terça-feira, 1 de novembro de 2011

O resgate da avioneta

O Cuando Cubango, pelo menos no espaço que vai do Kuito Cuanavale até ao Luiana, é dominado pela savana. São extensões a perder de vista de uma paisagem plana e monótona, caracterizada por uma vegetação pouco densa, onde as chanas constituem clareiras extensas, maioritariamente atravessadas pelos inúmeros cursos de água que se passeiam indolentes sem rumo definido num terreno isento de pontos de referência.
Vista de cima, cada chana parece igual a todas as demais e as poucas particularidades que as diferenciam raramente servem de orientação a quem quer que por ali se aventure. Por esse facto, sobrevoar aquele território obriga à utilização dos instrumentos necessários à orientação do voo.
Naquele tempo, o Barros, piloto da TASA, seria o único que se atrevia a dispensar essas sofisticadas modernices. Trazendo-nos o correio duas vezes por semana, conhecia a savana como a palma das suas mãos, sabia de cor e salteado as chanas que se sucediam desde o início do percurso até à ultima e mais remota localidade e era capaz de identificar exactamente quais as clareiras onde poderia aterrar o seu pequeno Cessna em segurança, se fosse caso disso.
Mas isso era o Barros. Qualquer outro que cruzasse os ares da savana tinha de saber utilizar os instrumentos de navegação, caso contrário, o risco de se perder era real. E foi isso exactamente o que aconteceu. Certo dia, não sei como nem porquê, um pequeno monomotor pertencente a uma pequena companhia de táxis aéreos de Serpa Pinto, pilotado por um novato naquelas andanças, levantou do Rivungo com destino à Neriquinha. Consigo trazia dois passageiros, um deles, o Camassango, técnico para as questões da agricultura que, finda a sua comissão no Rivungo, regressava a Serpa Pinto.
O piloto orientou o pequeno avião na direcção nor-noroeste, seguindo à vista as chanas que se sucediam, as quais, de acordo com o mapa que tinha à sua frente, indicariam a direcção da Neriquinha. Mas, por razões que desconheço, foi-se desviando pouco a pouco do rumo certo. Crê-se que por alturas do Cúbia, inclinou ligeiramente o avião em direcção a oeste e sem se dar conta do engano passou a sobrevoar uma sucessão de chanas que o foram afastando do rumo que pretendia seguir até que se viu perdido. Andando em círculos, sobrevoou o rio Uefo, passou ao Dima e acredita-se que planou desorientado sobre os rios Capembe e Matungo até que, esgotado o combustível, acabou por se despenhar nas chanas alagadas do Utembo, quase no limite da nossa área de intervenção, alguns quilómetros a sul do local que denomináramos de esquadrão, por ali ter estado instalada uma base inimiga por nós destruída alguns meses antes, numa operação de grande envergadura.
Foi pedida ajuda à Força Aérea que disponibilizou um velho PV2, a empresa proprietária do aparelho destacou duas pequenas aeronaves, assentaram as bases na Neriquinha e lançaram-se na busca dos destroços do avião sinistrado, varrendo toda a área possível e vasculhando lá dos céus cada recanto da savana.
Só ao fim do terceiro dia de buscas, o PV2 avistou os três ocupantes do pequeno avião, deambulando perdidos numa clareira e que entretanto, quase mortos de fome e cansaço, se haviam afastado bastante do sítio onde tinham caído. Foram lançadas rações de combate que os três devoraram com sofreguidão acabando por serem recolhidos pouco tempo depois por um helicóptero da Força Aérea que os trouxe para a segurança da Neriquinha.
Fui esperá-los à pista. Conhecia bem o Camassango, pelo menos o suficiente para estar preocupado. Ao menos queria saber se estava bem. Coxeava ligeiramente, tinha umas quantas nódoas negras, uns arranhões, mas não tinha nenhum osso partido nem ferimentos graves. Em boa verdade, os três, para além do grande susto, apenas foram atormentados pela fome já que, água, havia em abundância, especialmente naquela época do ano. Estavam todos sujos, a roupa mal tratada, apresentavam um ar cansado e nitidamente empalidecido. Três dias sem comer tinham deixado as suas marcas. Ao longo dos dias em que deambularam pela mata, ainda tentaram apanhar a única coisa que lhes apareceu pela frente; uma espécie de ratazana que costumava escavar pequenos túneis nas bermas das chanas e a que nunca demos importância. Pelos vistos não chegaram a apanhar nenhuma e água foi a única coisa que conseguiram ingerir ao longo de todo o tempo que andaram perdidos.
Agora, passado o pior, importava recuperar a carcaça da pequena avioneta. Não era conveniente deixá-la ali e os seus donos faziam questão de a reaver. Não ficara muito danificada e a sua reparação mais do que se justificava.
O problema residia apenas na forma de arrancar o avião do sítio onde estava e trazê-lo até à Neriquinha, tarefa que nos foi confiada. Com efeito, o local era distante e de difícil acesso mas a nossa companhia era a única que teria condições de lá chegar, não obstante o único equipamento disponível se resumir às berliet’s, sem dúvida o único meio de transporte capaz de levar a cabo a missão, embora nos parecesse serem um pouco curtas para o efeito. Transportar um avião acidentado às costas daquelas viaturas, pelos percursos sinuosos da savana, não seria pêra doce.
