio uma das berliets, era sempre voluntário para sair em auxílio de quem tivesse ficado atascado nas chanas lamacentas, como aconteceu comigo nas planícies do Cúbia e não resistia a, por vezes, ir à lenha ou às lavras da população quando calhava.
Assim, aquela viagem vinha mesmo a jeito; iria espairecer, matar saudades da malta que estava no Rivungo, dar dois dedos de conversa aos polícias do Liahona, do Mugamba e do Demba, beber umas cervejolas com o chefe França e com um pouco de sorte, até podia ser que apanhasse algumas palancas nas chanas do Cúbia.
- Tá decidido! Vou contigo. Sentenciou dirigindo-se ao Leitão.
No dia seguinte, a chegada do Nord trouxe uma surpresa. Antes que se abrissem as portas traseiras por onde se descarregariam as caixas recheadas de géneros, uma figura feminina, com aspecto frágil, descia timidamente pelas escadinhas dependuradas da estreita porta lateral. A sua tez, de um castanho suave, não deixava dúvidas quanto à raça, embora, pelo menos para mim, não permitisse definir a etnia. A pele, visivelmente bem tratada e a indumentária, indiscutivelmente citadina embora humilde e vulgar, deixavam antever que não se tratava de uma qualquer mulher da Neriquinha de regresso à sua terra.
Todos os olhares convergiram para a figura da mulher que acabara de aterrar naquele fim de mundo. Não porque se questionassem sobre o porquê de tão inesperada visita, mas por outras razões. Preta ou não, o seu aspecto distanciava-se do ar andrajoso e sujo das mulheres do kimbo. O olhar guloso de cada um, seguindo com avidez o seu andar sensual era disso sinal bem evidente; havia meses que não punham a vista numa mulher de jeito e por isso, ainda que à distância, aquela foi acariciada, quase violentada e praticamente despida pelos olhares de tantos quantos presenciavam a cena, saciando, ainda que por breves instantes, pecaminosos desejos a muito custo contidos.
Só depois é que a curiosidade veio ao de cima. Quem seria? Porque veio no Nord? Estaria só de passagem como da outra vez em que se avariou o motor do Dakota? Ou vinha para ficar?
Afinal não havia mistério. Tratava-se da professora que iria reger a escola do Rivungo. Só não se percebeu por que veio de Nord, via Luso, quando o mais natural seria vir de Serpa Pinto, na carreira dos pequenos aviões da Tasa que nos traziam o correio e que a levaria direitinha ao Rivungo. Mas provavelmente sairia mais caro, já que a viagem de Nord era de borla. A coitada da professora é que não se terá apercebido que assim, teria de fazer a parte restante da viagem integrada na nossa coluna de reabastecimento. E isso não era pera doce. Sete horas sobre uma berliet aos saltos pela picada irregular e empoeirada, suportando as inclemências do tempo, não seria propriamente um passeio para uma menina que parecia não estar habituada a tais provações.
Mas não havia outra solução. Creio que lhe reservaram um lugar ao lado do condutor, acomodação que, não obstante o assento de lona, sempre era mais confortável do que viajar sentada sobre uma caixa qualquer. Acomodou-se o melhor que pôde e lá partiram, mata adentro, ao sabor dos meandros caprichosos do percurso, ficando o assunto esquecido mal a última berliet desapareceu, lá ao fundo, na curva da picada.
Bem! Esquecido por todos, menos pelo capitão. A verdade é que o Gabriel decidiu ir na coluna, mas não passou cavaco ao comandante da companhia e creio que nem sequer ao primeiro-sargento que, para além de ser o superior hierárquico imediato, costumava estar por dentro de tudo o que se passava. E isso não caiu bem, especialmente porque ninguém tirava da cabeça do capitão que a decisão do Gabriel, à sua revelia, tinha a ver com a professorinha. A forma sorrateira como o furriel se desenfiou cheirava a rabo de saias e isso ainda era mais grave. Todos se aperceberam do descontentamento do capitão e a julgar por um subtil comentário feito pelo primeiro-sargento ao jantar, viria borrasca para cima do Gabriel mal regressasse da viagem.
Mas disso nem ele sabia e se bem o conheço, nem nisso pensava.  Certamente que nem lhe terá passado pela cabeça que a sua decisão em fazer aquela viagem com o Leitão lhe iria trazer dissabores. Disso só se apercebeu, volvidos dois dias quando, no fim de mais um regresso do Rivungo, as berliets se imobilizaram na parte inferior da parada como faziam sempre. Era o momento de sacudir o pó, desaperrar as armas e esticar o corpo cansado e moído de tantos safanões resultantes dos saltos e ressaltos que as irregularidades da picada impunham às viaturas. Nesse ínterim, alguém lhe soprou que o capitão se preparava para lhe dar uma porrada. No mínimo, de uma piçada ninguém o livrava. Na dúvida, o Gabriel preparou-se para a borrasca, provavelmente engatilhando explicações que justificassem a infracção que entendia não ter existido.
Ouviu sermão e música cantada, foi avisado, admoestado e ameaçado com uma punição severa. Mas a porrada ficou suspensa. O Leitão poderia confirmar que tudo fora combinado antes da chegada do Nord; A professora não poderia ter sido o leitmotiv.
Foi a vez do Leitão que, por sua vez, foi questionado, interrogado, apertado, ouviu por longo tempo as mil uma razões que justificavam a porrada. Umas quantas, no entender do capitão, eram suficientemente graves para justificar uma punição severa.
Mas nada aconteceu. Ou porque o capitão entendeu que as justificações mereciam credibilidade ou porque confiou na palavra do Leitão, o Gabriel saiu incólume. Não me admiro nada que a sua sorte tenha sido ditada pela confiança que o capitão depositava no Leitão. Era o furriel mais antigo, era sério, cumpridor, não se baldava e não criava problemas. Sim, é bem provável que isso tenha pesado na decisão.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A tsé-tsé e os elefantes do Chicove

