sexta-feira, 1 de julho de 2011

MECÂNICOS

Meios de transporte e de locomoção são equipamentos fundamentais em qualquer teatro de guerra. E a guerra colonial portuguesa não podia ser excepção. A importância de uma frota operacional era condição necessária, operacionalidade essa que dependia do seu funcionamento, do tipo de viatura em função do terreno e da sua capacidade para evoluir na multiplicidade de cenários.
Umas maiores, outras mais pequenas, a gasolina ou a gasóleo, com tracção normal, integral, ou reforçada, com ou sem guincho, com quatro, seis ou oito rodados, com reboque e sem reboque, com ou sem cabine, carroçaria entaipada ou não e dotados de uma variedade de equipamentos e capacidades conforme a função a que eram destinadas. Inicialmente eram as velhas GMC que foram gradualmente substituídas pelas famosas GBC, mais conhecidas por viaturas Berliet e as Mercedes nas suas diversas variantes, das quais se destacavam os inimitáveis Unimogs, disponíveis a gasóleo ou a gasolina, bastante versáteis e capazes de vencer qualquer obstáculo.
A frota da Neriquinha era constituída por quatro Berliets, uns quantos Unimogs dos maiores, outros tantos dos mais pequenos e um Jeep Willis, que não podia ser considerado como pertencente à frota. Com efeito, sendo a única viatura a gasolina, tinha quatro velocidades - três para a frente e uma para trás - gastava 50 litros aos 100, era apenas usado no perímetro do aquartelamento, as mais das vezes pelo Capitão, nunca tendo ido mais longe do que o limite norte da pista.
A hostilidade própria das terras do fim do mundo e as irregularidades agrestes das picadas arenosas transformavam o dia-a-dia das viaturas num autêntico inferno. Os rodados enterravam-se no terreno desértico e arenoso, atolavam-se no lamaçal das chanas, derretiam-se sob o calor impiedoso, a suspensão tinha de dar mostras da sua resistência, os motores eram obrigados a rodarem em primeira e segunda velocidade na maior parte dos percursos, a terceira velocidade só era utilizada de quando em vez e a quarta nunca, obrigando a manter os radiadores sempre abastecidos.
Os motores sobreaqueciam, as molas partiam-se, as baterias descarregavam-se perante a relutância dos motores em arrancar, os pneus furavam, os radiadores secavam e o depósito de combustível esvaziava a um ritmo alucinante.
Com as Berliets, o problema da água e do gasóleo resolvia-se; cada viatura carregava permanentemente um bidão cheio de gasóleo e outro com água, permitindo, com a ajuda de uma mangueira, o abastecimento em qualquer altura. Mas os Unimogs não tinham essa capacidade de transporte e, por via disso, só eram utilizados em deslocações de menor distância. O pior é que o estado das viaturas agravava a situação; uma delas estava mais tempo avariada do que a funcionar, outra não merecia confiança e as duas restantes acabavam por soçobrar ao excesso de trabalho.
A operacionalidade da frota era responsabilidade do Gabriel Costa que não tinha a vida facilitada. As viaturas avariavam com muita frequência em consequência da dureza dos itinerários que percorriam, obrigando a reparações frequentes que muitas vezes passavam pela substituição das peças desgastadas, partidas ou irremediavelmente avariadas.
O problema é que o acesso a peças de substituição exigia requisições obedecendo a uma burocracia entediante e desesperava-se à espera que, de Luanda, chegassem as peças necessárias, cuja demora, excessiva não se compaginava com a operacionalidade exigida à companhia, o que determinou que a berliet mais débil e que mais vezes se negava a cumprir a sua missão, fosse arrumada a um canto das oficinas, passando a ser sistematicamente canibalizada, esventrada das peças que iam sendo montadas nas demais, ficando assim a frota reduzida a apenas três unidades, com uma delas a apresentar fragilidades ao ponto de apenas poder sair carregando por precaução uma lança de reboque e em companhia de uma das outras que, de quando em vez, a tinha de trazer a reboque.
Com tudo isto, a equipa de mecânicos não chegava para as encomendas e a rápida formação que a tropa lhes ministrara pouco ou nada acrescentou à pouca experiência que traziam da vida civil e tenho para mim que o Vicente sabia mais da matéria que alguns dos mecânicas da companhia. O Vicente era um puto local que, apaixonado pela mecânica, passava os dias na oficina, ajudando no que fosse preciso.
Na verdade, o que safava tudo era o facto de a equipa de mecânicos contar com o cabo Lobato. O Lobato era um profissional e conseguia fazer milagres com pouca coisa. Homem corpulento, tinha uma estatura à altura das grandes Berliets e conhecia todos os segredos da mecânica, do funcionamento, das manias e dos tiques daquelas viaturas. Pelo menos, conseguia reparar qualquer avaria, desde que não dependesse de qualquer peça que não chegava. Era um conhecedor teimoso e persistente, que se empenhava a fundo fosse qual fosse a reparação exigida, desde o trabalho mais simples até o mais complicado, mesmo que isso implicasse o desmontar de uma embraiagem, de uma caixa de velocidades ou de um motor. Na verdade, devia-se ao Lobato a operacionalidade das três berliets sobreviventes.
Certa vez, o meu grupo de combate foi incumbido de uma missão; manter uma presença na N’Riquinha Velha durante dois dias, patrulhar as margens do Kuando e tomar contacto com a população que por ali olhava pelo seu gado e cuidava das suas plantações de milho. O lugar era aprazível e não ficava muito distante; uma hora de caminho mais coisa menos coisa, dependendo do que o condutor conseguisse da viatura. Para a missão foi afecta a pior das três berliets que, tendo passado o dia anterior nas mãos do Lobato, se esperava que fosse capaz de fazer a viagem de ida e volta sem problemas. Pelo menos a viagem de ida decorreu sem avariar.
Era o tempo do cacimbo, com um calor tórrido durante o dia e um frio gélido durante a noite, exercendo a sua acção desgastante, não apenas sobre os corpos, mas também na mecânica da berliet que, após uma viagem sob sol inclemente, se aquietou na noite gelada a ponto de lhe ter afectado qualquer parte mais sensível.
O facto é que, quando no dia seguinte o condutor accionou a ignição para pôr o motor em marcha, este não respondeu aos insistentes nhé, nhé, nhé, nhééé…… do motor de arranque, decidindo-se que não valia a pena insistir, até porque, após várias tentativas sem sucesso, a bateria começava a fraquejar. A única hipótese passava por requisitar os serviços do Lobato. A distância não era assim tanta e naquele terreno plano de areia seca e solta, fazê-la pegar de empurrão era tarefa impossível, mesmo com toda gente a ajudar.
O operador de transmissões ligou o rádio, estendeu a antena e procurou estabelecer contacto.
- Base, base, aqui óscar … escuto.
Após duas ou três insistências a terminar em “escuto”, a resposta fez-se ouvir.
- Transmita.
- A cabrinha está doente … precisa do médico.
Ou por chacota, ou porque não estivesse a perceber a linguagem toscamente cifrada, o operador na N’Riquinha não associou cabrinha à viatura e menos ainda o de médico ao mecânico, replicando desabridamente:
- Qual cabrinha? Médico para quê? Afinal quem é que está doente?
Para gáudio de todos, a resposta, em jeito de desabafo, saiu pausada, quase palavra a palavra para que não subsistissem dúvidas.
- Oh porra! O motor não pega, … não trabalha.
Se o inimigo ou alguém, à socapa, estava a ouvir a transmissão, ficou a saber que por ali, uma viatura se recusava a trabalhar e que uns tropas aguardavam algures a chegada de um mecânico para resolver o problema e ao mesmo tempo lá se foi às urtigas um código secreto.
De qualquer forma, não demorou muito até que uma outra berliet nos trouxesse o Lobato. Apeou-se, aproximou-se do condutor e embora soubesse exactamente onde estava o problema, perguntou:
- Então, qual é o problema?
- Esta porcaria não pega. Respondeu agastado o condutor.
- Não pega? Não pode ser! Ainda ontem trabalhava tão bem!
O Lobato, sabendo bem qual o mal da viatura, brincava com a situação. Retirou qualquer coisa do bolso, aproximou-se pelo lado do condutor, deitou um olhar de entendido para o emaranhado de peças e fios que rodeiam o motor e disfarçadamente aproximou da entrada de ar o que retirara do bolso, ao mesmo tempo que ordenava:
- Dá lá ao motor de arranque.
O condutor accionou a ignição, o motor de arranque respondeu com esforço e para surpresa de todos a berliet começou a trabalhar ao fim da primeira tentativa.
- Pronto, está reparada a avaria. Sentenciou.
Naquele dia, a fama do Lobato subiu uma significativa quantidade de pontos. Para alguns, operara-se uma espécie de diálogo mágico entre o Cabo e a berliet.
- Ele consegue falar com elas, é o que é! Comentou alguém.
Apercebi-me que o Lobato voltava meter no bolso um pequeno frasco que continha um líquido incolor e quando lhe perguntei qual o segredo do líquido mágico respondeu simplesmente:
- Éter.
De facto, isso explicava tudo e anulava a componente mágica. Mas demonstrava que os seus conhecimentos não se ficavam pelo gosto ou empenho com que se dedicava às coisas da mecânica. Saber que os vapores do éter enriqueciam a mistura de ar e que isso facilitava a ignição, revelava a percepção exacta do fenómeno e das minudências da mecânica subjacentes ao funcionamento dos motores.
Bem se pode dizer que a C.Caç. 3441, teve sorte por ter ao seu serviço um cabo como o Lobato.

terça-feira, 14 de junho de 2011

"História de um combatente" - Joaquim de Sousa

As celebrações do 10 de Junho, por muito que o tempo passe e queiramos evitar, é um dia que nos marca pelo seu significado e, sobretudo - àqueles que foram mobilizados para a Guerra do Ultramar -, um dia de regresso ao passado. O Tempo - que nem sempre tem "tempo" de lavar as memórias de uma juventude sofrida - atira-nos, de chofre, com as marcas e os sentimentos que vivem ainda dentro de nós, e faz reviver os afectos nascidos durante os meses de convívio militar. O dia 10 de Junho tem o efeito de catárse que limpa os males da alma e serena, ciclicamente, os espíritos ainda inquietos de duas gerações de portugueses
Reli, este fim de semana, o livro do cabo da C. Caç. 3441, Joaquim de Sousa, já falecido, "Memória de um Combatente". É um livro em verso, longe dos circuitos de venda, edição da família, que pretendeu dessa forma, manter vivo o espírito de um homem bom, que não conseguia esquecer o passado e a juventude perdida nos confins de Angola. Entre as minhas notas de apoio ás memórias da C. Caç 3441, que cada vez mais se vão diluindo com os anos que passam à velocidade da luz, encontrei este comentário que enviei, em Junho de 2008, ao capitão Cabrita - autor de 2 livros sobre a sua/nossa passagem em Terras de Angola - e parceiro na feitura deste blog.