Para a operação foi designado o furriel Leitão à frente de um grupo de homens do seu pelotão o que o deixou furioso. Pouco tempo antes, todo o seu grupo de combate, chefiado pelo alferes Aranha, estivera envolvido numa das operações mais difíceis da companhia, levada a cabo lá para os lados do Tossi e que tivera como objectivo perseguir o grupo do Kuenho que, um dia antes, emboscara e matara doze GE’s dos grupos de Mavinga e da N’Riquinha, no qual se incluía o nosso Fulay. E, exactamente por isso, ter de alinhar de novo, não agradou ao Leitão.
Ficou furioso, perdeu a sua costumeira postura pacífica e resolveu questionar o capitão. Procurámos acalmá-lo, dissuadi-lo, apresentando argumentos, justificações, pontos de vista. Até se tentou encontrar as razões que teriam levado o capitão a escolhê-lo. Mas nada parecia acalmá-lo, ripostando irado com uma espécie de jargão muito seu, que usava quando discordava de qualquer coisa.
- Não há nem meio !
Nitidamente exaltado caminhou em direcção ao gabinete do capitão decidido a levar avante a contestação, esquecendo-se que, na tropa, ordens não se discutem. Mas de nada lhe valeu refilar. Parece que efectivamente não havia outra escolha. Conformou-se, acatou a ordem, preparou a equipa à qual foram afectos dois mecânicos, um enfermeiro e um rádio-transmissões. Carregaram duas berliets com ferramenta, cordas, dois bidões de gasóleo, lanças de reboque e tudo o mais que se pensou poder vir a ser necessário e lá partiram, determinados a trazer a carcaça acidentada, custasse o que custasse.
Saíram, bem cedo, muito antes do sol nascer, seguindo em direcção às pontes do Cúbia, tomando depois a picada por nós aberta nas idas ao esquadrão e continuando para montante ao longo do percurso irregular e sinuoso do Cúbia.
Rodaram durante todo o dia, chegaram às chanas do Dima e continuaram para sul ultrapassando os limites já nossos conhecidos e que havíamos palmilhado aquando das incursões para os lados do esquadrão, mas agora prosseguindo a corta mato, abrindo nova picada sobre as orientações do guia, até à zona mais a sul do rio Dima.
De acordo com a informação passada pela Força Aérea, sabia-se que o avião estava semi-submerso e admitia-se que esse factor viesse a dificultar a sua recuperação. Não se conhecia a zona nem os eventuais obstáculos à progressão das viaturas, sua extensão e forma de os contornar. É que, visto de cima, tudo parecia fácil e acessível. Cá em baixo, a vegetação esconde os acidentes do terreno, as armadilhas das chanas pantanosas, os lamaçais disfarçados, os acidentes de terreno que as viaturas não conseguem vencer e os pequenos cursos de água difíceis de rodear. Ali não havia pedras ou terreno consistente; apenas areia, charcos e lodaçais.
Estávamos no tempo das chuvas e as chanas estavam alagadas, perigosas, aconselhando a rodar com as devidas cautelas e distâncias. Qualquer percurso mais baixo e fora do arvoredo podia ser uma armadilha lamacenta para as viaturas. Mas, ao fim de algum tempo e, creio, alguma persistência e com os preciosos conhecimentos do guia, lá encontraram o pequeno monomotor, meio submerso numa extensa chana alagada, algures já nos domínios do rio Utembo.
Tirá-lo dali e carregá-lo sobre uma das berliets, era agora o problema a solucionar. Não sei exactamente como o fizeram, mas lembro-me do Leitão ter contado que o pessoal livrou-se de camisas e peças de roupa inúteis, entrou naquela imensidão de água acumulada pelas recentes chuvas e que o desabrochar do capim verde fazia lembrar um extenso arrozal, desmontaram as asas, puxaram o resto da carlinga à força de braços e alguma imaginação, encaixaram sobre a carroçaria os restos do avião e encetaram a viagem de regresso, seguindo em sentido inverso o mesmo percurso sinuoso de volta à Neriquinha.
Foi com algum alívio que os vimos surgir, ao longe, envoltos numa nuvem de pó por entre a erva verde que bordejava a chana. Na verdade, não os esperávamos tão cedo, já que se admitia que o desconhecimento da zona e a esperada dificuldade em chegar ao local os retardasse mais algum tempo. Pelo menos e não apenas por mera precaução, tinham carregado mantimentos para mais uns dias.
Mas pelos vistos, tudo terá corrido pelo melhor. Estavam de regresso mais cedo do que o esperado, o que significava que afinal as dificuldades encontradas não foram tantas quantas as esperadas. Ouvi o Leitão referir que encontraram rapidamente o avião, bem visível a escassas dezenas de metros da orla da mata, semi-submerso numa zona alagada mas de pouca profundidade.
A curiosidade levou-me até junto dos recém chegados que, com ar visivelmente cansado se apeavam das viaturas. Sobre uma delas, com parte da cauda suspensa a sobrar da carroçaria nitidamente mais curta, lá vinha a carlinga amarelada do pequeno avião, desmembrado e inerte, mas pouco amachucado face ao que seria de esperar. Com efeito, parece que a água amorteceu a queda e as asas, arrumadas lateralmente apenas tinham sido separadas para possibilitar o transporte. Compreendia-se agora a razão pela qual os três ocupantes não apresentavam ferimentos de monta. Na verdade foi mais o susto que outra coisa.
O pequeno avião, sem asas, ali ficou por uns tempos, arrumado a um canto, umas duas semanas ou mais, até chegar um Nord Atlas da Força Aérea que o levou. Deu algum trabalho enfiá-lo na carlinga barriguda do Nord. Disso lembro-me perfeitamente. Um avião metido dentro de outro é a curiosa imagem que retenho.
Fiquei a ver o Nord correndo pela pista até levantar voo naquele movimento pesado a que semanalmente assistíamos desde que ali chegámos. Mas desta vez, passou-me pela cabeça uma imagem a fazer lembrar uma cena de canibalismo. O barriga de ginguba levava no seu ventre outro da sua raça. Só que mais pequeno.