Aquela zona do Kuando Kubango, pelo menos a estreita faixa delimitada a sul pelo rio Utembo e a norte pelo Lomba, estendendo-se desde as margens do Cuando até praticamente a vizinhança com o Cuito, caracterizava-se por uma fauna rica e variada. Ali era o reino da imponente palanca preta e da gigantesca gunga, a par com uma multiplicidade de animais selvagens que aprendi a conhecer mesmo à distância, ao ponto de já os conseguir identificar pelo trote. A correria deselegante do caixote distinguia-se perfeitamente da do guelengue e nenhuma se comparava com a elegância majestosa da palanca ou com o passo empertigado do songue. Até o local onde costumavam pastar servia para os identificar: o songue frequentava sempre zonas alagadas, o búfalo procurava a sombra das árvores e a pequena cabra do mato saltitava por tudo quanto era canto.
Animais ferozes é que não abundavam por ali, o que podia explicar a variada e abundante fauna - sem predadores multiplicavam-se. A verdade é que, depois de ter calcorreado parte significativa daquela savana imensa, apenas uma vez avistei um leão, lá muito ao longe ao princípio da manhã quando, montados num unimog conduzido pelo Figueiredo (o comandos) eu, o Silva e um dos fuzileiros da marinha, percorríamos a chana do Utembo à procura de caça. Saíramos do Rivungo a meio da noite, pedimos um guia aos PSP’s do Caxoxo e aventurámo-nos pelo descampado, lá bem para baixo, muito para além do fim da picada que se sumira, como que sugada pelo capim rasteiro, dois ou três quilómetros depois do kimbo. Daí para baixo era apenas a chana imensa que percorríamos com cuidado, procurando avaliar a consistência do terreno não fosse o Unimog enterrar-se no lodaçal traiçoeiro escondido no meio das ervas. Foi um dia perdido, já que de caça nada se avistou que compensasse a caminhada. É que nem sequer uma simples cabrinha para amostra. Ainda hoje estou convencido que o leão os assustou. Andava certamente longe da sua área, talvez perdido, banido do seu grupo ou simplesmente à procura de almoço. Não sei se teve sorte que, cá por nós, voltámos de mãos a abanar sem termos apanhado nada.
Tirando isso, e não contando com os jacarés e hipopótamos abundantes ao longo do curso do Cuando, apenas as hienas habitavam a região, mas essas, precavidas, não se metiam connosco. Mal sentiam a nossa presença zarpavam à procura de melhor companhia. Ainda assim, por uma vez, ou porque as provocámos ou por simples mau feitio, uma família delas tornou-se ameaçadora, obrigando o pessoal a abater algumas pondo as restantes em debandada. Quanto ao mais, nem uma simples cobra deu as caras por aquelas bandas, não obstante dizer-se que abundam em África.
Mas algo me intrigava. Até certa altura, nunca vira elefantes e, segundo aquilo que se ouvira, esses bichos mastodônticos deveriam habitar a região. Dizia-se que, garantidamente, onde houvesse elefantes haveria mosca tsé-tsé. E todo o pessoal da companhia fôra expressamente vacinado contra a doença do sono que se sabe ser por ela transportada. E o reforço da vacina, feito de seis em seis meses, era uma espécie de confirmação de que o bicho andaria pelas matas. Também é verdade que nunca vira um desses insectos, mas sempre atribui o facto a não os saber identificar. Explicaram-me que se distinguiam das demais pelas asas cruzadas e pouco mais. Para mim, moscas são moscas e por ali havia muitas, umas pequenitas outras normais mais umas quantas diferentes das que sempre conheci. Mas nenhuma delas me parecia corresponder á descrição do temível insecto.
A partir de certa altura deixei de me preocupar com isso. Se nunca vira elefantes o mais natural é que também não haveria tsé-tsé nas redondezas. Se calhar tinham emigrado juntamente com os paquidermes que se mostravam arredios.
Até o dia em que fui informado que iria integrar o grupo encarregue de executar uma acção de patrulhamento à mata que se estendia para além do Chicove, local que, até então, nunca tínhamos visitado. O Chicove era um curto braço de chana que, correndo abaixo do Rio Lomba, levava até ao Cuando a água que para ali escorresse durante a época das chuvas. Não podia ser considerado um rio, mas exibia aqui e ali uns charcos enlameados onde javalis costumavam chafurdar. Situava-se a norte da Neriquinha, e alcançava-se em pouco tempo percorrendo uma picada que, nascendo numa perpendicular à pista, formava uma linha recta fácil de percorrer.
Talvez por isso, era um sítio que se visitava amiúde. Era perto, a picada não era má, tinha uma chana extensa e normalmente aparecia caça que justificava a viagem. Contudo nunca se atravessara a chana até ao outro lado. Podia-se fazê-lo a pé mas presumia-se que do outro lado não havia nada que justificasse o esforço e de viatura, arriscava-se o atascanço.
Contudo, os planos de actividade operacional da companhia haviam de anular a lacuna. A operação foi planeada com o fim de patrulhar uma pequena área da extensa mata que separava o Chicove do Rio Lomba e a missão foi destinada ao meu grupo de combate reforçado com mais uns quantos homens. A princípio pensei tratar-se de uma operação importante já que o comando ficou directamente a cargo do Capitão que não dispensou a participação do alferes Oliveira. Contudo, não era uma operação complicada; de acordo com os planos, seríamos largados num dia e recolhidos no outro, particularidade que caracterizava as acções de simples rotina. Apenas me preocupava as recomendações que foram feitas; quico bem enfiado na cabeça, mangas descidas e bem abotoadas e se possível um cachecol à volta do pescoço. O Oliveira avisara ser quase certo encontrarmos a temível tsé-tsé e, por isso, era preciso diminuir ao máximo a área exposta.
As viaturas largaram-nos ao princípio da manhã no Chicove e encetámos a curta travessia do descampado que nos separava do outro lado. Abotoei o colarinho até cima, desci as mangas da camisa, enterrei bem o quico na cabeça e iniciámos a marcha penetrando arvoredo adentro seguindo sem pressa um trajecto paralelo à chana em direcção à foz, se assim se pode chamar ao encontro da chana do Chicove com a imensa planura do Cuando.
O aviso sobre a mosca pôs-nos todos de sobreaviso. Por mim e mal se iniciou a caminhada, procurei descortinar em cada insecto esvoaçante as características de que ouvira falar: asas cruzadas, tamanho indefinido, não fugia quando enxotada. Mas, que diabo, ali todas as moscas tinham essa mania, alapavam-se à pele e não fugiam quando as sacudíamos. E o pior é que nem conseguia ver se tinham ou não as asas cruzadas. O melhor era considerar que todas as que pousassem eram uma ameaça. Mas isso acontecia continuamente. As moscas abundam em áfrica, gostam do calor e da humidade, são atraídas pelo cheiro a merda e parece que também pelo do suor humano. Fartos de esbracejar, procurando em vão enxotá-las, já não importava se eram tsé-tsé ou outra estirpe qualquer, a solução passou pelo recurso a um pequeno ramo mantido em permanente agitação, varrendo sistematicamente a cara com as folhas. Transportando ou não a doença do sono, procurava-se evitar que alguma conseguisse pousar por tempo suficiente para largar a praga.
Caminháramos durante toda a manhã e mais de metade da tarde sem que se avistasse qualquer sinal de elefantes, diminuindo-se o ritmo do cansativo abanar do ramo verde com que se procurava obstar ao persistente ataque das moscas. Por mim, estava praticamente convencido que aquele bocado de mata não era diferente de todos os outros que já se conheciam. Aliás, se na mata do outro lado da chana, já por nós percorrida inúmeras vezes, nunca se haviam divisado sinais de elefantes ou da exótica mosca, por que raio os haveriamos de encontrar, logo ali, tão pertinho, mesmo do outro lado do inofensivo Chicove?
As coisas são mesmo assim. Mal a dúvida acabara de se instalar na minha cabeça, um grupo de elefantes surgiu na nossa peugada, como se, vindos do mesmo lugar, nos estivessem vindo a seguir. Era um pequeno grupo, talvez uma família de meia dúzia de animais, uns maiores outros mais pequenos, caminhando no seu trote indolente como se, em passeio, desfrutassem a despida paisagem circundante sem pressa ou correrias. No meu entender, era como se estivessem em casa, não iam a lugar nenhum. Simplesmente deambulavam.
No imediato, não reagimos. Desde o início da caminhada que se esperava ver elefantes. Mas, naquele exacto momento, o seu aparecimento pareceu inesperado. Permanecemos quedos e mudos sem saber bem o que fazer. O problema é que os bichos vinham na nossa direcção. Não pareciam ameaçadores mas temíamos pela sua reação perante aquele grupo de seres estranhos e provavelmente nunca vistos por ali. Conferenciámos à boca pequena e o capitão alvitrou que o melhor era ficarmos quietos. Recuámos um pouco procurando fugir ao que parecia ser a trajectória da caminhada dos paquidermes e deixámo-nos ficar em silêncio.
Os bichos aproximaram-se, passaram por nós sem pressas e ignorando completamente a nossa presença seguiram o seu caminho até desapareceram por entre o arvoredo.
Nós, também seguimos o nosso caminho como se, sem convicção, os perseguíssemos. Durante algum tempo esquecemo-nos da malfadada mosca. É que, se se confirmasse a regra, havendo elefantes também haveria tsé-tsé. Continuei a tentar identificá-la por entre as centenas que esvoaçavam à minha volta sem que conseguisse encontrar uma com o aspecto que julgava já ter interiorizado. Na dúvida voltei a agitar o ramo que, entretanto, não largara.
Afinal, havia elefantes a norte do Chicove e eu vi-os. Mas só daquela vez. Contudo, não fiquei tão certo de ter avistado a tsé-tsé. Ainda hoje não tenho a certeza de que tal coisa se tenha cruzado comigo durante os longos dezoito meses passados nas Terras-do-Fim-do-Mundo.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