Caro Cabrita:

De vez em quando a vida abana à nossa frente uns farrapos afectivos que nos devolvem a capacidade de dar passos atrás no universo das nossas vidas. Foi o caso do livro do Joaquim Sousa. Não vem ao caso nem o léxico nem a sintaxe, que são o que são para um homem que tinha a formação que tinha. Conta, aqui, a sensibilidade e o amor que se ganha a uma terra que não é a nossa, numa missão que não devia ser nossa com fins que nunca deveriam ter sido os nossos. Mas, na roleta que nos atirou para África, isso já não conta, porque o tempo e a vida (que nos come o tempo de vida), se encarregaram de diluir o mau, e, criar à superfície das recordações da juventude, uma nata de saudades que continua a envolver-nos numa afectividade comum e estranha, com aquela terra.
Confesso que me revi e revivi um pouco no calor, nos cheiros e sons da N’Riquinha. A África suga-nos a alma e, este livro, curioso porque escrito em verso, é a simplicidade, a inocência e a ingenuidade assumidas por um soldado que outra coisa não tem para se expressar, senão o feitiço em que foi envolvido por aquela terra. Deixa-se absorver por um sentimento tão forte que o inspira a aventurar-se numa escrita, que não é naturalmente a sua, e, revela um talento natural, mas não educado, que o leva a escolher a poesia para se exprimir, numa métrica difícil e mais difícil ainda de entender para quem não tem hábitos de leitura. Confesso a minha surpresa e espanto pela forma usada e perante uma sensibilidade que, todos nós que com ele convivemos, estávamos longe de adivinhar. A leitura não é fácil e o primor épico só existe na intenção. Mas, isso, é o menos!
O Sousa, foi, para mim, uma surpresa cuja intensidade só pode ser medida por almas que por ali andaram, nas “Terras do Fim do Mundo”.
O livro dele, esse montão de generosidade e calor humano, deveria ter sido apresentado na parada, perante toda a companhia e em sentido estando todo o kimbo presente, tendo nos lugares de honra o secúlo Sarikisse, as Reginas (rainhas dos amores clandestinos coloridos), o Dango, o Vicente e o João, e, ao fundo, no palco principal, as almas do Fulai Monjuto, do Morgado e do Furriel Gonçalves.
Li o livro este fim-de-semana, não pela qualidade da escrita, que o meu amigo, melhor do que eu, sabe não ser, sequer, razoável. Li-o pelo conforto espiritual que me deu e pelo acalmar dos demónios africanos que todos transportamos escondidos no nosso íntimo. De vez em quando sabe bem ser surpreendido por aqueles que julgamos tão vulgares como nós.
Caro Cabrita:
Ainda não comecei a ler o seu livro, coisa que vou fazer após serenar da envolvência e do aperto de alma deste turbilhão de emoções com que fui assaltado, para não dizer violado. Ás vezes o rodar do botão das saudades não está em nós, aparece-nos de chofre vindo de onde menos esperamos.
Foi um gosto revê-lo no sábado. Obrigado pela oferta do seu livro.
Um abraço
Gabriel

quarta-feira, 1 de junho de 2011

GASTRONOMIA

Não sei como é hoje. Naquele tempo, alimentar tropas era uma tarefa complicada. A verba era escassa, a janta nunca estava ao gosto de todos, a variedade não abundava, a imaginação dos cozinheiros escasseava e a falta de jeito da grande maioria agravava tudo. Eram homens formados à pressa, escolhidos com base em critérios que nunca cheguei a perceber. Creio que poucos deles alguma vez tivessem ido além do estrelar um ovo. A verdade é que a tropa transformava pedreiros, carpinteiros, jardineiros e afins em cozinheiros temporários que, após cumprido o serviço militar voltavam às suas actividades iniciais.
Se transportarmos tudo isto para a realidade da Neriquinha as coisas pioravam. A cozinha não ajudava, o combustível era lenha colhida na mata, os tachos eram negros e grandes e o calor tornava a tarefa do cozinheiro um martírio. A agravar tudo isto, os ingredientes escasseavam, a ração era parca e nem pedras havia que permitisse confeccionar a sopa da dita. Na verdade a variedade do rancho oscilava ente a massa com carne e a carne com massa substituída de tempos em tempos por feijões. Bifes, nem vê-los e o peixe era indesejado. De vez em quando, lá vinham umas salsichas, uma feijoada com uma ou outra rodela de chouriço barato, umas ervilhas enlatadas e pouco mais. Ah! havia ainda a dobradinha. O ingrediente chegava seco, desidratado, em forma de pequenos pedaços parecidos com flocos que inchavam quando postos de molho. Dobradinha com feijão ornamentada com uma colherada de arroz, era assim um dos petiscos que permitia desenjoar da massa mas que não nos livrava dos feijões que engrossavam o molho com aspecto amarelado de cola líquida condimentada com o chouriço estrategicamente misturado para dar gosto e onde os mais gulosos ensopavam o pão deixando muito pouco para os putos que ajudavam na lavagem dos pratos.
O culpado de tudo isto, dizia-se, era o Vagomestre. O Morais, sendo o furriel responsável pelos “comes” levava com as culpas de tudo. Se a comida não agradava maldizia-se o Morais e se os feijões estivessem rijos alguma culpa teria de ter. E quando, perante o ram-ram repetitivo da ementa, lhe perguntávamos o que teríamos para o almoço, respondia invariavelmente:
- Surpresa!
Na verdade, a tarefa do vagomestre não era fácil: apenas dispunha de uma verba de vinte e dois escudos e meio para alimentar diariamente cada homem. De facto, servir três refeições diárias por apenas vinte e dois e quinhentos era obra a exigir dotes de prestidigitador, tanto mais que os ingredientes não estavam disponíveis. Supermercados não existiam, nem perto nem longe e o reabastecimento tinha uma periodicidade mensal através do MVL proveniente de Serpa Pinto que em viagens que levavam mais de uma semana, nos trazia os secos considerados suficientes para um mês (batatas, arroz, massa, dobradinha desidratada, enlatados e outros) e os molhados, naturalmente constituídos por vinho de péssima qualidade e cerveja a rodos. Tudo o mais que pudesse ser apelidado de “frescos” vinha do Luso trazido pelo Nord Atlas nas suas visitas semanais (verduras, carne, peixe congelado, ovos e pouco mais).
O que valia ao vagomestre (e a nós todos) era a abundância de caça que naturalmente arredia das matas próximas, obrigava a calcorrear chanas afastadas à procura da melhor peça. Uma boa caçada permitia compensar o magro orçamento e garantir bifes para o almoço, já que a carne vinda semanalmente do Luso era demasiado cara apenas chegando para misturar com a massa, com o arroz ou para compor um guisado pobre com batatas.
Mas, carne de caça… é carne de caça. Nada que se pareça com um naco de vitela ou uma costeleta de porco que uma simples pedrinha de sal transforma em pitéu. Carne de caça é adocicada, desagradável, enjoativa e torná-la comestível exigia tempo, marinadas prolongadas, empenho e imaginação do cozinheiro o que, devo confessar, não abundava por ali. A não ser que se tivesse a sorte de caçar uma palanca ou então uma gunga. A carne de gunga era a única que uma vez cozinhada se assimilava a vaca e o animal era tão grande que os dois lombos eram suficientes para servir uma refeição de bifes a toda a companhia.
O problema é que a caça não resolvia tudo. No tempo das chuvas era difícil apanhar alguma coisa de jeito e o pessoal começava a ficar farto, torcendo o nariz a certas variedades como o guelengue (óryx) ou o caixote (Gnu) animal desajeitado cuja carne tinha um sabor nada agradável. O orçamento, esse, continuava curto e qualquer pequeno deslize tornava-o deficitário obrigando ao racionamento e a refeições de massa com pouca coisa ou a arroz espapaçado com estilhaços de frango.
Contudo, havia ainda um recurso. A população local dedicava-se à criação de gado, naturalmente gado vacum. O problema era convencê-los a venderem. Entre os ganguelas, a riqueza definia-se pelo número de mulheres que cada um possuía e mulheres adquiriam-se com vacas. Meia dúzia delas dava para comprar mais uma mulher que podia ser usada para trabalhar nas lavras, cuidar das plantações de milho, nos afazeres do dia-a-dia e conferir estatuto. Naquela sociedade poligâmica, quanto mais mulheres e maior a manada, maior a importância do proprietário.
Para agravar a situação, o dinheiro não lhes dizia nada. Não precisavam dele. Era coisa inútil. Bastavam-se com o mínimo necessário para comprar um ou outro utensílio, uma ou outra alfaia, uma ferramenta, uns panos para as mulheres e pronto. Andavam descalços, vestiam pouca roupa e sobreviviam com culturas de subsistência.
Era aqui que entrava o P. Costa. Sendo o furriel responsável pelo “Chiado” estava habituado a negociar com a população a venda das utilidades e futilidades que se vendiam no barracão assim eufemísticamente apelidado. A verdade é que era o único que se dispunha a deslocar-se às pastagens, escolher a rês, negociar o preço e trazer o animal estrategicamente abatido com um tiro certeiro e que, uma vez na Neriquinha, o cabo Ferreira se encarregava de desmanchar e converter em bifes.
Certo dia, o P. Costa foi incumbido de mais uma dessas missões: convencer o ganadeiro a vender um dos seus animais. Fiz parte do grupo a que se juntaram os dois cabos da Força Aérea que nunca antes tinham tido o ensejo de passar além do arame farpado. O local escolhido foi a Neriquinha Velha, ali pertinho, nas cercanias das margens do Kuando, distância que levou cerca de uma hora a vencer.
Saltámos da berliet e seguimos o P. Costa que caminhou decidido pelas lavras contornando um morro de formigas salalé demonstrando conhecer bem o caminho. Acercou-se do único homem visível nas redondezas, cumprimentou, fez uma ou duas perguntas de circunstância e foi directo ao assunto.
A resposta meio evasiva do dono do gado, não parecia lá muito animadora. Era claro que o homem não estava interessado em vender o que quer que fosse. Mas as negas do homem não pareciam convencer o P. Costa que já esperava a reacção, passando de imediato à discussão do preço. Na verdade, discussão não houve já que os valores avançados se ficaram apenas pelas ofertas do comprador:
- Mil escudos! Tá bem?
Como resposta, um tímido e negativo abanar de cabeça, ao mesmo que tempo que balbuciava um…
- Não furriel.
Mas o P. Costa insistia, subindo a oferta
- Então, fica por mil e cem.
Para de seguida questionar de forma conclusiva.
- Então qual é a que vamos levar?
E sem dar tempo ao outro para responder, levou a arma ao ombro e com um tiro certeiro prostrou o animal que o seu olhar conhecedor já havia seleccionado.
Carregámos a vaca inerte enquanto o homem, agradecendo com tímidos acenos de cabeça, recebia as notas que compunham o preço, sem prestar grande atenção ao dinheiro. Para mim parecia claro que aquele dinheiro pouco lhe interessava. Na verdade acabara de ficar mais pobre
No caminho de regresso, olhando o corpo morto do animal, apenas pensava que finalmente teríamos rancho melhorado. Talvez uns bifes a que certamente faltariam as batatas fritas. Mas nunca me ocorreu pensar que não havia veterinário para garantir que aquela carne estava em condições de ser consumida.
Fiávamo-nos apenas na experiência que se supunha ter o Cabo Ferreira. Ao abrir o animal certamente saberia ver isso.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Angola-Onde está a dignidade do Estado Português?