domingo, 16 de outubro de 2011

Paisagens mutantes

A paisagem em redor da Neriquinha era muito pouco variada, aliás, como todo o território do Cuando Cubango mais a sul. Um clima semidesértico de savana pura tem muito pouco para oferecer para além das mudanças de cor e textura que se sucediam à passagem das estações.
Quando o Nord Atlas ali nos deixou no longínquo mês de Novembro de 1971, as chuvas já se tinham instalado provocando o desabrochar do capim que pintara de verde toda a paisagem.
Com o passar dos meses, o capim foi amarelecendo,ganhando aquela cor-palha característica, até ficar totalmente ressequido.
Chegara o tempo das grandes queimadas,
Tudo ficava despedido, matizado de negro e desolado
Até que chegavam de novo as chuvas, intensas, diluvianas
No Rivungo, parte do Kimbo ficava alagado, intransitável, enquanto a paisagem voltava a ganhar o seu tom verde intenso voltando tudo ao princípio num ciclo renovador

sábado, 1 de outubro de 2011

Economia no mato

A Neriquinha não era uma localidade, o que significa que não tinha estruturas administrativas nem um poder civil instituído. O aldeamento ali existente não era mais do que um kimbo formado por população nativa que, empurrada pela guerra ali se instalou construindo as suas cubatas à sombra da segurança e conforto que a proximidade da tropa propiciava. Maioritariamente constituído pelas etnias ganguela e kamache, compunham uma sociedade que pautava a sua conduta segundo seculares regras tribais, sendo a autoridade subjacente exercida por Sobas e Sékulos, normalmente eleitos de entre os anciãos, seguindo a máxima de que a idade confere sabedoria. Na verdade, não obstante serem duas das etnias mais atrasadas de África, representavam uma sociedade que se regia pela obediência a normas de conduta que norteavam a vida em sociedade, a família, os direitos e as obrigações. As infracções eram discutidas em conselho de anciãos que aplicava penas e coimas adequadas a cada situação. Era um normativo não plasmado em livros mas cujas regras, passando de geração em geração, eram do conhecimento de todos.
Contudo, a autoridade formal era exercida pela tropa. Começando no Capitão - autoridade máxima - seguia a respectiva hierarquia percorrendo a estrutura desde os oficiais até ao soldado mais básico, cuja autoridade se sobrepunha à ancestral liderança do Soba.
E disso se deu conta o capitão Cabrita. Se alguma vez teve dúvidas de que ali era ele quem mandava, depressa se apercebeu de que a sua autoridade não se cingia apenas aos seus subordinados, mas também a tudo aquilo que respeitava aos actos, costumes, comportamentos, atitudes e ao que quer que comandasse o modo de vida daquela gente. A querela de natureza familiar que se viu compelido a dirimir, terá sido certamente uma realidade desconcertante, especialmente para si que desconhecia em absoluto os costumes daquele povo.
Subjacente àquela pequena comunidade formada pela tropa, movimentava-se uma economia sui generis. Não apenas aquela que decorria do cumprimento das rígidas regras da contabilidade militar, mas também tudo o que daí resultava. Era uma economia fechada e rudimentar, mas que envolvia alguma complexidade. Ali havia um orçamento para gerir, um comércio à volta da cantina e do chiado e a consequente circulação de moeda. Havia ainda que garantir o fornecimento de géneros à PSP e à Marinha do Rivungo, implicando a emissão de facturas e consequentes pagamentos e recebimentos.
Tudo isto era gerido pelo nosso primeiro Pinto que, qual ministro da economia e finanças daquela espécie de estado improvisado, tudo controlava com competência e saber, zelando pela execução do apertado orçamento, supervisionando o consumo de géneros, dos combustíveis, das munições, do material de guerra, das compras e vendas na cantina, para além de ser o garante do cumprimento das milhentas normas profusamente plasmadas nas NEP’s que obrigavam à elaboração de um intrincado acervo de documentos, formulários e procedimentos que só ele conhecia. Emitia ainda as facturas à PSP e à Marinha, recebia destes o valor dos géneros fornecidos e reencaminhava a receita correspondente para os serviços da manutenção militar a quem prestava contas de tudo o que esta fornecia.
A quantidade de moeda que circulava na Neriquinha era limitada. De facto, no princípio, o número de notas e moedas em circulação resumia-se às que levávamos no bolso quando ali chegámos, acrescentando-se o muito pouco que pudesse existir em poder da população local. Não havendo fluxos do exterior, a moeda que circulava era apenas essa. Se num dia, na cantina, se pagava uma cerveja com uma moeda de cinco escudos, era grande a probabilidade de a voltar a receber no dia seguinte como troco da nota de vinte para pagar o maço de tabaco. E isto começou a ser um problema; dependendo a cantina da velocidade de rotação do que cada um tinha para gastar, a determinada altura não havia trocos.
Na Neriquinha o problema não foi grande; os mais de cem homens que se serviam da cantina, garantiam um fluxo de moedas em quantidade suficiente para as necessidades diárias.
Mas no Rivungo a coisa complicava-se. Esse problema nem me passou pela cabeça quando ali cheguei e fui encarregado da gerência da pequena cantina que servia os cerca de trinta homens ali colocados. Pelo menos até o cabo Almeida vir queixar-se de que não tinha trocos para garantir as demasias. Alguém lhe entregara uma nota de vinte para pagar a cerveja e exigia o troco que não havia. A minha primeira reacção saiu quase sem pensar:
- Oh homem! Vá arranjar troco em qualquer lado!
Mas, de facto, não havia onde ir buscar moedas. O número de utentes da cantina era limitado e não havia bancos ou comércio onde pudéssemos trocar as notas.
No momento, resolvi o assunto emitindo uma pequena nota de dívida que o soldado em causa poderia apresentar a pagamento na próxima compra que fizesse.
É claro que isso só resolveu o problema daquela transacção. Durante o resto do dia e nos que se seguiram, a dificuldade subsistiu e o problema da falta de moedas agravou-se. Resolvi o assunto utilizando uns quantos papelinhos, onde inscrevi o valor das moedas de curso corrente, rabisquei uma rubrica, coloquei uma sinalefa que impedisse a sua multiplicação por contrafacção e assim pus fim à falta de trocos. Na verdade, acabara de criar moeda, uma operação que só o Estado através do Banco de Portugal podia fazer. Mas nunca fui questionado ou admoestado por ter exorbitado competências que não possuía.
Pelos vistos, os serviços administrativos e financeiros em Luanda desconheciam estes problemas. O facto é que o dinheiro mensalmente enviado para pagamento do mísero pré aos praças e dos ordenados aos oficiais e sargentos vinha sempre em cheque. Não havendo por ali bancos onde se pudesse rebater o cheque, o assunto só poderia ser resolvido utilizando a boleia semanal do Nord. Alguém ia ao Luso, trocava o cheque por dinheiro e regressava na semana seguinte com o dinheiro necessário. Mas, com o tempo, o nosso primeiro foi verificando que os magros tostões que compunham o rendimento mensal de cada soldado, mal chegavam para a cerveja, tabaco e alguma outra coisa de que precisasse. De facto, o ordenado recebido era todo gasto na cantina, voltando assim às mãos do sargento.
Não sendo novato naquelas andanças, o primeiro-sargento concluiu que o dinheiro que recebia em cheque para pagar ordenados era, mais coisa menos coisa, equivalente ao valor que tinha de remeter à manutenção militar para liquidação dos produtos vendidos na cantina e esse, mais coisa menos coisa, provinha dos ordenados que pagava.
Assim, quando recebia o cheque, endossava-o reencaminhando-o para a Manutenção Militar e pagava os ordenados com o produto do que se vendia na cantina, gerando assim um ciclo vicioso: as notas que o pessoal gastava voltavam às mãos do Primeiro, que as voltava a usar no pagamento de salários acabando de novo nas mãos do Primeiro, formando uma espécie de corrente que só acabou quando a nossa comissão na Neriquinha chegou ao fim. As notas, essas, foram ficando velhinhas, amachucadas encardidas, flácidas e muito frágeis, quase sem cor.
Por força das feridas e cicatrizes que apresentavam, algumas já eram conhecidas, identificáveis como carta marcada do baralho.
Ainda me recordo de certa nota, com uma mancha avermelhada a um canto, que veio parar à minha mão umas duas ou três vezes.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

