quinta-feira, 12 de abril de 2012

Notícias recentes do Rivungo

O Jornal de Angola publicou em Fevereiro um artigo desenvolvido sobre o Rivungo. Volta a falar-se de itinerários minados e da dificuldade em circular.
A notícia fala da intenção de construir uma estrada entre Mavinga e o Rivungo.
Ver notícia aqui

domingo, 1 de abril de 2012

Frigoríficos a petróleo

Quando pela primeira vez pisei o chão vermelho da pista empoeirada da Neriquinha, experimentei um misto de surpresa e desagrado. O cenário que se me deparou era muito pior do que qualquer expectativa pessimista. Até então, apenas nos tinha sido comunicado o nome do local que nos havia saído em sorte, mas sem qualquer informação do que nos esperava. Só ao fim da derradeira etapa da longa viagem que nos levou de Lisboa aos confins das Terras-do-Fim-do-Mundo, quando o Nord Atlas já sobrevoava as chanas nas imediações do nosso destino, nos apercebemos que estávamos a aterrar no meio de coisa nenhuma, a verdadeira personificação do degredo num dos locais mais inóspitos do território angolano.
Corria o mês de Novembro daquele ano de 1971 e o calor fazia-se sentir em toda a sua pujança. Um bafo quente de ar saturado de pó avermelhado atiçado pelo rodopiar das hélices do avião, atingiu-me como uma bofetada de boas vindas quando, abandonando a barriga da aeronave, tocava pela primeira vez o solo que haveria de palmilhar durante os longos dezoitos meses que durou a missão da 3441 naquele fim de mundo.
Segui maquinalmente os meus companheiros de aventura em direcção ao centro daquela espécie de acampamento militar, olhando em redor como que anestesiado pela desolação envolvente sem me dar conta, pelo menos no imediato, de que aquele exíguo espaço, perdido no meio da imensa savana, mais se assemelhava a uma espécie de base remota, sem nada em volta ou o que quer que fosse que pudesse ser chamado de vizinhança. Para lá do limite do arame farpado, apenas existia mata e mais mata, numa sucessão infinitesimal de coisa nenhuma.
Entrei na messe, situada no barracão localizado mais ou menos ao centro do perímetro e aproximei-me do pequeno balcão arrumado a um canto. A garganta seca e o desconforto provocado pelo calor intenso exigiam qualquer coisa fresca. Lembro-me de ter pedido uma cerveja que sorvi sofregamente de um só golo, sem reclamar do facto de estar pouco fresca. Simplesmente intui que a canícula condicionava as capacidades do frigorífico, especialmente se se tiver em conta o ritmo a que as bebidas eram consumidas. Fosse como fosse, nem por um momento me passou pela cabeça que, num sítio daqueles, poderia nem haver frigoríficos. Sempre me habituei à sua existência mesmo nos lares mais pobres ou nas tascas mais humildes. É verdade que tomei consciência de que estávamos num local com aspecto de prefabricado provisório mas, naquele momento, nem me ocorreu pensar que, num sítio como aquele, não haveria rede eléctrica pública. São coisas em que não se pensa, especialmente se se está formatado para considerar a energia eléctrica como sendo um bem essencial existente em qualquer lugar.
Mas não na Neriquinha e arredores. Por ali não havia electricidade permanente. Apenas um pequeno gerador que só podia funcionar nas escassas três ou quatro horas que iam desde o cair da noite até ao recolher e isso não seria suficiente para alimentar frigoríficos que teriam de trabalhar dia e noite.
Na verdade, ali os frigoríficos eram alimentados a petróleo. E para que funcionassem satisfatoriamente, era preciso abastecer os depósitos amiúde e dispensar-lhes cuidados especiais. Mas disso só me apercebi depois de chegar ao Rivungo. O meu grupo de combate fora o escolhido para render aquele destacamento e por isso, tinha sido o primeiro a chegar, tendo permanecido na Neriquinha apenas o tempo suficiente para engolir um almoço de massa com salsichas, mistela que, vim a saber mais tarde, era sempre servida aos maçaricos como praxe de boas vindas, dando sentido à espécie de saudação com que fomos recebidos e que se resumia a um chavão cujo significado na altura não percebi:
- É só zala!
Ora, na língua dos Ganguelas, zala significa fome.
Como ia dizendo, só comecei a dar-me conta das particularidades dos frigoríficos a petróleo, depois de ter chegado ao Rivungo. No fim daquela infernal e quase interminável primeira viagem pelas picadas arenosas da savana, fui incumbido de receber a cantina e com ela o frigorífico que a equipava. A passagem do testemunho incluiu uma breve explicação do seu funcionamento e respectiva manutenção, instruções dadas de forma muito resumida já que os velhinhos tinham pressa em sair dali.
- Se queres ter cerveja fresca todos os dias, toma atenção! Avisou-me o furriel que eu iria substituir, enquanto assinava as guias que atestavam a transferência de responsabilidade.
Se a minha memória não me atraiçoa, o petróleo do frigorífico acabou ainda não tinha decorrido uma semana, pelo que chegara a altura de por à prova os ensinamentos que recebera: encher o depósito, ajeitar o pavio e pôr tudo a funcionar antes que as cervejas aquecessem.
Com a ajuda do cabo Almeida, que no Rivungo foi nomeado o cantineiro de serviço, meti mãos à obra. Retirei, com cuidado, o depósito do petróleo de formato achatado e que, em jeito de arrastadeira, encaixava debaixo do frigorífico, apaguei o pavio incandescente e segui os passos de forma meticulosa, devagar, para não fazer asneira e de forma a garantir que o Almeida aprendesse o ritual, já que, doravante, deveria ser ele a encarregar-se da tarefa.
Não era complicado, mas exigia algum cuidado e minúcia na preparação do pavio. Teria de se eliminar a parte carbonizada garantindo que a chama fosse o mais azulada possível; uma chama amarelada não produzia calor suficiente, fazia muito fumo, entupia a chaminé e o frigorífico não produzia frio. Depois, era só voltar a encaixar o depósito debaixo do frigorífico, garantir que a chama coincidia com o centro da chaminé e rezar para que as cervejas ficassem no ponto.
Daquela vez, a chama não ficou tão azul como deveria, mas, com o tempo, a técnica foi sendo aprimorada. O Almeida foi ganhando experiência, percebendo as manias do aparelho, descobrindo o jeitinho que garantia a chama ideal que, entrando pela chaminé, fazia a vez da electricidade transformando calor em frio.
Ganhou rotina e com isso, confiança. Até um dia. Quando procurava acertar no gargalo do depósito, a mão ter-lhe-á tremido e verteu uma boa porção de petróleo que se espalhou pela superfície delimitada por um rebordo que o reteve. Demorou algum tempo a aparar o pavio, colocou-o com a altura mais adequada, ajeitou o depósito e preparou-se para o acender. Não sei se por esquecimento, excesso de confiança ou se simplesmente deduziu que não haveria perigo, não limpou o excesso de petróleo que se derramara. Riscou o fósforo e no momento em que aproximou a chama do pavio, incendiou o combustível derramado.
A labareda irrompeu com violência, apanhando o Cabo que, de cócoras, se debruçara sobre o depósito para melhor executar a tarefa, não lhe deixando espaço para que se desviasse. A chama lambeu-lhe a parte superior do tronco, apanhou o pescoço e atingiu em cheio a cara do infeliz, incendiando-lhe o cabelo.
Acudiu o enfermeiro que, não sabendo bem o que fazer, o levou para a enfermaria com a ajuda de um ou dois. O Almeida apresentava um aspecto desolador: a pele empolara e desaparecera aqui e ali. E o pior é que a inexperiência do enfermeiro não chegava para avaliar da profundidade das lesões e decidir qual o tratamento mais adequado. Urgia fazer algo de imediato já que eram notórios os esgares de dor do paciente que, a muito custo, se continha para não gritar.
A única hipótese era recorrer ao saber do médico da companhia. Mas o Dr. Lacerda estava na Neriquinha e, dada a gravidade da situação, era o mesmo que estar no outro lado do mundo. O contacto via rádio apresentava-se como única solução, recurso que, aliás, estava previsto nos planos de contingência. O Dr. Lacerda era obrigado a dar consultas via rádio, numa exasperante sequência de códigos dos homens das transmissões, com muitos “base, base, escuto” e outros tantos “ok, transmita”, e uma infinidade de "Alfas", "Bravos" e "Foxtrots" do designado código fonético usado nas transmissões militares, entremeados de instruções médicas.
A verdade é que o enfermeiro lá anotou tudo, acabando o Almeida por ficar com o pescoço e a cara cobertos de tiras amareladas da milagrosa topifurazona que desempenhou a sua função na perfeição, sendo visível o efeito refrescante que refreou o afogueamento e acalmou o ardor do malogrado Cabo.
Por sorte, não obstante a sua dimensão, a queimadura era superficial e ao fim de uma semana a face já só apresentava um aspecto rosado mas sem sequelas de maior, passando depois a um pálido doentio que rapidamente voltou a ganhar a cor bronzeada pela exposição gradual ao sol africano, até desaparecerem todos os sinais do acidente.
Quanto a mim, pelo menos nos primeiros tempos e enquanto durou o impedimento do Almeida, tive de voltar a cuidar do frigorífico garantindo cerveja fresca em condições de matar a sede ao pessoal.
Mas, obviamente redobrei os cuidados que punha no manuseamento do depósito, do pavio e do jerrican do petróleo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