A BAIXA DE LUANDA COM AS SUAS NOVAS CONSTRUÇÕES EM ALTURA



Por motivos profissionais, tive que me deslocar a Angola no passado mês de Março. Tentei, sempre dentro dos limites do tempo disponível, informar-me sobre as transformações que aquele país está a passar e visitar os locais que a memória ainda preserva, e, o que vi, era, de uma maneira geral, positivo: estão a nascer, por todo o lado, hospitais e centros de saúde, escolas, universidades e centros de formação profissional, constroem-se milhares de quilómetros de estradas, recuperam-se e reestruturam-se centenas de pontes, requalificam-se e urbanizam-se as cidades, na periferia (de Luanda, Huambo, Benguela, Lobito, Soyo e Kuito) nascem centros comerciais e bairros de habitação com milhares de fogos, ampliam-se portos de mar e aeroportos, o comércio vai-se estabelecendo e espalhando por todo o lado (importantíssimo o comércio informal e ambulante), iniciam-se projectos industriais com a participação de empresários estrangeiros, enfim, nota-se um país a nascer e a querer crescer com estabilidade.
Mas, as dificuldades criadas pela burocracia, a pobreza, a falta de qualificação dos jovens, os elevados preços dos bens essenciais, a tremenda dependência aos grupos económicos estrangeiros, o estado de destruição em que ficou Angola depois da guerra e o peso na economia de algumas famílias privilegiadas, faz com que o estádio de desenvolvimento seja menor do que o desejado.
Porque pretendia visitar as sepulturas de 2 militares de Penalva do Castelo mortos em combate, cuja localização eu conhecia (info da Liga dos Combatentes) e como a minha filha mora perto de Miramar, fui visitar o Talhão dos Militares Mortos em Combate no cemitério principal de Luanda. Este cantinho de Memória, Coragem, Heroísmo e Portugalidade, foi objecto de um tratamento especial nos acordos da Independência de Angola e cabe ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, através da Embaixada em Luanda, fiscalizar e "tomar conta" de tal espaço.
Melhor fora não ter lá posto os pés!
À entrada, perguntei ao porteiro (funcionário da Câmara Municipal de Luanda) onde estava situado o Talhão Militar:
-Ah! ... do colono? Lá atrás! - e indicou-me, com o braço, o fundo do cemitério, à esquerda.
Pelo caminho fui passado por jazigos artisticamente trabalhados, verdadeiras obras de arte, datados desde o século XIX, e que, milagrosamente, se conservam em bom estado. Ao fundo, à esquerda, lá estava o que eu procurava. À entrada, num pequeno mausoléu, estavam as ossadas de militares mortos em terras de Angola durante a I Grande Guerra e cuja conservação é miserável, e, mais miserável ainda, porque se trata de Património que compete ao governo português preservar.
O Talhão Militar, ali ao lado, já não existe! E, do que resta, a destruição é quase total! O abandono de todos os responsáveis pela defesa daquele lugar sagrado, não tem explicação. Desapareceu toda a identificação e numeração que permita encontrar o que quer que seja, alteraram o alinhamento das campas, foram ocupadas a maioria das campas dos militares portugueses para enterramentos recentes, algumas campas têm os nomes originais apagados e foram gravados no mármore os nomes dos novos inquilinos. A vergonha que senti foi tanta, que chorei e ainda hoje me incomodam as imagens que gravei na memória.
Ainda hoje não sou capaz de falar com clareza de espírito sobre aquele atentado, tal a revolta que sinto.
Má nação aquela que abandona e esquece os ossos dos filhos que derramaram o sangue e deram a vida em sua defesa.
Ficam as fotografias para comprovar







segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Furriel Silva

O tempo exerce sobre a nossa memória um efeito curioso. Apaga umas coisas e coloca um véu diáfano sobre outras.
Mas há aquelas que passam incólumes pela voragem dos anos permanecendo vivas e actuais, estejamos a falar de simples recordações ou de pessoas. É o caso dos furriéis da 3441. Confinados a um pequeno quadrado perdido no meio da imensa savana, vivíamos lado a lado, vinte e quatro horas por dia. Tenho a certeza que ainda hoje, passados tantos anos, sou capaz de reconhecer à distância a voz, o andar e parte significativa dos tiques, dos gestos e das poses de todos eles, mesmo dos que nunca mais vi. E já lá vão quase quarenta anos.
Não é possível esquecer o corpo franzino do Gameiro, do seu típico andar com os pés às “dez para as duas” da sua voz gutural e riso sarcástico; da voz rouca do P. Costa, do seu andar bamboleante e da forma como simulava ataques de asma de fazer cortar a respiração; do dente de ouro do Peixoto a emergir do riso estampado na sua cara de menino; da voz cava e profunda de locutor de rádio do Duarte; dos tiques delicados do Viola e das suas poses de menino da mamã; dos mistérios do Fielas; do corpo volumoso e balofo do Ramires; das tiradas intelectuais e andar indolente do Mota na sua pose descuidada quase a infringir as regras do atavio militar; do discurso pausado do Morais e do seu gesto mecânico de empurrar com o dedo indicador os óculos que teimavam em descair sobre o nariz e um sem fim de particularidades que apenas a vivência diária e de proximidade permitiram manter vivas, gravadas de forma indelével na nossa memória pela intensa incandescência da juventude
Recordo-me particularmente do Silva. Era meu companheiro de grupo de combate o que significa uma maior convivência que permitiu ir descobrindo a sua personalidade, os seus gostos, a alegria de viver, o seu riso gutural, o linguajar típico do norte, o afinco com que se dedicava ao que quer que fosse, a começar no simples jogo de cartas e a acabar na mais espinhosa das missões.
O Silva era uma figura castiça. Fisicamente, era um homem pequeno, atarracado, de corpo compacto, maciço e ginasticado sobre umas pernas curtas, o que talvez explique a forma apressada como andava, mesmo que não tivesse pressa, numa passada decidida de homem de acção. Ainda hoje estou para saber se tal postura era o resultado do treino militar ou se já nasceu assim. Fez toda a instrução nos comandos como soldado raso e chegou a estar mobilizado para a Guiné, ou quase, e isso terá marcado a sua personalidade. Uma cicatriz grossa riscada em diagonal sobre o peito atestava a sua passagem pela tropa especial, resultado de um salto de peixe mal calculado sobre um obstáculo de arame farpado. Quanto ao mais, comportava-se sempre como um homem destemido.
Não sei precisar porque passou de soldado a sargento. Contudo não terá sido por aproveitamento excelente na recruta tirada em Lamego. Inclino-me mais para qualquer desentendimento de secretaria relativamente às suas habilitações literárias. A verdade é que fez o curso de sargentos milicianos o que o trouxe até à 3441, carregando nos ombros este seu irregular passado militar levando a que fosse apelidado de “furriel básico”. E básico, na tropa, significava um ponto abaixo do grau inferior da hierarquia. Básico era um soldado que nem escrever sabia. Mas que fique claro que o Silva não era burro, nem tão pouco iletrado. Apenas a sua escolaridade era inferior à dos demais furriéis e isso foi quanto bastou para ganhar o epíteto.
Era voluntário para tudo o que implicasse acção, tinha a resistência dos tropas especiais, era exímio no manejo da arma e não parecia atemorizar-se com a eventualidade da escaramuça ao contrário de uns tantos que rezavam a todos os santinhos na véspera de saírem para uma qualquer operação, mesmo que se destinasse a um simples patrulhamento de risco mínimo em zonas conhecidas. Era, enfim, o operacional da companhia, o verdadeiro guerreiro, roubando a função ao Peixoto, esse sim o operações especiais encartado, formado nos rigores militares de Lamego.
Por mim, ter o Silva como companheiro de grupo de combate só trazia vantagens. Para além do amigo que sempre foi, era como se eu tivesse sempre as costas quentes, protegidas por alguém que interiorizávamos como sendo capaz de nos livrar de uma enrascada. Imaginava-o sempre a ser capaz de reagir a uma emboscada com um qualquer contra-ataque eficaz, daqueles que se viam em filmes de acção.
O seu jeito para o manuseio das armas era um facto. Aprendeu a conhecer a sua G3, descobriu o desvio no alinhamento entre a alça e a mira, identificou os pequenos defeitos que interferiam com a precisão do tiro e usava-a com tal eficiência, que quase nos convencia ser diferente das demais. Na verdade, aquela G3 apenas era certeira na mão do Silva. Acertava onde queria com uma eficácia reconfortante. Até no alvo mais pequeno. Por exemplo, caçar rolas com G3 era uma das suas especialidades. Apontava à cabeça pulverizando-a enquanto a ave, intacta, caía aos seus pés. Bastava que estivesse empoleirada numa árvore que não falhava um tiro e por ali havia muitas.
Um dia apostou comigo em como acertava numa moeda, das mais pequenas. Não apostei porque já o conhecia. Ainda assim, pegou numa moeda de vinte e cinco tostões, encaixou-a no ramo de um arbusto, recuou uns vinte metros, apontou e disparou.
Correu para o local e todo vaidoso exibiu a pequena argola em que a moeda se transformou. O tiro acertara em cheio no centro da moeda.
Riu-se todo ufano, como se ele próprio não acreditasse na façanha, exclamando:
- Vês? É limpinho!
Na mata, durante as operações, era um dos poucos que conseguiam ombrear com a resistência do alferes Fausto. Mantinha uma marcha cadenciada como se tivesse pressa em chegar, fazendo frente à areia seca que cedia debaixo dos pés, resistindo ao cansaço que nos levava à exaustão. Das duas vezes que penetrámos lá bem no interior da savana, com a finalidade de destruir uma base inimiga montada num local a que chamámos de Esquadrão, fez sempre parte do grupo de assalto. Ainda me lembro que, após um dia de caminhada infernal e de uma noite mal dormida, à frente de um punhado de homens por si escolhidos, desatou a correr encosta acima como se levasse a reboque os homens que o seguiam, entrando de rompante por entre as trincheiras do inimigo, pronto para o que desse e viesse.
Por sorte, o acampamento estava vazio. Os guerrilheiros, desalojados na primeira incursão que ali fizéramos uns quantos meses antes, nunca mais haviam voltado a ocupar o local, talvez por que soubessem que mais cedo ou mais tarde voltaríamos, evitando assim o embate indesejado tanto de um lado como do outro. Da primeira vez, o Silva, com a G3 aperrada e granada descavilhada numa das mãos, correra pelo mesmo caminho aos gritos de:
- Ao ataque!
Também daquela vez o acampamento estava deserto, abandonado momentos antes após bombardeamento prévio dos T6 da Força Aérea.
Mas também era uma espécie de doido, um doido pacífico, não obstante a sua pose de guerreiro. A verdade é que também gostava de brincar, embora por vezes levasse longe demais as brincadeiras.
Um dos episódios de que alguns se recordam, envolveu o delicadinho do Viola. Um dos furriéis fazia anos o que justificava uma patuscada. O problema era a falta de ingredientes necessários ao petisco, já que o pouco que se dispunha só existia no depósito de géneros e o furriel vagomestre não estava pelos ajustes. É que nem um simples chouriço dali saía.
Foi então que o Silva se prontificou em caçar alguns coelhos que se sabia haver na mata circundante, ali bem perto, mesmo na periferia da pista. Agarrou na G3, obteve o consentimento para usar uma das viaturas e com mais dois ou três saiu apressado em busca do petisco. Não demorou muito tempo a regressar com coelhos suficientes.
Mas atravessou-se no caminho um cãozito infeliz meio enfezado que por ali andava e que, dada a sua pequenez e magreza, apelidáramos de “o pilinhas”. À entrada da porta de armas e perante o reboliço, o animal desorientou-se, quase tropeçou em si mesmo, tentou fugir mas faltou-lhe a arte. Foi apanhado pela viatura e morreu ali mesmo, atropelado. Por compaixão, alguém apanhou o bicho, colocou-o sobre a viatura que retomou a viagem em direcção à cozinha.
O petisco foi preparado com esmero, juntaram-se dois ou três piri-piri’s colhidos do pequeno arbusto que crescia em frente à enfermaria, umas folhitas de louro, uma ou duas cabeças de alho, uma mão cheia de sal, mais uma pitada disto, outra daquilo, na horta colheram-se uns tomates para dar gosto e eis tudo pronto a cheirar e a fazer crescer água na boca. O padeiro desencantou uns quantos pães e quase em romaria, levou-se tudo para a messe em duas travessas bem compostas. Ensopava-se o pão na molhanga, lambiam-se os dedos, elogiava-se o cozinheiro e aos poucos as travessas foram ficando vazias ao mesmo tempo que os ossos se espalhavam pela mesa. A cerveja corria, garrafa após garrafa, menos para o Silva que nunca se esquecendo da bebedeira que o levou ao coma em Santa Margarida, apenas bebia seven up ou coca-cola.
No meio da algazarra, ninguém deu pela falta do Silva. Já de papo cheio, esgueirou-se sorrateiro e saiu sem que a maioria desse por isso. Foi até à cozinha, agarrou no corpo sem vida do pilinhas, esfolou-o, atirou a carcaça para junto dos restos dos coelhos, pegou na pele e com um sorriso de malandro nos lábios dirigiu-se para a messe onde ainda se saboreavam os últimos nacos de carne. Assomou à porta e exibindo a pele do bicho para que se visse bem o que era, gritou:
- Olhem, olhem!
E ria-se desalmadamente esticando os braços para que não ficassem dúvidas, quanto à origem do troféu.
O Viola, que ainda dava as últimas dentadas numa suculenta coxa, identificou de imediato a pele do cãozito. Parou de mastigar, arregalou os olhos, fez uma expressão de asco, mudou de cor, largou abruptamente o osso como se este o queimasse, tentou levar a mão à boca mas não foi capaz de conter o vómito deitando fora tudo o que a gulodice lhe fizera engolir. O Viola convencera-se de que entre as coxas de coelho estavam nacos do desgraçado do pilinhas.
Sói dizer-se que a sorte protege os audazes. Mas no caso do Silva, houve uma vez em que isso não aconteceu. Ou talvez sim. Numa zona de fauna abundante e variada, a caça era ocupação frequente. Não pelo passatempo mas sim por necessidade. A carne de vaca vinha de quando em vez, trazida do Luso pelo Nord Atlas e era cara. Tão cara que se o vagomestre se atrevesse a incluir bifes na ementa, teria um prejuízo de que só recuperaria com sucessivas refeições de macarrão acompanhado de coisa nenhuma. A caça era de facto a oportunidade para uma melhoria de rancho sem necessidade de se olhar a rateios.
Assim, independentemente de participar em incursões de caça, o Silva aproveitava todas as oportunidades para, como se diz na gíria, fazer o gosto ao dedo. E era por isso que, com alguma frequência, fazia questão de viajar sentado sobre os sacos de areia que, encaixados sobre os guarda-lamas dianteiros, faziam de rebenta minas. Ali sentado, podia atirar sobre qualquer animal que surgisse pela frente chegando a mergulhar sobre a presa como fez com um coelho que, encadeado pela luz dos faróis, se deixou apanhar à mão.
Até que um dia, de regresso da Neriquinha Velha, já sobre a chana que se seguia às Pontes do Cúbia, divisou duas ou três cabras do mato por ali perdidas, o que não era comum dada a proximidade de movimento. Agarrou na arma e segurando-se com a mão esquerda, dependurou-se no estribo da porta do lado oposto ao do condutor que acelerou na tentativa de acompanhar a correria dos bichos.
Não se aperceberam que uma pequena árvore, quase um arbusto, estendia um dos seus ramos sobre a picada. A berliet roçou a árvore que varreu todo o lado direito arrancando o Silva da sua boleia. Caiu ao chão desamparado, rolou no pequeno declive e por um triz não ficou debaixo do rodado traseiro que ainda lhe mordeu a fralda do camuflado.
Sentou-se na berma e com uma careta de dor agarrou o ombro queixando-se da pancada que a areia não amortecera,
- Caí mal! Balbuciou apercebendo-se de que quase tinha sido passado a ferro pela viatura.
Ajudaram-no a subir de novo para a berliet que seguiu o mais depressa possível em direcção à Neriquinha esquecendo as duas cabras que entretanto haviam desaparecido no meio do capim. O diagnóstico não deixou dúvidas: o Silva partira o braço.
Foi transferido para o hospital do Luso de onde regressou uma semana depois devidamente engessado e proibido de fazer movimentos bruscos.
Por uns tempos, acalmou. Entediava-se por aqui e por ali, entretendo-se com jogos de sueca ou de king, batendo a cartas com violência como se quisesse descarregar a energia acumulada.
Mas o sossego foi sol de pouca dura. Passado algum tempo, mesmo com o braço engessado, fazia questão de integrar incursões pelas redondezas ou participando em visitas às chanas próximas embora não enquadrado em operações. Ainda me lembro que, em consequência do uso, o gesso foi escurecendo até ganhar a cor da terra da savana circundante.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O Comandos e a fobia por injecções