17º Almoço de Convívio

O encontro deste ano realiza-se no Restaurante "Oficina dos Sabores", em Aveiras de Cima, no último sábado de Maio, dia 26.


A concentração será no parque de estacionamento do restaurante pelas 12h

EMENTA

Entradas: Tradicionais petiscos da Região
Sopa
Prato Carne
Sobremesa: Frutas e Doce
Bebidas: Vinhos e Sumos
Café
Digestivos
Bolo comemorativo

Preço por pessoa: 20 euros

LOCAL:
Restaurante “Oficina dos Sabores”
Estrada Nacional 366 – Km 23,6 – Ladeira
2050 Aveiras de Cima

GPS: Lat. 39º,07 N – Long. 08º,53 O

http://oficinadossabores.com.sapo.pt/

Como chegar :
Viajando pela A1 do sentido Porto –Lisboa ou Lisboa – Porto, sair na Saída de Aveiras.
Passando as portagens encontrará uma rotunda, na qual deves sair na saída da esquerda, cujas indicações são “Aveiras” e “Azambuja” e entrarás na vila pela rua principal.
Segues essa rua sempre em frente, atravessas a vila e passas pela Cruz Vermelha, pela Igreja já na saída da vila, passas por baixo do viaduto da A1 e encontrarás o restaurante à tua esquerda.
O restaurante dispõe de parque privativo.