PROVAÇÕES

Pode parecer recorrente falar do isolamento da Neriquinha. Mas era um facto de tal forma marcante que ainda hoje recordo com razoável pormenor as vicissitudes das provações que ali passámos. Neriquinha ficava para lá de tudo o que pudesse ser considerado um limite remoto, a autêntica corporização da última fronteira, o fim de tudo. Um sítio que ninguém imaginaria que pudesse ser habitado.
Para ali não confluíam estradas e de facto ninguém estaria interessado em viajar para tão indescritível lugar. Não era destino que justificasse o investimento em meios de comunicação. Ainda hoje, passados quarenta anos, continua tudo como estava; sem estradas, sem acessos e sem interesse.
Naqueles tempos, apenas necessidades de estratégia operacional determinaram a instalação de efectivos militares no meio de um ermo, longe de tudo e de todos, local a que nem o comandante de batalhão parecia interessado em visitar, ele que não perdia uma oportunidade para encenar operacionalidades guerreiras e chatear quem estivesse sob as suas ordens. Não era uma localidade mas apenas umas improvisadas instalações militares ali plantadas por estratégia de ocupação de território onde até os locais só habitavam porque a guerra os empurrara para a parca segurança e conforto que a proximidade da tropa propiciava. Era, enfim, um escasso quadrado delimitado por uma frágil cerca de arame farpado no meio de uma savana imensa, representando uma humilde mostra da soberania portuguesa.
O sítio não fora escolhido por acaso; era uma grande área plana e seca, cujo solo suficientemente consistente e livre de vegetação, permitia a aterragem de meios aéreos de pequeno porte, o que determinou a instalação de um acampamento militar cujas tendas de lona amarela foram, ao longo dos tempos, sendo substituídas por toscos e improvisados barracões, expostos em permanência à torreira do sol africano e ao pó levantado em nuvens vermelhas pelo vento soprando sem barreiras, até que as grandes chuvadas alagassem as redondezas, transformando as planícies em searas de capim e qualquer zona mais baixa em pântanos em resultado da estagnação silenciosa da água que, caindo do céu em torrentes, se via impedida de correr por falta de declives suficientes.
Acabada a guerra e abandonada a área pelos últimos militares portugueses ali destacados, o local ficou ao abandono, a população voltou às suas lavras e tudo o que outrora corporizava instalações militares transformou-se em ruínas integralmente tomadas pela mata, sinal que, de facto, aquele local não era adequado à fixação de seres humanos, já que, até a população local, habituada a viver em qualquer lado, se negou a ficar e nem sequer quis aproveitar o que a tropa deixou que, quer se queira quer não, sempre era mais confortável do que as improvisadas palhotas do kimbo.
Assim, razões de estratégia militar determinaram que ao longo dos anos em que durou a guerra em África, aquele longínquo pedaço das terras-do-fim-do-mundo fosse morada provisória de diversas gerações de militares até chegar a nossa vez. Quase dezanove meses, foi o tempo que por ali andámos, procurando uma difícil adaptação ao nosso novo mundo, numa incessante demanda por qualquer coisa que se assemelhasse ao que deixáramos para trás, meras recordações que ficando cada vez mais difusas, diluídas pela passagem do tempo se esfumavam até quase passarem ao esquecimento, relegadas para os recantos menos utilizados da memória até que algo de muito forte as trouxesse de novo à tona. A simples e corriqueira bica foi uma delas. Ao fim de algum tempo já nem me lembrava que existia.
Cinema, tivemo-lo uma ou duas vezes durante todo aquele tempo. Eram fitas antigas, amputadas pela censura, projectadas na parede exterior da cantina por uma pequena máquina transportada desde o Cuito Cuanavale pelo furriel foto-cine que, aproveitando o avião do correio, tinha por missão, de quando em vez, dar a volta pelas três companhias do batalhão. A sessão começava logo a seguir ao jantar e as bobines tinham de ser passadas antes de chegada a hora de desligar o gerador, cuja capacidade de trabalho não ia além das onze horas da noite.
Cafés, pastelarias, restaurantes e afins eram coisas inexistentes, nem perto nem longe, e por isso não havia para onde ir. Sair para além dos limites do arame farpado significava uma missão qualquer, implicando carregar armamento adequado nem que fosse para o simples acto de recolher lenha na mata para alimentar a cozinha ou aquecer o forno de padeiro.
A cantina era o único local que fazia remotamente lembrar uma tasca na aldeia. Era um barracão escuro, amplo, construído na parte lateral inferior da parada, contendo apenas duas divisões; numa funcionava a cantina propriamente dita onde o cabo Couto ia servindo cervejas, enquanto o pessoal, encostado ao balcão ou disperso por duas ou três mesas quadradas, se entretinha e ocupava as horas de ócio, bebericando ou jogando às cartas. A cantina era o local privilegiado para a jogatina, especialmente porque a cerveja estava ali à mão. Cerveja e tabaco eram os dois artigos mais vendidos. Aliás, em boa verdade, eram os únicos que faziam realmente falta e cujo stock deveria estar sempre bem composto. Penso aliás que havia regras ditadas pelas hierarquias que determinavam que assim fosse. Num sítio daqueles, a falta da cerveja ou tabaco poderia provocar desestabilização e isso teria ser evitado a todo o custo.
Certa vez, por razões que não retenho, o stock de tabaco baixou a níveis críticos; o pouco que havia quando muito daria para dois ou três dias e o MVL com o reabastecimento só estava prevista para daí a duas semanas, mais coisa menos coisa. A solução foi drástica e no dia seguinte um Nord Atlas da Força Aérea deslocou-se de propósito vindo do Luso apenas para nos trazer uma grande caixa cheiinha de tabaco. Não faço a mínima ideia de quanto custou a operação de reposição do stock, mas a verdade é que foi considerada justificada por quem tinha poder para a tomada da decisão.
O estabelecimento tinha ainda à venda umas garrafas de brandy, aguardentes brancas, conservas de atum e de sardinha para os petiscos e ainda fruta enlatada, cuja variedade não ia além do pêssego em metades e ananás às rodelas ou aos bocados. Para além disso, ainda se vendiam uns sabonetes, sabão azul em barra, pasta de dentes, um ou outro artigo que pudesse ser útil e pouco mais.
A outra metade do barracão, um espaço amplo e guardado a sete chaves, era o armazém onde praticamente só havia grades de cerveja; as cheias de um lado e as vazias do outro. Ali estavam empilhadas algumas centenas de grades arrumadas umas sobre as outras quase até rasar o tecto, já que era preciso garantir stock suficiente para um mês de consumo, incluindo o abastecimento a toda a estrutura da PSP e da Marinha sedeadas no Rivungo e kimbos das redondezas.
Incluindo os GE’s, eram perto de 200 pessoas a que ainda se juntava um ou outro elemento da população a quem não se negava uma cerveja. Mesmo descontando os que não bebiam e aqueles que apenas se contentavam com uma ou duas, era muita cerveja. Eu, num dia normal, consumia, no mínimo, meia dúzia, sem contar com os dias especiais em que poderia ir às vinte ou trinta, como aconteceu um par de vezes. E eu não era dos que mais bebia. O Neto, por exemplo, enquanto por ali andou, bateu o recorde do consumo: sempre para cima de vinte, dia após dia.
Enfim, eram muitas garrafas que, juntamente com tudo o mais, eram transportadas mensalmente por MVL desde Serpa Pinto, formando uma extensa coluna de viaturas escoltadas por duas berliets a partir do Cuito Cuanavale, chegando a demorar mais de uma semana por picadas arenosas e irregulares.
A chegada do MVL era sempre uma festa; cerveja fresca, tabaco, a garantia de alimento para mais um mês e o frenesim que se instalava por uns dias eram factores que alteravam as rotinas e trazia animação ao dia-a-dia estupidificante. O pior era descarregar tanto camião e arrumar tudo nos respectivos armazéns. Só para a cerveja eram umas quatro ou cinco MAN’s entaipadas, sem contar com as batatas, a farinha, a massa, o arroz, os enlatados, o combustível e tanta coisa pesada que tinha de ser descarregada e arrumada: E tudo à força de trabalho braçal.
A escala elaborada pelo sargento-de-dia, indicando os homens que teriam de efectuar o trabalho, era sempre motivo para discussões, arrelias e reclamações, já que o tarefa não era propriamente agradável e eram poucos os que se predispunham voluntariamente para o efeito.
Quando me tocava a mim a elaboração dessa escala, preferia arriscar o recurso ao voluntariado. Entrava na caserna onde a maior parte preguiçava e pedia voluntários. Com a promessa de uns chouriços, umas latas de salsichas, umas carcacitas extorquidas ao padeiro e meia dúzia de cervejas, arranjava sempre um grupo em número suficiente.
Enfim, para além da falta de quase tudo, das múltiplas provações e dos espinhos da missão, ainda se exigia trabalho de estivador para se poder usufruir de um pouco de quase nada.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Serviços e serviçais