O 1º dos 565 dias das guerras de N'riquinha

Levanto-me cedo, após a luz viva e intensa do sol me ter visitado bem de madrugada. Percorro aquele caminho de sessenta metros de tabuinhas de praia que liga o meu quarto à messe. Um percurso que farei mais cerca de 2220 vezes, ao longo de um porvir de dias distantes que ainda nem imaginava ter de permanecer ali.
A bandeira, meio gasta pelas inclemências do sol, já se agita no cimo do mastro desde as oito horas da manhã, como sempre acontecerá enquanto a nossa soberania ainda ali reinar. É manhã. Mas a boca já se me seca porque não há vestígios de humidade no ar e o sol queima abrasador e luminoso. A sede em África é uma constante. De manhã, à tarde ou à noite.
Entro na messe de oficiais, contígua à de sargentos, uma divisão com cerca de três metros por cinco, que tem pouco mais que uma mesa rectangular e seis cadeiras. Ao fundo uma janela forrada com rede mosquiteira, que ficará sempre aberta deixando passar a brisa possível que amenize o ar quente reflectido das telhas de zinco do telhado. A um canto um pequeno frigorífico a petróleo que haveria de arvorar-se num oásis redentor de mil tormentos de sedes insaciáveis.
A porta de entrada é também ladeada por duas aberturas em forma de janelas que deixam passar a luz da rua e nos alargam a vista para a parada. Uma toalha meio encardida cobre a mesa onde se encontram alguns pães, manteiga e marmelada. Há quatro chávenas grandes de vidro viradas ao contrário, sinal de que fui o primeiro a chegar. No ar uma pequena nuvem de moscas entrechocam-se esvoaçando em círculos, aguardando a oportunidade de aterrarem na primeira carcaça que se libertar do pano que as cobre, ou sugar os restos de marmelada da faca inox de gume rombo já vencido pela guerra, que se obstina em manter-se ao serviço da pátria, até que alguém se decida ordenar ao nosso Sargento que a abata à carga, amortalhando-a num quadruplicado modelo próprio de 1945, dando-lhe por fim o merecido descanso.
Troco uma proposta de mistura de uma mistela preta (que com benevolência apelidávamos de café) com uma outra de cor branca (muito próxima do que habitualmente chamávamos de leite) por um refrigerante de maçã (Carbo Cidral) que acompanho com um pão com manteiga. Naqueles primeiros dias, consigo ainda vencer o desejo impertinente de romper a manhã com uma cerveja gelada, sofregamente tragada pela boca da garrafa, arrefecendo-me as entranhas durante uns trinta minutos de prazer efémero, acompanhados pelos protestos do meu pobre fígado, incapaz de lutar mais contra tantos inimigos quanto outros tantos escondidos nas matas.

