quinta-feira, 1 de setembro de 2011

PROVAÇÕES

Pode parecer recorrente falar do isolamento da Neriquinha. Mas era um facto de tal forma marcante que ainda hoje recordo com razoável pormenor as vicissitudes das provações que ali passámos. Neriquinha ficava para lá de tudo o que pudesse ser considerado um limite remoto, a autêntica corporização da última fronteira, o fim de tudo. Um sítio que ninguém imaginaria que pudesse ser habitado.
Para ali não confluíam estradas e de facto ninguém estaria interessado em viajar para tão indescritível lugar. Não era destino que justificasse o investimento em meios de comunicação. Ainda hoje, passados quarenta anos, continua tudo como estava; sem estradas, sem acessos e sem interesse.
Naqueles tempos, apenas necessidades de estratégia operacional determinaram a instalação de efectivos militares no meio de um ermo, longe de tudo e de todos, local a que nem o comandante de batalhão parecia interessado em visitar, ele que não perdia uma oportunidade para encenar operacionalidades guerreiras e chatear quem estivesse sob as suas ordens. Não era uma localidade mas apenas umas improvisadas instalações militares ali plantadas por estratégia de ocupação de território onde até os locais só habitavam porque a guerra os empurrara para a parca segurança e conforto que a proximidade da tropa propiciava. Era, enfim, um escasso quadrado delimitado por uma frágil cerca de arame farpado no meio de uma savana imensa, representando uma humilde mostra da soberania portuguesa.
O sítio não fora escolhido por acaso; era uma grande área plana e seca, cujo solo suficientemente consistente e livre de vegetação, permitia a aterragem de meios aéreos de pequeno porte, o que determinou a instalação de um acampamento militar cujas tendas de lona amarela foram, ao longo dos tempos, sendo substituídas por toscos e improvisados barracões, expostos em permanência à torreira do sol africano e ao pó levantado em nuvens vermelhas pelo vento soprando sem barreiras, até que as grandes chuvadas alagassem as redondezas, transformando as planícies em searas de capim e qualquer zona mais baixa em pântanos em resultado da estagnação silenciosa da água que, caindo do céu em torrentes, se via impedida de correr por falta de declives suficientes.
Acabada a guerra e abandonada a área pelos últimos militares portugueses ali destacados, o local ficou ao abandono, a população voltou às suas lavras e tudo o que outrora corporizava instalações militares transformou-se em ruínas integralmente tomadas pela mata, sinal que, de facto, aquele local não era adequado à fixação de seres humanos, já que, até a população local, habituada a viver em qualquer lado, se negou a ficar e nem sequer quis aproveitar o que a tropa deixou que, quer se queira quer não, sempre era mais confortável do que as improvisadas palhotas do kimbo.
Assim, razões de estratégia militar determinaram que ao longo dos anos em que durou a guerra em África, aquele longínquo pedaço das terras-do-fim-do-mundo fosse morada provisória de diversas gerações de militares até chegar a nossa vez. Quase dezanove meses, foi o tempo que por ali andámos, procurando uma difícil adaptação ao nosso novo mundo, numa incessante demanda por qualquer coisa que se assemelhasse ao que deixáramos para trás, meras recordações que ficando cada vez mais difusas, diluídas pela passagem do tempo se esfumavam até quase passarem ao esquecimento, relegadas para os recantos menos utilizados da memória até que algo de muito forte as trouxesse de novo à tona. A simples e corriqueira bica foi uma delas. Ao fim de algum tempo já nem me lembrava que existia.
Cinema, tivemo-lo uma ou duas vezes durante todo aquele tempo. Eram fitas antigas, amputadas pela censura, projectadas na parede exterior da cantina por uma pequena máquina transportada desde o Cuito Cuanavale pelo furriel foto-cine que, aproveitando o avião do correio, tinha por missão, de quando em vez, dar a volta pelas três companhias do batalhão. A sessão começava logo a seguir ao jantar e as bobines tinham de ser passadas antes de chegada a hora de desligar o gerador, cuja capacidade de trabalho não ia além das onze horas da noite.
Cafés, pastelarias, restaurantes e afins eram coisas inexistentes, nem perto nem longe, e por isso não havia para onde ir. Sair para além dos limites do arame farpado significava uma missão qualquer, implicando carregar armamento adequado nem que fosse para o simples acto de recolher lenha na mata para alimentar a cozinha ou aquecer o forno de padeiro.
A cantina era o único local que fazia remotamente lembrar uma tasca na aldeia. Era um barracão escuro, amplo, construído na parte lateral inferior da parada, contendo apenas duas divisões; numa funcionava a cantina propriamente dita onde o cabo Couto ia servindo cervejas, enquanto o pessoal, encostado ao balcão ou disperso por duas ou três mesas quadradas, se entretinha e ocupava as horas de ócio, bebericando ou jogando às cartas. A cantina era o local privilegiado para a jogatina, especialmente porque a cerveja estava ali à mão. Cerveja e tabaco eram os dois artigos mais vendidos. Aliás, em boa verdade, eram os únicos que faziam realmente falta e cujo stock deveria estar sempre bem composto. Penso aliás que havia regras ditadas pelas hierarquias que determinavam que assim fosse. Num sítio daqueles, a falta da cerveja ou tabaco poderia provocar desestabilização e isso teria ser evitado a todo o custo.
Certa vez, por razões que não retenho, o stock de tabaco baixou a níveis críticos; o pouco que havia quando muito daria para dois ou três dias e o MVL com o reabastecimento só estava prevista para daí a duas semanas, mais coisa menos coisa. A solução foi drástica e no dia seguinte um Nord Atlas da Força Aérea deslocou-se de propósito vindo do Luso apenas para nos trazer uma grande caixa cheiinha de tabaco. Não faço a mínima ideia de quanto custou a operação de reposição do stock, mas a verdade é que foi considerada justificada por quem tinha poder para a tomada da decisão.
O estabelecimento tinha ainda à venda umas garrafas de brandy, aguardentes brancas, conservas de atum e de sardinha para os petiscos e ainda fruta enlatada, cuja variedade não ia além do pêssego em metades e ananás às rodelas ou aos bocados. Para além disso, ainda se vendiam uns sabonetes, sabão azul em barra, pasta de dentes, um ou outro artigo que pudesse ser útil e pouco mais.
A outra metade do barracão, um espaço amplo e guardado a sete chaves, era o armazém onde praticamente só havia grades de cerveja; as cheias de um lado e as vazias do outro. Ali estavam empilhadas algumas centenas de grades arrumadas umas sobre as outras quase até rasar o tecto, já que era preciso garantir stock suficiente para um mês de consumo, incluindo o abastecimento a toda a estrutura da PSP e da Marinha sedeadas no Rivungo e kimbos das redondezas.
Incluindo os GE’s, eram perto de 200 pessoas a que ainda se juntava um ou outro elemento da população a quem não se negava uma cerveja. Mesmo descontando os que não bebiam e aqueles que apenas se contentavam com uma ou duas, era muita cerveja. Eu, num dia normal, consumia, no mínimo, meia dúzia, sem contar com os dias especiais em que poderia ir às vinte ou trinta, como aconteceu um par de vezes. E eu não era dos que mais bebia. O Neto, por exemplo, enquanto por ali andou, bateu o recorde do consumo: sempre para cima de vinte, dia após dia.
Enfim, eram muitas garrafas que, juntamente com tudo o mais, eram transportadas mensalmente por MVL desde Serpa Pinto, formando uma extensa coluna de viaturas escoltadas por duas berliets a partir do Cuito Cuanavale, chegando a demorar mais de uma semana por picadas arenosas e irregulares.
A chegada do MVL era sempre uma festa; cerveja fresca, tabaco, a garantia de alimento para mais um mês e o frenesim que se instalava por uns dias eram factores que alteravam as rotinas e trazia animação ao dia-a-dia estupidificante. O pior era descarregar tanto camião e arrumar tudo nos respectivos armazéns. Só para a cerveja eram umas quatro ou cinco MAN’s entaipadas, sem contar com as batatas, a farinha, a massa, o arroz, os enlatados, o combustível e tanta coisa pesada que tinha de ser descarregada e arrumada: E tudo à força de trabalho braçal.
A escala elaborada pelo sargento-de-dia, indicando os homens que teriam de efectuar o trabalho, era sempre motivo para discussões, arrelias e reclamações, já que o tarefa não era propriamente agradável e eram poucos os que se predispunham voluntariamente para o efeito.
Quando me tocava a mim a elaboração dessa escala, preferia arriscar o recurso ao voluntariado. Entrava na caserna onde a maior parte preguiçava e pedia voluntários. Com a promessa de uns chouriços, umas latas de salsichas, umas carcacitas extorquidas ao padeiro e meia dúzia de cervejas, arranjava sempre um grupo em número suficiente.
Enfim, para além da falta de quase tudo, das múltiplas provações e dos espinhos da missão, ainda se exigia trabalho de estivador para se poder usufruir de um pouco de quase nada.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Serviços e serviçais