terça-feira, 1 de maio de 2012

Passar o tempo

Depois de muitos meses passados na Neriquinha, entremeados com duas estadas no Rivungo, a vida foi-se paulatinamente tornando monótona e nem as esgotantes operações pelos recantos da savana sem fim conseguiam quebrar a modorra que obrigatoriamente caracterizava o dia-a-dia vivido na espectativa de sair dali.
Os dias passavam, arrastando-se indolentes, numa exasperante teimosia em não estugar o passo, como se o calor, exercendo o seu esgotante efeito no caminhar, contaminasse o tempo, transformando horas em dias e estes em semanas, conferindo maior dimensão à espera e fazendo com que a estada naquele local se eternizasse. A verdade é que os longos meses já passados em lugar tão inóspito mais pareciam anos, contribuindo para, inexoravelmente, tornar cada vez mais difusa a memória de tudo o que deixara para trás.
Ali, o quebrar da rotina tinha dia marcado: duas vezes por semana o pequeno avião que nos trazia o correio, uma visita semanal do Nord Atlas com o reabastecimento de frescos e mensalmente a azafama do MVL com o abastecimento de tudo o que não era perecível. Tirando isso, só a preparação das indesejadas operações nos faziam sair da indolência, mas essas, pelas piores razões, já que, era preferível o ócio na protecção do arame farpado do que três dias a calcorrear as matas arenosas à torreira do sol e à mercê das inclemências de um clima pouco amigável. Assim, sem sítio aonde ir e confinados à clausura do arame farpado, dava-se que fazer à imaginação na permanente demanda do que quer que servisse para ocupar o tempo que sobrava das tarefas que a cada um estavam cometidas. E tudo servia para matar o marasmo reinante, desde as ocupações mais eruditas às mais singelas, passando por muitas parvoíces e outras tantas palhaçadas.
Na verdade, o que mais interessava era que o tempo passasse depressa de forma a encurtar a distância que nos separava do dia mais desejado: aquele em que seríamos tirados dali. E para isso, valia tudo o que se pudesse inventar. Por exemplo, um dos cabos da força aérea que ocupava as instalações no lado oposto da parada, lado a lado com a horta, adoptou uma galinha como animal de estimação. E como se isso não bastasse, certo dia, amarrou um cordel ao pescoço do galináceo, levando o bicho a passear pelo kimbo, como cãozinho pela arreata, elevando o passatempo a patamares do ridículo, próprio de quem, apanhado pelo clima e sem mais nada com que se ocupar, atingira níveis de insanidade extremos.
Contudo, não obstante tanta provação, os dias vazios tinham algumas vantagens. Pôr a leitura em dia era uma delas. Foi na Neriquinha que me dediquei de corpo e alma à leitura de uma obra que, de outra forma, não sei se me disponibilizaria a ler. O Pavilhão dos Cancerosos de Soljenitsine é uma obra extensa, gorda e chata, deprimente e doentia que só fui capaz de ler porque, na altura, não havia outro livro à mão. Não me lembro de quem era, mas estava capaz de apostar que era do Viola. Ou o trouxe com o mesmo propósito, ou alguém de mau gosto lho enviou pelo correio.
Os soldados, embora compreensivelmente menos apetrechados culturalmente, também se dedicavam à leitura. Contudo, com uma excepção ou outra, bastavam-se com as revistas enviadas pelo Movimento Nacional Feminino, recolhidas dos monos amontoados nos armazéns da Agência Portuguesa de Revistas. O pior é que, na sua maioria, eram fotonovelas, onde pontuavam as famosas “Corin Tellado” e as “Capricho” entre muitas outras que, copiando a receita, exploravam o filão muito em voga na altura, revistas essas que, não obstante se destinarem fundamentalmente ao sexo feminino, eram encaminhadas para soldados sedentos de mulher, pouco importando que a leitura fosse inadequada. O facto é que essas revistas eram devoradas, mais pelas fotografias de mulheres do que pela história que era suposto contarem.
Uma ou outra chegava à camarata dos furriéis, onde eram lidas sem pruridos culturais de maior. Contavam histórias de amor impossível, ilustradas com fotografias a preto e branco e de pouca qualidade que nem dava para perceber se a “gaja” valia alguma coisa. Algumas, com um enredo falho de imaginação, eram lidas em conjunto. Três ou quatro juntavam-se em grupo, liam os diálogos em voz alta, ridicularizando a história com comentários boçais numa galhofa colectiva. Pode parecer parvoíce, mas era um entretém que ocupava uma parte do dia, divertia e trazia boa disposição.
Lembro-me de que, certa vez, após a chegada de mais um lote de fotonovelas baratas remetidas pela secção de Movimento Nacional Feminino de Serpa Pinto, uma delas, de uma colecção desconhecida, chegou às nossas mãos. Nessa brincadeira, entrou o alferes Aranha que, em plena parada, com a revista numa das mãos e colocando um tom shakespeariano na voz, declamava os diálogos ao mesmo tempo que teatralizava com meneios do corpo e gestos de mão a preceito, as cenas mais dramáticas da trama, contendo o riso a muito custo, face às gargalhadas dos circunstantes. Hoje, a atitude do Aranha pode parecer não ter tido piada, mas lembro-me que, naquela altura, o enredo ganhou interesse, exactamente porque o drama fotonovelesco foi travestido de comédia. Mas, não foi por isso que aquele género de romance ilustrado, empacotado a sépia nos quadrinhos da revista, deixou de ser lido. À falta de melhor, mais uns Capricho’s e um ou outro Corin Tellado do lote recém-chegado, foram igualmente lidos, nem que fosse para apreciar o físico mal delineado das protagonistas femininas da trama.
E era assim que, por estas e por outras, se concluía finalmente:
- Tás mas é cacimbado!
Ou seja, culpava-se o clima pelas nossas saudáveis brincadeiras, esquecendo-se que talvez a juventude justificasse uma boa parte dos exageros. Se a minha memória não me falha, herdámos dos velhinhos da companhia anterior umas brincadeiras igualmente parvas, cujos rituais mantivemos mesmo depois de se terem ido embora. O famoso “cu de boi” não passava de um ritual idiota que se resumia a bater freneticamente num tambor que por ali foi deixado, acompanhado de gritos guturais que se limitavam a repetir, até à exaustão, o refrão:
- Cu de boi, tum, tum, tum,… cu de boi, tum, tum, tum …cu de boi ….
A parvoíce ainda durou uns tempos, mas foi rapidamente substituída por outras menos barulhentas.
Certa noite, uma daquelas noites quentes em que não corria a mais pequena brisa, fomo-nos juntando, após o jantar, no pequeno pátio fronteiro á camarata, já que, no seu interior, o calor abafado se tornara insuportável obrigando-nos a abandonar o jogo de cartas que nos entretinha a maior parte das vezes. Ocupavam-se os poucos assentos que por ali havia, umas cadeiras de ferro cujo assento era feito de tiras de plástico interlaçado e uns cadeirões improvisados construídos a partir de restos de aduelas de barril.
Não me lembro exactamente de quem, mas alguém saíu sorrateiramente, foi aos balneários, encheu um balde com água e despejou-o sobre o que estava mais à mão. Foi a risada geral, perante o ar surpreso da vítima que, não obstante o banho inopinado, não se mostrou agastado nem esboçou a mínima revolta. Pelo contrário, aquele balde de água pareceu chegar como uma bênção, perante o calor que se fazia sentir. Levantou-se, entrou na camarata com o propósito de se limpar e mudar de roupa, demorou algum tempo e sorrateiramente, encheu o mesmo balde, aguardou um momento de distracção da malta e atirou a água que acertou em cheio no autor da brincadeira, molhando também os que se encontravam à volta.
Este segundo banho contagiou o resto do pessoal que, abandonando o local, se foi disfarçadamente munindo do vasilhame que encontrou, desde alguidares, tachos da cozinha, jarros e vasilhas desencan­tadas não sei onde, enchendo-as sorrateiramente onde encontrassem uma torneira: na messe, nos balneários dos praças e outros ainda na messe de oficiais.
O facto é que daí a pouco, todos atiravam água uns aos outros, criando emboscadas, surgindo de repente ou inventando estratégias para apanhar alguém distraído. Quanto maior a surpresa de quem levava o banho maior a piada.
Andámos nisto um bom bocado da noite, até que, ou pelo cansaço, pelo adiantado da hora ou porque a coisa perdeu a graça, se deu por finda a brincadeira. Arrumaram-se tachos alguidares e baldes e, certamente bem mais frescos, cada um recolheu ao seu canto.
Foi sem dúvida um serão diferente. Desta vez, as leituras, as jogatinas de king e as rodadas de sueca, foram substituídas por uma estranha espécie de apanhada que obrigou a maioria a um duche ao recolher.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Notícias recentes do Rivungo

O Jornal de Angola publicou em Fevereiro um artigo desenvolvido sobre o Rivungo. Volta a falar-se de itinerários minados e da dificuldade em circular.
A notícia fala da intenção de construir uma estrada entre Mavinga e o Rivungo.
Ver notícia aqui