Tropas, longe da família, precisam de alguém que lhes trate da roupa. Pelo menos naquele tempo era assim e penso que as coisas ainda não mudaram; haverá sempre que encontrar alguém para lavar a roupa, passar a ferro, coser botões, remendar rasgões e cuidar um pouco de tudo aquilo que, até então, era tarefa das mães de mancebos que, de repente, se viam privados desses luxos. E não era preciso procurar por elas. No início de cada recruta, apareciam nas imediações do quartel oferecendo o serviço aos recém-chegados.
Durante a minha recruta, nas Caldas da Rainha, uma velhota que vivia no centro da cidade, tratava-me da roupa e por uns cobres a mais disponibilizava um quarto lá para as águas-furtadas onde, num ou noutro fim-de-semana, pernoitava apenas pelo prazer de fugir daquela sensação de prisão que o quartel transmitia.
Em Tavira, para onde me mudaram acabada a recruta, foi-me recomendada uma senhora que, por um valor que lhe permitia compor o orçamento familiar, de tudo se encarregava, também disponibilizando um quarto onde, aos fins de semana, pernoitava fugindo ao rigor da disciplina do quartel e sem acréscimo de preço. Nunca houve problema com roupa lavada e passada. Bastava deixá-la no quarto que um ou dois dias depois aparecia lavada, engomada, cheirosa e arrumadinha em cima da cama. Só era preciso marcá-la com uma sinalefa qualquer para que não aparecesse misturada com a do camarada do lado. Ainda hoje guardo um lenço de mão, velhinho, muito usado e quase transparente pelo uso, exibindo as duas cruzes vermelhas bordadas num canto a recordar-me esses tempos.
O facto é que a tropa mudou-me para o Algarve, mas não notei grande diferença quer na forma quer no serviço prestado. Apenas uns quantos pormenores os distinguiam, sinal evidente de que onde existissem estruturas militares se instalara uma rede organizada que oferecia serviços a clientes que mudavam de três em três meses.
Quando cheguei aos confins do território angolano, largado como simples desterrado no meio de nada, nem me ocorreu pensar em procurar quem me tratasse das roupas. No Rivungo, onde passei os primeiros três meses da minha longa estada na imensa savana africana, foi sem surpresa que uma mulher, digna representante da etnia Ganguela e com filho ensacado às costas e tudo, me foi indicada pelo moço da messe para, a troco de uma bagatela, me tratar da lavagem da roupa. Sim que quanto a coser botões e tratar dos remendos se encarregaria o Máquina, de forma prestimosa, competente e gratuita. Afinal o homem trabalhava para nós e não se sentia confortável a cobrar extras por tão pouco. Quanto à mulher, apenas sei que esfregava a roupa sobre um bidão tombado numa curva do rio, já que por ali nunca ninguém se lembrou de arranjar um tanque apropriado e pedras não havia.
Quando me mudei para a Neriquinha, passados três meses no Rivungo, rapidamente me apercebi que ali as mulheres não lavavam roupa. Estavam demasiado ocupadas nas suas tarefas de cuidar da lavra, das lides domésticas, de bater o pilão na demorada tarefa de transformar grão em farinha, de colher lenha na mata e transportá-la à cabeça pelos sinuosos carreiros num vai e vem diário, na preparação da parca ração que constituía a alimentação de gente habituada a pouco, no cuidar dos filhos - dos mais pequenos que os crescidotes já cuidavam de si. A verdade é que as mulheres não tinham por hábito ultrapassar a linha do arame farpado que separava o kimbo da área ocupada pela tropa.
Mas não os putos, especialmente os crescidotes, entre os doze e os quinze anos. Na sua maior parte, ocupavam-se em tarefas as mais variadas. Onde houvesse algo em que pudessem ajudar, lá estavam eles, incansáveis, sorridentes, prestáveis, uns mais atrevidos que outros. Faziam tudo o que lhes pediam a troco de uma refeição a horas certas, mais rica do que o pirão com nada, amassado em tachos mal lavados, negros de fumo pelo tempo que passavam sobre um lume avivado à força dos pulmões de quem tinha por missão manter o chama viva, mesmo os mais pequenitos.
Comecei a contá-los: Um ou dois na messe ajudando a servir e transportar os pratos sujos para a cozinha; outros dois ou três na enfermaria ocupados nas limpezas, uns tantos na mecânica, um dos quais, o Vicente, que já quase percebia tanto da função como alguns dos mecânicos encartados; depois mais dois na padaria, uma meia dúzia na cozinha, três ou quatro na horta, mais um aqui outro acolá, enfim, um corrupio de serviçais para tudo o que fosse preciso.
Finalmente, uma chusma deles encarregava-se de tratar da roupa - havia soldados que tinham um puto em exclusivo para lhes tratar de tudo. Estavam dispersos, não se dava por eles, mas todos juntos eram muitos, alegres, vivaços, contentes por terem comida garantida e receberem alguns tostões em troca da prestação de serviços a soldados que a tal nunca tinham sido habituados.
Na camarata dos furriéis havia dois. Faziam as camas, varriam o chão e lavavam a roupa. Sim! Quem nos tratava da roupa eram dois putos imberbes que dividiam entre si os furriéis da companhia: O João a quem de quando em vez o outro chamava de Muhala Cassumbi e o Manjolo que, dada a semelhança fonética, passou simplesmente a ser chamado por Major.
Tratavam com desvelo das nossas roupas, lavando-as nuns tanques lá para os lados do Kimbo e devolvendo-as ao fim da tarde, limpas, impregnadas do perfume fresco do sabão azul e toscamente dobradas. Não vinham passadas a ferro que isso era coisa que ali não havia e, verdade seja dita, tal luxo era totalmente dispensável. Aliás quando volvidos muitos meses saímos daquele exótico lugar para um mais aprazível, até estranhei quando me entregaram a farda lavada, passada a ferro e cuidadosamente dobrada.
Na verdade, naquelas paragens isso era coisa inútil. A roupa sujava-se a ritmo alucinante, apenas importando que fosse lavada amiúde. Tão frequentemente que ao fim de dezoito meses de Cuando Cubango, um dos meus camuflados estava parcialmente transformado em franjas e eram mais os remendos e os pespontos que tecido. E de tudo isso tratava o João, dos dois, o que se encarregava das minhas coisas. Lavava a roupa, punha-a a secar dependurada na cerca de arame farpado que limitava o aquartelamento e quando algo se rasgava ou descosia, munia-se de agulha e linha, sentava-se na borda da cama, e com trejeitos de aprendiz, língua de fora a denotar a concentração e o esforço, remendava tudo, reparava as costuras desfeitas voltando a entregar-me um camuflado de novo pronto para chafurdar na lama das chanas em mais uma andança pela mata, de onde regressava ensebado com a mistura de suor e pó, untado com o molho gorduroso das latas de ração de combate, a exigir uma esfrega prolongada pelas mãos do João.
Um dia, durante uma demorada e extenuante operação lá para os lados do Chiúme, as calças do camuflado cederam totalmente pelas costuras, transformando-as numa espécie de máxi-saia. Regressado ao aquartelamento, comecei a pensar na melhor forma de resolver aquilo. Teria de pegar numa agulha e com paciência e tempo tentar refazer as costuras destruídas. O João levou as calças para lavar e nem me apercebi que, como era hábito, não as entregou ao fim da tarde. Dei com ele, no dia seguinte, de agulha na mão, às voltas com as costuras.
Ainda o interpelei duvidando que fosse capaz de dar conta da tarefa. Descansou-me, com um convincente: - Eu faço.
Nunca mais me preocupei com o assunto, embora aquele fosse, dos dois camuflados que possuía, o que estava em melhores condições. Vinha-o preservando, poupando-o às missões mais desgastantes de forma a chegar ao fim da comissão sem ter de comprar outro.
Quando olhei o camuflado cuidadosamente dobrado em cima da cama, conclui que, afinal o puto tinha dado conta do recado. Desdobrei-o, olhei as costuras e com dificuldade, contive o riso. As costuras estavam de novo unidas e voltavam a ter o aspecto de calças, mas tinham sido remendadas com uns pontos largos, grosseiros, bem visíveis. O João coseu-as como se cose uma saca de serapilheira, com uma total falta de jeito mas denotando uma persistência admirável. Creio que ficou vaidoso por ter sido capaz de tal tarefa.
Com putos assim, quem precisava de mulheres para nos tratar da roupa?