Sou informado pelo ordenança que se encontra à porta da messe uma delegação do kimbo que me vem apresentar cumprimentos. Fico surpreendido pelo inesperado da situação. Não sei porquê, mas achei que era capaz de haver ali lugar a alguma solenidade, não obstante o quadro de pobreza daquela gente e o esquecimento a que sempre estiveram votados antes e durante a guerra.
Um acto de elegância ou subserviência? De curiosidade, deferência ou medo? Dou comigo a abotoar instintivamente o penúltimo botão da camisa como se me preparasse para um acto solene que obrigasse a aprumo. Coloco a boina, que me completa o atavio provisório até que cheguem o resto das malas que ficaram em Luanda, e saio ao encontro da comitiva anunciada. Deferentemente afastados da porta da entrada um grupo de sete ou oito anciãos dispõem-se ordenados em duas ou três filas atrás do primeiro que veste uma calça e um casaco, que, com esforço, adivinhamos terem tido outrora uma cor branca. O branco tinha agora dado lugar a um amontoado de nódoas de todos os tipos e feitios, algumas delas decididamente já parte integrante e definitiva do tecido, daquilo que percebi de imediato ser uma farda pela forma com se distinguia dos outros. O amarrotado do tecido é o mesmo que o da pele do ancião que se enruga em sulcos profundos denunciando longas guerras de silêncios sem registo na história. Alguns botões que restam estão pendurados por linhas puídas e meio desfiadas. Uma espécie de sobreviventes de um naufrágio tempestuoso, mas mantidos no seu lugar com o empenhamento sofrido de quem se obstina em preservá-los, como prova da sua fidelidade ao compromisso ancestral firmado com o reino, que lhe devassou o sossego e a harmonia com a terra. O colarinho justo e sem gola deixa transparecer ainda restos de um passado de altivez, que se aliava à sua inequívoca alvura primitiva, combinando com o contraste da pele queimada por séculos de sol e submissão.
Rapidamente me apercebo estar na presença do soba.
Os restantes são secúlos, uma hierarquia tribal mantida até aos nossos dias. Vestem restos de roupas esfarrapadas quase todas de cunho militar. Algumas, só com algum esforço dão para perceber ainda a sua origem. Alguns vêm descalços. Um deles procura mascarar a dignidade perdida, trazendo enfiados nos dedos dos pés uns xanatos de praia meio destruídos e com cor omissa. Um outro calça botas da tropa que o distante tempo de uso e maus-tratos avantajou para um 45 largo, albergando agora um pé que a fome minguou para um 35 estreito, que ameaça soltar-se a todo o momento em cada passo desajeitado e quase andrajoso que dá, arrastando-as na areia quente em passos bem cuidados para que não caiam e se não percam pelo caminho. Os atacadores de cabedal, outrora reluzentes de graxa e aprumo, foram substituídos por cordão feito de casca de arbusto, na ausência de artefactos mais apropriados que mantivessem digna a postura militar de outros tempos e outros usos.
Fitam-me com um sorriso pálido. O soba acena-me com uma espécie de gesto suave de continência de mão meio aberta que eleva até à têmpora direita, enquanto solta algo que confundo com um gemido. Os outros seguem-no numa sequência de aceno semelhante que se fica pelo meio gesto. Uma certa forma de imitação inacabada que sugere cansaço. Cansaço da vida, da guerra e da tropa, que era agora nova e de esperanças renovadas.
Trazem um cicerone. O Lupale, claro…
Não falam português. Balbuciam palavras dispersas que acompanham com gestos de afirmação da cabeça.
O Lupale faz as apresentações. Tem que falar alto para que o soba o possa entender considerando a sua avançada idade e a surdez que já o atinge, deitando um pouco por terra a teoria do ruído da civilização como causa essencial para a mouquice que a todos nos vem molestando nos dias que correm.
A lição já vinha estudada. Das poucas palavras no dialecto que o soba balbucia, o Lupale traduz num discurso político completo. Uma espécie de protocolo de estado daqueles que já estão tipificados e são sempre iguais. Vêm apresentar cumprimentos ao novo capitão, aproveitando a oportunidade para transmitir as dificuldades da população. Basicamente a fome (zála).
Cumprimento-os um por um e tento fixar o nome de cada um deles, que o Lupale vai pronunciando repetidamente adivinhando a minha dificuldade em os fixar. Sinto que me olham como uma nova esperança caída do céu, embora sem que dela esperem grande coisa. Dobram-se à frente em cada cumprimento. O aperto de mão tem contornos de súplica ou submissão. Agarram o próprio antebraço da mão que me estendem, como se me quisessem significar que ma entregavam como preito de vassalagem, subserviência ou medo.
Vem-me repentinamente à memória os tempos dos primórdios da colonização. As coisas não devem ter sido muito diferentes daqueles gestos, daquela relação vencedor/vencido.
Faço um elogio honesto à farda do soba e agradeço o facto de a envergar especialmente para me visitar, facto que me foi adiantado pelo Lupale. Jamais voltaria a vê-lo fardado, a não ser em mais uma ou duas ocasiões especiais. Mantenho uma conversa de circunstância e procuro saber um pouco mais sobre os problemas da população. Ficam-me dúvidas quanto à correcção da tradução efectuada, quer para um, quer para o outro lado. Noto que as minhas palavras de conforto e esperança não convencem os meus interlocutores. Compreendo que não lhes prometo nada que outros o não tenham já feito, muito provavelmente sem que o tenham cumprido. Prometo ir visitar o kimbo e inteirar-me dos problemas que preocupam o soba, nomeadamente a zála cujo termo eu já conhecia desde o primeiro dia.
Dou por terminado o encontro mas percebo nos gestos que não ouviram o que queriam. Parece claro que haviam preparado um conjunto de questões no sentido de as exporem e levarem resultados de volta. Fico a observar o regresso ao kimbo. Caminham lentamente como quem quer voltar para trás para repetir as preocupações e obter outras respostas. Apercebo-me de uma troca de palavras mais acaloradas entre o Lupale e o soba, sinal evidente de que há censura e desacordo quanto à forma como os assuntos tinham sido abordados. Perco-os de vista a passarem a portada do aldeamento. Caminham arrastados, olhos no chão e braços pendendo ao longo do corpo, ou a mão direita coçando uma comichão eterna que não existe no antebraço do outro lado, uma espécie de sarna que não se vê mas lhes fustiga o ser, suportado num estômago dorido e vazio de pirão e de fé. Como teria sido diferente aquele regresso, caso o sentido das palavras tivesse conduzido a outra fé e outras certezas, pelas quais esperavam e desesperavam havia décadas. Como teriam ficado felizes se lhes pudesse ter dito que a guerra ia acabar, que era tudo o que queriam e mais desejavam para voltarem a ser felizes no seu mundo livre feito de séculos de liberdade.

Pedro Cabrita (In-Capitães do Vento)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Carraças no Demba