África é uma terra imensa. E imensa é a parcela daquele território que continua praticamente inexplorada. Angola, como grande país de África que é, não escapa a esta realidade. Parte significativa do seu território permanece ainda hoje em estado selvagem e no tempo em que por lá andei, ainda mais. E isso não é defeito, é qualidade.
O Cuando-Cubango, sendo uma das regiões mais extensas do país, é provavelmente aquela que dispõe de maior área livre da influência humana; pelo menos era. A proximidade do deserto, a savana imensa com paisagens a perder de vista, a ausência de estradas ou outras infra-estruturas e a imensidão de planuras de areia num cenário semidesértico entremeado por sucessivas chanas pantanosas e traiçoeiras, constituem óbices ao conforto a que o ser humano se habituou.
Esta imensidão natural é assim morada de uma fauna variada e numerosa que ali habita passeando-se em manadas sem destino usufruindo da erva viçosa que cresce quer alimentada por chuvas abundantes quer, na sua ausência, subsistindo na humidade perene das chanas, longe dos olhares indiscretos de humanos predadores, impedidos de se aproximarem pelas condições naturais do seu habitat.
Contudo, enquanto que para a vida selvagem tudo são rosas, para nós, europeus destacados em missão de soberania, tudo era hostil, não só pela acção dos guerrilheiros que nos combatiam mas também pela dureza dos elementos e variadas pragas que atacavam as nossas fragilidades.
Hordas de mosquitos vorazes sugavam-nos o sangue inoculando-nos viroses e maleitas várias. Percevejos habitavam as nossas camas colando-se à pele e perturbando o sono. Um sem fim de insectos desconhecidos, uns menos inofensivos que outros, passeavam-se por entre as ensanchas da roupa, irritando a pele e muitas vezes infiltrando-se sob a derme, provocando micoses e infecções várias, por vezes graves. Bandos de moscas, umas maiores que outras, zumbiam à nossa volta não se intimidando com os safanões com que desesperadamente as tentávamos afugentar e a temida tsé tsé, abundante na região, ameaçava-nos de morte com a invisível doença do sono. E tudo isto debaixo de um sol impiedoso que ampliava o sofrimento e tudo ressequia fazendo com que qualquer movimento levantasse nuvens de pó que se colava à pele suada, pegajosa e vulnerável ao mosquitame que eclodia em frenesim de milhões de larvas incubados pelas abundantes águas que impedidas de circular pela ausência de declives, se aquietavam transformando a savana em pântanos dispostos em sucessão irregular e labiríntica.
Assim, não era de estranhar que a nossa companhia tivesse direito a médico privativo.
O Dr. Lacerda era o alferes médico da companhia, integrando o seu corpo de oficiais, com a missão de olhar pela nossa saúde e, de caminho, cuidar das maleitas da população que, verdade seja dita, não acreditando em modernices, preferia a medicina tradicional, carregada de misticismo e baseada mais em crenças ancestrais do que na eficácia de alguns remédios naturais de preparação caseira.
Sob a batuta do Dr. Lacerda, a equipa de enfermagem chefiada pelo Furriel Pinto, ia cuidando da malta, quer combatendo os males que afligiam ora uns ora outros, quer ministrando medicação preventiva. E o depósito de medicamentos estava bem fornecido, já que, pelo menos neste aspecto, o exército não olhava a meios, estando disponível um sem número de comprimidos, pomadas, tinturas e unguentos, xaropes e analgésicos, desde a morfina injectável à simples aspirina, sem esquecer os cremes repelentes os pós anti-alérgicos os aerosóis anestesiantes e os complementos vitamínicos entre outros remédios. Para mim, que nada percebia daquilo, cheguei a julgar que ali, nos confins da savana, naquela espécie de acampamento com ar de provisório, longe de tudo e de todos, existia um stock mais completo que o de farmácia em cidade.
E eram eficazes. Lembro-me que o Merthiolate tinha um efeito miraculoso em cortes, arranhões e esfoladelas. Ardia que se fartava mas anulava qualquer foco de infecção e sarava pequenas feridas de um dia para o outro; o soluto Whitefield (acho que é assim que se escreve), queimava num ápice qualquer erupção cutânea e o talco antimicótico, aplicado nas dobras da pele, fazia desaparecer as comichões e irritações que a humidade sudorífica agravava.
A medicina preventiva era preocupação do furriel enfermeiro. Todos os dias, ao almoço, o Pinto dispunha, junto ao prato de cada um, dois ou três comprimidos: O vermelhinho, que visava compensar as insuficiências vitamínicas e minerais da alimentação pobre e sensaborona; o branquinho que continha a imprescindível resoquina contra o paludismo; e mais um outro que não me lembro para quê. E até havia a dose cavalar de vitamina B11, ou lá o que era, injectável, que se dizia fornecer tudo o que o organismo precisava. Pelo menos o Palúdico, na sua permanente mania das doenças e fraquezas, era cliente assíduo.
Mas, verdade seja dita, a grande preocupação do nosso escasso e improvisado corpo clínico centrava-se no combate ao paludismo e à temível doença do sono. A luta contra o paludismo era diária através de medicação preventiva. Só em caso de contágio, quando a febre subia aos quarenta graus, se justificava a via endovenosa com a injecção de doses cavalares de resoquina. Já a doença do sono exigia a inoculação periódica de uma vacina que era pressuposto imunizar-nos contra uma ameaça invisível que se dizia extremamente perigosa, apenas se manifestando quando já era tarde de mais, o que justificava que, de tempos em tempos, o pessoal se colocasse em bicha pirilau à frente da enfermaria, obrigando os enfermeiros ao trabalho extra de todos vacinar sem excepção.
Por mim e creio que para quase todos, mais picadela, menos picadela, já não fazia diferença. Há muito que nos habituáramos a essa rotina, tanto mais que se preferia isso ao desconforto e à perigosidade da doença.
Mas não o Comandos. Se havia coisa de que tinha medo era de agulhas. E medo é pouco. Tinha pavor, coisa que me fazia confusão se se tiver em conta que o homem era um dos condutores mais destemidos da companhia. Aliás, a alcunha de comandos não foi ganha por acaso. Frequentou esse curso de tropas especiais e quem o faz não é propriamente medricas. E eu posso atestar que assim era. Com aquele homem ao volante passei momentos de pura aventura, a elevar a adrenalina ao máximo por aquelas matas desconhecidas, alguns dignos de um filme. Não, medo era coisa que, no Comandos, só existia em doses razoáveis. Humanas, para ser mais exacto. Sim, porque gente sem medo não há.
Mas o homem tinha medo de agulhas, de tal maneira que ao aperceber-se da aproximação do dia aprazado para a inoculação colectiva, entrava em stress e os suores frios não o largavam. Creio que até perdia o apetite.
Quando chegava o dia aprazado o descontrolo era total, especialmente porque tinha consciência que não havia volta a dar. Tinha que ser. Mas o que tinha que ser, no caso, parecia não o acalmar. Andava de um lado para o outro, metia-se na fila para logo dar o lugar ao que se lhe seguia. Saía da fila, sentava-se, passava a mão pela cabeça, certamente num exercício de auto mentalização. Sabia que teria de ser, agora ou mais tarde. E não era tanto pelo facto de a isso ser obrigado, porque se assim fosse, se calhar arriscaria a desobediência. Era mais porque tinha consciência de que, se não fosse vacinado, corria sério risco de contrair uma doença que o poderia matar. E isso atormentava-o ainda mais. Era como se tivesse de escolher entre cortar o dedo da mão esquerda ou o da direita. De repente, tomou a decisão:
- Agora sou eu! Exclamou aproximando-se do enfermeiro.
- Mas não quero no braço. Tem de ser no rabo. Sentenciou.
Justificava que seria menos doloroso do que no braço e ficava fora de vistas. Contudo, o problema não era a picada, nem propriamente a dor, que essa era inferior à das centenas de picadas de mosquitos que já sentira. O problema era mesmo psicológico.
Desceu os calções, esticou-se sobre o banco corrido de rabo para o ar, fechou os olhos com força, rodeou a cabeça com os braços na vã tentativa de se alhear, retesou-se todo e esperou a ferroada.
Mal sentiu o contacto frio do algodão que desinfectava a zona a picar, retesou os músculos num movimento bem visível, cerrou ainda mais os olhos até quase desaparecerem e esperou. O enfermeiro preparou a agulha, como de costume separada da seringa e num movimento brusco, procurando aliviar o tormento do Comandos, desferiu o golpe que pensou ser suficiente para penetrar o músculo em esforço.
Para espanto de todos, a agulha saltou como se tivesse atingido borracha dura. Os músculos do Comandos, tensos até ao limite, impediram que penetrasse e, ao cair no chão, perdeu as propriedades assépticas ficando inutilizada. Seria preciso outra agulha, mas o estado do homem não se alterava. Aliás parece que ficou ainda mais enervado, o que é compreensível. Contudo, não saiu da posição o que demonstrava estar efectivamente convencido que não teria opção. Tentámos acalmá-lo e o furriel Pinto fazia-lhe ver que, estando assim, seria mais doloroso, para além de transformar uma simples picada em algo complexo. Em vão, os músculos contraídos pareciam querer saltar da pele e nada o fazia acalmar. O Pinto perdeu a compostura:
- Acalme-se lá, porra! Gritou.
- Oh Comandos, pensa em gajas! Disse alguém brincando.
Perante o aparente impasse, o furriel sentenciou:
- Eu é que vou resolver isto. E, estendendo a mão para o enfermeiro, ordenou:
- Dá-me uma agulha.
Posicionou-se, pareceu avaliar o alvo, deu uma pequena palmada na nádega nua esperando conseguir alguma descontracção do apavorado soldado e num golpe violento, espetou a agulha, qual estocada em touro bravo. Encaixou a seringa e começou a empurrar o êmbolo obrigando o líquido a penetrar naquela fortaleza de músculos.
O Comandos levantou a cabeça, cerrou os dentes num verdadeiro esgar de dor e aguentou até ao fim, soprando e resfolegando sem abrir os olhos.
- Porra! Você gosta de sofrer. Desabafou o Pinto quando finalmente sacou a agulha num gesto brusco ao mesmo tempo que esfregava com algodão emudecido a nádega repentinamente descontraída.
- Não percebes que assim é que dói mesmo?
Mas o homem não queria saber disso. Levantou-se, puxou os calções e enquanto afivelava o cinto, balbuciou num suspiro:
- Pronto, já está!
E afastou-se a coxear, esfregando o rabo à procura de alívio para o ardor que sentia.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Ruinas da Neriquinha