Tropas, longe da família, precisam de alguém que lhes trate da roupa. Pelo menos naquele tempo era assim e penso que as coisas ainda não mudaram; haverá sempre que encontrar alguém para lavar a roupa, passar a ferro, coser botões, remendar rasgões e cuidar um pouco de tudo aquilo que, até então, era tarefa das mães de mancebos que, de repente, se viam privados desses luxos. E não era preciso procurar por elas. No início de cada recruta, apareciam nas imediações do quartel oferecendo o serviço aos recém-chegados.
Durante a minha recruta, nas Caldas da Rainha, uma velhota que vivia no centro da cidade, tratava-me da roupa e por uns cobres a mais disponibilizava um quarto lá para as águas-furtadas onde, num ou noutro fim-de-semana, pernoitava apenas pelo prazer de fugir daquela sensação de prisão que o quartel transmitia.
Em Tavira, para onde me mudaram acabada a recruta, foi-me recomendada uma senhora que, por um valor que lhe permitia compor o orçamento familiar, de tudo se encarregava, também disponibilizando um quarto onde, aos fins de semana, pernoitava fugindo ao rigor da disciplina do quartel e sem acréscimo de preço. Nunca houve problema com roupa lavada e passada. Bastava deixá-la no quarto que um ou dois dias depois aparecia lavada, engomada, cheirosa e arrumadinha em cima da cama. Só era preciso marcá-la com uma sinalefa qualquer para que não aparecesse misturada com a do camarada do lado. Ainda hoje guardo um lenço de mão, velhinho, muito usado e quase transparente pelo uso, exibindo as duas cruzes vermelhas bordadas num canto a recordar-me esses tempos.
O facto é que a tropa mudou-me para o Algarve, mas não notei grande diferença quer na forma quer no serviço prestado. Apenas uns quantos pormenores os distinguiam, sinal evidente de que onde existissem estruturas militares se instalara uma rede organizada que oferecia serviços a clientes que mudavam de três em três meses.
Quando cheguei aos confins do território angolano, largado como simples desterrado no meio de nada, nem me ocorreu pensar em procurar quem me tratasse das roupas. No Rivungo, onde passei os primeiros três meses da minha longa estada na imensa savana africana, foi sem surpresa que uma mulher, digna representante da etnia Ganguela e com filho ensacado às costas e tudo, me foi indicada pelo moço da messe para, a troco de uma bagatela, me tratar da lavagem da roupa. Sim que quanto a coser botões e tratar dos remendos se encarregaria o Máquina, de forma prestimosa, competente e gratuita. Afinal o homem trabalhava para nós e não se sentia confortável a cobrar extras por tão pouco. Quanto à mulher, apenas sei que esfregava a roupa sobre um bidão tombado numa curva do rio, já que por ali nunca ninguém se lembrou de arranjar um tanque apropriado e pedras não havia.
Quando me mudei para a Neriquinha, passados três meses no Rivungo, rapidamente me apercebi que ali as mulheres não lavavam roupa. Estavam demasiado ocupadas nas suas tarefas de cuidar da lavra, das lides domésticas, de bater o pilão na demorada tarefa de transformar grão em farinha, de colher lenha na mata e transportá-la à cabeça pelos sinuosos carreiros num vai e vem diário, na preparação da parca ração que constituía a alimentação de gente habituada a pouco, no cuidar dos filhos - dos mais pequenos que os crescidotes já cuidavam de si. A verdade é que as mulheres não tinham por hábito ultrapassar a linha do arame farpado que separava o kimbo da área ocupada pela tropa.
Mas não os putos, especialmente os crescidotes, entre os doze e os quinze anos. Na sua maior parte, ocupavam-se em tarefas as mais variadas. Onde houvesse algo em que pudessem ajudar, lá estavam eles, incansáveis, sorridentes, prestáveis, uns mais atrevidos que outros. Faziam tudo o que lhes pediam a troco de uma refeição a horas certas, mais rica do que o pirão com nada, amassado em tachos mal lavados, negros de fumo pelo tempo que passavam sobre um lume avivado à força dos pulmões de quem tinha por missão manter o chama viva, mesmo os mais pequenitos.
Comecei a contá-los: Um ou dois na messe ajudando a servir e transportar os pratos sujos para a cozinha; outros dois ou três na enfermaria ocupados nas limpezas, uns tantos na mecânica, um dos quais, o Vicente, que já quase percebia tanto da função como alguns dos mecânicos encartados; depois mais dois na padaria, uma meia dúzia na cozinha, três ou quatro na horta, mais um aqui outro acolá, enfim, um corrupio de serviçais para tudo o que fosse preciso.
Finalmente, uma chusma deles encarregava-se de tratar da roupa - havia soldados que tinham um puto em exclusivo para lhes tratar de tudo. Estavam dispersos, não se dava por eles, mas todos juntos eram muitos, alegres, vivaços, contentes por terem comida garantida e receberem alguns tostões em troca da prestação de serviços a soldados que a tal nunca tinham sido habituados.
Na camarata dos furriéis havia dois. Faziam as camas, varriam o chão e lavavam a roupa. Sim! Quem nos tratava da roupa eram dois putos imberbes que dividiam entre si os furriéis da companhia: O João a quem de quando em vez o outro chamava de Muhala Cassumbi e o Manjolo que, dada a semelhança fonética, passou simplesmente a ser chamado por Major.
Tratavam com desvelo das nossas roupas, lavando-as nuns tanques lá para os lados do Kimbo e devolvendo-as ao fim da tarde, limpas, impregnadas do perfume fresco do sabão azul e toscamente dobradas. Não vinham passadas a ferro que isso era coisa que ali não havia e, verdade seja dita, tal luxo era totalmente dispensável. Aliás quando volvidos muitos meses saímos daquele exótico lugar para um mais aprazível, até estranhei quando me entregaram a farda lavada, passada a ferro e cuidadosamente dobrada.
Na verdade, naquelas paragens isso era coisa inútil. A roupa sujava-se a ritmo alucinante, apenas importando que fosse lavada amiúde. Tão frequentemente que ao fim de dezoito meses de Cuando Cubango, um dos meus camuflados estava parcialmente transformado em franjas e eram mais os remendos e os pespontos que tecido. E de tudo isso tratava o João, dos dois, o que se encarregava das minhas coisas. Lavava a roupa, punha-a a secar dependurada na cerca de arame farpado que limitava o aquartelamento e quando algo se rasgava ou descosia, munia-se de agulha e linha, sentava-se na borda da cama, e com trejeitos de aprendiz, língua de fora a denotar a concentração e o esforço, remendava tudo, reparava as costuras desfeitas voltando a entregar-me um camuflado de novo pronto para chafurdar na lama das chanas em mais uma andança pela mata, de onde regressava ensebado com a mistura de suor e pó, untado com o molho gorduroso das latas de ração de combate, a exigir uma esfrega prolongada pelas mãos do João.
Um dia, durante uma demorada e extenuante operação lá para os lados do Chiúme, as calças do camuflado cederam totalmente pelas costuras, transformando-as numa espécie de máxi-saia. Regressado ao aquartelamento, comecei a pensar na melhor forma de resolver aquilo. Teria de pegar numa agulha e com paciência e tempo tentar refazer as costuras destruídas. O João levou as calças para lavar e nem me apercebi que, como era hábito, não as entregou ao fim da tarde. Dei com ele, no dia seguinte, de agulha na mão, às voltas com as costuras.
Ainda o interpelei duvidando que fosse capaz de dar conta da tarefa. Descansou-me, com um convincente: - Eu faço.
Nunca mais me preocupei com o assunto, embora aquele fosse, dos dois camuflados que possuía, o que estava em melhores condições. Vinha-o preservando, poupando-o às missões mais desgastantes de forma a chegar ao fim da comissão sem ter de comprar outro.
Quando olhei o camuflado cuidadosamente dobrado em cima da cama, conclui que, afinal o puto tinha dado conta do recado. Desdobrei-o, olhei as costuras e com dificuldade, contive o riso. As costuras estavam de novo unidas e voltavam a ter o aspecto de calças, mas tinham sido remendadas com uns pontos largos, grosseiros, bem visíveis. O João coseu-as como se cose uma saca de serapilheira, com uma total falta de jeito mas denotando uma persistência admirável. Creio que ficou vaidoso por ter sido capaz de tal tarefa.
Com putos assim, quem precisava de mulheres para nos tratar da roupa?