domingo, 1 de abril de 2012

Frigoríficos a petróleo

Quando pela primeira vez pisei o chão vermelho da pista empoeirada da Neriquinha, experimentei um misto de surpresa e desagrado. O cenário que se me deparou era muito pior do que qualquer expectativa pessimista. Até então, apenas nos tinha sido comunicado o nome do local que nos havia saído em sorte, mas sem qualquer informação do que nos esperava. Só ao fim da derradeira etapa da longa viagem que nos levou de Lisboa aos confins das Terras-do-Fim-do-Mundo, quando o Nord Atlas já sobrevoava as chanas nas imediações do nosso destino, nos apercebemos que estávamos a aterrar no meio de coisa nenhuma, a verdadeira personificação do degredo num dos locais mais inóspitos do território angolano.
Corria o mês de Novembro daquele ano de 1971 e o calor fazia-se sentir em toda a sua pujança. Um bafo quente de ar saturado de pó avermelhado atiçado pelo rodopiar das hélices do avião, atingiu-me como uma bofetada de boas vindas quando, abandonando a barriga da aeronave, tocava pela primeira vez o solo que haveria de palmilhar durante os longos dezoitos meses que durou a missão da 3441 naquele fim de mundo.
Segui maquinalmente os meus companheiros de aventura em direcção ao centro daquela espécie de acampamento militar, olhando em redor como que anestesiado pela desolação envolvente sem me dar conta, pelo menos no imediato, de que aquele exíguo espaço, perdido no meio da imensa savana, mais se assemelhava a uma espécie de base remota, sem nada em volta ou o que quer que fosse que pudesse ser chamado de vizinhança. Para lá do limite do arame farpado, apenas existia mata e mais mata, numa sucessão infinitesimal de coisa nenhuma.
Entrei na messe, situada no barracão localizado mais ou menos ao centro do perímetro e aproximei-me do pequeno balcão arrumado a um canto. A garganta seca e o desconforto provocado pelo calor intenso exigiam qualquer coisa fresca. Lembro-me de ter pedido uma cerveja que sorvi sofregamente de um só golo, sem reclamar do facto de estar pouco fresca. Simplesmente intui que a canícula condicionava as capacidades do frigorífico, especialmente se se tiver em conta o ritmo a que as bebidas eram consumidas. Fosse como fosse, nem por um momento me passou pela cabeça que, num sítio daqueles, poderia nem haver frigoríficos. Sempre me habituei à sua existência mesmo nos lares mais pobres ou nas tascas mais humildes. É verdade que tomei consciência de que estávamos num local com aspecto de prefabricado provisório mas, naquele momento, nem me ocorreu pensar que, num sítio como aquele, não haveria rede eléctrica pública. São coisas em que não se pensa, especialmente se se está formatado para considerar a energia eléctrica como sendo um bem essencial existente em qualquer lugar.
Mas não na Neriquinha e arredores. Por ali não havia electricidade permanente. Apenas um pequeno gerador que só podia funcionar nas escassas três ou quatro horas que iam desde o cair da noite até ao recolher e isso não seria suficiente para alimentar frigoríficos que teriam de trabalhar dia e noite.
Na verdade, ali os frigoríficos eram alimentados a petróleo. E para que funcionassem satisfatoriamente, era preciso abastecer os depósitos amiúde e dispensar-lhes cuidados especiais. Mas disso só me apercebi depois de chegar ao Rivungo. O meu grupo de combate fora o escolhido para render aquele destacamento e por isso, tinha sido o primeiro a chegar, tendo permanecido na Neriquinha apenas o tempo suficiente para engolir um almoço de massa com salsichas, mistela que, vim a saber mais tarde, era sempre servida aos maçaricos como praxe de boas vindas, dando sentido à espécie de saudação com que fomos recebidos e que se resumia a um chavão cujo significado na altura não percebi:
- É só zala!
Ora, na língua dos Ganguelas, zala significa fome.
Como ia dizendo, só comecei a dar-me conta das particularidades dos frigoríficos a petróleo, depois de ter chegado ao Rivungo. No fim daquela infernal e quase interminável primeira viagem pelas picadas arenosas da savana, fui incumbido de receber a cantina e com ela o frigorífico que a equipava. A passagem do testemunho incluiu uma breve explicação do seu funcionamento e respectiva manutenção, instruções dadas de forma muito resumida já que os velhinhos tinham pressa em sair dali.
- Se queres ter cerveja fresca todos os dias, toma atenção! Avisou-me o furriel que eu iria substituir, enquanto assinava as guias que atestavam a transferência de responsabilidade.
Se a minha memória não me atraiçoa, o petróleo do frigorífico acabou ainda não tinha decorrido uma semana, pelo que chegara a altura de por à prova os ensinamentos que recebera: encher o depósito, ajeitar o pavio e pôr tudo a funcionar antes que as cervejas aquecessem.
Com a ajuda do cabo Almeida, que no Rivungo foi nomeado o cantineiro de serviço, meti mãos à obra. Retirei, com cuidado, o depósito do petróleo de formato achatado e que, em jeito de arrastadeira, encaixava debaixo do frigorífico, apaguei o pavio incandescente e segui os passos de forma meticulosa, devagar, para não fazer asneira e de forma a garantir que o Almeida aprendesse o ritual, já que, doravante, deveria ser ele a encarregar-se da tarefa.
Não era complicado, mas exigia algum cuidado e minúcia na preparação do pavio. Teria de se eliminar a parte carbonizada garantindo que a chama fosse o mais azulada possível; uma chama amarelada não produzia calor suficiente, fazia muito fumo, entupia a chaminé e o frigorífico não produzia frio. Depois, era só voltar a encaixar o depósito debaixo do frigorífico, garantir que a chama coincidia com o centro da chaminé e rezar para que as cervejas ficassem no ponto.
Daquela vez, a chama não ficou tão azul como deveria, mas, com o tempo, a técnica foi sendo aprimorada. O Almeida foi ganhando experiência, percebendo as manias do aparelho, descobrindo o jeitinho que garantia a chama ideal que, entrando pela chaminé, fazia a vez da electricidade transformando calor em frio.
Ganhou rotina e com isso, confiança. Até um dia. Quando procurava acertar no gargalo do depósito, a mão ter-lhe-á tremido e verteu uma boa porção de petróleo que se espalhou pela superfície delimitada por um rebordo que o reteve. Demorou algum tempo a aparar o pavio, colocou-o com a altura mais adequada, ajeitou o depósito e preparou-se para o acender. Não sei se por esquecimento, excesso de confiança ou se simplesmente deduziu que não haveria perigo, não limpou o excesso de petróleo que se derramara. Riscou o fósforo e no momento em que aproximou a chama do pavio, incendiou o combustível derramado.
A labareda irrompeu com violência, apanhando o Cabo que, de cócoras, se debruçara sobre o depósito para melhor executar a tarefa, não lhe deixando espaço para que se desviasse. A chama lambeu-lhe a parte superior do tronco, apanhou o pescoço e atingiu em cheio a cara do infeliz, incendiando-lhe o cabelo.
Acudiu o enfermeiro que, não sabendo bem o que fazer, o levou para a enfermaria com a ajuda de um ou dois. O Almeida apresentava um aspecto desolador: a pele empolara e desaparecera aqui e ali. E o pior é que a inexperiência do enfermeiro não chegava para avaliar da profundidade das lesões e decidir qual o tratamento mais adequado. Urgia fazer algo de imediato já que eram notórios os esgares de dor do paciente que, a muito custo, se continha para não gritar.
A única hipótese era recorrer ao saber do médico da companhia. Mas o Dr. Lacerda estava na Neriquinha e, dada a gravidade da situação, era o mesmo que estar no outro lado do mundo. O contacto via rádio apresentava-se como única solução, recurso que, aliás, estava previsto nos planos de contingência. O Dr. Lacerda era obrigado a dar consultas via rádio, numa exasperante sequência de códigos dos homens das transmissões, com muitos “base, base, escuto” e outros tantos “ok, transmita”, e uma infinidade de "Alfas", "Bravos" e "Foxtrots" do designado código fonético usado nas transmissões militares, entremeados de instruções médicas.
A verdade é que o enfermeiro lá anotou tudo, acabando o Almeida por ficar com o pescoço e a cara cobertos de tiras amareladas da milagrosa topifurazona que desempenhou a sua função na perfeição, sendo visível o efeito refrescante que refreou o afogueamento e acalmou o ardor do malogrado Cabo.
Por sorte, não obstante a sua dimensão, a queimadura era superficial e ao fim de uma semana a face já só apresentava um aspecto rosado mas sem sequelas de maior, passando depois a um pálido doentio que rapidamente voltou a ganhar a cor bronzeada pela exposição gradual ao sol africano, até desaparecerem todos os sinais do acidente.
Quanto a mim, pelo menos nos primeiros tempos e enquanto durou o impedimento do Almeida, tive de voltar a cuidar do frigorífico garantindo cerveja fresca em condições de matar a sede ao pessoal.
Mas, obviamente redobrei os cuidados que punha no manuseamento do depósito, do pavio e do jerrican do petróleo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