Há muito tempo que procuro imagens actuais da Neriquinha recorrendo às facilidades que o Google Earth disponibiliza. Mas em vão. Consegui identificar o local mas a imagem não passava de um borrão que nada deixava ver. Apenas quem, como nós, por ali andou, conseguia reconhecer os sinais no meio do verde que escondia o local. Pelo menos até agora.
Finalmente o satélite da Google andou pelas imediações e embora ainda não seja absolutamente nítido, é já possível visualizar as ruínas daquilo que foi a nossa morada por uns longos dezoito meses distribuídos pelos anos de 1971 a 1973.
Vê-se nitidamente que a mata invadiu o local e tudo o que não era construção de cimento e tijolo desapareceu. Mas lá estão, nítidos, os restos do edifício da FAP, da messe, da casa dos oficiais, do depósito de géneros e transmissões e até da cozinha, sendo ainda visível o chão de cimento do refeitório e os restos da ferrugem. Tudo o mais desapareceu, incluindo o chiado, o depósito da água e naturalmente o kimbo.
Fica provado que a população apenas ali estava pela proximidade da tropa. Na verdade as suas actividades agrícolas e de caça, desenvolviam-se fora dali, nos locais das lavras, para onde parece que se deslocaram quando a tropa abandonou o local.
O Google mostra claramente o kimbo que se formou junto às margens do Rio Cuando, no local que designávamos por Neriquinha Velha. Na verdade, tratava-se da verdadeira Neriquinha, onde a população mantinha as suas lavras e criava gado.
O mais curioso é ver o que se encontra seguindo o curso do Rio Cúbia pela margem esquerda, desde as pontes até Mavinga. Nesse percurso, encontrei pelo menos três kimbos que me lembro não existirem na altura.
Pelos vistos a população voltou aos seus hábitos ancestrais, viver junto do local onde se dedicam às suas actividades de mera subsistência.
Tenho a certeza que são felizes.