sexta-feira, 1 de julho de 2011

MECÂNICOS

Meios de transporte e de locomoção são equipamentos fundamentais em qualquer teatro de guerra. E a guerra colonial portuguesa não podia ser excepção. A importância de uma frota operacional era condição necessária, operacionalidade essa que dependia do seu funcionamento, do tipo de viatura em função do terreno e da sua capacidade para evoluir na multiplicidade de cenários.
Umas maiores, outras mais pequenas, a gasolina ou a gasóleo, com tracção normal, integral, ou reforçada, com ou sem guincho, com quatro, seis ou oito rodados, com reboque e sem reboque, com ou sem cabine, carroçaria entaipada ou não e dotados de uma variedade de equipamentos e capacidades conforme a função a que eram destinadas. Inicialmente eram as velhas GMC que foram gradualmente substituídas pelas famosas GBC, mais conhecidas por viaturas Berliet e as Mercedes nas suas diversas variantes, das quais se destacavam os inimitáveis Unimogs, disponíveis a gasóleo ou a gasolina, bastante versáteis e capazes de vencer qualquer obstáculo.
A frota da Neriquinha era constituída por quatro Berliets, uns quantos Unimogs dos maiores, outros tantos dos mais pequenos e um Jeep Willis, que não podia ser considerado como pertencente à frota. Com efeito, sendo a única viatura a gasolina, tinha quatro velocidades - três para a frente e uma para trás - gastava 50 litros aos 100, era apenas usado no perímetro do aquartelamento, as mais das vezes pelo Capitão, nunca tendo ido mais longe do que o limite norte da pista.
A hostilidade própria das terras do fim do mundo e as irregularidades agrestes das picadas arenosas transformavam o dia-a-dia das viaturas num autêntico inferno. Os rodados enterravam-se no terreno desértico e arenoso, atolavam-se no lamaçal das chanas, derretiam-se sob o calor impiedoso, a suspensão tinha de dar mostras da sua resistência, os motores eram obrigados a rodarem em primeira e segunda velocidade na maior parte dos percursos, a terceira velocidade só era utilizada de quando em vez e a quarta nunca, obrigando a manter os radiadores sempre abastecidos.
Os motores sobreaqueciam, as molas partiam-se, as baterias descarregavam-se perante a relutância dos motores em arrancar, os pneus furavam, os radiadores secavam e o depósito de combustível esvaziava a um ritmo alucinante.
Com as Berliets, o problema da água e do gasóleo resolvia-se; cada viatura carregava permanentemente um bidão cheio de gasóleo e outro com água, permitindo, com a ajuda de uma mangueira, o abastecimento em qualquer altura. Mas os Unimogs não tinham essa capacidade de transporte e, por via disso, só eram utilizados em deslocações de menor distância. O pior é que o estado das viaturas agravava a situação; uma delas estava mais tempo avariada do que a funcionar, outra não merecia confiança e as duas restantes acabavam por soçobrar ao excesso de trabalho.
A operacionalidade da frota era responsabilidade do Gabriel Costa que não tinha a vida facilitada. As viaturas avariavam com muita frequência em consequência da dureza dos itinerários que percorriam, obrigando a reparações frequentes que muitas vezes passavam pela substituição das peças desgastadas, partidas ou irremediavelmente avariadas.
O problema é que o acesso a peças de substituição exigia requisições obedecendo a uma burocracia entediante e desesperava-se à espera que, de Luanda, chegassem as peças necessárias, cuja demora, excessiva não se compaginava com a operacionalidade exigida à companhia, o que determinou que a berliet mais débil e que mais vezes se negava a cumprir a sua missão, fosse arrumada a um canto das oficinas, passando a ser sistematicamente canibalizada, esventrada das peças que iam sendo montadas nas demais, ficando assim a frota reduzida a apenas três unidades, com uma delas a apresentar fragilidades ao ponto de apenas poder sair carregando por precaução uma lança de reboque e em companhia de uma das outras que, de quando em vez, a tinha de trazer a reboque.
Com tudo isto, a equipa de mecânicos não chegava para as encomendas e a rápida formação que a tropa lhes ministrara pouco ou nada acrescentou à pouca experiência que traziam da vida civil e tenho para mim que o Vicente sabia mais da matéria que alguns dos mecânicas da companhia. O Vicente era um puto local que, apaixonado pela mecânica, passava os dias na oficina, ajudando no que fosse preciso.
Na verdade, o que safava tudo era o facto de a equipa de mecânicos contar com o cabo Lobato. O Lobato era um profissional e conseguia fazer milagres com pouca coisa. Homem corpulento, tinha uma estatura à altura das grandes Berliets e conhecia todos os segredos da mecânica, do funcionamento, das manias e dos tiques daquelas viaturas. Pelo menos, conseguia reparar qualquer avaria, desde que não dependesse de qualquer peça que não chegava. Era um conhecedor teimoso e persistente, que se empenhava a fundo fosse qual fosse a reparação exigida, desde o trabalho mais simples até o mais complicado, mesmo que isso implicasse o desmontar de uma embraiagem, de uma caixa de velocidades ou de um motor. Na verdade, devia-se ao Lobato a operacionalidade das três berliets sobreviventes.
Certa vez, o meu grupo de combate foi incumbido de uma missão; manter uma presença na N’Riquinha Velha durante dois dias, patrulhar as margens do Kuando e tomar contacto com a população que por ali olhava pelo seu gado e cuidava das suas plantações de milho. O lugar era aprazível e não ficava muito distante; uma hora de caminho mais coisa menos coisa, dependendo do que o condutor conseguisse da viatura. Para a missão foi afecta a pior das três berliets que, tendo passado o dia anterior nas mãos do Lobato, se esperava que fosse capaz de fazer a viagem de ida e volta sem problemas. Pelo menos a viagem de ida decorreu sem avariar.
Era o tempo do cacimbo, com um calor tórrido durante o dia e um frio gélido durante a noite, exercendo a sua acção desgastante, não apenas sobre os corpos, mas também na mecânica da berliet que, após uma viagem sob sol inclemente, se aquietou na noite gelada a ponto de lhe ter afectado qualquer parte mais sensível.
O facto é que, quando no dia seguinte o condutor accionou a ignição para pôr o motor em marcha, este não respondeu aos insistentes nhé, nhé, nhé, nhééé…… do motor de arranque, decidindo-se que não valia a pena insistir, até porque, após várias tentativas sem sucesso, a bateria começava a fraquejar. A única hipótese passava por requisitar os serviços do Lobato. A distância não era assim tanta e naquele terreno plano de areia seca e solta, fazê-la pegar de empurrão era tarefa impossível, mesmo com toda gente a ajudar.
O operador de transmissões ligou o rádio, estendeu a antena e procurou estabelecer contacto.
- Base, base, aqui óscar … escuto.
Após duas ou três insistências a terminar em “escuto”, a resposta fez-se ouvir.
- Transmita.
- A cabrinha está doente … precisa do médico.
Ou por chacota, ou porque não estivesse a perceber a linguagem toscamente cifrada, o operador na N’Riquinha não associou cabrinha à viatura e menos ainda o de médico ao mecânico, replicando desabridamente:
- Qual cabrinha? Médico para quê? Afinal quem é que está doente?
Para gáudio de todos, a resposta, em jeito de desabafo, saiu pausada, quase palavra a palavra para que não subsistissem dúvidas.
- Oh porra! O motor não pega, … não trabalha.
Se o inimigo ou alguém, à socapa, estava a ouvir a transmissão, ficou a saber que por ali, uma viatura se recusava a trabalhar e que uns tropas aguardavam algures a chegada de um mecânico para resolver o problema e ao mesmo tempo lá se foi às urtigas um código secreto.
De qualquer forma, não demorou muito até que uma outra berliet nos trouxesse o Lobato. Apeou-se, aproximou-se do condutor e embora soubesse exactamente onde estava o problema, perguntou:
- Então, qual é o problema?
- Esta porcaria não pega. Respondeu agastado o condutor.
- Não pega? Não pode ser! Ainda ontem trabalhava tão bem!
O Lobato, sabendo bem qual o mal da viatura, brincava com a situação. Retirou qualquer coisa do bolso, aproximou-se pelo lado do condutor, deitou um olhar de entendido para o emaranhado de peças e fios que rodeiam o motor e disfarçadamente aproximou da entrada de ar o que retirara do bolso, ao mesmo tempo que ordenava:
- Dá lá ao motor de arranque.
O condutor accionou a ignição, o motor de arranque respondeu com esforço e para surpresa de todos a berliet começou a trabalhar ao fim da primeira tentativa.
- Pronto, está reparada a avaria. Sentenciou.
Naquele dia, a fama do Lobato subiu uma significativa quantidade de pontos. Para alguns, operara-se uma espécie de diálogo mágico entre o Cabo e a berliet.
- Ele consegue falar com elas, é o que é! Comentou alguém.
Apercebi-me que o Lobato voltava meter no bolso um pequeno frasco que continha um líquido incolor e quando lhe perguntei qual o segredo do líquido mágico respondeu simplesmente:
- Éter.
De facto, isso explicava tudo e anulava a componente mágica. Mas demonstrava que os seus conhecimentos não se ficavam pelo gosto ou empenho com que se dedicava às coisas da mecânica. Saber que os vapores do éter enriqueciam a mistura de ar e que isso facilitava a ignição, revelava a percepção exacta do fenómeno e das minudências da mecânica subjacentes ao funcionamento dos motores.
Bem se pode dizer que a C.Caç. 3441, teve sorte por ter ao seu serviço um cabo como o Lobato.