A savana do Cuando Cubango é uma autêntica exibição da natureza selvagem. Por um lado, inóspita, hostil e traiçoeira e por outro, deslumbrante, luminosa e exuberante, abrindo-se em espaços imensos de uma beleza muito própria e difícil de descrever. Por ali não existem montes ou vales, a vegetação é escassa e pobre e as árvores, de pequeno porte e espaçadas, parecem encolher-se aos rigores de um clima dominado por um sol inclemente que nos fritava os miolos e trespassava sem dificuldade a timidez da folhagem miudinha que apenas conseguia coar, aqui e ali, a luz forte, semeando desordenadamente alguma sombra pelas imensas planícies da savana, sem qualquer efeito apaziguador no calor dominante.
Cumprindo, então, a segunda comissão de três meses no Rivungo, fui incumbido de executar uma pequena missão de patrulhamento que visava percorrer o troço de mata de pouco mais de dezena e meia de quilómetros, que começava nas margens do Cuando, a norte da missão de Santa Cruz, e acabava no Demba, último kimbo no trajecto que ligava a Neriquinha ao Rivungo.
Para o efeito, contava com meia dúzia de homens e, como guia, um sipaio dispensado pelo administrador Litenda, ajuda preciosa e necessária, já que a zona a percorrer não tinha trilhos ou outros pontos de referência que permitissem a utilização dos mapas do terreno. E isso tornou-se óbvio logo que saltámos do Unimog num ponto indeterminado da picada que traçava uma linha serpenteante a separar a orla da mata da extensa chana do Cuando. Para mim, o desenho irregular e recortado do pantanal que definia os domínios do rio, tornava impossível traçar uma perpendicular ao seu curso que nos colocasse no rumo certo. Olhando para o mapa do terreno, parecia fácil; o percurso estava ali claramente definido pela singela linha, traçada a lápis, a ligar o rio ao Demba.
Olhei em volta. Qualquer direcção que parecesse oposta à chana era um rumo possível. Mas qual delas? Era tudo a mesma coisa, a paisagem não ajudava nada e o contorno da chana que abraça o rio tornava impossível definir uma perpendicular. Do lado da mata, as coisas também não ajudavam; tudo em volta era monotonamente repetitivo e até as árvores pareciam cópias umas das outras.
Mas não para o sipaio. A forma decidida como apontou o caminho e avançou mata adentro, deixou-me a pensar. Nunca cheguei a perceber como se orientavam. Não obstante a total ausência de trilhos ou outra qualquer referência, avançava como se um caminho invisível lhe indicasse a direcção a seguir. Olhando em volta, ainda procurei encontrar o que quer que fosse que lhe pudesse estar a servir de orientação, mas nada. Apenas areia seca matizada aqui e ali por tufos de capim rasteiro amarelecido pelo cacimbo que se instalara havia meses. Não vislumbrei qualquer carreiro, pista ou pegada que permitisse aceitar que aquele era o percurso a seguir. Na verdade, ainda hoje estou convencido que, nos últimos meses, por ali não passara ninguém, nem sequer bicho. Não era época das chuvas, coisa que não nos visitava havia tempo. Ao menos, se tivesse chovido, poderia sempre pensar que teria apagado sinais de passagem. Mas não. Por aquela altura eu já conhecia bem a mata e já calcorreara muitos carreiros e itinerários arenosos da savana. Por onde passasse gente, havia sempre sinais evidentes disso, mesmo que, durante a noite, tivesse caído uma daquelas chuvas diluvianas habituais. Mas ali não. Quer o terreno quer a vegetação ressequida estavam absolutamente intocados, virgens. Não! Por ali não passara ninguém! Ali não era percurso de guerrilheiro, nas suas andanças a caminho das improvisadas bases no interior.
À nossa frente, o homem continuava, decidido, num passo vivo e cadenciado pelo meio do descampado em direcção a lugar nenhum, como se um ponto lá à frente lhe definisse um azimute. As extensas clareiras de areia esbranquiçada, pintada pelo amarelo ocre do capim seco, matizado aqui e ali de tufos verdes da folhagem perene de ervas estranhas, sucediam-se em desenhos irregulares entrecortadas de forma desordenada por grupos de árvores de pequeno porte e tronco escurecido pelo fumo das queimadas que ciclicamente assolavam a mata e depositavam, no solo, um pó escuro e fino que se levantava pelo arrastar penoso dos pés que teimavam em enterrar-se na areia fofa da savana, atrasando a marcha e duplicando o peso das botas.
Pouco mais de meia hora, sob as ferroadas de um sol impiedoso, foi o suficiente para esgotar toda a resistência do pequeno grupo que, em esforço, procurava acompanhar a passada do guia. Exaustos, com a garganta seca, quase impedindo a respiração ofegante, deixámo-nos cair à sombra quase inútil de um pequeno grupo de árvores, na tentativa vã de fugir ao calor.
Todo o percurso foi um martírio. O tempo de marcha foi ficando cada vez mais curto, enquanto se alongavam as paragens e se mitigava a sede com pequenos golos, cuidando de fazer durar o escasso litro de água transportado no cantil. Sabendo-se que não haveria água no percurso, racionava-se a que se trazia. O guia, esse, parecia olhar-nos de soslaio, como se não compreendesse a fraca resistência da tropa.
Foi com alívio quando, lá para o fim da tarde, se divisaram as palhotas do kimbo no outro lado da clareira que de repente se abriu à nossa frente, qual oásis no meio do deserto. O pequeno aldeamento do Demba, com cerca de uma vintena de palhotas toscamente construídas e espalhadas desordenadamente num recanto da chana formada por um braço do rio Uefo, albergava uma população que se dedicava ao cultivo de milho e criação de algum gado.
O posto da PSP, visível na periferia do kimbo e a poucos metros da picada, mais se parecendo com uma espécie de missão despojada, plantada na terra de ninguém, compunha instalações precárias que serviam de morada e local de trabalho a dois agentes e outros tantos auxiliares recrutados entre a população local, cuja missão compreendia a quase impossível tarefa de defesa daquela gente.
Fomos recebidos efusivamente pelos dois agentes. Conhecia-os muito bem e demonstravam sempre que a tropa era bem-vinda. A nossa chegada amenizava o isolamento, animava a conversa e trazia segurança ao local. Para já, na noite que se aproximava, seriam praticamente desnecessários os quartos de sentinela que, religiosamente, cumpriam noite após noite, numa estratégia rudimentar de segurança precária contra a eventualidade de um ataque inimigo, coisa que, verdade seja dita, não era costume acontecer. Ali só havia população e nada de estratégico que interessasse aos guerrilheiros combater. Um ataque trazia sempre insegurança às populações e isso não era conveniente. Sabia-se que dependiam deles para muita coisa e hostilizar quem diziam defender não era boa política. Mesmo assim, o Mugamba, o kimbo mais próximo que se seguia na linha da picada que levava à Neriquinha foi, um ano antes, atacado por um pequeno grupo de guerrilheiros, mantendo os PSP’s sitiados por mais de um par de horas, sob uma fuzilaria intensa.
No momento, aquela meia dúzia de tropas recém chegada, compunha um reforço bastante significativo na segurança. Era quase garantido que, naquela noite, não haveria problemas. As instalações da PSP não passavam de uma espécie de barracão, de pau a pique, barro e capim, só se diferenciando de qualquer das palhotas do kimbo pela sua maior dimensão. Como os demais postos, estava rodeada por uma espécie de paliçada com cerca de um metro de altura e meio metro de espessura, constituindo uma frágil e rudimentar muralha de paus, porém, quase inexpugnável. Quer se queira, quer não, era a única segurança oferecida à barraca.
Um abraço e uma cerveja acompanharam a recepção quase esfuziante que aqueles dois homens me dispensaram. De repente, a sua limitada vida de Robinson Crusoé foi interrompida, ganhou outra dimensão e fez levantar os ânimos. E isso era visível no fácies de contentamento de gente que, durante semanas a fio não tinha com quem falar, a não ser os parcos diálogos entre os dois, eventualmente envolvendo os dois ajudantes e, aqui ou ali, uma conversa ou outra, necessariamente curta e de circunstância, com elementos de uma população que, para além do mais, nem português falava.
Decididamente, eramos bem-vindos. Naquele dia haveria com quem falar, histórias e novidades animariam o serão e a noite seria passada em maior sossego e segurança; pelo menos sem sobressaltos. Se calhar até as rondas seriam dispensadas. Não o entendi como paga pela segurança e sossego que trouxemos àqueles dois, mas a verdade é que, de alguma forma, fui compensado. Desde logo, as três ou quatro cervejas que saboreei, mais o convite para lhes fazer companhia ao jantar e a irrecusável oferta de pernoita no aconchego da barraca era algo não propriamente dispensável ou desvalorizável. A pequena enxerga suplente, arrumada a um canto, era para mim a cereja no cimo do bolo. Um colchão de espuma, um cobertor e um lençol macio eram um luxo perante a perspectiva de uma dormida ao relento e com uma vantagem acrescida: pelo menos dormiria sem as botas enfiadas nos pés. Pode parecer estranho mas, dormir calçado é desconfortável e muito mais do que parece. Por outro lado, era tempo do cacimbo, altura em que as noites da savana gelam até aos ossos. Por oposição, o espaço dentro daquelas rudimentares instalações, de chão de terra e sem tapetes, oferecia um conforto não descartável; O capim que as envolvia, mantinha-as frescas sob o calor intenso do dia e bastante aconchegantes quando o frio gelava a noite.
Nesse entretanto, o pessoal procurou abrigo e escolheu o melhor sítio para dormir. Serviu na perfeição um cercado, vedado a toda a volta com uma espécie de sebe que os protegeria da friagem e com cobertura de capim que os deixaria ao abrigo da cacimba. Fossem quais fossem as condições, sempre era melhor ali que no meio da mata.
Cada um escolheu um recanto, arrumaram-se, recostaram-se degustando as conhecidas surpresas enlatadas da ração de combate e, após um bocado de conversa, adormeceram vencidos pela estafa de um dia de caminhada sobre as areias secas e escaldantes da savana.
Certamente mais bem instalado, segui-lhes o exemplo. Por ali, a hora de deitar chegava com o cair da noite. Não havia luz eléctrica e nada com que passar o tempo. Dormir era a única coisa a fazer. Por mim, o cansaço não me deixou outra opção e adormeci quase de imediato.
O dia seguinte começou bem cedo. Naquelas paragens, o sol tem sempre pressa em nascer e é irritantemente madrugador. Na época do cacimbo, cinco horas da manhã já é dia claro e uma hora depois o calor já aperta. Levantei-me, saí e fui até ao local onde o pessoal se acoitara. Queria saber como estavam e decidir o que fazer enquanto o unimog que nos recolheria não chegava.
De longe, apercebi-me que um burburinho se instalara, concluindo, ao aproximar-me, que algo não correra bem durante a pernoita e não era qualquer conflito ou zanga entre eles. Estavam seminus, alguns com cara de poucos amigos e coçavam-se como se tivessem sido atacados por uma praga de sarna.
Cada um, à vez, ou acordado pelo parceiro do lado, foi-se dando conta que carraças de tamanho a que não estavam habituados, se haviam alapado à pele: uma ou outra nas costas, algumas nas virilhas e outras por aqui ou por ali. Algumas já arrancadas, outras esborrachadas e outras ainda em vias disso, deixavam claro que o grupo fora atacado, durante a noite, por um inimigo inesperado.
O local mais ou menos protegido e que, na noite anterior, parecera o lugar ideal para pernoitar, era afinal uma espécie de curral, inexplicavelmente limpo, onde a população costumava meter o gado que pastava livremente na mata próxima. E o gado, naquelas paragens, costumava estar infestado de carraças. O medo que alguns demonstravam e a confusão que se gerou, explicava-se pela real possibilidade de poderem vir a contrair uma doença que se sabia manifestar-se através de febres altas, para além do desagradável da situação, da comichão insuportável, da borbulhagem e visível intumescência avermelhada provocada pelas ferroadas dos bichos.
Melhor seria se tivessem dormido ao relento. Certamente que o desconforto teria sido bem mais desejável.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Kiela no Samatamo