O 1º dos 565 dias das guerras de N'riquinha

Levanto-me cedo, após a luz viva e intensa do sol me ter visitado bem de madrugada. Percorro aquele caminho de sessenta metros de tabuinhas de praia que liga o meu quarto à messe. Um percurso que farei mais cerca de 2220 vezes, ao longo de um porvir de dias distantes que ainda nem imaginava ter de permanecer ali.
A bandeira, meio gasta pelas inclemências do sol, já se agita no cimo do mastro desde as oito horas da manhã, como sempre acontecerá enquanto a nossa soberania ainda ali reinar. É manhã. Mas a boca já se me seca porque não há vestígios de humidade no ar e o sol queima abrasador e luminoso. A sede em África é uma constante. De manhã, à tarde ou à noite.
Entro na messe de oficiais, contígua à de sargentos, uma divisão com cerca de três metros por cinco, que tem pouco mais que uma mesa rectangular e seis cadeiras. Ao fundo uma janela forrada com rede mosquiteira, que ficará sempre aberta deixando passar a brisa possível que amenize o ar quente reflectido das telhas de zinco do telhado. A um canto um pequeno frigorífico a petróleo que haveria de arvorar-se num oásis redentor de mil tormentos de sedes insaciáveis.
A porta de entrada é também ladeada por duas aberturas em forma de janelas que deixam passar a luz da rua e nos alargam a vista para a parada. Uma toalha meio encardida cobre a mesa onde se encontram alguns pães, manteiga e marmelada. Há quatro chávenas grandes de vidro viradas ao contrário, sinal de que fui o primeiro a chegar. No ar uma pequena nuvem de moscas entrechocam-se esvoaçando em círculos, aguardando a oportunidade de aterrarem na primeira carcaça que se libertar do pano que as cobre, ou sugar os restos de marmelada da faca inox de gume rombo já vencido pela guerra, que se obstina em manter-se ao serviço da pátria, até que alguém se decida ordenar ao nosso Sargento que a abata à carga, amortalhando-a num quadruplicado modelo próprio de 1945, dando-lhe por fim o merecido descanso.
Troco uma proposta de mistura de uma mistela preta (que com benevolência apelidávamos de café) com uma outra de cor branca (muito próxima do que habitualmente chamávamos de leite) por um refrigerante de maçã (Carbo Cidral) que acompanho com um pão com manteiga. Naqueles primeiros dias, consigo ainda vencer o desejo impertinente de romper a manhã com uma cerveja gelada, sofregamente tragada pela boca da garrafa, arrefecendo-me as entranhas durante uns trinta minutos de prazer efémero, acompanhados pelos protestos do meu pobre fígado, incapaz de lutar mais contra tantos inimigos quanto outros tantos escondidos nas matas.

Sou informado pelo ordenança que se encontra à porta da messe uma delegação do kimbo que me vem apresentar cumprimentos. Fico surpreendido pelo inesperado da situação. Não sei porquê, mas achei que era capaz de haver ali lugar a alguma solenidade, não obstante o quadro de pobreza daquela gente e o esquecimento a que sempre estiveram votados antes e durante a guerra.
Um acto de elegância ou subserviência? De curiosidade, deferência ou medo? Dou comigo a abotoar instintivamente o penúltimo botão da camisa como se me preparasse para um acto solene que obrigasse a aprumo. Coloco a boina, que me completa o atavio provisório até que cheguem o resto das malas que ficaram em Luanda, e saio ao encontro da comitiva anunciada. Deferentemente afastados da porta da entrada um grupo de sete ou oito anciãos dispõem-se ordenados em duas ou três filas atrás do primeiro que veste uma calça e um casaco, que, com esforço, adivinhamos terem tido outrora uma cor branca. O branco tinha agora dado lugar a um amontoado de nódoas de todos os tipos e feitios, algumas delas decididamente já parte integrante e definitiva do tecido, daquilo que percebi de imediato ser uma farda pela forma com se distinguia dos outros. O amarrotado do tecido é o mesmo que o da pele do ancião que se enruga em sulcos profundos denunciando longas guerras de silêncios sem registo na história. Alguns botões que restam estão pendurados por linhas puídas e meio desfiadas. Uma espécie de sobreviventes de um naufrágio tempestuoso, mas mantidos no seu lugar com o empenhamento sofrido de quem se obstina em preservá-los, como prova da sua fidelidade ao compromisso ancestral firmado com o reino, que lhe devassou o sossego e a harmonia com a terra. O colarinho justo e sem gola deixa transparecer ainda restos de um passado de altivez, que se aliava à sua inequívoca alvura primitiva, combinando com o contraste da pele queimada por séculos de sol e submissão.
Rapidamente me apercebo estar na presença do soba.
Os restantes são secúlos, uma hierarquia tribal mantida até aos nossos dias. Vestem restos de roupas esfarrapadas quase todas de cunho militar. Algumas, só com algum esforço dão para perceber ainda a sua origem. Alguns vêm descalços. Um deles procura mascarar a dignidade perdida, trazendo enfiados nos dedos dos pés uns xanatos de praia meio destruídos e com cor omissa. Um outro calça botas da tropa que o distante tempo de uso e maus-tratos avantajou para um 45 largo, albergando agora um pé que a fome minguou para um 35 estreito, que ameaça soltar-se a todo o momento em cada passo desajeitado e quase andrajoso que dá, arrastando-as na areia quente em passos bem cuidados para que não caiam e se não percam pelo caminho. Os atacadores de cabedal, outrora reluzentes de graxa e aprumo, foram substituídos por cordão feito de casca de arbusto, na ausência de artefactos mais apropriados que mantivessem digna a postura militar de outros tempos e outros usos.
Fitam-me com um sorriso pálido. O soba acena-me com uma espécie de gesto suave de continência de mão meio aberta que eleva até à têmpora direita, enquanto solta algo que confundo com um gemido. Os outros seguem-no numa sequência de aceno semelhante que se fica pelo meio gesto. Uma certa forma de imitação inacabada que sugere cansaço. Cansaço da vida, da guerra e da tropa, que era agora nova e de esperanças renovadas.
Trazem um cicerone. O Lupale, claro…
Não falam português. Balbuciam palavras dispersas que acompanham com gestos de afirmação da cabeça.
O Lupale faz as apresentações. Tem que falar alto para que o soba o possa entender considerando a sua avançada idade e a surdez que já o atinge, deitando um pouco por terra a teoria do ruído da civilização como causa essencial para a mouquice que a todos nos vem molestando nos dias que correm.
A lição já vinha estudada. Das poucas palavras no dialecto que o soba balbucia, o Lupale traduz num discurso político completo. Uma espécie de protocolo de estado daqueles que já estão tipificados e são sempre iguais. Vêm apresentar cumprimentos ao novo capitão, aproveitando a oportunidade para transmitir as dificuldades da população. Basicamente a fome (zála).
Cumprimento-os um por um e tento fixar o nome de cada um deles, que o Lupale vai pronunciando repetidamente adivinhando a minha dificuldade em os fixar. Sinto que me olham como uma nova esperança caída do céu, embora sem que dela esperem grande coisa. Dobram-se à frente em cada cumprimento. O aperto de mão tem contornos de súplica ou submissão. Agarram o próprio antebraço da mão que me estendem, como se me quisessem significar que ma entregavam como preito de vassalagem, subserviência ou medo.
Vem-me repentinamente à memória os tempos dos primórdios da colonização. As coisas não devem ter sido muito diferentes daqueles gestos, daquela relação vencedor/vencido.
Faço um elogio honesto à farda do soba e agradeço o facto de a envergar especialmente para me visitar, facto que me foi adiantado pelo Lupale. Jamais voltaria a vê-lo fardado, a não ser em mais uma ou duas ocasiões especiais. Mantenho uma conversa de circunstância e procuro saber um pouco mais sobre os problemas da população. Ficam-me dúvidas quanto à correcção da tradução efectuada, quer para um, quer para o outro lado. Noto que as minhas palavras de conforto e esperança não convencem os meus interlocutores. Compreendo que não lhes prometo nada que outros o não tenham já feito, muito provavelmente sem que o tenham cumprido. Prometo ir visitar o kimbo e inteirar-me dos problemas que preocupam o soba, nomeadamente a zála cujo termo eu já conhecia desde o primeiro dia.
Dou por terminado o encontro mas percebo nos gestos que não ouviram o que queriam. Parece claro que haviam preparado um conjunto de questões no sentido de as exporem e levarem resultados de volta. Fico a observar o regresso ao kimbo. Caminham lentamente como quem quer voltar para trás para repetir as preocupações e obter outras respostas. Apercebo-me de uma troca de palavras mais acaloradas entre o Lupale e o soba, sinal evidente de que há censura e desacordo quanto à forma como os assuntos tinham sido abordados. Perco-os de vista a passarem a portada do aldeamento. Caminham arrastados, olhos no chão e braços pendendo ao longo do corpo, ou a mão direita coçando uma comichão eterna que não existe no antebraço do outro lado, uma espécie de sarna que não se vê mas lhes fustiga o ser, suportado num estômago dorido e vazio de pirão e de fé. Como teria sido diferente aquele regresso, caso o sentido das palavras tivesse conduzido a outra fé e outras certezas, pelas quais esperavam e desesperavam havia décadas. Como teriam ficado felizes se lhes pudesse ter dito que a guerra ia acabar, que era tudo o que queriam e mais desejavam para voltarem a ser felizes no seu mundo livre feito de séculos de liberdade.