terça-feira, 14 de junho de 2011

"História de um combatente" - Joaquim de Sousa

As celebrações do 10 de Junho, por muito que o tempo passe e queiramos evitar, é um dia que nos marca pelo seu significado e, sobretudo - àqueles que foram mobilizados para a Guerra do Ultramar -, um dia de regresso ao passado. O Tempo - que nem sempre tem "tempo" de lavar as memórias de uma juventude sofrida - atira-nos, de chofre, com as marcas e os sentimentos que vivem ainda dentro de nós, e faz reviver os afectos nascidos durante os meses de convívio militar. O dia 10 de Junho tem o efeito de catárse que limpa os males da alma e serena, ciclicamente, os espíritos ainda inquietos de duas gerações de portugueses
Reli, este fim de semana, o livro do cabo da C. Caç. 3441, Joaquim de Sousa, já falecido, "Memória de um Combatente". É um livro em verso, longe dos circuitos de venda, edição da família, que pretendeu dessa forma, manter vivo o espírito de um homem bom, que não conseguia esquecer o passado e a juventude perdida nos confins de Angola. Entre as minhas notas de apoio ás memórias da C. Caç 3441, que cada vez mais se vão diluindo com os anos que passam à velocidade da luz, encontrei este comentário que enviei, em Junho de 2008, ao capitão Cabrita - autor de 2 livros sobre a sua/nossa passagem em Terras de Angola - e parceiro na feitura deste blog.


Caro Cabrita:

De vez em quando a vida abana à nossa frente uns farrapos afectivos que nos devolvem a capacidade de dar passos atrás no universo das nossas vidas. Foi o caso do livro do Joaquim Sousa. Não vem ao caso nem o léxico nem a sintaxe, que são o que são para um homem que tinha a formação que tinha. Conta, aqui, a sensibilidade e o amor que se ganha a uma terra que não é a nossa, numa missão que não devia ser nossa com fins que nunca deveriam ter sido os nossos. Mas, na roleta que nos atirou para África, isso já não conta, porque o tempo e a vida (que nos come o tempo de vida), se encarregaram de diluir o mau, e, criar à superfície das recordações da juventude, uma nata de saudades que continua a envolver-nos numa afectividade comum e estranha, com aquela terra.
Confesso que me revi e revivi um pouco no calor, nos cheiros e sons da N’Riquinha. A África suga-nos a alma e, este livro, curioso porque escrito em verso, é a simplicidade, a inocência e a ingenuidade assumidas por um soldado que outra coisa não tem para se expressar, senão o feitiço em que foi envolvido por aquela terra. Deixa-se absorver por um sentimento tão forte que o inspira a aventurar-se numa escrita, que não é naturalmente a sua, e, revela um talento natural, mas não educado, que o leva a escolher a poesia para se exprimir, numa métrica difícil e mais difícil ainda de entender para quem não tem hábitos de leitura. Confesso a minha surpresa e espanto pela forma usada e perante uma sensibilidade que, todos nós que com ele convivemos, estávamos longe de adivinhar. A leitura não é fácil e o primor épico só existe na intenção. Mas, isso, é o menos!
O Sousa, foi, para mim, uma surpresa cuja intensidade só pode ser medida por almas que por ali andaram, nas “Terras do Fim do Mundo”.
O livro dele, esse montão de generosidade e calor humano, deveria ter sido apresentado na parada, perante toda a companhia e em sentido estando todo o kimbo presente, tendo nos lugares de honra o secúlo Sarikisse, as Reginas (rainhas dos amores clandestinos coloridos), o Dango, o Vicente e o João, e, ao fundo, no palco principal, as almas do Fulai Monjuto, do Morgado e do Furriel Gonçalves.
Li o livro este fim-de-semana, não pela qualidade da escrita, que o meu amigo, melhor do que eu, sabe não ser, sequer, razoável. Li-o pelo conforto espiritual que me deu e pelo acalmar dos demónios africanos que todos transportamos escondidos no nosso íntimo. De vez em quando sabe bem ser surpreendido por aqueles que julgamos tão vulgares como nós.
Caro Cabrita:
Ainda não comecei a ler o seu livro, coisa que vou fazer após serenar da envolvência e do aperto de alma deste turbilhão de emoções com que fui assaltado, para não dizer violado. Ás vezes o rodar do botão das saudades não está em nós, aparece-nos de chofre vindo de onde menos esperamos.
Foi um gosto revê-lo no sábado. Obrigado pela oferta do seu livro.
Um abraço
Gabriel