sexta-feira, 1 de julho de 2011

MECÂNICOS

Meios de transporte e de locomoção são equipamentos fundamentais em qualquer teatro de guerra. E a guerra colonial portuguesa não podia ser excepção. A importância de uma frota operacional era condição necessária, operacionalidade essa que dependia do seu funcionamento, do tipo de viatura em função do terreno e da sua capacidade para evoluir na multiplicidade de cenários.
Umas maiores, outras mais pequenas, a gasolina ou a gasóleo, com tracção normal, integral, ou reforçada, com ou sem guincho, com quatro, seis ou oito rodados, com reboque e sem reboque, com ou sem cabine, carroçaria entaipada ou não e dotados de uma variedade de equipamentos e capacidades conforme a função a que eram destinadas. Inicialmente eram as velhas GMC que foram gradualmente substituídas pelas famosas GBC, mais conhecidas por viaturas Berliet e as Mercedes nas suas diversas variantes, das quais se destacavam os inimitáveis Unimogs, disponíveis a gasóleo ou a gasolina, bastante versáteis e capazes de vencer qualquer obstáculo.
A frota da Neriquinha era constituída por quatro Berliets, uns quantos Unimogs dos maiores, outros tantos dos mais pequenos e um Jeep Willis, que não podia ser considerado como pertencente à frota. Com efeito, sendo a única viatura a gasolina, tinha quatro velocidades - três para a frente e uma para trás - gastava 50 litros aos 100, era apenas usado no perímetro do aquartelamento, as mais das vezes pelo Capitão, nunca tendo ido mais longe do que o limite norte da pista.
A hostilidade própria das terras do fim do mundo e as irregularidades agrestes das picadas arenosas transformavam o dia-a-dia das viaturas num autêntico inferno. Os rodados enterravam-se no terreno desértico e arenoso, atolavam-se no lamaçal das chanas, derretiam-se sob o calor impiedoso, a suspensão tinha de dar mostras da sua resistência, os motores eram obrigados a rodarem em primeira e segunda velocidade na maior parte dos percursos, a terceira velocidade só era utilizada de quando em vez e a quarta nunca, obrigando a manter os radiadores sempre abastecidos.
Os motores sobreaqueciam, as molas partiam-se, as baterias descarregavam-se perante a relutância dos motores em arrancar, os pneus furavam, os radiadores secavam e o depósito de combustível esvaziava a um ritmo alucinante.
Com as Berliets, o problema da água e do gasóleo resolvia-se; cada viatura carregava permanentemente um bidão cheio de gasóleo e outro com água, permitindo, com a ajuda de uma mangueira, o abastecimento em qualquer altura. Mas os Unimogs não tinham essa capacidade de transporte e, por via disso, só eram utilizados em deslocações de menor distância. O pior é que o estado das viaturas agravava a situação; uma delas estava mais tempo avariada do que a funcionar, outra não merecia confiança e as duas restantes acabavam por soçobrar ao excesso de trabalho.
A operacionalidade da frota era responsabilidade do Gabriel Costa que não tinha a vida facilitada. As viaturas avariavam com muita frequência em consequência da dureza dos itinerários que percorriam, obrigando a reparações frequentes que muitas vezes passavam pela substituição das peças desgastadas, partidas ou irremediavelmente avariadas.
O problema é que o acesso a peças de substituição exigia requisições obedecendo a uma burocracia entediante e desesperava-se à espera que, de Luanda, chegassem as peças necessárias, cuja demora, excessiva não se compaginava com a operacionalidade exigida à companhia, o que determinou que a berliet mais débil e que mais vezes se negava a cumprir a sua missão, fosse arrumada a um canto das oficinas, passando a ser sistematicamente canibalizada, esventrada das peças que iam sendo montadas nas demais, ficando assim a frota reduzida a apenas três unidades, com uma delas a apresentar fragilidades ao ponto de apenas poder sair carregando por precaução uma lança de reboque e em companhia de uma das outras que, de quando em vez, a tinha de trazer a reboque.
Com tudo isto, a equipa de mecânicos não chegava para as encomendas e a rápida formação que a tropa lhes ministrara pouco ou nada acrescentou à pouca experiência que traziam da vida civil e tenho para mim que o Vicente sabia mais da matéria que alguns dos mecânicas da companhia. O Vicente era um puto local que, apaixonado pela mecânica, passava os dias na oficina, ajudando no que fosse preciso.
Na verdade, o que safava tudo era o facto de a equipa de mecânicos contar com o cabo Lobato. O Lobato era um profissional e conseguia fazer milagres com pouca coisa. Homem corpulento, tinha uma estatura à altura das grandes Berliets e conhecia todos os segredos da mecânica, do funcionamento, das manias e dos tiques daquelas viaturas. Pelo menos, conseguia reparar qualquer avaria, desde que não dependesse de qualquer peça que não chegava. Era um conhecedor teimoso e persistente, que se empenhava a fundo fosse qual fosse a reparação exigida, desde o trabalho mais simples até o mais complicado, mesmo que isso implicasse o desmontar de uma embraiagem, de uma caixa de velocidades ou de um motor. Na verdade, devia-se ao Lobato a operacionalidade das três berliets sobreviventes.
Certa vez, o meu grupo de combate foi incumbido de uma missão; manter uma presença na N’Riquinha Velha durante dois dias, patrulhar as margens do Kuando e tomar contacto com a população que por ali olhava pelo seu gado e cuidava das suas plantações de milho. O lugar era aprazível e não ficava muito distante; uma hora de caminho mais coisa menos coisa, dependendo do que o condutor conseguisse da viatura. Para a missão foi afecta a pior das três berliets que, tendo passado o dia anterior nas mãos do Lobato, se esperava que fosse capaz de fazer a viagem de ida e volta sem problemas. Pelo menos a viagem de ida decorreu sem avariar.
Era o tempo do cacimbo, com um calor tórrido durante o dia e um frio gélido durante a noite, exercendo a sua acção desgastante, não apenas sobre os corpos, mas também na mecânica da berliet que, após uma viagem sob sol inclemente, se aquietou na noite gelada a ponto de lhe ter afectado qualquer parte mais sensível.
O facto é que, quando no dia seguinte o condutor accionou a ignição para pôr o motor em marcha, este não respondeu aos insistentes nhé, nhé, nhé, nhééé…… do motor de arranque, decidindo-se que não valia a pena insistir, até porque, após várias tentativas sem sucesso, a bateria começava a fraquejar. A única hipótese passava por requisitar os serviços do Lobato. A distância não era assim tanta e naquele terreno plano de areia seca e solta, fazê-la pegar de empurrão era tarefa impossível, mesmo com toda gente a ajudar.
O operador de transmissões ligou o rádio, estendeu a antena e procurou estabelecer contacto.
- Base, base, aqui óscar … escuto.
Após duas ou três insistências a terminar em “escuto”, a resposta fez-se ouvir.
- Transmita.
- A cabrinha está doente … precisa do médico.
Ou por chacota, ou porque não estivesse a perceber a linguagem toscamente cifrada, o operador na N’Riquinha não associou cabrinha à viatura e menos ainda o de médico ao mecânico, replicando desabridamente:
- Qual cabrinha? Médico para quê? Afinal quem é que está doente?
Para gáudio de todos, a resposta, em jeito de desabafo, saiu pausada, quase palavra a palavra para que não subsistissem dúvidas.
- Oh porra! O motor não pega, … não trabalha.
Se o inimigo ou alguém, à socapa, estava a ouvir a transmissão, ficou a saber que por ali, uma viatura se recusava a trabalhar e que uns tropas aguardavam algures a chegada de um mecânico para resolver o problema e ao mesmo tempo lá se foi às urtigas um código secreto.
De qualquer forma, não demorou muito até que uma outra berliet nos trouxesse o Lobato. Apeou-se, aproximou-se do condutor e embora soubesse exactamente onde estava o problema, perguntou:
- Então, qual é o problema?
- Esta porcaria não pega. Respondeu agastado o condutor.
- Não pega? Não pode ser! Ainda ontem trabalhava tão bem!
O Lobato, sabendo bem qual o mal da viatura, brincava com a situação. Retirou qualquer coisa do bolso, aproximou-se pelo lado do condutor, deitou um olhar de entendido para o emaranhado de peças e fios que rodeiam o motor e disfarçadamente aproximou da entrada de ar o que retirara do bolso, ao mesmo tempo que ordenava:
- Dá lá ao motor de arranque.
O condutor accionou a ignição, o motor de arranque respondeu com esforço e para surpresa de todos a berliet começou a trabalhar ao fim da primeira tentativa.
- Pronto, está reparada a avaria. Sentenciou.
Naquele dia, a fama do Lobato subiu uma significativa quantidade de pontos. Para alguns, operara-se uma espécie de diálogo mágico entre o Cabo e a berliet.
- Ele consegue falar com elas, é o que é! Comentou alguém.
Apercebi-me que o Lobato voltava meter no bolso um pequeno frasco que continha um líquido incolor e quando lhe perguntei qual o segredo do líquido mágico respondeu simplesmente:
- Éter.
De facto, isso explicava tudo e anulava a componente mágica. Mas demonstrava que os seus conhecimentos não se ficavam pelo gosto ou empenho com que se dedicava às coisas da mecânica. Saber que os vapores do éter enriqueciam a mistura de ar e que isso facilitava a ignição, revelava a percepção exacta do fenómeno e das minudências da mecânica subjacentes ao funcionamento dos motores.
Bem se pode dizer que a C.Caç. 3441, teve sorte por ter ao seu serviço um cabo como o Lobato.