Dou hoje mais importância ao modus vivendi do povo Ganguela, do que no tempo em que com eles convivi no dia-a-dia. Bem vistas as coisas, embora a memória, rendida aos quarenta anos já passados, esteja cada vez mais desvanecida, a verdade é que, na altura, ligava a pouca coisa que tivesse a ver com os seus hábitos. Retenho a ideia de que era um povo afável e humilde, mas culturalmente a anos de distância daquilo que se entendia designar por civilização.
Os seus costumes eram ancestrais e pautavam-se por hábitos e crenças que, então, me pareciam mais próximos da pré-história do que dos nossos tempos e não tenho dúvidas de que os seus contactos com as modernices dos brancos só terão começado com a chegada da tropa. Até então, bastavam-se com aquilo que a imensa savana lhes oferecia e isso era mais do que suficiente para a satisfação das suas escassas necessidades. Do rio tiravam o peixe e da mata tudo o resto. Quanto à água, havia-a em abundância por todo o lado.
Bastava dar uma volta pelo kimbo para se perceber tudo isso. As cubatas rudimentares que apenas serviam para se abrigarem do desconforto da noite, a pouco variada dieta alimentar, os parcos utensílios de que se serviam, os símbolos e fetiches à porta da curandeira de serviço, são exemplos dos sinais evidentes que se encontravam a cada canto.
O temor do desconhecido e as crendices no sobrenatural ilustram perfeitamente o que quero dizer. O pavor que tinham de uma máquina fotográfica radicava na crença de que o aparelho lhes roubava a alma; saía-lhes do corpo e ficava presa no papel da fotografia.
- Xicupula não! Gritavam à vista da temida maquineta.
Exemplos semelhantes havia-os às dúzias. Já não me lembro da maior parte, mas as mezinhas com sangue de galinha, as danças para afugentar feitiços, o estrume de vaca que espalhavam na cabeça das mulheres que atingiam a puberdade compondo um artístico e mal cheiroso penteado, o ritual da perda da virgindade e mais umas tantas crendices, compunham um leque razoável de comportamentos que considerávamos estranhos.
O batuque, com o seu tum-tum-tum que chegava a durar dias, tocado a propósito de muita coisa, tanto podia servir para abrilhantar uma comemoração ou uma festa, como para conferir dramatismo ao lamento pela morte de alguém ou ainda como banda sonora de um qualquer acto exorcista para afastar feitiços. Quando começava, nunca se sabia se comemoravam ou se choravam, se exorcizavam maleitas ou se simplesmente procuravam afugentar maus espíritos. O pior é que, normalmente, preferiam fazê-lo à noite. E quando isso acontecia, ninguém conseguia dormir nas redondezas. Felizmente que ali era o capitão quem ditava as regras. O assunto resolveu-se com uma decisão que, provavelmente veio colidir com os seus hábitos: batuques, só com autorização prévia do comandante da companhia e não poderiam prolongar-se pela noite dentro.
Mas, por ser o único que estava logo ali ao lado do aquartelamento, colado á cerca de arame farpado, esta regra só valia para a população do kimbo da Neriquinha. Em todos os outros, espalhados pela mata imensa, os costumes seguiam as suas próprias regras, não havendo brancos por perto que pudessem sentir-se incomodados.
O Samatamo era um desses kimbos. Mais pequeno que os demais, localizado nas imediações das chanas do Kuando, meio perdido algures na imensa savana, ficava a sul do Rivungo, a pouco mais de uma hora por uma picada que serpenteava por entre as árvores e, ao contrário de todos os outros, nem tão pouco era enquadrado por agentes da PSP. Talvez por isso, era visitado, com alguma frequência, pela tropa. Passávamos por ali de vez em quando, numa espécie de patrulhamentos que se faziam, mais para marcar presença do que para outra coisa; contactava-se com a população e aproveita-se para vigiar as margens do rio que ali fazia fronteira com a Zâmbia. Eram missões de dois dias, pacíficas, sem grandes canseiras ou caminhadas, efectuadas a cavalo de um unimog e chefiadas por um furriel à frente de meia dúzia de homens, já que mais do que isso, não cabia na viatura.
Durante a minha permanência no destacamento do Rivungo, fui encarregue de uma dessas missões. Sem pressa, saímos a meio da manhã, tomando a picada que seguindo para sul, nos levaria ao destino. Lembro-me de que passámos pela Mahínha, um pequeno aglomerado de quatro ou cinco cubatas construídas de forma muito rudimentar e que apenas albergavam duas ou três famílias que mantinham lavras de milho e massango nas redondezas e que distava do Rivungo menos de um quarto de hora. Hoje, consultando o Google Earth parece-me estranho que o local esteja assinalado com relevo, ao contrário do Rivungo que nem é referido.
A missão correu naturalmente, sem incidentes ou o que quer que fosse que merecesse ser relatado a não ser a noite passada à beira da chana, cuja humidade alimentava um autêntico viveiro de mosquitos gulosos que infernizaram o sono. A verdade é que desta missão rotineira, praticamente insignificante face a tantas outras que me levaram a calcorrear quilómetros de savana, sobre um sol impiedoso ou chuvas diluvianas, apenas ficou um insignificante pormenor que, mesmo sem ter fotografias, permanece gravado na minha memória e ao qual só vim a dar importância muitos anos depois.
Saltámos do unimog e refugiámo-nos à sombra de uma árvore frondosa à entrada do kimbo, procurando protecção para a inclemência do sol que nos derretia as poucas gorduras, ao mesmo tempo que se acalmava a sede, sorvendo avidamente a água dos cantis. Ali ao lado e também à sombra da mesma árvore, quatro ou cinco elementos da população entretinham-se acocorados à volta de três filas de pequenas covas, equidistantes umas das outras, como que compondo um tabuleiro meticulosamente escavado na areia endurecida pela chuva da noite.
Aproximei-me curioso. Sementes redondas, pouco maiores que avelãs, estavam irregularmente distribuídas por cada covinha. À vez, cada jogador escolhia uma cova, fazia cálculos e distribuía pelas covas seguintes, uma a uma, as sementes que recolhera da cova seleccionada. Fiquei a olhar tentando perceber a lógica do jogo, mas só consegui discernir que não era indiferente a cova escolhida. Dependia da sua localização face às que se lhe seguiam e da quantidade de sementes que continha e não sei bem porquê, fez-me lembrar o jogo de gamão com que o Viola e o Ramirez costumavam entreter-se num tabuleiro existente na Neriquinha; nunca o percebi e só aqueles dois é que o sabiam jogar. Pelo menos nunca vi mais ninguém a fazê-lo.
Contudo, o avanço das peças no gamão é ditado pelo número que sair nos dados lançados no tabuleiro, enquanto que, no jogo das covinhas, a decisão é do jogador e isso implica uma estratégia e obriga a cálculos que não me pareciam simples.
Ainda hoje não sei nem as regras nem a finalidade, mas sei que é um jogo de estratégia, aparentado com o xadrez, mais conhecido pelo nome de Kiela, que leva horas a chegar ao fim e cuja complexidade transforma em inofensivas brincadeiras de crianças os jogos de cartas como a sueca ou a bisca lambida, muito populares nas casernas dos nossos soldados.
Lembrei-me deste pequeno episódio ao ler o Afonso Loureiro. No seu Blog, contou uma pequena história sobre este jogo. Ao ver a fotografia que captou (ver aqui), veio-me à memória as covinhas no chão debaixo daquela árvore no kimbo do Samatamo.
Afinal aqueles indígenas, integrando uma etnia considerada entre as mais atrasadas do continente africano e cujo modo de vida me pareceu mais próximo da pré-história, eram exímios num jogo iminentemente intelectual.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A preparação da janta