Pedro Cabrita (In-Capitães do Vento)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Carraças no Demba

A savana do Cuando Cubango é uma autêntica exibição da natureza selvagem. Por um lado, inóspita, hostil e traiçoeira e por outro, deslumbrante, luminosa e exuberante, abrindo-se em espaços imensos de uma beleza muito própria e difícil de descrever. Por ali não existem montes ou vales, a vegetação é escassa e pobre e as árvores, de pequeno porte e espaçadas, parecem encolher-se aos rigores de um clima dominado por um sol inclemente que nos fritava os miolos e trespassava sem dificuldade a timidez da folhagem miudinha que apenas conseguia coar, aqui e ali, a luz forte, semeando desordenadamente alguma sombra pelas imensas planícies da savana, sem qualquer efeito apaziguador no calor dominante.
Cumprindo, então, a segunda comissão de três meses no Rivungo, fui incumbido de executar uma pequena missão de patrulhamento que visava percorrer o troço de mata de pouco mais de dezena e meia de quilómetros, que começava nas margens do Cuando, a norte da missão de Santa Cruz, e acabava no Demba, último kimbo no trajecto que ligava a Neriquinha ao Rivungo.
Para o efeito, contava com meia dúzia de homens e, como guia, um sipaio dispensado pelo administrador Litenda, ajuda preciosa e necessária, já que a zona a percorrer não tinha trilhos ou outros pontos de referência que permitissem a utilização dos mapas do terreno. E isso tornou-se óbvio logo que saltámos do Unimog num ponto indeterminado da picada que traçava uma linha serpenteante a separar a orla da mata da extensa chana do Cuando. Para mim, o desenho irregular e recortado do pantanal que definia os domínios do rio, tornava impossível traçar uma perpendicular ao seu curso que nos colocasse no rumo certo. Olhando para o mapa do terreno, parecia fácil; o percurso estava ali claramente definido pela singela linha, traçada a lápis, a ligar o rio ao Demba.
Olhei em volta. Qualquer direcção que parecesse oposta à chana era um rumo possível. Mas qual delas? Era tudo a mesma coisa, a paisagem não ajudava nada e o contorno da chana que abraça o rio tornava impossível definir uma perpendicular. Do lado da mata, as coisas também não ajudavam; tudo em volta era monotonamente repetitivo e até as árvores pareciam cópias umas das outras.
Mas não para o sipaio. A forma decidida como apontou o caminho e avançou mata adentro, deixou-me a pensar. Nunca cheguei a perceber como se orientavam. Não obstante a total ausência de trilhos ou outra qualquer referência, avançava como se um caminho invisível lhe indicasse a direcção a seguir. Olhando em volta, ainda procurei encontrar o que quer que fosse que lhe pudesse estar a servir de orientação, mas nada. Apenas areia seca matizada aqui e ali por tufos de capim rasteiro amarelecido pelo cacimbo que se instalara havia meses. Não vislumbrei qualquer carreiro, pista ou pegada que permitisse aceitar que aquele era o percurso a seguir. Na verdade, ainda hoje estou convencido que, nos últimos meses, por ali não passara ninguém, nem sequer bicho. Não era época das chuvas, coisa que não nos visitava havia tempo. Ao menos, se tivesse chovido, poderia sempre pensar que teria apagado sinais de passagem. Mas não. Por aquela altura eu já conhecia bem a mata e já calcorreara muitos carreiros e itinerários arenosos da savana. Por onde passasse gente, havia sempre sinais evidentes disso, mesmo que, durante a noite, tivesse caído uma daquelas chuvas diluvianas habituais. Mas ali não. Quer o terreno quer a vegetação ressequida estavam absolutamente intocados, virgens. Não! Por ali não passara ninguém! Ali não era percurso de guerrilheiro, nas suas andanças a caminho das improvisadas bases no interior.
À nossa frente, o homem continuava, decidido, num passo vivo e cadenciado pelo meio do descampado em direcção a lugar nenhum, como se um ponto lá à frente lhe definisse um azimute. As extensas clareiras de areia esbranquiçada, pintada pelo amarelo ocre do capim seco, matizado aqui e ali de tufos verdes da folhagem perene de ervas estranhas, sucediam-se em desenhos irregulares entrecortadas de forma desordenada por grupos de árvores de pequeno porte e tronco escurecido pelo fumo das queimadas que ciclicamente assolavam a mata e depositavam, no solo, um pó escuro e fino que se levantava pelo arrastar penoso dos pés que teimavam em enterrar-se na areia fofa da savana, atrasando a marcha e duplicando o peso das botas.
Pouco mais de meia hora, sob as ferroadas de um sol impiedoso, foi o suficiente para esgotar toda a resistência do pequeno grupo que, em esforço, procurava acompanhar a passada do guia. Exaustos, com a garganta seca, quase impedindo a respiração ofegante, deixámo-nos cair à sombra quase inútil de um pequeno grupo de árvores, na tentativa vã de fugir ao calor.
Todo o percurso foi um martírio. O tempo de marcha foi ficando cada vez mais curto, enquanto se alongavam as paragens e se mitigava a sede com pequenos golos, cuidando de fazer durar o escasso litro de água transportado no cantil. Sabendo-se que não haveria água no percurso, racionava-se a que se trazia. O guia, esse, parecia olhar-nos de soslaio, como se não compreendesse a fraca resistência da tropa.
Foi com alívio quando, lá para o fim da tarde, se divisaram as palhotas do kimbo no outro lado da clareira que de repente se abriu à nossa frente, qual oásis no meio do deserto. O pequeno aldeamento do Demba, com cerca de uma vintena de palhotas toscamente construídas e espalhadas desordenadamente num recanto da chana formada por um braço do rio Uefo, albergava uma população que se dedicava ao cultivo de milho e criação de algum gado.
O posto da PSP, visível na periferia do kimbo e a poucos metros da picada, mais se parecendo com uma espécie de missão despojada, plantada na terra de ninguém, compunha instalações precárias que serviam de morada e local de trabalho a dois agentes e outros tantos auxiliares recrutados entre a população local, cuja missão compreendia a quase impossível tarefa de defesa daquela gente.