terça-feira, 14 de junho de 2011

"História de um combatente" - Joaquim de Sousa

As celebrações do 10 de Junho, por muito que o tempo passe e queiramos evitar, é um dia que nos marca pelo seu significado e, sobretudo - àqueles que foram mobilizados para a Guerra do Ultramar -, um dia de regresso ao passado. O Tempo - que nem sempre tem "tempo" de lavar as memórias de uma juventude sofrida - atira-nos, de chofre, com as marcas e os sentimentos que vivem ainda dentro de nós, e faz reviver os afectos nascidos durante os meses de convívio militar. O dia 10 de Junho tem o efeito de catárse que limpa os males da alma e serena, ciclicamente, os espíritos ainda inquietos de duas gerações de portugueses
Reli, este fim de semana, o livro do cabo da C. Caç. 3441, Joaquim de Sousa, já falecido, "Memória de um Combatente". É um livro em verso, longe dos circuitos de venda, edição da família, que pretendeu dessa forma, manter vivo o espírito de um homem bom, que não conseguia esquecer o passado e a juventude perdida nos confins de Angola. Entre as minhas notas de apoio ás memórias da C. Caç 3441, que cada vez mais se vão diluindo com os anos que passam à velocidade da luz, encontrei este comentário que enviei, em Junho de 2008, ao capitão Cabrita - autor de 2 livros sobre a sua/nossa passagem em Terras de Angola - e parceiro na feitura deste blog.


Caro Cabrita:

De vez em quando a vida abana à nossa frente uns farrapos afectivos que nos devolvem a capacidade de dar passos atrás no universo das nossas vidas. Foi o caso do livro do Joaquim Sousa. Não vem ao caso nem o léxico nem a sintaxe, que são o que são para um homem que tinha a formação que tinha. Conta, aqui, a sensibilidade e o amor que se ganha a uma terra que não é a nossa, numa missão que não devia ser nossa com fins que nunca deveriam ter sido os nossos. Mas, na roleta que nos atirou para África, isso já não conta, porque o tempo e a vida (que nos come o tempo de vida), se encarregaram de diluir o mau, e, criar à superfície das recordações da juventude, uma nata de saudades que continua a envolver-nos numa afectividade comum e estranha, com aquela terra.
Confesso que me revi e revivi um pouco no calor, nos cheiros e sons da N’Riquinha. A África suga-nos a alma e, este livro, curioso porque escrito em verso, é a simplicidade, a inocência e a ingenuidade assumidas por um soldado que outra coisa não tem para se expressar, senão o feitiço em que foi envolvido por aquela terra. Deixa-se absorver por um sentimento tão forte que o inspira a aventurar-se numa escrita, que não é naturalmente a sua, e, revela um talento natural, mas não educado, que o leva a escolher a poesia para se exprimir, numa métrica difícil e mais difícil ainda de entender para quem não tem hábitos de leitura. Confesso a minha surpresa e espanto pela forma usada e perante uma sensibilidade que, todos nós que com ele convivemos, estávamos longe de adivinhar. A leitura não é fácil e o primor épico só existe na intenção. Mas, isso, é o menos!
O Sousa, foi, para mim, uma surpresa cuja intensidade só pode ser medida por almas que por ali andaram, nas “Terras do Fim do Mundo”.
O livro dele, esse montão de generosidade e calor humano, deveria ter sido apresentado na parada, perante toda a companhia e em sentido estando todo o kimbo presente, tendo nos lugares de honra o secúlo Sarikisse, as Reginas (rainhas dos amores clandestinos coloridos), o Dango, o Vicente e o João, e, ao fundo, no palco principal, as almas do Fulai Monjuto, do Morgado e do Furriel Gonçalves.
Li o livro este fim-de-semana, não pela qualidade da escrita, que o meu amigo, melhor do que eu, sabe não ser, sequer, razoável. Li-o pelo conforto espiritual que me deu e pelo acalmar dos demónios africanos que todos transportamos escondidos no nosso íntimo. De vez em quando sabe bem ser surpreendido por aqueles que julgamos tão vulgares como nós.
Caro Cabrita:
Ainda não comecei a ler o seu livro, coisa que vou fazer após serenar da envolvência e do aperto de alma deste turbilhão de emoções com que fui assaltado, para não dizer violado. Ás vezes o rodar do botão das saudades não está em nós, aparece-nos de chofre vindo de onde menos esperamos.
Foi um gosto revê-lo no sábado. Obrigado pela oferta do seu livro.
Um abraço
Gabriel