A alimentação dos ganguelas da Neriquinha era muito pobre e talvez fosse essa a razão para não haver gordos entre aquele povo.
Proteínas, apenas as que retiravam do que conseguissem caçar, uma ocupação dos homens que para o feito, deambulavam durante semanas pelas matas até apanharem alguma coisa; por sorte, a caça abundava por ali.
Também nunca os vi comer verduras e os frutos resumiam-se a algumas variedades, desconhecidas para nós e que cresciam espontaneamente nas matas.
A base da alimentação era constituída por dois cereais: o milho e o massango, com os quais cozinhavam uma papa de aspecto duvidoso.
Mas para isso, era necessário transformá-los previamente em farinha, uma tarefa demorada feita à força de trabalho braçal; bater os grãos dentro de um grande pilão com uma vara grossa e pesada, era tarefa árdua que competia às mulheres. Passavam horas em pé, batendo o cereal a um ritmo cadenciado, até conseguirem a consistência desejada.



domingo, 1 de janeiro de 2012

Delírios nocturnos

Já aqui me referi, por diversas vezes, aos meus companheiros de aventuras por terras do Cuando Cubango, especialmente os furriéis da 3441. É verdade que cada ser humano tem características próprias que o distinguem dos demais e isso torna-o de alguma forma especial. Não quero chegar ao exagero de afirmar que ali todos eram especiais, mas a verdade é que alguns se demarcavam pelas suas características e comportamentos. As diferenças notavam-se na forma de ser, nos tiques e manias, nas extravagâncias, vaidades e medos, nas bazófias de feitos passados, não obstante os poucos anos que ainda levavam de idade adulta não garantirem a experiência necessária. Uns distinguiam-se pela timidez, outros pelo atrevimento, alguns pela piada e outros pela sisudez, mas é também verdade que uns eram indubitavelmente mais cultos que outros. Vistos por outro prisma, uns tantos eram mais experientes e ledos, em contraponto com dois ou três mais reservados e tacanhos. Mau feitio, camaradagem, sensatez e bom senso, estavam mais ou menos bem distribuídos por todos de forma que, quando faltava paciência a alguém, compensava-se com o bom senso do mais apaziguador.
Era assim o corpo de furriéis da companhia, se bem que alguns, por isto ou por aquilo, tivessem deixado marcas mais profundas nas nossas memórias, como sejam as doenças do Palúdico, as diatribes do Silva ou as bebedeiras do Neto. A verdade é que, pelo menos durante os longos dezoito meses que passámos na Neriquinha, dormíamos todos na mesma camarata e, quer queiramos quer não, isso fazia com que nos conhecêssemos com algum pormenor. E isso é o mesmo que saber como cada um dormia, se ressonava ou não ou se dormia de barriga para baixo ou de papo para o ar. Ainda me lembro que o Viola tinha o hábito de dormir de boca aberta, o Fielas esparramava-se de barriga para baixo, enquanto que o Ramirez dormia de barriga para cima e ressonava. O Neto, esse, normalmente toldado pelo álcool, discutia com as melgas. O Gameiro conhecia-se pouco; passava as noites no kimbo aconchegado à Regina Preta e não me lembro de o ver a dormir na nossa camarata.
Quanto ao que se passava enquanto todos dormiam é coisa mais difícil de recordar; todos tinham o sono pesado e a canseira do dia funcionava como barbitúrico eficaz; e por isso, todos dormiam o sono dos justos. Assim, o ressonar do Ramirez não incomodava ninguém e se alguém falava durante o sono, não se dava por isso. A não ser que o pesadelo fosse de tal ordem que nos fizesse acordar, o que aconteceu algumas vezes com o Peixoto.
O Peixoto era o furriel de operações especiais da companhia - cada companhia de caçadores tinha um alferes e um furriel formados na instrução especial de Lamego. E como eram mobilizados logo que acabavam o curso, isso transformava-os nos graduados mais novos da companhia. E isso marcou o Peixoto; sendo o de menos idade entre os furriéis, foi apelidado de “o menino”, nome que ainda hoje se utiliza quando se fala dele, não obstante já ter ultrapassado, há um par de anos, a fronteira dos 60.
Pois é, “o menino” falava durante o sono e o mais engraçado é que não dava por isso. Nunca o conseguíamos convencer das asneiradas que lhe saíam da boca durante o sono e melindrava-se quando confrontado com o facto.
- Vocês estão é a gozar comigo!
Despachava, sem dar hipótese a argumentos; mesmo com as explicações mais objectivas do mundo, não se convencia. Para ele não passava de provocação.
Certa noite, o pesadelo do Peixoto foi sério. De repente, no meio do silêncio, sentou-se bruscamente na cama e esbracejando freneticamente gritava:
- Lá vêm eles … lá vêm eles!! Façam segurança à pista grande!!
E dito isto, deixou-se cair para trás retomando o sono profundo de onde nunca tinha chegado a sair.
Penso que todos acordaram estremunhados e alguns até saltaram da cama, embora sem grande susto. Já conhecíamos o Peixoto e os seus delírios e ninguém estranhou, embora eu tivesse ficado com a sensação que ele estava a gozar connosco.
Por sorte, não havia nenhuma pista grande e até hoje nunca conseguimos descobrir onde diabo foi o Menino buscar tal ideia. A Neriquinha apenas tinha uma pista, por sinal pequena, de terra batida e muita erva e nunca se ouviu dizer que alguma vez ali tivesse existido uma maior. O estranho de tudo aquilo é que o Peixoto, não sendo muito assustadiço, também nunca dera sinais de medos ou temer ataques, o que, verdade seja dita, foi coisa que nunca aconteceu e naquele exacto momento, tirando o escarcéu do Peixoto, tudo o mais permaneceu mergulhado no mais completo silêncio: não se ouviram tiros, as sentinelas não deram o alarme; tudo estava em perfeito sossego, como sempre. E assim sendo, todos retomaram o sono profundo e revigorante.
Algum tempo depois, o Peixoto voltou aos seus monólogos nocturnos, desta feita com algumas inconfidências que mais uma vez não reconheceu como tendo sido proferidas por si. Talvez pelo melindre, não foram tão abertamente pronunciadas. Não sei se em resultado de um qualquer sonho erótico, mas a verdade é que as frases saíram mais em surdina, perfeitamente audíveis mas um tanto ou quanto entarameladas, sem sequência lógica, como se verberasse impropérios contra alguém, certamente do sexo feminino. Pelos vistos, as mulheres atormentavam o sono do menino e todos se lembram de, no meio de um arrazoado sem sentido, se ouvir nitidamente algo como … puta de merda ….
A história nunca ficou esclarecida e o Peixoto nem se mostrou comprometido quando confrontado mais uma vez com os seus monólogos nocturnos. Como sempre, arrumou o assunto com um:
- Vocês tiraram o dia para gozar comigo!
E afastou-se com um gesto de desprezo, como quem em definitivo quer deixar claro que não quer mais conversas. Ainda hoje, estou para saber se não esteve todo o tempo a gozar connosco.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Artesãos da Neriquinha