terça-feira, 1 de março de 2011

O unimog da PSP caiu ao Rio

Já o disse várias vezes: o Rivungo era uma circunscrição com Administrador, PSP, tropa, marinha e um rio caudaloso. Pode parecer pouca coisa, mas marcava a fronteira entre, digamos, um buraco e um local onde se poderia viver. Era uma localidade com população civil própria, autóctone, mas própria, enquanto a Neriquinha não passava de um acampamento militar cujas tendas haviam sido substituídas por barracões, um par de anos antes, atraindo uma população mais ou menos nómada que se fixou logo ali, a seguir ao arame farpado, beneficiando de alguma segurança (se é que dela precisavam) e das facilidades propiciadas pela logística militar. Entre elas, a água canalizada a partir de um depósito metálico encavalitado numa estrutura de ferro e uma pista de terra batida onde, de quando em quando, aterravam aviões que faziam a ligação ao mundo exterior.
No Rivungo não havia pista, pelo menos coisa que fosse digna desse nome. Apenas uma pequena clareira no meio da mata a cerca de dois ou três quilómetros da periferia, permitia a aterragem dos pequenos puxa-empurra que nos traziam o correio e pouco mais. Era uma chatice, já que, sempre que estava para chegar o avião, era destacada para a necessária segurança uma equipa composta por quatro militares, chefiados por um furriel. É verdade, todas as terças e quintas e sempre que qualquer pequena aeronave por ali aportasse, a equipa de prevenção encavalitava-se no pequeno unimog que acelerava pela picada irregular procurando chegar ao local de aterragem antes da aproximação do avião, postando-se aí em formação defensiva para que aterrasse em segurança. Na verdade, nunca me pareceu que protegesse grande coisa. Eram apenas quatro homens que só conseguiam cobrir a zona onde o avião se imobilizava, ficando todo o comprimento da pista desprotegido. De qualquer forma, se nos atrasássemos, o Barros não aterrava, voando em círculos até que chegássemos ao local. Noutras alturas, aterrava mesmo assim.
A sorte era haver sempre voluntários. Desejosos de tocar o correio metido dentro do saco cinzento que o piloto entregava ao furriel, estavam sempre prontos. Mal chegava a mensagem via rádio, agarravam na G3 e corriam para o pequeno unimog. Ali chegados e sempre no local onde se sabia que sistematicamente o avião parava, dispunham-se os escassos homens dos dois lados do campo e esperava-se com alguma impaciência a chegado do Cessna. Toda a manobra de aterragem, entrega do correio e levantar voo de novo, não demorava mais de cinco minutos; noutro ponto, outros aguardavam ansiosos a chegada das preciosas notícias. Assim, mal o avião ganhava velocidade, subia-se para a viatura aí se aguardando que o avião se elevasse no ar, iniciando-se de imediato o regresso, no máximo da velocidade permitida pela picada esburacada em direcção ao aquartelamento, com pressa de ler as notícias.
Até que um dia chegaram ao Rivungo vários camiões transportando máquinas, escavadoras, niveladoras, pás basculantes, um cilindro e homens para trabalhar. Uma equipa de construtores e toda uma parafernália de geringonças que começaram, logo ali ao lado do Kimbo, na orla da mata, a deitar abaixo árvores, limpar e aplanar o terreno livrando-o de tudo o que pudesse atrapalhar. Enfim, um corrupio e uma azáfama nunca vistos por aquelas bandas.
É verdade, fora decidido construir uma pista de aviação a sério, grande, e ali pertinho, o que iria dispensar a correria pela mata em direcção à clareira isolada. Sim, uma pista de terra, mas nova, bem construída, de propósito e não uma simples clareira que tinha de ser capinada sempre que as ervas, regadas pelas abundantes chuvas, se atreviam a brotar com maior viço.
No Rivungo, também não havia água canalizada. Provavelmente a proximidade do rio e a abundância de água fresca, potável e acessível, não motivou ninguém a exigir a construção de um qualquer sistema que permitisse esse luxo e as autoridades administrativas, por seu turno, também nunca tomaram a iniciativa. Nem sequer um simples depósito, por mais artesanal que fosse. O da Neriquinha não era lá grande coisa, mas servia na perfeição.
Água no Rivungo tinha de ser retirada do rio, em baldes e transferida para bidões estrategicamente colocados onde fosse necessário. Se a memória não me atraiçoa, nas nossas instalações havia uns três e chegavam para o gasto. A proximidade do Rio facilitava o seu enchimento feito a poder de trabalho braçal do garoto da messe e ajudantes da cozinha num vai e vem, encosta abaixo, encosta acima.
A tropa, porque instalada mesmo à beira do rio, tinha o acesso facilitado, mas a PSP, não. Costumavam abastecer-se nas cercanias do ancoradouro da Lancha, dentro do perímetro da marinha, no local que elegemos como a nossa estância de veraneio privativa. Ali tomava-se banho, nadava-se e mergulhava-se de uma prancha de saltos improvisada. O caudal era forte e garantia a recolha de água não estagnada, muito embora, a pujança do Cuando trouxesse em permanência água fresca sempre renovada a qualquer ponto da sua passagem serpenteante.
Utilizavam quatro ou cinco bidões de 200 litros que carregavam, vazios, na pequena carroçaria do unimog que descia em marcha-atrás pelo declive até à babugem. Aí, com recurso a baldes e ajuda dos serviçais, iam lentamente enchendo os bidões até ficarem a transbordar. Depois, com o motor na sua máxima força, arrancavam lentamente encosta acima, transportando o precioso líquido para as suas instalações no outro lado da localidade.
Naquele dia, as coisas não correram bem ao condutor, um PSP negro e corpulento, espécie de amanuense, com funções de cozinheiro que se encarregava das tarefas com características mais domésticas.
Por razões que as leis da física poderiam explicar, a estrutura da viatura foi cedendo à medida que o aumento gradual do peso da água foi exercendo pressão sobre o velho unimog.
De repente, os travões cederam e o unimog moveu-se, desequilibrando os bidões que rolaram sobre a carroçaria precipitando-os no rio e obrigando a viatura a descair até os rodados traseiros galgarem o degrau barrento da margem. Só não capotou, porque a queda de dois ou três dos bidões aliviou o esforço da viatura que ficou em equilíbrio instável quase na vertical, com um rodado da frente no ar e os dois traseiros dentro de água, assentes na espécie de plataforma com cerca de 20 cm de água que antecedia a profundeza do leito do rio.
Do sítio onde estava, já não sairia pelos seus próprios meios e a posição em que ficou piorava as coisas. Sá havia uma solução: o recurso às máquinas de serviço às obras da nova pista. Felizmente que estavam ali, à mão, e qualquer delas com força suficiente para resgatar do rio o velho unimog.
Para o efeito, foi escolhida uma caterpillar, de pá basculante e pneus enormes, estacionada logo acima, junto com algumas das demais. Era fim do dia, os trabalhos tinham sido interrompidos e as máquinas deixadas em descanso. O manobrador, chamado para a prestação de auxílio, se calhar habituado a operar a máquina nas infindáveis planuras do Cuando Cubango, esqueceu-se que naquele local o terreno não era plano nem arenoso como tudo o resto e que os travões a ar precisavam de algum tempo para ficarem operacionais. E o pior é que estivera parada durante todo o dia, provavelmente por não ter sido necessária.
Ligou a máquina, elevou a pá, manobrou-a e dirigiu-se às arrecuas em direcção ao rio. Mal começou a descida, ganhou velocidade e no momento em que precisou dos travões, não tinha. A máquina descontrolada ganhou vida própria, saltando e balouçando perigosamente a cada acidente do percurso, perante o ar assustado do homem que, carregando desenfreadamente do pedal do travão, nada podia fazer para a deter.
Cá em baixo, no intervalo de um mergulho, apercebemo-nos que a máquina não iria parar. A velocidade cada vez maior e o ar de desespero do manobrador eram disso sinal evidente. Na dúvida, cada um fugiu para seu lado, procurando adivinhar a trajectória da besta, deixando-lhe caminho livre.
Excepto o infeliz Unimog. Impossibilitado de sair dali, foi abandonado à sua sorte. Ainda assim, valeu-lhe alguma perícia do manobrador da máquina que, no último momento, com um golpe no volante, evitou o abalroamento.
Mas não foi suficiente. Um dos grandes rodados atingiu de raspão o unimog e a pá, no seu balanço descoordenado, deu-lhe um último safanão empurrando-o perigosamente para a água.
Não sei como, mas a verdade é que, no momento em que toda a gente pensava ver a máquina no fundo do rio, esta imobilizou-se, beneficiando talvez da ajuda, sabe-se lá como, oferecida pela resistência do vulnerável unimog, que travou de alguma forma a sua marcha desenfreada, acabando por ficar perigosamente semi-submersa, com o motor a resfolegar ofegante como que a refazer-se do susto.
Foi preciso uma segunda máquina, esta de lagartas que, oferecendo a segurança de se sentir bem em qualquer terreno, desceu lentamente o declive e rebocou as viaturas acidentadas, retirando-as da sua posição incómoda: primeiro a máquina antes que o rio a levasse e depois o unimog.
Não me lembro como o pessoal da PSP se desenrascou naquele dia sem água, mas sei que os bidões que caíram lá ficaram, submersos, na parte mais funda do leito do rio e de onde nunca mais saíram. Se calhar ainda lá estão.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Julgamento


Kimbo de N´riquinha (1973)
Julgamento por incumprimento das regras do alambamento…

Tens uns probrema grande nos Kimbo, meu captão. Uns maka por causa duns mulher que fugiu. Popração quer que captão venha nos kimbo p’ra resolver!”

É o Lupale, figura proeminente do aldeamento, que me fala, acompanhado de um ou dois secúlos, em mais uma manhã soalheira à saída do meu pequeno-almoço na messe. Era normalmente aí que me esperavam para me colocarem as questões que os atormentavam. Jamais me interrompiam no que quer que fosse. Esperavam pacientemente que eu saísse da messe, ou do gabinete, e então abordavam-me.
Procurei inteirar-me melhor da situação. O problema era bem mais complexo do que eu imaginara. Depois de ter angariado a admiração e a confiança da população, por via do enorme conforto que a Companhia lhes havia proporcionado no apoio às lavras, triplicando as áreas de sementeira, passei a ser consultado para tudo o que se constituísse "probrema" no Kimbo.

O tribunal para a resolução de questões sociais reunia à noite na rua em pleno centro do aldeamento, embora, felizmente, com sessões pouco frequentes. Em todo o tempo que lá permanecemos aquela terá sido a única sessão de que tivemos conhecimento. Uma espécie de fórum ao ar livre onde se sentavam em círculo as forças vivas do aldeamento presididas pelo soba, que, no caso, atendendo à sua avançada idade, tinha apenas uma função honorífica que todos respeitavam. Quem quisesse podia assistir mas não podia emitir opinião. Para lá dos membros daquele juízo, formado pelos secúlos e alguns velhos, apenas intervinham os implicados e seus familiares.

Era já noite cerrada quando me foram chamar à messe, conforme ficara combinado. À minha chegada fez-se um enorme silêncio, como se tivesse chegado o cacique-mor da região, ou um venerando chefe religioso cuja figura impusesse a maior deferência e veneração. (O poder da “razão” das armas sempre impôs respeito e medo e não seria ali que tal não iria acontecer)

O soba levantou-se para me dar o seu lugar, que naturalmente recusei. Sentei-me ao seu lado postando-me propositadamente um pouco atrás, como faria um observador convidado para assistir a um evento em país estrangeiro. Pareceu-me sensato que a minha presença deveria quedar-se pela circunstância de um simples observador, até porque havia todo o interesse e curiosidade da minha parte em verificar como funcionava aquela forma de tribunal.
Depois de me acomodar, continuou aquele silêncio inicial que logo percebi ter a ver com a minha presença. Compreendi que esperavam que eu tomasse qualquer iniciativa, ou indicasse qualquer novo rumo diferente daquele a que estavam habituados numa herança que tinha séculos. Era afinal lógico. Senão não me tinham convidado.
Fiquei um pouco embaraçado porque não era essa a minha intenção. Ao mesmo tempo senti que, provavelmente, ia decepcioná-los nas expectativas que lhes terei criado ao aceitar o convite que me fizeram.

Disse-lhes que vinha mais para ouvir e que se achasse que tinha alguma coisa para dizer que o faria. Os trabalhos deveriam decorrer como se eu ali não estivesse. Tudo deveria acontecer como sempre tinha acontecido.
As minhas palavras foram então traduzidas pelo Lupale, porque a maioria, sendo idosos, não dominava o português. Sucederam-se alguns murmúrios, cujo teor também não entendi porque de igual modo não foram em português. Mas foi possível perceber alguma frustração que notei com maior clareza no lado dos familiares da ré em questão, por certo pouco esperançados no sentido da justiça que os esperava. No fundo, uma pena com centenas de anos de aplicação em casos semelhantes.
- "O soba diz que sim. Tá bem mé captão." É o Lupale que me informa.
O julgamento tem então início. O Lupale fica junto de mim e funciona como meu cicerone, mas também membro activo naquele plenário. E como se de um momento para o outro se tivesse carregado num botão, desataram todos a falar ao mesmo tempo, que me parecia até impossível que se entendessem naquilo que diziam. Uma tremenda de uma confusão. O Lupale alternava a tradução que me fazia daquilo que se ia dizendo, falando em voz baixa para mim, para logo de seguida acompanhar o tom de confusão geral altercando-se com um dos muitos interlocutores que no lado oposto ao seu teria dito algo com o qual ele estaria em desacordo.