quarta-feira, 1 de junho de 2011

GASTRONOMIA

Não sei como é hoje. Naquele tempo, alimentar tropas era uma tarefa complicada. A verba era escassa, a janta nunca estava ao gosto de todos, a variedade não abundava, a imaginação dos cozinheiros escasseava e a falta de jeito da grande maioria agravava tudo. Eram homens formados à pressa, escolhidos com base em critérios que nunca cheguei a perceber. Creio que poucos deles alguma vez tivessem ido além do estrelar um ovo. A verdade é que a tropa transformava pedreiros, carpinteiros, jardineiros e afins em cozinheiros temporários que, após cumprido o serviço militar voltavam às suas actividades iniciais.
Se transportarmos tudo isto para a realidade da Neriquinha as coisas pioravam. A cozinha não ajudava, o combustível era lenha colhida na mata, os tachos eram negros e grandes e o calor tornava a tarefa do cozinheiro um martírio. A agravar tudo isto, os ingredientes escasseavam, a ração era parca e nem pedras havia que permitisse confeccionar a sopa da dita. Na verdade a variedade do rancho oscilava ente a massa com carne e a carne com massa substituída de tempos em tempos por feijões. Bifes, nem vê-los e o peixe era indesejado. De vez em quando, lá vinham umas salsichas, uma feijoada com uma ou outra rodela de chouriço barato, umas ervilhas enlatadas e pouco mais. Ah! havia ainda a dobradinha. O ingrediente chegava seco, desidratado, em forma de pequenos pedaços parecidos com flocos que inchavam quando postos de molho. Dobradinha com feijão ornamentada com uma colherada de arroz, era assim um dos petiscos que permitia desenjoar da massa mas que não nos livrava dos feijões que engrossavam o molho com aspecto amarelado de cola líquida condimentada com o chouriço estrategicamente misturado para dar gosto e onde os mais gulosos ensopavam o pão deixando muito pouco para os putos que ajudavam na lavagem dos pratos.
O culpado de tudo isto, dizia-se, era o Vagomestre. O Morais, sendo o furriel responsável pelos “comes” levava com as culpas de tudo. Se a comida não agradava maldizia-se o Morais e se os feijões estivessem rijos alguma culpa teria de ter. E quando, perante o ram-ram repetitivo da ementa, lhe perguntávamos o que teríamos para o almoço, respondia invariavelmente:
- Surpresa!
Na verdade, a tarefa do vagomestre não era fácil: apenas dispunha de uma verba de vinte e dois escudos e meio para alimentar diariamente cada homem. De facto, servir três refeições diárias por apenas vinte e dois e quinhentos era obra a exigir dotes de prestidigitador, tanto mais que os ingredientes não estavam disponíveis. Supermercados não existiam, nem perto nem longe e o reabastecimento tinha uma periodicidade mensal através do MVL proveniente de Serpa Pinto que em viagens que levavam mais de uma semana, nos trazia os secos considerados suficientes para um mês (batatas, arroz, massa, dobradinha desidratada, enlatados e outros) e os molhados, naturalmente constituídos por vinho de péssima qualidade e cerveja a rodos. Tudo o mais que pudesse ser apelidado de “frescos” vinha do Luso trazido pelo Nord Atlas nas suas visitas semanais (verduras, carne, peixe congelado, ovos e pouco mais).
O que valia ao vagomestre (e a nós todos) era a abundância de caça que naturalmente arredia das matas próximas, obrigava a calcorrear chanas afastadas à procura da melhor peça. Uma boa caçada permitia compensar o magro orçamento e garantir bifes para o almoço, já que a carne vinda semanalmente do Luso era demasiado cara apenas chegando para misturar com a massa, com o arroz ou para compor um guisado pobre com batatas.
Mas, carne de caça… é carne de caça. Nada que se pareça com um naco de vitela ou uma costeleta de porco que uma simples pedrinha de sal transforma em pitéu. Carne de caça é adocicada, desagradável, enjoativa e torná-la comestível exigia tempo, marinadas prolongadas, empenho e imaginação do cozinheiro o que, devo confessar, não abundava por ali. A não ser que se tivesse a sorte de caçar uma palanca ou então uma gunga. A carne de gunga era a única que uma vez cozinhada se assimilava a vaca e o animal era tão grande que os dois lombos eram suficientes para servir uma refeição de bifes a toda a companhia.
O problema é que a caça não resolvia tudo. No tempo das chuvas era difícil apanhar alguma coisa de jeito e o pessoal começava a ficar farto, torcendo o nariz a certas variedades como o guelengue (óryx) ou o caixote (Gnu) animal desajeitado cuja carne tinha um sabor nada agradável. O orçamento, esse, continuava curto e qualquer pequeno deslize tornava-o deficitário obrigando ao racionamento e a refeições de massa com pouca coisa ou a arroz espapaçado com estilhaços de frango.
Contudo, havia ainda um recurso. A população local dedicava-se à criação de gado, naturalmente gado vacum. O problema era convencê-los a venderem. Entre os ganguelas, a riqueza definia-se pelo número de mulheres que cada um possuía e mulheres adquiriam-se com vacas. Meia dúzia delas dava para comprar mais uma mulher que podia ser usada para trabalhar nas lavras, cuidar das plantações de milho, nos afazeres do dia-a-dia e conferir estatuto. Naquela sociedade poligâmica, quanto mais mulheres e maior a manada, maior a importância do proprietário.
Para agravar a situação, o dinheiro não lhes dizia nada. Não precisavam dele. Era coisa inútil. Bastavam-se com o mínimo necessário para comprar um ou outro utensílio, uma ou outra alfaia, uma ferramenta, uns panos para as mulheres e pronto. Andavam descalços, vestiam pouca roupa e sobreviviam com culturas de subsistência.
Era aqui que entrava o P. Costa. Sendo o furriel responsável pelo “Chiado” estava habituado a negociar com a população a venda das utilidades e futilidades que se vendiam no barracão assim eufemísticamente apelidado. A verdade é que era o único que se dispunha a deslocar-se às pastagens, escolher a rês, negociar o preço e trazer o animal estrategicamente abatido com um tiro certeiro e que, uma vez na Neriquinha, o cabo Ferreira se encarregava de desmanchar e converter em bifes.
Certo dia, o P. Costa foi incumbido de mais uma dessas missões: convencer o ganadeiro a vender um dos seus animais. Fiz parte do grupo a que se juntaram os dois cabos da Força Aérea que nunca antes tinham tido o ensejo de passar além do arame farpado. O local escolhido foi a Neriquinha Velha, ali pertinho, nas cercanias das margens do Kuando, distância que levou cerca de uma hora a vencer.
Saltámos da berliet e seguimos o P. Costa que caminhou decidido pelas lavras contornando um morro de formigas salalé demonstrando conhecer bem o caminho. Acercou-se do único homem visível nas redondezas, cumprimentou, fez uma ou duas perguntas de circunstância e foi directo ao assunto.
A resposta meio evasiva do dono do gado, não parecia lá muito animadora. Era claro que o homem não estava interessado em vender o que quer que fosse. Mas as negas do homem não pareciam convencer o P. Costa que já esperava a reacção, passando de imediato à discussão do preço. Na verdade, discussão não houve já que os valores avançados se ficaram apenas pelas ofertas do comprador:
- Mil escudos! Tá bem?
Como resposta, um tímido e negativo abanar de cabeça, ao mesmo que tempo que balbuciava um…
- Não furriel.
Mas o P. Costa insistia, subindo a oferta
- Então, fica por mil e cem.
Para de seguida questionar de forma conclusiva.
- Então qual é a que vamos levar?
E sem dar tempo ao outro para responder, levou a arma ao ombro e com um tiro certeiro prostrou o animal que o seu olhar conhecedor já havia seleccionado.
Carregámos a vaca inerte enquanto o homem, agradecendo com tímidos acenos de cabeça, recebia as notas que compunham o preço, sem prestar grande atenção ao dinheiro. Para mim parecia claro que aquele dinheiro pouco lhe interessava. Na verdade acabara de ficar mais pobre
No caminho de regresso, olhando o corpo morto do animal, apenas pensava que finalmente teríamos rancho melhorado. Talvez uns bifes a que certamente faltariam as batatas fritas. Mas nunca me ocorreu pensar que não havia veterinário para garantir que aquela carne estava em condições de ser consumida.
Fiávamo-nos apenas na experiência que se supunha ter o Cabo Ferreira. Ao abrir o animal certamente saberia ver isso.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Angola-Onde está a dignidade do Estado Português?

A BAIXA DE LUANDA COM AS SUAS NOVAS CONSTRUÇÕES EM ALTURA



Por motivos profissionais, tive que me deslocar a Angola no passado mês de Março. Tentei, sempre dentro dos limites do tempo disponível, informar-me sobre as transformações que aquele país está a passar e visitar os locais que a memória ainda preserva, e, o que vi, era, de uma maneira geral, positivo: estão a nascer, por todo o lado, hospitais e centros de saúde, escolas, universidades e centros de formação profissional, constroem-se milhares de quilómetros de estradas, recuperam-se e reestruturam-se centenas de pontes, requalificam-se e urbanizam-se as cidades, na periferia (de Luanda, Huambo, Benguela, Lobito, Soyo e Kuito) nascem centros comerciais e bairros de habitação com milhares de fogos, ampliam-se portos de mar e aeroportos, o comércio vai-se estabelecendo e espalhando por todo o lado (importantíssimo o comércio informal e ambulante), iniciam-se projectos industriais com a participação de empresários estrangeiros, enfim, nota-se um país a nascer e a querer crescer com estabilidade.
Mas, as dificuldades criadas pela burocracia, a pobreza, a falta de qualificação dos jovens, os elevados preços dos bens essenciais, a tremenda dependência aos grupos económicos estrangeiros, o estado de destruição em que ficou Angola depois da guerra e o peso na economia de algumas famílias privilegiadas, faz com que o estádio de desenvolvimento seja menor do que o desejado.
Porque pretendia visitar as sepulturas de 2 militares de Penalva do Castelo mortos em combate, cuja localização eu conhecia (info da Liga dos Combatentes) e como a minha filha mora perto de Miramar, fui visitar o Talhão dos Militares Mortos em Combate no cemitério principal de Luanda. Este cantinho de Memória, Coragem, Heroísmo e Portugalidade, foi objecto de um tratamento especial nos acordos da Independência de Angola e cabe ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, através da Embaixada em Luanda, fiscalizar e "tomar conta" de tal espaço.
Melhor fora não ter lá posto os pés!
À entrada, perguntei ao porteiro (funcionário da Câmara Municipal de Luanda) onde estava situado o Talhão Militar:
-Ah! ... do colono? Lá atrás! - e indicou-me, com o braço, o fundo do cemitério, à esquerda.
Pelo caminho fui passado por jazigos artisticamente trabalhados, verdadeiras obras de arte, datados desde o século XIX, e que, milagrosamente, se conservam em bom estado. Ao fundo, à esquerda, lá estava o que eu procurava. À entrada, num pequeno mausoléu, estavam as ossadas de militares mortos em terras de Angola durante a I Grande Guerra e cuja conservação é miserável, e, mais miserável ainda, porque se trata de Património que compete ao governo português preservar.
O Talhão Militar, ali ao lado, já não existe! E, do que resta, a destruição é quase total! O abandono de todos os responsáveis pela defesa daquele lugar sagrado, não tem explicação. Desapareceu toda a identificação e numeração que permita encontrar o que quer que seja, alteraram o alinhamento das campas, foram ocupadas a maioria das campas dos militares portugueses para enterramentos recentes, algumas campas têm os nomes originais apagados e foram gravados no mármore os nomes dos novos inquilinos. A vergonha que senti foi tanta, que chorei e ainda hoje me incomodam as imagens que gravei na memória.
Ainda hoje não sou capaz de falar com clareza de espírito sobre aquele atentado, tal a revolta que sinto.
Má nação aquela que abandona e esquece os ossos dos filhos que derramaram o sangue e deram a vida em sua defesa.
Ficam as fotografias para comprovar







segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Furriel Silva

O tempo exerce sobre a nossa memória um efeito curioso. Apaga umas coisas e coloca um véu diáfano sobre outras.
Mas há aquelas que passam incólumes pela voragem dos anos permanecendo vivas e actuais, estejamos a falar de simples recordações ou de pessoas. É o caso dos furriéis da 3441. Confinados a um pequeno quadrado perdido no meio da imensa savana, vivíamos lado a lado, vinte e quatro horas por dia. Tenho a certeza que ainda hoje, passados tantos anos, sou capaz de reconhecer à distância a voz, o andar e parte significativa dos tiques, dos gestos e das poses de todos eles, mesmo dos que nunca mais vi. E já lá vão quase quarenta anos.
Não é possível esquecer o corpo franzino do Gameiro, do seu típico andar com os pés às “dez para as duas” da sua voz gutural e riso sarcástico; da voz rouca do P. Costa, do seu andar bamboleante e da forma como simulava ataques de asma de fazer cortar a respiração; do dente de ouro do Peixoto a emergir do riso estampado na sua cara de menino; da voz cava e profunda de locutor de rádio do Duarte; dos tiques delicados do Viola e das suas poses de menino da mamã; dos mistérios do Fielas; do corpo volumoso e balofo do Ramires; das tiradas intelectuais e andar indolente do Mota na sua pose descuidada quase a infringir as regras do atavio militar; do discurso pausado do Morais e do seu gesto mecânico de empurrar com o dedo indicador os óculos que teimavam em descair sobre o nariz e um sem fim de particularidades que apenas a vivência diária e de proximidade permitiram manter vivas, gravadas de forma indelével na nossa memória pela intensa incandescência da juventude
Recordo-me particularmente do Silva. Era meu companheiro de grupo de combate o que significa uma maior convivência que permitiu ir descobrindo a sua personalidade, os seus gostos, a alegria de viver, o seu riso gutural, o linguajar típico do norte, o afinco com que se dedicava ao que quer que fosse, a começar no simples jogo de cartas e a acabar na mais espinhosa das missões.
O Silva era uma figura castiça. Fisicamente, era um homem pequeno, atarracado, de corpo compacto, maciço e ginasticado sobre umas pernas curtas, o que talvez explique a forma apressada como andava, mesmo que não tivesse pressa, numa passada decidida de homem de acção. Ainda hoje estou para saber se tal postura era o resultado do treino militar ou se já nasceu assim. Fez toda a instrução nos comandos como soldado raso e chegou a estar mobilizado para a Guiné, ou quase, e isso terá marcado a sua personalidade. Uma cicatriz grossa riscada em diagonal sobre o peito atestava a sua passagem pela tropa especial, resultado de um salto de peixe mal calculado sobre um obstáculo de arame farpado. Quanto ao mais, comportava-se sempre como um homem destemido.
Não sei precisar porque passou de soldado a sargento. Contudo não terá sido por aproveitamento excelente na recruta tirada em Lamego. Inclino-me mais para qualquer desentendimento de secretaria relativamente às suas habilitações literárias. A verdade é que fez o curso de sargentos milicianos o que o trouxe até à 3441, carregando nos ombros este seu irregular passado militar levando a que fosse apelidado de “furriel básico”. E básico, na tropa, significava um ponto abaixo do grau inferior da hierarquia. Básico era um soldado que nem escrever sabia. Mas que fique claro que o Silva não era burro, nem tão pouco iletrado. Apenas a sua escolaridade era inferior à dos demais furriéis e isso foi quanto bastou para ganhar o epíteto.
Era voluntário para tudo o que implicasse acção, tinha a resistência dos tropas especiais, era exímio no manejo da arma e não parecia atemorizar-se com a eventualidade da escaramuça ao contrário de uns tantos que rezavam a todos os santinhos na véspera de saírem para uma qualquer operação, mesmo que se destinasse a um simples patrulhamento de risco mínimo em zonas conhecidas. Era, enfim, o operacional da companhia, o verdadeiro guerreiro, roubando a função ao Peixoto, esse sim o operações especiais encartado, formado nos rigores militares de Lamego.
Por mim, ter o Silva como companheiro de grupo de combate só trazia vantagens. Para além do amigo que sempre foi, era como se eu tivesse sempre as costas quentes, protegidas por alguém que interiorizávamos como sendo capaz de nos livrar de uma enrascada. Imaginava-o sempre a ser capaz de reagir a uma emboscada com um qualquer contra-ataque eficaz, daqueles que se viam em filmes de acção.
O seu jeito para o manuseio das armas era um facto. Aprendeu a conhecer a sua G3, descobriu o desvio no alinhamento entre a alça e a mira, identificou os pequenos defeitos que interferiam com a precisão do tiro e usava-a com tal eficiência, que quase nos convencia ser diferente das demais. Na verdade, aquela G3 apenas era certeira na mão do Silva. Acertava onde queria com uma eficácia reconfortante. Até no alvo mais pequeno. Por exemplo, caçar rolas com G3 era uma das suas especialidades. Apontava à cabeça pulverizando-a enquanto a ave, intacta, caía aos seus pés. Bastava que estivesse empoleirada numa árvore que não falhava um tiro e por ali havia muitas.
Um dia apostou comigo em como acertava numa moeda, das mais pequenas. Não apostei porque já o conhecia. Ainda assim, pegou numa moeda de vinte e cinco tostões, encaixou-a no ramo de um arbusto, recuou uns vinte metros, apontou e disparou.
Correu para o local e todo vaidoso exibiu a pequena argola em que a moeda se transformou. O tiro acertara em cheio no centro da moeda.
Riu-se todo ufano, como se ele próprio não acreditasse na façanha, exclamando:
- Vês? É limpinho!
Na mata, durante as operações, era um dos poucos que conseguiam ombrear com a resistência do alferes Fausto. Mantinha uma marcha cadenciada como se tivesse pressa em chegar, fazendo frente à areia seca que cedia debaixo dos pés, resistindo ao cansaço que nos levava à exaustão. Das duas vezes que penetrámos lá bem no interior da savana, com a finalidade de destruir uma base inimiga montada num local a que chamámos de Esquadrão, fez sempre parte do grupo de assalto. Ainda me lembro que, após um dia de caminhada infernal e de uma noite mal dormida, à frente de um punhado de homens por si escolhidos, desatou a correr encosta acima como se levasse a reboque os homens que o seguiam, entrando de rompante por entre as trincheiras do inimigo, pronto para o que desse e viesse.
Por sorte, o acampamento estava vazio. Os guerrilheiros, desalojados na primeira incursão que ali fizéramos uns quantos meses antes, nunca mais haviam voltado a ocupar o local, talvez por que soubessem que mais cedo ou mais tarde voltaríamos, evitando assim o embate indesejado tanto de um lado como do outro. Da primeira vez, o Silva, com a G3 aperrada e granada descavilhada numa das mãos, correra pelo mesmo caminho aos gritos de:
- Ao ataque!
Também daquela vez o acampamento estava deserto, abandonado momentos antes após bombardeamento prévio dos T6 da Força Aérea.
Mas também era uma espécie de doido, um doido pacífico, não obstante a sua pose de guerreiro. A verdade é que também gostava de brincar, embora por vezes levasse longe demais as brincadeiras.
Um dos episódios de que alguns se recordam, envolveu o delicadinho do Viola. Um dos furriéis fazia anos o que justificava uma patuscada. O problema era a falta de ingredientes necessários ao petisco, já que o pouco que se dispunha só existia no depósito de géneros e o furriel vagomestre não estava pelos ajustes. É que nem um simples chouriço dali saía.
Foi então que o Silva se prontificou em caçar alguns coelhos que se sabia haver na mata circundante, ali bem perto, mesmo na periferia da pista. Agarrou na G3, obteve o consentimento para usar uma das viaturas e com mais dois ou três saiu apressado em busca do petisco. Não demorou muito tempo a regressar com coelhos suficientes.
Mas atravessou-se no caminho um cãozito infeliz meio enfezado que por ali andava e que, dada a sua pequenez e magreza, apelidáramos de “o pilinhas”. À entrada da porta de armas e perante o reboliço, o animal desorientou-se, quase tropeçou em si mesmo, tentou fugir mas faltou-lhe a arte. Foi apanhado pela viatura e morreu ali mesmo, atropelado. Por compaixão, alguém apanhou o bicho, colocou-o sobre a viatura que retomou a viagem em direcção à cozinha.
O petisco foi preparado com esmero, juntaram-se dois ou três piri-piri’s colhidos do pequeno arbusto que crescia em frente à enfermaria, umas folhitas de louro, uma ou duas cabeças de alho, uma mão cheia de sal, mais uma pitada disto, outra daquilo, na horta colheram-se uns tomates para dar gosto e eis tudo pronto a cheirar e a fazer crescer água na boca. O padeiro desencantou uns quantos pães e quase em romaria, levou-se tudo para a messe em duas travessas bem compostas. Ensopava-se o pão na molhanga, lambiam-se os dedos, elogiava-se o cozinheiro e aos poucos as travessas foram ficando vazias ao mesmo tempo que os ossos se espalhavam pela mesa. A cerveja corria, garrafa após garrafa, menos para o Silva que nunca se esquecendo da bebedeira que o levou ao coma em Santa Margarida, apenas bebia seven up ou coca-cola.
No meio da algazarra, ninguém deu pela falta do Silva. Já de papo cheio, esgueirou-se sorrateiro e saiu sem que a maioria desse por isso. Foi até à cozinha, agarrou no corpo sem vida do pilinhas, esfolou-o, atirou a carcaça para junto dos restos dos coelhos, pegou na pele e com um sorriso de malandro nos lábios dirigiu-se para a messe onde ainda se saboreavam os últimos nacos de carne. Assomou à porta e exibindo a pele do bicho para que se visse bem o que era, gritou:
- Olhem, olhem!
E ria-se desalmadamente esticando os braços para que não ficassem dúvidas, quanto à origem do troféu.
O Viola, que ainda dava as últimas dentadas numa suculenta coxa, identificou de imediato a pele do cãozito. Parou de mastigar, arregalou os olhos, fez uma expressão de asco, mudou de cor, largou abruptamente o osso como se este o queimasse, tentou levar a mão à boca mas não foi capaz de conter o vómito deitando fora tudo o que a gulodice lhe fizera engolir. O Viola convencera-se de que entre as coxas de coelho estavam nacos do desgraçado do pilinhas.
Sói dizer-se que a sorte protege os audazes. Mas no caso do Silva, houve uma vez em que isso não aconteceu. Ou talvez sim. Numa zona de fauna abundante e variada, a caça era ocupação frequente. Não pelo passatempo mas sim por necessidade. A carne de vaca vinha de quando em vez, trazida do Luso pelo Nord Atlas e era cara. Tão cara que se o vagomestre se atrevesse a incluir bifes na ementa, teria um prejuízo de que só recuperaria com sucessivas refeições de macarrão acompanhado de coisa nenhuma. A caça era de facto a oportunidade para uma melhoria de rancho sem necessidade de se olhar a rateios.
Assim, independentemente de participar em incursões de caça, o Silva aproveitava todas as oportunidades para, como se diz na gíria, fazer o gosto ao dedo. E era por isso que, com alguma frequência, fazia questão de viajar sentado sobre os sacos de areia que, encaixados sobre os guarda-lamas dianteiros, faziam de rebenta minas. Ali sentado, podia atirar sobre qualquer animal que surgisse pela frente chegando a mergulhar sobre a presa como fez com um coelho que, encadeado pela luz dos faróis, se deixou apanhar à mão.
Até que um dia, de regresso da Neriquinha Velha, já sobre a chana que se seguia às Pontes do Cúbia, divisou duas ou três cabras do mato por ali perdidas, o que não era comum dada a proximidade de movimento. Agarrou na arma e segurando-se com a mão esquerda, dependurou-se no estribo da porta do lado oposto ao do condutor que acelerou na tentativa de acompanhar a correria dos bichos.
Não se aperceberam que uma pequena árvore, quase um arbusto, estendia um dos seus ramos sobre a picada. A berliet roçou a árvore que varreu todo o lado direito arrancando o Silva da sua boleia. Caiu ao chão desamparado, rolou no pequeno declive e por um triz não ficou debaixo do rodado traseiro que ainda lhe mordeu a fralda do camuflado.
Sentou-se na berma e com uma careta de dor agarrou o ombro queixando-se da pancada que a areia não amortecera,
- Caí mal! Balbuciou apercebendo-se de que quase tinha sido passado a ferro pela viatura.
Ajudaram-no a subir de novo para a berliet que seguiu o mais depressa possível em direcção à Neriquinha esquecendo as duas cabras que entretanto haviam desaparecido no meio do capim. O diagnóstico não deixou dúvidas: o Silva partira o braço.
Foi transferido para o hospital do Luso de onde regressou uma semana depois devidamente engessado e proibido de fazer movimentos bruscos.
Por uns tempos, acalmou. Entediava-se por aqui e por ali, entretendo-se com jogos de sueca ou de king, batendo a cartas com violência como se quisesse descarregar a energia acumulada.
Mas o sossego foi sol de pouca dura. Passado algum tempo, mesmo com o braço engessado, fazia questão de integrar incursões pelas redondezas ou participando em visitas às chanas próximas embora não enquadrado em operações. Ainda me lembro que, em consequência do uso, o gesso foi escurecendo até ganhar a cor da terra da savana circundante.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O Comandos e a fobia por injecções