Numa abordagem superficial, a produção de artesanato poderia parecer tratar-se de mera ocupação do tempo. Mas se se tiver em atenção o que produziam, facilmente se conclui que a arte de esculpir a madeira e moldar o ferro visava em primeira mão a produção de ferramentas e utensílios necessários ao dia a dia daquelas gentes. Aquela forja artesanal e curiosa, manipulada pelo Século Sarikissi, com a qual forçava sem esforço o ar até o braseiro que tornava o ferro incandescente, não fora invenção recente. Mais, não tinha por finalidade a simples produção de artesanato.
È claro que a lixeira da tropa se transformou num local onde encontravam matéria prima pronta a ser transformada: bocados de molas partidas das viaturas eram facilmente transformados em facas, machados (javites) e lanças; aduelas de barris que ali chegavam acondicionando azeitonas e outras conservas viravam cadeiras e artefactos e a abundância de madeira existente nas matas era facilmente transformada em objectos procurados pelos tropas dando lugar a um mercado em que cachimbos, cinzeiros artísticos, pequenas estatuetas, tambores e caretos constituíam uma fonte de rendimento até então inexistente.A arte de moldar o ferro e esculpir a madeira tornara-se um negócio, passando as ferramentas a serem aos poucos adquiridas no Chiado.
















quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O CHIADO

A população da Neriquinha e arredores não ligava muito ao dinheiro. Na verdade, o seu modo de vida e a satisfação das suas necessidades básicas dispensava tal modernismo; tiravam da terra quase tudo o que consumiam, fabricavam a maior parte dos utensílios que precisavam e colhiam na mata os materiais com que construíam as suas casas.
Era uma economia agrária, rudimentar e por ali não havia mercearias, supermercados, drogarias ou outras lojas que convidassem ao consumo.
A chegada da tropa a tão remotas paragens veio contaminar este despojado modo de vida. Com a tropa, vieram também coisas que rapidamente os conquistaram. O tabaco e o álcool contam-se entre as novidades a que rapidamente aderiram, especialmente as mulheres; com um simples maço de tabaco obtinha-se de uma mulher muitos favores.
Mas o álcool era talvez aquilo que mais apreciavam. Com muita frequência encontrava-se pelo kimbo mulheres totalmente embriagadas, à força de emborcarem quantidades significativas de uma mistela alcoólica de produção caseira obtida a partir da fermentação das sementes de massango. De cor castanho forte e com muito mau aspecto constituía até então a única bebida que conheciam para afogar as mágoas se é que era esse o intento.
À vista da beberragem, uma garrafa de brandy, de cor nacarada e límpida, assemelhava-se a coisa especial, inatingível; um néctar próprio dos deuses, mas de preço muito elevado para bolsas tão magras.
O produto era de facto muito apreciado e todos sabiam disso. Exactamente por isso, certa vez, no Rivungo, o cabo enfermeiro apostou que, prometendo uma garrafa de brandy a uma mulher que trazia fisgada, conseguiria uma noite de prazer sem gastar um centavo. Pegou numa garrafa vazia, encheu-a com metade de água e metade de álcool puro subtraído da enfermaria, adicionou meio frasco de complexo B para conferir uma cor amarelada à mistela, rolhou muito bem e deu-a de presente anunciando o melhor brandy do mundo. Foi dia de festa para a mulher; bebeu a garrafa numa noite e no dia seguinte queria mais:
- Brandy muito bom, nosso cabo, machiririca.
De uma assentada, elogiava a qualidade da mistela e com o machririca mimoseava o enfermeiro.
Mas não foram apenas novos produtos que a guerra levou àquelas bandas. Novos hábitos de consumo, algumas utilidades, umas quantas futilidades e algum dinheiro também ali chegaram, contribuindo para uma aculturação paulatina, que levou aquela gente a ir aderindo, uma após outra às novidades, até já não dispensarem certas modernices. Por exemplo muitas mulheres já não passavam sem o seu cigarro; compravam-nos, cravavam os militares ou então recebiam-nos em troca de um agrado. Na sua maioria, especialmente as mais velhas, fumavam introduzindo na boca o cigarro ao contrário. Depois de o acenderem, enfiavam na boca a ponta incandescente deixando de fora a boquilha e assim ficavam até o cigarro se consumir. Nunca percebi como faziam aquilo; não molhavam o cigarro, a chama não se apagava e consumiam-no até ao fim sem se queimarem.
A grande novidade que veio com a tropa foi o dinheiro o qual, como não podia deixar de ser, foi chegando às mãos daquele povo, quer como paga dos serviços que prestavam, quer como provento da venda do que pudesse interessar aos forasteiros; o sexo era uma boa fonte de rendimento perante a quantidade de homens sedentos de mulher e o variado artesanato que produziam tinha boa aceitação entre os tropas.
Depois havia o ordenado pago aos GE’s, substancialmente maior que as demais fontes de rendimento. Recebiam muito menos que qualquer soldado mas para eles era dinheiro que não tinham onde usar. E isso levava-os a gastá-lo na cantina, comprando álcool.
Por outro lado, lojas, naquele fim de mundo, abertas ao público, eram coisas escassas. Apenas no Rivungo havia uma rudimentar loja explorada pelo velho Miguel, vendendo pouca coisa e em Mavinga, tanto quanto me lembro, não haveria mais do que duas. Mas, como era preciso pelo menos dois dias de caminho para vencer a distância, tinham pouca utilidade para a população da Neriquinha e qualquer delas não vendia nem tabaco nem álcool; apenas uns panos coloridos, umas missangas, uma coisa ou outra e nada mais. Os clientes escasseavam, o dinheiro era pouco e os hábitos de consumo inexistentes. Ou seja comerciante por ali não se safava, o que confirmava a minha teoria de que o marinheiro Godinho, quando voltou para o Rivungo e ali se estabeleceu tomando de trespasse a lojeca ali existente, fê-lo certamente atraído pelas armadilhas do amor que o prenderam à negra por quem se embeiçou. Nunca mais regressou à civilização, acabando ali os seus dias volvidos alguns anos e não consta que tenha ficado rico.
Ora, a Neriquinha não era uma localidade. Como já se disse, era apenas um acampamento militar delimitado por uma cerca de arame farpado no meio da terra de ninguém. A população que ali habitava apenas se arrumou do outro lado da cerca, procurando a segurança e o conforto que a tropa propiciava. O facto é que, como se sabe, logo que findou a guerra, a tropa abandonou o local, a população zarpou, procurou outros lugares, ficando a Neriquinha a apodrecer, abandonada, até se converter em ruínas tomadas pela mata.
Mas, voltando ao tema do comércio, é claro que a lacuna tinha de ser suprida. A Neriquinha precisava de uma loja; a população que ali se juntou tinha necessidades que precisavam de ser satisfeitas e a tropa encarregou-se disso. A 3441 herdou da companhia anterior e suponho que também esta herdou da que a antecedeu, uma cubata grande, um barracão todo feito de capim já enegrecido pelo tempo, estrategicamente plantado perto da passagem que ligava o aquartelamento ao Kimbo, nas traseiras da ferrugem.
Eufemisticamente puseram-lhe o nome de “O CHIADO”. Ali se vendiam umas quantas tralhas: panos de diversos padrões e cores, ferramentas onde se incluíam as enxadas, panelas de ferro tipicamente portuguesas (daquelas com tripé) ideais para cozinhar sobre lenha, uns alguidares de plástico, uns canecos, uns pratos de lata esmaltada, facas, colheres, garfos, missangas e outros adornos e mais uns quantos artigos que se consideravam poderem interessar à população.
Para a gerência do estabelecimento foi designado o furriel P. Costa, acumulando com a coordenação da horta. Já que o capitão o dispensou da actividade operacional por alegadamente sofrer de uma qualquer doença incapacitante, ao menos tinha com que se entreter. Mas, vistas bem as coisas, a nomeação foi acertada. O P. Costa tinha jeito para o negócio, sabia lidar com aquelas gentes e pelos vistos era de confiança, já que, tanto quanto sei, o estabelecimento dava lucro.
Assim, quando os GE’s recebiam o seu ordenado, havia como gastar o dinheiro em coisas úteis, e não apenas na cantina, embora isso não impedisse que o stock de brandy sofresse baixas consideráveis nos dias que se seguiam. De facto, amor ao dinheiro era coisa que não tinham e menos ainda hábitos de poupança e também não aspiravam a nada que pudesse ser alcançado com as poucas notas que recebiam mensalmente.
Nesta ordem de ideias, e não tendo o dinheiro serventia, o normal era gastarem-no todo nos primeiros dias em bebida que ingeriam sem comedimento e isso poderia constituir um problema de ordem social e pior que isso de ordem disciplinar. GE’S bêbados por dias consecutivos não era muito auspiciante.
E foi por todas estas razões que o capitão, investido em representante da autoridade do Estado, determinou que uma parte do ordenado lhes fosse pago em espécie; exactamente em artigos à sua escolha que seriam fornecidos pelo Chiado, ficando assim garantido que, pelo menos essa parte, não se evaporaria em álcool.
O facto é que o Chiado foi cumprindo a sua missão: as mulheres começaram a andar mais vestidas, passaram a exibir adornos de missangas coloridas e as latas velhas e negras de fumo, recolhidas na lixeira da tropa e até então utilizadas na confecção das refeições, foram sendo substituídas por panelas de ferro.

O Chiado não abria todos os dias e quando abria era por pouco tempo, já que o fluxo escasso e intermitente de clientes, não obrigava ao cumprimento de horários comerciais. Quem quisesse comprar alguma coisa sabia onde estava o lojista e o P. Costa não se esquecia de manter o estabelecimento aberto nos dias que se seguiam ao recebimento das mesadas, quer se tratasse de GE’s, dos rapazes que lavavam a roupa, dos serviçais que ajudavam na enfermaria, na horta, na cozinha e na messe ou onde pudessem garantir uma fonte de rendimento.
O lucro do negócio propiciado pelo Chiado não engordou ninguém em particular. Foi usado até ao fim da comissão para compensar a escassez da verba para alimentação. Graças ao Chiado, comemos um pouco melhor durante o resto do tempo que durou a nossa missão por terras angolanas. E a população agradecia a possibilidade de adquirir algo de que precisasse em troca do dinheiro inútil. Não fora isso e provavelmente gastaria as suas parcas receitas monetárias em coisas supérfluas; talvez em álcool.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Neriquinha - Subsistência

A dieta alimentar da população da Neriquinha, era limitada.
A agricultura, meramente de subsistência, resumia-se à plantação de dois cereais: o milho e uma espécie de sorgo por ali chamada de massango. Transformados artesanalmente em farinha, cozinhavam uma papa de aspecto duvidoso que constituía uma dieta alimentar muito pobre.
Tirando isso, a mata fornecia tudo o mais.

A caça constituia a única fonte de proteínas. Mas, não obstante ser abundante na região, os métodos rudimentares de caça não garantiam muita frequência no abastecimento. Por isso, não eram esquisitos Qualquer animal que conseguissem apanhar virava refeição, como foi o caso do hipopótamo que resolveu invadir as lavras da Neriquinha Velha.Frutos silvestres não abundavam, mas as árvores do MABOCO cresciam por ali, disseminadas pela mata. Sabiam onde estava cada uma e o primeiro a chegar colhia tudo o que podia transportar