De que constava então aquela demanda. Como já foi referido, no processo de casamento havia lugar ao "alambamento", constituído por uma série de valores que eram entregues aos pais da noiva. Mas chamemos, então, as coisas pelos nomes. A noiva era comprada aos pais mediante a entrega de um determinado valor em géneros e utensílios agrícolas ou domésticos, o qual era discutido como um qualquer negócio. No caso, era o que tinha acontecido. O "alambamento" fora pago e o casamento teve lugar com a pompa tradicional. No dia da boda a noiva era untada com um produto oleoso misturado com uma substância avermelhada e enfeitada com milhares de missangas por todo o corpo, com especial relevo para o cabelo, que era trabalhado de uma forma artística brilhante, onde era difícil distinguir os produtos utilizados, por vezes estranhos e de aspecto muito pouco apelativo. Pelo menos para estranhos como nós. A noiva ficava depois exposta durante todo o dia ao aldeamento, sentada de joelhos à porta da sua cubata. O noivo não se aproximava da noiva. Era a regra. O aspecto desta também era pouco convidativo. Talvez agradável à vista mas muito pouco atraente ao tacto e olfacto…

Mas ocorrera uma outra circunstância muito pouco usual. Festejado o casamento, bastaram alguns meses para que a mulher concluísse que tinha, afinal, feito um “mau negócio”. E se se pensa que estas coisas só acontecem em sociedades civilizadas, puro engano.
Consumada a ideia de incompatibilidade, considerando o estatuto vigente de um mero objecto em que lhe estava praticamente coarctada a faculdade de pensar e contestar, a ré, ali ausente, tratou de namoriscar um jovem que passava numa coluna de viaturas e fugiu com ele para Serpa Pinto. A distância a que se situava este novo local eleito para um recomeço de vida, não foi escolhida ao acaso. Cerca de seiscentos quilómetros era suficientemente dissuasor para que o marido espoliado pusesse de parte quaisquer intuitos de recuperação do que lhe pertencia. "Espoliado" e "pertencia" são aqui os termos mais adequados à forma como aquelas coisas eram tidas por ali. Uma mulher de armas era o que me parecia ser esta ré ausente, que nunca cheguei a conhecer.

Naqueles tempos uma atitude destas era mais que corajosa e pouco comum. Na anormalidade da situação tudo parecia poder-se considerar normal. O casamento não deu, cada um vai à sua vida procurando reconstrui-la o melhor que puder e souber.
Só que ali funcionavam regras ancestrais e esse era o busílis da questão. Neste tipo de situação o "alambamento" tinha que ser devolvido, ou a mulher tinha que regressar ao seio do lar.
O regresso apresentava-se praticamente impossível e o grande imbróglio era que os familiares da ré já tinham dado fim aos valores do "alambamento", não havendo nada para devolver, nem outros bens de substituição. Coisas comuns que nos acontecem a todos quando a vida nos prega algumas partidas e lá se vão os anéis ficando os dedos.
Mas as regras não terminavam aqui.
Neste caso, considerando que não havia mulher para regressar a casa, nem "alambamento" para devolver, eram mesmo os dedos que serviam de moeda de troca. Dizia o ordenamento de penas que, no caso, a família teria que levar uma carga de pancada para suprir a falta de bens para devolução. Nem mais.
Não resisti a um sorriso interior que, com algum esforço, não permiti que me aflorasse ao rosto. A discussão divagava em torno destes parâmetros. Os familiares da ré debatiam-se entre a perspectiva de falta de meios económicos para satisfazer aquela dívida e o pouco desejo de levar uma sova. Os argumentos flutuavam entre a convicção (pouco convicta) de que a mulher haveria de regressar mais dia, menos dia, e outra, tão menos convicta quanto aquela, de que não achavam justo apanhar por uma coisa que não estava na sua mão resolver. Esta última porque sabiam que as regras, não obstante, eram assim havia séculos.

Como é costume nestas circunstâncias, qualquer que seja o ponto do planeta em que ocorra, o debate entrou numa maré repetitiva de argumentos sem que se vislumbrasse outra saída que não fosse a prevista naquele código natural das coisas, tal como sempre acontecera até então.
Nessa altura achei que era o momento de intervir. Naturalmente advoguei a defesa dos familiares da ré. Sempre com o Lupale a traduzir aquilo que eu dizia, lá fui argumentando que os familiares não podiam ser responsabilizados pelos actos da mulher, uma vez que esta era adulta (frisando bem ao Lupale que eu disse adulta e não adúltera...) sendo ela a única responsável pelos seus actos.
Lá fui desfiando uma ladainha enorme de argumentos com alguns exemplos práticos, sentindo, no entanto, que o meu discurso era capaz de me soar bonito a mim, mas não colhia lá grandes frutos na assembleia. As cabeças meneavam que sim mas era apenas um sim de entendimento daquilo que eu dizia. Lá por dentro eu vislumbrava um rotundo não, quanto ao convencimento que obtinha no seu íntimo.
Sorriam os familiares da ré abanando convictamente a cabeça, resmungavam os do marido enganado. A divisão de opiniões continuava claramente desfavorável aos primeiros. Voltei à carga mais uma ou duas vezes porque me apercebia que não conseguia lá grande coisa com todo aquele palavreado. Os resultados não melhoravam.

A lua estava a pino. Era de um brilhante prata como só em África acontece. O ambiente nocturno, sem qualquer foco de luz artificial nas proximidades, contribuía para aquela luminosidade resplandecente. Enquanto rebuscava mais uns quantos argumentos para deitar cá para fora e fazer de minha a justiça que queria ver feita, dei por mim de olhos presos na lua.
Vislumbrei-lhe um sorriso trocista, uma ironia indisfarçável que zombava de mim. Aquele ar irónico clarificou-me por fim o espírito e teve o condão de me assentar os pés no chão, naquela areia fina, suja e ainda quente àquela hora da noite. Recostei-me melhor na cadeira sem desprender o olhar. Sorri também. Compreendi por fim o disparate em que me tinha postado ao procurar que fosse o meu entendimento de justiça que deveria vingar ali. O princípio colonial de converter os gentios à nossa semelhança continuava comigo, quase quinhentos anos depois da chegada àquelas paragens dos súbditos de suas majestades os reis lusitanos, ávidos de conquistas de bens, território e escravos que fortalecessem um reino pequenino e distante, a quem deixaram o mar como única porta de saída, constatados os desentendimentos constantes com a vizinhança castelhana.

Quase à beira do ano dois mil, eu continuava a laborar no erro ancestral de procurar apagar séculos de história vincados nos hábitos e na vontade de ser assim e não de outra maneira. Por momentos deixei-me ficar de olhar pendurado na lua, enquanto um silêncio de sepulcro se ia instalando em meu redor, sem que eu tivesse dado por isso. A assembleia ficara suspensa das minhas palavras e aguardava que lhes trouxesse algo de mais palpável do que aquilo que lhes trouxera até ali.

Veio-me à memória uma outra ocorrência da guerra de África, suponho que em Moçambique, quando um senhor General se deslocou a um local longínquo para falar às populações. Falava o senhor General para um grupo numeroso de populares num aldeamento distante, havia já bastante tempo.
Falava-lhes da importância de se ser português, de ficar com a tropa e não com os turras, de trabalhar muito para não ter fome, e por aí fora. A população escutava com atenção. Como é sabido nem todos dominavam o português, o que ao fim de quinhentos anos de ocupação é obra e revelador da preocupação que tivemos em aportuguesar aquela província ultramarina.
Em determinada altura, um dos populares, que não conseguia ainda o domínio bastante da língua de Camões, perguntou ao companheiro que se encontrava ao lado, este mais esclarecido no vocabulário latino.
- O que é que ele está a dizer? Resposta pronta.
- Por enquanto ainda não disse nada! Só está a falar...

Levantei-me e disse num português mais ou menos adaptado àquele em que os ouvia todos os dias
- "Capitão não vai dar mais opinião. A justiça do Puto ser justiça diferente. Vocês ter que fazer a vossa justiça. Se ela foi boa até aqui tem que continuar a ser igual. Quando um dia acharem que ela está errada, então nesse dia mudam para outra melhor".

Como diria o poeta… “e um grande silêncio fez-se…”depois do Lupale ter traduzido aquilo que eu tinha dito. Aquele meu português meio arrevesado mesmo assim só chegava a uns quantos, os mais jovens.
Uma voz aqui outra ali, foram-se começando a ouvir murmúrios que pedi ao Lupale para me ir traduzindo. Eram vozes de lamento e desilusão. Alguns invectivavam-se mutuamente por terem “cháteado” o Capitão e agora ele ia-se embora e ficavam na mesma.
Quem mais ajudava àquela “missa” eram naturalmente os familiares da ré.
Lá procurei fazê-los compreender que não estava aborrecido com nada nem ninguém. Estava até bastante satisfeito por eles teimarem em fazer a justiça que os tinha orientado durante tantos anos. Boa ou má era a justiça que tinham e era assim que deveria ser aplicada.
Cumprimentado o soba, despedi-me de todos eles, solicitando que continuassem o julgamento e, já agora, a que me comunicassem a conclusão a que iriam chegar.
Regressei ao meu quarto ainda na maior censura daquela minha atitude de ter admitido intrometer-me na forma de vida daquele povo, especialmente a que respeitava a hábitos ancestrais que funcionam como traços de cultura inalienáveis que os vinham orientando havia séculos.