África é uma terra imensa. E imensa é a parcela daquele território que continua praticamente inexplorada. Angola, como grande país de África que é, não escapa a esta realidade. Parte significativa do seu território permanece ainda hoje em estado selvagem e no tempo em que por lá andei, ainda mais. E isso não é defeito, é qualidade.
O Cuando-Cubango, sendo uma das regiões mais extensas do país, é provavelmente aquela que dispõe de maior área livre da influência humana; pelo menos era. A proximidade do deserto, a savana imensa com paisagens a perder de vista, a ausência de estradas ou outras infra-estruturas e a imensidão de planuras de areia num cenário semidesértico entremeado por sucessivas chanas pantanosas e traiçoeiras, constituem óbices ao conforto a que o ser humano se habituou.
Esta imensidão natural é assim morada de uma fauna variada e numerosa que ali habita passeando-se em manadas sem destino usufruindo da erva viçosa que cresce quer alimentada por chuvas abundantes quer, na sua ausência, subsistindo na humidade perene das chanas, longe dos olhares indiscretos de humanos predadores, impedidos de se aproximarem pelas condições naturais do seu habitat.
Contudo, enquanto que para a vida selvagem tudo são rosas, para nós, europeus destacados em missão de soberania, tudo era hostil, não só pela acção dos guerrilheiros que nos combatiam mas também pela dureza dos elementos e variadas pragas que atacavam as nossas fragilidades.
Hordas de mosquitos vorazes sugavam-nos o sangue inoculando-nos viroses e maleitas várias. Percevejos habitavam as nossas camas colando-se à pele e perturbando o sono. Um sem fim de insectos desconhecidos, uns menos inofensivos que outros, passeavam-se por entre as ensanchas da roupa, irritando a pele e muitas vezes infiltrando-se sob a derme, provocando micoses e infecções várias, por vezes graves. Bandos de moscas, umas maiores que outras, zumbiam à nossa volta não se intimidando com os safanões com que desesperadamente as tentávamos afugentar e a temida tsé tsé, abundante na região, ameaçava-nos de morte com a invisível doença do sono. E tudo isto debaixo de um sol impiedoso que ampliava o sofrimento e tudo ressequia fazendo com que qualquer movimento levantasse nuvens de pó que se colava à pele suada, pegajosa e vulnerável ao mosquitame que eclodia em frenesim de milhões de larvas incubados pelas abundantes águas que impedidas de circular pela ausência de declives, se aquietavam transformando a savana em pântanos dispostos em sucessão irregular e labiríntica.
Assim, não era de estranhar que a nossa companhia tivesse direito a médico privativo.
O Dr. Lacerda era o alferes médico da companhia, integrando o seu corpo de oficiais, com a missão de olhar pela nossa saúde e, de caminho, cuidar das maleitas da população que, verdade seja dita, não acreditando em modernices, preferia a medicina tradicional, carregada de misticismo e baseada mais em crenças ancestrais do que na eficácia de alguns remédios naturais de preparação caseira.
Sob a batuta do Dr. Lacerda, a equipa de enfermagem chefiada pelo Furriel Pinto, ia cuidando da malta, quer combatendo os males que afligiam ora uns ora outros, quer ministrando medicação preventiva. E o depósito de medicamentos estava bem fornecido, já que, pelo menos neste aspecto, o exército não olhava a meios, estando disponível um sem número de comprimidos, pomadas, tinturas e unguentos, xaropes e analgésicos, desde a morfina injectável à simples aspirina, sem esquecer os cremes repelentes os pós anti-alérgicos os aerosóis anestesiantes e os complementos vitamínicos entre outros remédios. Para mim, que nada percebia daquilo, cheguei a julgar que ali, nos confins da savana, naquela espécie de acampamento com ar de provisório, longe de tudo e de todos, existia um stock mais completo que o de farmácia em cidade.
E eram eficazes. Lembro-me que o Merthiolate tinha um efeito miraculoso em cortes, arranhões e esfoladelas. Ardia que se fartava mas anulava qualquer foco de infecção e sarava pequenas feridas de um dia para o outro; o soluto Whitefield (acho que é assim que se escreve), queimava num ápice qualquer erupção cutânea e o talco antimicótico, aplicado nas dobras da pele, fazia desaparecer as comichões e irritações que a humidade sudorífica agravava.
A medicina preventiva era preocupação do furriel enfermeiro. Todos os dias, ao almoço, o Pinto dispunha, junto ao prato de cada um, dois ou três comprimidos: O vermelhinho, que visava compensar as insuficiências vitamínicas e minerais da alimentação pobre e sensaborona; o branquinho que continha a imprescindível resoquina contra o paludismo; e mais um outro que não me lembro para quê. E até havia a dose cavalar de vitamina B11, ou lá o que era, injectável, que se dizia fornecer tudo o que o organismo precisava. Pelo menos o Palúdico, na sua permanente mania das doenças e fraquezas, era cliente assíduo.
Mas, verdade seja dita, a grande preocupação do nosso escasso e improvisado corpo clínico centrava-se no combate ao paludismo e à temível doença do sono. A luta contra o paludismo era diária através de medicação preventiva. Só em caso de contágio, quando a febre subia aos quarenta graus, se justificava a via endovenosa com a injecção de doses cavalares de resoquina. Já a doença do sono exigia a inoculação periódica de uma vacina que era pressuposto imunizar-nos contra uma ameaça invisível que se dizia extremamente perigosa, apenas se manifestando quando já era tarde de mais, o que justificava que, de tempos em tempos, o pessoal se colocasse em bicha pirilau à frente da enfermaria, obrigando os enfermeiros ao trabalho extra de todos vacinar sem excepção.
Por mim e creio que para quase todos, mais picadela, menos picadela, já não fazia diferença. Há muito que nos habituáramos a essa rotina, tanto mais que se preferia isso ao desconforto e à perigosidade da doença.
Mas não o Comandos. Se havia coisa de que tinha medo era de agulhas. E medo é pouco. Tinha pavor, coisa que me fazia confusão se se tiver em conta que o homem era um dos condutores mais destemidos da companhia. Aliás, a alcunha de comandos não foi ganha por acaso. Frequentou esse curso de tropas especiais e quem o faz não é propriamente medricas. E eu posso atestar que assim era. Com aquele homem ao volante passei momentos de pura aventura, a elevar a adrenalina ao máximo por aquelas matas desconhecidas, alguns dignos de um filme. Não, medo era coisa que, no Comandos, só existia em doses razoáveis. Humanas, para ser mais exacto. Sim, porque gente sem medo não há.
Mas o homem tinha medo de agulhas, de tal maneira que ao aperceber-se da aproximação do dia aprazado para a inoculação colectiva, entrava em stress e os suores frios não o largavam. Creio que até perdia o apetite.
Quando chegava o dia aprazado o descontrolo era total, especialmente porque tinha consciência que não havia volta a dar. Tinha que ser. Mas o que tinha que ser, no caso, parecia não o acalmar. Andava de um lado para o outro, metia-se na fila para logo dar o lugar ao que se lhe seguia. Saía da fila, sentava-se, passava a mão pela cabeça, certamente num exercício de auto mentalização. Sabia que teria de ser, agora ou mais tarde. E não era tanto pelo facto de a isso ser obrigado, porque se assim fosse, se calhar arriscaria a desobediência. Era mais porque tinha consciência de que, se não fosse vacinado, corria sério risco de contrair uma doença que o poderia matar. E isso atormentava-o ainda mais. Era como se tivesse de escolher entre cortar o dedo da mão esquerda ou o da direita. De repente, tomou a decisão:
- Agora sou eu! Exclamou aproximando-se do enfermeiro.
- Mas não quero no braço. Tem de ser no rabo. Sentenciou.
Justificava que seria menos doloroso do que no braço e ficava fora de vistas. Contudo, o problema não era a picada, nem propriamente a dor, que essa era inferior à das centenas de picadas de mosquitos que já sentira. O problema era mesmo psicológico.
Desceu os calções, esticou-se sobre o banco corrido de rabo para o ar, fechou os olhos com força, rodeou a cabeça com os braços na vã tentativa de se alhear, retesou-se todo e esperou a ferroada.
Mal sentiu o contacto frio do algodão que desinfectava a zona a picar, retesou os músculos num movimento bem visível, cerrou ainda mais os olhos até quase desaparecerem e esperou. O enfermeiro preparou a agulha, como de costume separada da seringa e num movimento brusco, procurando aliviar o tormento do Comandos, desferiu o golpe que pensou ser suficiente para penetrar o músculo em esforço.
Para espanto de todos, a agulha saltou como se tivesse atingido borracha dura. Os músculos do Comandos, tensos até ao limite, impediram que penetrasse e, ao cair no chão, perdeu as propriedades assépticas ficando inutilizada. Seria preciso outra agulha, mas o estado do homem não se alterava. Aliás parece que ficou ainda mais enervado, o que é compreensível. Contudo, não saiu da posição o que demonstrava estar efectivamente convencido que não teria opção. Tentámos acalmá-lo e o furriel Pinto fazia-lhe ver que, estando assim, seria mais doloroso, para além de transformar uma simples picada em algo complexo. Em vão, os músculos contraídos pareciam querer saltar da pele e nada o fazia acalmar. O Pinto perdeu a compostura:
- Acalme-se lá, porra! Gritou.
- Oh Comandos, pensa em gajas! Disse alguém brincando.
Perante o aparente impasse, o furriel sentenciou:
- Eu é que vou resolver isto. E, estendendo a mão para o enfermeiro, ordenou:
- Dá-me uma agulha.
Posicionou-se, pareceu avaliar o alvo, deu uma pequena palmada na nádega nua esperando conseguir alguma descontracção do apavorado soldado e num golpe violento, espetou a agulha, qual estocada em touro bravo. Encaixou a seringa e começou a empurrar o êmbolo obrigando o líquido a penetrar naquela fortaleza de músculos.
O Comandos levantou a cabeça, cerrou os dentes num verdadeiro esgar de dor e aguentou até ao fim, soprando e resfolegando sem abrir os olhos.
- Porra! Você gosta de sofrer. Desabafou o Pinto quando finalmente sacou a agulha num gesto brusco ao mesmo tempo que esfregava com algodão emudecido a nádega repentinamente descontraída.
- Não percebes que assim é que dói mesmo?
Mas o homem não queria saber disso. Levantou-se, puxou os calções e enquanto afivelava o cinto, balbuciou num suspiro:
- Pronto, já está!
E afastou-se a coxear, esfregando o rabo à procura de alívio para o ardor que sentia.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Ruinas da Neriquinha