quarta-feira, 1 de junho de 2011

GASTRONOMIA

Não sei como é hoje. Naquele tempo, alimentar tropas era uma tarefa complicada. A verba era escassa, a janta nunca estava ao gosto de todos, a variedade não abundava, a imaginação dos cozinheiros escasseava e a falta de jeito da grande maioria agravava tudo. Eram homens formados à pressa, escolhidos com base em critérios que nunca cheguei a perceber. Creio que poucos deles alguma vez tivessem ido além do estrelar um ovo. A verdade é que a tropa transformava pedreiros, carpinteiros, jardineiros e afins em cozinheiros temporários que, após cumprido o serviço militar voltavam às suas actividades iniciais.
Se transportarmos tudo isto para a realidade da Neriquinha as coisas pioravam. A cozinha não ajudava, o combustível era lenha colhida na mata, os tachos eram negros e grandes e o calor tornava a tarefa do cozinheiro um martírio. A agravar tudo isto, os ingredientes escasseavam, a ração era parca e nem pedras havia que permitisse confeccionar a sopa da dita. Na verdade a variedade do rancho oscilava ente a massa com carne e a carne com massa substituída de tempos em tempos por feijões. Bifes, nem vê-los e o peixe era indesejado. De vez em quando, lá vinham umas salsichas, uma feijoada com uma ou outra rodela de chouriço barato, umas ervilhas enlatadas e pouco mais. Ah! havia ainda a dobradinha. O ingrediente chegava seco, desidratado, em forma de pequenos pedaços parecidos com flocos que inchavam quando postos de molho. Dobradinha com feijão ornamentada com uma colherada de arroz, era assim um dos petiscos que permitia desenjoar da massa mas que não nos livrava dos feijões que engrossavam o molho com aspecto amarelado de cola líquida condimentada com o chouriço estrategicamente misturado para dar gosto e onde os mais gulosos ensopavam o pão deixando muito pouco para os putos que ajudavam na lavagem dos pratos.
O culpado de tudo isto, dizia-se, era o Vagomestre. O Morais, sendo o furriel responsável pelos “comes” levava com as culpas de tudo. Se a comida não agradava maldizia-se o Morais e se os feijões estivessem rijos alguma culpa teria de ter. E quando, perante o ram-ram repetitivo da ementa, lhe perguntávamos o que teríamos para o almoço, respondia invariavelmente:
- Surpresa!
Na verdade, a tarefa do vagomestre não era fácil: apenas dispunha de uma verba de vinte e dois escudos e meio para alimentar diariamente cada homem. De facto, servir três refeições diárias por apenas vinte e dois e quinhentos era obra a exigir dotes de prestidigitador, tanto mais que os ingredientes não estavam disponíveis. Supermercados não existiam, nem perto nem longe e o reabastecimento tinha uma periodicidade mensal através do MVL proveniente de Serpa Pinto que em viagens que levavam mais de uma semana, nos trazia os secos considerados suficientes para um mês (batatas, arroz, massa, dobradinha desidratada, enlatados e outros) e os molhados, naturalmente constituídos por vinho de péssima qualidade e cerveja a rodos. Tudo o mais que pudesse ser apelidado de “frescos” vinha do Luso trazido pelo Nord Atlas nas suas visitas semanais (verduras, carne, peixe congelado, ovos e pouco mais).
O que valia ao vagomestre (e a nós todos) era a abundância de caça que naturalmente arredia das matas próximas, obrigava a calcorrear chanas afastadas à procura da melhor peça. Uma boa caçada permitia compensar o magro orçamento e garantir bifes para o almoço, já que a carne vinda semanalmente do Luso era demasiado cara apenas chegando para misturar com a massa, com o arroz ou para compor um guisado pobre com batatas.
Mas, carne de caça… é carne de caça. Nada que se pareça com um naco de vitela ou uma costeleta de porco que uma simples pedrinha de sal transforma em pitéu. Carne de caça é adocicada, desagradável, enjoativa e torná-la comestível exigia tempo, marinadas prolongadas, empenho e imaginação do cozinheiro o que, devo confessar, não abundava por ali. A não ser que se tivesse a sorte de caçar uma palanca ou então uma gunga. A carne de gunga era a única que uma vez cozinhada se assimilava a vaca e o animal era tão grande que os dois lombos eram suficientes para servir uma refeição de bifes a toda a companhia.
O problema é que a caça não resolvia tudo. No tempo das chuvas era difícil apanhar alguma coisa de jeito e o pessoal começava a ficar farto, torcendo o nariz a certas variedades como o guelengue (óryx) ou o caixote (Gnu) animal desajeitado cuja carne tinha um sabor nada agradável. O orçamento, esse, continuava curto e qualquer pequeno deslize tornava-o deficitário obrigando ao racionamento e a refeições de massa com pouca coisa ou a arroz espapaçado com estilhaços de frango.
Contudo, havia ainda um recurso. A população local dedicava-se à criação de gado, naturalmente gado vacum. O problema era convencê-los a venderem. Entre os ganguelas, a riqueza definia-se pelo número de mulheres que cada um possuía e mulheres adquiriam-se com vacas. Meia dúzia delas dava para comprar mais uma mulher que podia ser usada para trabalhar nas lavras, cuidar das plantações de milho, nos afazeres do dia-a-dia e conferir estatuto. Naquela sociedade poligâmica, quanto mais mulheres e maior a manada, maior a importância do proprietário.
Para agravar a situação, o dinheiro não lhes dizia nada. Não precisavam dele. Era coisa inútil. Bastavam-se com o mínimo necessário para comprar um ou outro utensílio, uma ou outra alfaia, uma ferramenta, uns panos para as mulheres e pronto. Andavam descalços, vestiam pouca roupa e sobreviviam com culturas de subsistência.
Era aqui que entrava o P. Costa. Sendo o furriel responsável pelo “Chiado” estava habituado a negociar com a população a venda das utilidades e futilidades que se vendiam no barracão assim eufemísticamente apelidado. A verdade é que era o único que se dispunha a deslocar-se às pastagens, escolher a rês, negociar o preço e trazer o animal estrategicamente abatido com um tiro certeiro e que, uma vez na Neriquinha, o cabo Ferreira se encarregava de desmanchar e converter em bifes.
Certo dia, o P. Costa foi incumbido de mais uma dessas missões: convencer o ganadeiro a vender um dos seus animais. Fiz parte do grupo a que se juntaram os dois cabos da Força Aérea que nunca antes tinham tido o ensejo de passar além do arame farpado. O local escolhido foi a Neriquinha Velha, ali pertinho, nas cercanias das margens do Kuando, distância que levou cerca de uma hora a vencer.
Saltámos da berliet e seguimos o P. Costa que caminhou decidido pelas lavras contornando um morro de formigas salalé demonstrando conhecer bem o caminho. Acercou-se do único homem visível nas redondezas, cumprimentou, fez uma ou duas perguntas de circunstância e foi directo ao assunto.
A resposta meio evasiva do dono do gado, não parecia lá muito animadora. Era claro que o homem não estava interessado em vender o que quer que fosse. Mas as negas do homem não pareciam convencer o P. Costa que já esperava a reacção, passando de imediato à discussão do preço. Na verdade, discussão não houve já que os valores avançados se ficaram apenas pelas ofertas do comprador:
- Mil escudos! Tá bem?
Como resposta, um tímido e negativo abanar de cabeça, ao mesmo que tempo que balbuciava um…
- Não furriel.
Mas o P. Costa insistia, subindo a oferta
- Então, fica por mil e cem.
Para de seguida questionar de forma conclusiva.
- Então qual é a que vamos levar?
E sem dar tempo ao outro para responder, levou a arma ao ombro e com um tiro certeiro prostrou o animal que o seu olhar conhecedor já havia seleccionado.
Carregámos a vaca inerte enquanto o homem, agradecendo com tímidos acenos de cabeça, recebia as notas que compunham o preço, sem prestar grande atenção ao dinheiro. Para mim parecia claro que aquele dinheiro pouco lhe interessava. Na verdade acabara de ficar mais pobre
No caminho de regresso, olhando o corpo morto do animal, apenas pensava que finalmente teríamos rancho melhorado. Talvez uns bifes a que certamente faltariam as batatas fritas. Mas nunca me ocorreu pensar que não havia veterinário para garantir que aquela carne estava em condições de ser consumida.
Fiávamo-nos apenas na experiência que se supunha ter o Cabo Ferreira. Ao abrir o animal certamente saberia ver isso.