Fomos recebidos efusivamente pelos dois agentes. Conhecia-os muito bem e demonstravam sempre que a tropa era bem-vinda. A nossa chegada amenizava o isolamento, animava a conversa e trazia segurança ao local. Para já, na noite que se aproximava, seriam praticamente desnecessários os quartos de sentinela que, religiosamente, cumpriam noite após noite, numa estratégia rudimentar de segurança precária contra a eventualidade de um ataque inimigo, coisa que, verdade seja dita, não era costume acontecer. Ali só havia população e nada de estratégico que interessasse aos guerrilheiros combater. Um ataque trazia sempre insegurança às populações e isso não era conveniente. Sabia-se que dependiam deles para muita coisa e hostilizar quem diziam defender não era boa política. Mesmo assim, o Mugamba, o kimbo mais próximo que se seguia na linha da picada que levava à Neriquinha foi, um ano antes, atacado por um pequeno grupo de guerrilheiros, mantendo os PSP’s sitiados por mais de um par de horas, sob uma fuzilaria intensa.
No momento, aquela meia dúzia de tropas recém chegada, compunha um reforço bastante significativo na segurança. Era quase garantido que, naquela noite, não haveria problemas. As instalações da PSP não passavam de uma espécie de barracão, de pau a pique, barro e capim, só se diferenciando de qualquer das palhotas do kimbo pela sua maior dimensão. Como os demais postos, estava rodeada por uma espécie de paliçada com cerca de um metro de altura e meio metro de espessura, constituindo uma frágil e rudimentar muralha de paus, porém, quase inexpugnável. Quer se queira, quer não, era a única segurança oferecida à barraca.
Um abraço e uma cerveja acompanharam a recepção quase esfuziante que aqueles dois homens me dispensaram. De repente, a sua limitada vida de Robinson Crusoé foi interrompida, ganhou outra dimensão e fez levantar os ânimos. E isso era visível no fácies de contentamento de gente que, durante semanas a fio não tinha com quem falar, a não ser os parcos diálogos entre os dois, eventualmente envolvendo os dois ajudantes e, aqui ou ali, uma conversa ou outra, necessariamente curta e de circunstância, com elementos de uma população que, para além do mais, nem português falava.
Decididamente, eramos bem-vindos. Naquele dia haveria com quem falar, histórias e novidades animariam o serão e a noite seria passada em maior sossego e segurança; pelo menos sem sobressaltos. Se calhar até as rondas seriam dispensadas. Não o entendi como paga pela segurança e sossego que trouxemos àqueles dois, mas a verdade é que, de alguma forma, fui compensado. Desde logo, as três ou quatro cervejas que saboreei, mais o convite para lhes fazer companhia ao jantar e a irrecusável oferta de pernoita no aconchego da barraca era algo não propriamente dispensável ou desvalorizável. A pequena enxerga suplente, arrumada a um canto, era para mim a cereja no cimo do bolo. Um colchão de espuma, um cobertor e um lençol macio eram um luxo perante a perspectiva de uma dormida ao relento e com uma vantagem acrescida: pelo menos dormiria sem as botas enfiadas nos pés. Pode parecer estranho mas, dormir calçado é desconfortável e muito mais do que parece. Por outro lado, era tempo do cacimbo, altura em que as noites da savana gelam até aos ossos. Por oposição, o espaço dentro daquelas rudimentares instalações, de chão de terra e sem tapetes, oferecia um conforto não descartável; O capim que as envolvia, mantinha-as frescas sob o calor intenso do dia e bastante aconchegantes quando o frio gelava a noite.
Nesse entretanto, o pessoal procurou abrigo e escolheu o melhor sítio para dormir. Serviu na perfeição um cercado, vedado a toda a volta com uma espécie de sebe que os protegeria da friagem e com cobertura de capim que os deixaria ao abrigo da cacimba. Fossem quais fossem as condições, sempre era melhor ali que no meio da mata.
Cada um escolheu um recanto, arrumaram-se, recostaram-se degustando as conhecidas surpresas enlatadas da ração de combate e, após um bocado de conversa, adormeceram vencidos pela estafa de um dia de caminhada sobre as areias secas e escaldantes da savana.
Certamente mais bem instalado, segui-lhes o exemplo. Por ali, a hora de deitar chegava com o cair da noite. Não havia luz eléctrica e nada com que passar o tempo. Dormir era a única coisa a fazer. Por mim, o cansaço não me deixou outra opção e adormeci quase de imediato.
O dia seguinte começou bem cedo. Naquelas paragens, o sol tem sempre pressa em nascer e é irritantemente madrugador. Na época do cacimbo, cinco horas da manhã já é dia claro e uma hora depois o calor já aperta. Levantei-me, saí e fui até ao local onde o pessoal se acoitara. Queria saber como estavam e decidir o que fazer enquanto o unimog que nos recolheria não chegava.
De longe, apercebi-me que um burburinho se instalara, concluindo, ao aproximar-me, que algo não correra bem durante a pernoita e não era qualquer conflito ou zanga entre eles. Estavam seminus, alguns com cara de poucos amigos e coçavam-se como se tivessem sido atacados por uma praga de sarna.
Cada um, à vez, ou acordado pelo parceiro do lado, foi-se dando conta que carraças de tamanho a que não estavam habituados, se haviam alapado à pele: uma ou outra nas costas, algumas nas virilhas e outras por aqui ou por ali. Algumas já arrancadas, outras esborrachadas e outras ainda em vias disso, deixavam claro que o grupo fora atacado, durante a noite, por um inimigo inesperado.
O local mais ou menos protegido e que, na noite anterior, parecera o lugar ideal para pernoitar, era afinal uma espécie de curral, inexplicavelmente limpo, onde a população costumava meter o gado que pastava livremente na mata próxima. E o gado, naquelas paragens, costumava estar infestado de carraças. O medo que alguns demonstravam e a confusão que se gerou, explicava-se pela real possibilidade de poderem vir a contrair uma doença que se sabia manifestar-se através de febres altas, para além do desagradável da situação, da comichão insuportável, da borbulhagem e visível intumescência avermelhada provocada pelas ferroadas dos bichos.
Melhor seria se tivessem dormido ao relento. Certamente que o desconforto teria sido bem mais desejável.