Há muito tempo que procuro imagens actuais da Neriquinha recorrendo às facilidades que o Google Earth disponibiliza. Mas em vão. Consegui identificar o local mas a imagem não passava de um borrão que nada deixava ver. Apenas quem, como nós, por ali andou, conseguia reconhecer os sinais no meio do verde que escondia o local. Pelo menos até agora.
Finalmente o satélite da Google andou pelas imediações e embora ainda não seja absolutamente nítido, é já possível visualizar as ruínas daquilo que foi a nossa morada por uns longos dezoito meses distribuídos pelos anos de 1971 a 1973.
Vê-se nitidamente que a mata invadiu o local e tudo o que não era construção de cimento e tijolo desapareceu. Mas lá estão, nítidos, os restos do edifício da FAP, da messe, da casa dos oficiais, do depósito de géneros e transmissões e até da cozinha, sendo ainda visível o chão de cimento do refeitório e os restos da ferrugem. Tudo o mais desapareceu, incluindo o chiado, o depósito da água e naturalmente o kimbo.
Fica provado que a população apenas ali estava pela proximidade da tropa. Na verdade as suas actividades agrícolas e de caça, desenvolviam-se fora dali, nos locais das lavras, para onde parece que se deslocaram quando a tropa abandonou o local.
O Google mostra claramente o kimbo que se formou junto às margens do Rio Cuando, no local que designávamos por Neriquinha Velha. Na verdade, tratava-se da verdadeira Neriquinha, onde a população mantinha as suas lavras e criava gado.
O mais curioso é ver o que se encontra seguindo o curso do Rio Cúbia pela margem esquerda, desde as pontes até Mavinga. Nesse percurso, encontrei pelo menos três kimbos que me lembro não existirem na altura.
Pelos vistos a população voltou aos seus hábitos ancestrais, viver junto do local onde se dedicam às suas actividades de mera subsistência.
Tenho a certeza que são felizes.