No dia seguinte, o Lupale compareceu bem cedo à porta do meu gabinete.
Já havia uma boa hora ou mesmo duas que espreitava a minha chegada, para depois aparecer tímido, silencioso e indeciso, dando-me um tempo calculado de acomodação aos meus afazeres mais prementes. O ordenança anunciou-me a sua visita.
De mãozinha fechada e dobrada pelo pulso, agarrada pela outra à altura do peito, curva-se em duas ou três vénias habituais de cumprimento e subserviência. Cumprimento-o segurando-lhe a mão dobrada pelo pulso que aponta para o chão, enquanto a outra fica ainda fechada e recolhida no peito. Quase não mexe os dedos com receio de me causar algum dano na minha mão branca de senhor, espécie de divindade edificada pelo poder das armas. Vinha anunciar-me a decisão do concílio da noite anterior. Não tinham chegado a uma decisão definitiva. Mas tudo apontava para seguirem a ideia que eu tinha deixado.
Alguns tinham-se vergado à douta sabedoria do "captão", fazendo inclinar a decisão para o lado contrário da sua história, da sua cultura, em suma, da sua secular sapiência e modo de vida que num ápice desbaratei, sempre a bem de qualquer coisa... jamais a bem da Nação…

Normalmente ficamos contentes quando as nossas ideias são aceites pelos outros. É um sinal de elevação e consideração. Naquele caso, não foi bem isso que eu senti. Que raio de ideia a minha. Mas era tarde. Restava-me apenas a consolação de se ter evitado uma sova inútil em inocentes que eram apenas vítimas da paragem do tempo que se tinha abatido sobre eles naquele local. Ou, sei lá. Quem sabe se não seriam eles que tinham razão com aquela forma de fazer justiça. Sinceramente, hoje já não sei. É que por vezes fico com a sensação que uma boa sacudidela de pelo é capaz de fazer melhor justiça que aquela que vamos tendo…

(Adaptação do livro “Capitães do Vento”)

Pedro C.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

LITENDA – O Administrador do Rivungo

Existiam diferenças entre a Neriquinha e o Rivungo e significativas, sem dúvida. Desde logo, a proximidade do rio. Na Neriquinha não corria água enquanto que o Rivungo era banhado pelas substanciais águas calmas e sinuosas do Rio Cuando. Contudo, a principal diferença residia na sua estrutura administrativa. Enquanto a Neriquinha era apenas uma espécie de acampamento militar, delimitado por uma cerca de arame farpado, à beira de um descampado em forma de pista de aviação, o Rivungo era considerado uma povoação. Em termos administrativos, uma Circunscrição. Isso significa que tinha casas e uma autoridade administrativa, para além das instalações militares que albergavam, junto ao Rio, um destacamento do exército enquadrado por um pelotão da companhia da Neriquinha e um destacamento de Marinha. Havia ainda dois agentes da DGS, que se entretinham em secretas actividades de espionagem e a PSP, cuja missão não era propriamente a manutenção da ordem pública mas a defesa das populações que habitavam os Kimbos administrativamente dependentes do Rivungo e disseminados pela mata a distâncias consideráveis: o Liahona, o Mugamba e o Demba, no enfiamento da picada que levava à Neriquinha, o Caxoxo meio perdido mais para o interior, o Samatamo à beira do Cuando a meio caminho do Chipundo, constituindo este a derradeira fronteira a sul e finalmente, ali bem pertinho, a Mahinha, pequeno kimbo com meia dúzia de cubatas, arrumado no meio das lavras mantidas pela população.
A mandar em tudo isto, o Administrador. Em tudo não, que o homem não mandava na tropa, nem na marinha e tão pouco na DGS e tenho dúvidas quanto à sua ascendência sobre a PSP. Mas era de facto a autoridade civil máxima por aquelas bandas e não deixava os seus créditos por mãos alheias.
Creio que nunca cheguei a saber o seu nome de baptismo e quanto ao seu apelido, perdi-o nos recantos da memória. Formalmente, era tratado por Senhor Administrador, pelo menos era esta a forma como todos se lhe dirigiam, desde o membro mais insignificante da população até às mais altas hierarquias que por ali andavam. Tirando isso, era simplesmente conhecido pela alcunha de Litenda. Fosse em que circunstância fosse, estivesse quem estivesse, desde que o homem não andasse por perto, Litenda era o nome que se usava, mesmo em ambientes formais. E tornou-se tão vulgar que havia quem pensasse ser esse o seu nome, embora se soubesse que não gostava da alcunha, mostrando-se enfadado sempre que se apercebia que assim o tratavam.
O Litenda era um homem peculiar, de tal forma que quem quer que tivesse estado no Rivungo, nunca mais o esqueceu. E, no Cuando Cubango, mesmo quem não o tenha conhecido, certamente que dele ouvira falar. Fosse em que circunscrição fosse, o seu nome e as suas façanhas eram sobejamente conhecidas.
As suas características físicas eram marcantes, quase especiais, diria únicas. Tirando os membros da população local, era certamente o mais velho habitante do Rivungo, o que é natural já que, entre os que por ali andavam em missão de soberania, poucos haveria com mais de trinta anos. Exibia uma pose estudada de jovialidade e desenvoltura, numa tentativa ensaiada de disfarçar a idade denunciada pela vasta e luzidia calvície, característica que lhe deu a alcunha: No dialecto local, Litenda significava careca e encerrava em si uma carga depreciativa.
Corpo esguio, normalmente enfiado numa farda cor de caqui, cujo corte lhe realçava a magreza, especialmente a calça estreita, quase justa pelos artelhos, a alongar o sapato que fazia questão de usar no meio daquele mundo de pó. Sobre os ombros, uns galões com aplicações avermelhadas atestavam a autoridade que o cargo lhe conferia. A pele tisnada, de um castanho carregado pela exposição ao sol acentuando o brilho da careca sem pêlo, denunciava uma vida inteira de deambulações pelas savanas e recônditos lugares das profundezas de África, acumulando histórias e aventuras que contava à medida do discorrer de memórias de tempos passados, uma das quais certamente explicaria a perda de um olho, cuja cavidade vazia era preenchida por uma esfera de vidro rapidamente identificável pela imobilidade das pálpebras envolventes.
Era, enfim, o típico branco africano que parecia conhecer bem a zona, os costumes e até os hábitos dos turras. Sabia sempre de um caminho novo nos itinerários que percorria amiúde nas visitas que ia fazendo às populações espalhadas pelos kimbos da circunscrição que chefiava, sendo notória a sobranceria com que as tratava. Dando-se ares de superioridade perante populações que parecia considerar como seres inferiores, fazia alarde das receitas que possuía para os manter controlados. Como costumava dizer:
- Importa é que não armem maka!
Maka, termo, que por ali significava confusão, era coisa que, pelo menos no meu entender, não fazia sentido: aquele era um povo pacífico que só se preocupava com a sua subsistência e nunca os vi causar distúrbios que merececem preocupaçao.
Sempre ao volante do seu Land Rover, autêntico parceiro de aventuras, circulava pela savana imensa, acompanhado por dois ou três Cipaios, espécie de guarda pretoriana sem condições para fazer frente a qualquer eventualidade. Armados apenas com velhinhas Mauser, totalmente desadequadas à realidade da guerra e que, já naquela altura, mais se pareciam com peças de museu, mesmo quando comparadas com o armamento dos guerrilheiros. Mas era esta a companhia do Litenda nas suas incursões pela mata, especialmente um deles que não descolava do Administrador, acompanhando-o para onde quer que fosse, como uma autêntica sombra sem nunca se lhe ouvir uma palavra ou lamento; e quando andava sozinho, levava certamente um recado a alguém em cumprimento de ordens do chefe. Arrumados nas traseiras da viatura, procurando a todo o custo não serem cuspidos pelos contínuos solavancos, saltos e piruetas a que a picada esburacada obrigava, representavam a única segurança com que o Litenda se atrevia pelas matas, como se estivesse protegido por um qualquer pacto que lhe assegurava imunidade à eventualidade de uma emboscada, coisa que, verdade seja dita, nunca lhe aconteceu, pelo menos enquanto andou por terras do Cuando Cubango.
Nas suas mãos, o Land Rover dava o máximo, que o Litenda não sabia conduzir devagar; dizia que assim evitava atascar na areia solta. Mas verdade seja dita, dentro ou fora da povoação, a velocidade era sempre a mesma. Quando nos visitava, normalmente para tratar de qualquer formalidade com o alferes, acelerava pela picada que findava junto às nossas instalações e numa manobra ensaiada e quase mecanizada pelo número de vezes que a executou, rodava o volante para a direita, inclinava o corpo para o mesmo lado como se quisesse anular o efeito da força centrífuga e num rodopio, como se intentasse fazer inversão de marcha, colocava o Land Rover numa posição perpendicular à picada, deixando-o depois descair pelo declive parqueando no terreno adjacente.
Até um dia. O alferes, talvez inspirado no sistema de defesa da Neriquinha, decidiu cavar, logo ali ao lado, um buraco rectangular onde pretendia montar o morteiro e com isso aumentar a capacidade de defesa em caso de ataque à localidade.
Poucos se aperceberam do avançar da obra e o Litenda, para sua infelicidade, desconhecia-a de todo, não sabia, nem tinha sido informado.
O pior, é que o sítio entendido como adequado para abrir a trincheira foi exactamente aquele onde, por hábito, o Administrador costumava largar a viatura. A agravar a situação, o pessoal destacado para a obra exagerou no tamanho do buraco.
Assim, quando uma qualquer razão levou o Litenda a visitar-nos, montou-se no Land Rover, acelerou pela picada e com estilo executou com mestria a manobra do costume, deixando depois a viatura deslizar de marcha-atrás pelo declive. Não viu nem podia ver que, naquele exacto local, existia agora um buraco e de tamanho suficiente para engolir a viatura cujas rodas do seu lado esquerdo acertaram direitinhas no vazio da trincheira em construção. O Land Rover adornou, afundou-se lentamente, enrolou-se sobre si mesmo capotando e pousou no fundo da trincheira de rodas para o ar numa posição caricata, com os quatro pneus a rodar no vazio como um qualquer escaravelho que, ao tombar, não se consegue endireitar, dando às patas numa tentativa de sair da posição desconfortável.
A muito custo e ainda meio atarantado, o Litenda, esgueirou-se do interior da cabine e trepou até sair do buraco. Sacudiu-se, tentou compor a pose, ensaiou um ar irado e apontando o buraco, gritou:
- Quem abriu aqui este buraco?
Conteve-se, procurou acalmar-se refreando o chorrilho de asneiras que se adivinhava pronto a sair, engoliu em seco e pareceu raciocinar sobre o que lhe acabara de acontecer, à medida que tomava consciência da situação. Ao ver o ar sério e preocupado do alferes deve ter juntado dois e dois e deduzido que o culpado tinha autoridade e se calhar justificação para mandar executar a obra. Só não sabia qual.
A risada mal disfarçada dos circunstantes misturou-se com a preocupação agravada pela culpa assumida - o homem podia ter-se magoado a sério. De facto, podia ter-se ali colocada uma sinalefa qualquer, avisando do perigo. Mas agora era tarde e ao alferes, apenas lhe saiu um:
- Então, Sr. Administrador! O senhor está bem?
Eu não resisti a olhar insistentemente para a cara do homem. O capotanço, mais parecendo uma cena em câmara lenta, não causou grande estardalhaço, mas podia ter-se magoado, partido qualquer coisa ou, lembrei-me, ter perdido o olho de vidro.
Mas não, nem um arranhão. O Litenda apenas se esforçava por conter a irritação ao mesmo tempo que balbuciava.
- Eu não tenho nada! A viatura é que deve estar toda partida!
E acocorando-se, espreitava a parte visível da carroçaria procurando avaliar os estragos.
- E agora? Como vamos tirar isto daqui?
Era de facto um problema a resolver. O Land Rover não estava apenas capotado, estava completamente encaixado dentro do buraco que mais parecia ter sido feito à medida. Tirá-lo dali não iria ser fácil, não obstante as sugestões, bitaites e toda a espécie de palpites por parte dos circunstantes. Por sorte, decorriam as obras de construção da nova pista de aviação havendo, por isso, maquinaria pesada capaz de desenterrar a viatura sem a amachucar mais do que já estava.
No fim, pelo ridículo e embaraço da situação, a auto-estima do Litenda saiu mais amachucada da refrega do que o Land Rover acidentado.